31 março, 2007

Maria Rita - Casa Pré-Fabricada

Canto que é de canto que eu vou chegar
Canto e toco um canto que é pra te encantar
Canto para mim qualquer coisa assim sobre você
que explique a minha paz
Tristeza nunca mais...

Talking about a revolution - Tracy Chapman

While they’re standing in the welfare lines
Crying at the door
steps of those armies of salvation
Wasting time in the unemployment lines
Sitting around waiting for a promotion

As Facas


Quatro letras nos matam quatro facas
que no corpo me gravam o teu nome
Quatro facas amor com que me matas
sem que eu mate esta sede e esta fome.

Este amor é de guerra. (De arma branca)
Amando ataco amando contra-atacas
este amor é de sangue que não estanca
Quatro letras nos matam quatro facas.


Armado estou de amor. E desarmado.
Morro assaltando morro se me assaltas
e em cada assalto sou assassinado.

Quatro letras amor com que me matas.
E as facas ferem mais quando me faltas.
Quatro letras nos matam quatro facas.

(Manuel Alegre)

Quem sai aos seus...


Há 30 anos, o jornalista Varela Soares, escrevia semanalmente no Açoriano Oriental as suas crónicas. Tal como fazemos nós por aqui, só que ele só publicava o que escrevia e era um compromisso semanal. Aproximando-se o tempo do nascimento do primeiro neto, Varela Soares escreveu uma estória, segundo a qual, estando o próprio a tomar a bica na Tabacaria Açoriana, se deu conta da entrada de um casal humilde com uma criança. Rezava a estória que pediram uma laranjada e um pastel de nata. Repartiram a laranjada por três copos e colocaram uma vela no pastel de nata. E assim festejaram os anos da criança. Isto foi escrito em Dezembro.
A estória causou tal impacto que começaram a cair doações na sede do jornal para a família que Varela Soares descrevera. A onda de solidariedade gerada foi tal que o jornalista teve que fazer o desmentido oficial da estória. O que só quer dizer que estava bem escrita e bem esgalhada. No entanto as pessoas sentiram-se enganadas quando perceberam que se tratava apenas de um estória inventada por um homem que esperava o primeiro neto enquanto decorria o mês do Natal...
Isto para esclarecer que nem tudo o que eu escrevo aqui é real. Criei este espaço para me evadir do tédio do dia a dia e uso este espaço para desabafar, para criticar e para inventar. O que eu escrevi aqui ontem, "Formata Tudo" provocou hoje um entupimento de sms no meu telemóvel. O desgraçado ficou gago, não tocava, não dava sinal e de repente desatava a cuspir sms's... Até parecia que era Natal caramba! O que, se por um lado me deixou incomodada porque quem me enviou sms's estava realmente muito magoado comigo, por outro me deixou muito feliz, porque escrevi alguma coisa que mexeu com as pessoas. De qualquer modo para quem ainda está hesitante se me há-de continuar a desancar por sms ou por email quero aqui esclarecer que o post não tem destinatário. Quem o escreveu foi uma mulher com uma vida que não é a minha. Uma mulher que, apesar de tudo ainda pesa o mundo dos afectos, embora provavelmente deixe de o fazer em breve, enquanto eu entrei há uns tempos largos no mundo dos animados solitários dos outros, mas nunca de si mesmos. E neste mundo criamos personagens que têm vida própria, amigos e amores e vidas próprias... porque nós lhes damos vida!
Lamento profundamente os incómodos que causei, mas não peço desculpa. Porque não me arrependo do que escrevi. Se causei sofrimento isso foi completamente involuntário e, como disse a Stela, só realmente quem não me conhece se poderia considerar destinatário daquela mensagem. Por outro lado vou considerar um pedido de indemnização pelos lucros que várias operadoras de telemóvel tiveram hoje à minha custa... É sempre uma possibilidade a considerar...
Quanto ao resto, já sei que agora vai perder a graça... e daí talvez não. Talvez alguém se lembre de criar um banco de apostas sobre o que é real e o que é imaginário nas minhas croniquetas... Pronto cá está o meu lado capitalista de novo, de olho na "massa". A ideia paga direitos de autor, já estão avisados.
Quem sai aos seus não "é de Genebra" como diz o meu caríssimo Flávio. Bom fim de semana para todos e obrigada por me lerem e me levarem tão a sério.

POEMA


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

( Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas ).

Álvaro de Campos

MADRIGAL TÃO ENGRAÇADINHO



POEMA

Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha vida,

Inclusivé o porquinho-da-Índia que

Me deram quando eu tinha seis anos.

( Manuel Bandeira )

THE TIMES



POEMA



Sentou-se bêbado à mesa e escreveu um fundo
Do Times, claro, inclassificável, lido,
Supondo ( coitado! ) que ia ter influência no mundo...
............................................................................................
Santo Deus!... E talvez a tenha tido!

Fernando Pessoa ( Álvaro de Campos )

30 março, 2007

Está na hora de acordar - Cabeças no Ar

É hora de abalar, seis quilos pesa a sacola
É o peso da instrução, chego tarde às horas da escola
Saio de lá cidadão, é hora de abalar
É hora de abalar...
Quem me dera ir à escola, num feliz passo ligeiro
E não com ar de quem vai para a cadeira do barbeiro
Quem me dera ir escola, num feliz passo ligeiro...

Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão,
Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.
Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.


(José Gomes Ferreira)

Formata tudo


Não, meu caro. Realmente não podes entrar e sair da minha vida como se isto fosse o cabaret da coxa! Não é que a minha vida seja realmente mais chique que o dito cabaret, mas também essa estória de nunca mais saberes para que lado cais, se entras e ficas ou se... pois: já sabes o que eu acho. O melhor é mesmo o se, ou seja: pores-te a milhas de mim, apagares o meu número do teu telemóvel, apagares o meu endereço de email... formata tudo o que tiver a ver comigo que, por muito que te custe aceitar foi o que eu fiz em relação ao que sobrou de ti.
Já não tenho paciência para colar cacos. Estamos na era do usa e deita fora. E há coisas que por muito bem coladinhas que sejam, nunca ficam como novas.
Ora para velha basto eu. Velha pois. Que essa coisa de chamarem idosos aos velhos é uma charlatanice. Foi como passar a chamar as criadas de empregadas... porque é que havemos de mudar os nomes das coisas... Mas lá vou eu para outro caminho. Isto demonstra bem o que restou de ti em mim: uma montanha de indiferença, de não querer saber se estás ou não, se foste ou ficaste... quero que sejas feliz e pronto.
Formata tudo. Esquece que existo... e sobretudo, quando eu morrer não apareças no velório. É um grande favor que me fazes!

FICAMOS À ESPERA SR ENGENHEIRO

Sr. Engenheiro, não acredito, não quero acreditar no que tenho lido nos jornais. Ainda hoje li no DN que, afinal, as classificações académicas, constantes das pautas, não serão coincidentes com as do certificado de habilitações e que haverá anomalias relacionadas com equivalências! Sei que o Sr engenheiro estudou nesta Universidade que anda nas bocas do mundo por escândalos de que os estudantes não têm culpa nenhuma, sendo este um problema mais importante e que urge resolver. Mais importante do que saber se um primeiro ministro é engenheiro, doutor, ou dono de outro título. Para mim, isso nunca foi importante. Há muito tempo que acho ridículo este tipo de tratamento.Mas o que está aqui em causa, Sr Engenheiro, é uma questão de credibilidade. Não pode, não deve, o Sr Engenheiro, que é tão rigoroso para com os outros, não o ser para si próprio. Não pode o Sr Engenheiro, não deve, defraudar a confiança que o país ( à luz das sondagens ) tem em si. O país gosta do Sr Engenheiro. O país adora o Sr Engenheiro. O país tem de si uma ideia de pessoa séria. Seria uma pena que o país ficasse desiludido consigo, por causa de algo relacionado com umacoisa a que o país liga tanta e tant importância, que é, como sabe, esta coisa do " canudo ". O país espera de si uma resposta urgente Ficamos a aguardar.

Eduardo Aleixo

POEMA

- De que morredes, filha, a do corpo velido?
- Madre, morro d'amores que mi deu meu amigo.
Alva, e vai liero.

- De que morredes, filha, a do corpo louçano?
- Madre, moiro d'amores que mi deu meu amado.
Alva, e vai liero.

Madre, morro d'amores que mi deu meu amigo
Quando vej'esta cinta que por seu amor cingo.
Alva e vai liero.

Madre, morro d'amores que mi deu meu amado
Quando vej'esta cinta que por seu amor trago.
Alva, e vai liero.

Quando vej'esta cinta que por seu amor cingo
E me nembra fremosa, como falou comigo.
Alva, e vai liero.

Quando vej'esta cinta que per seu amor trago
E me nembra, fremosa, como falámos ambos.
Alva, e vai liero.

D. Dinis ( 1261- 1325 )
Retirado da obra: vide poema seguinte..

CANTIGA,PARTINDO-SE

Senhora, partem tam tristes
Meus olhos por vós, meu bem,
Que nunca tam tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.


Tam tristes, tam saudosos,
Tam doentes da partida,
Tam cansados, tam chorosos,
Da morte mais desejosos
Ceem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
Tam fora de esperar bem,
Que nunca tam tristes vistes
Outros nrnhuns por ninguém.

( João Roiz de Castelo Branco )

Fidalgo da Corte de D. João II. É um dos poetas representados no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.
Poema retirado do belo livro de José Fanha e de José Jorge Letria: " Poemas portugueses do Adeus e da Saudade "

29 março, 2007

Baby -Gal Costa

você, precisa tomar um sorvete
na lanchonete, andar com a gente
me ver de perto
ouvir aquela canção do Roberto
baby, baby
há quanto tempo

Com a tua letra


Porque eu amo-te, quer dizer,
estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.

(Fernando Assis Pacheco)

Querida tia,


tenho andado a pensar em ti, tia Lucinda. O sol tem brilhado cá por estas bandas embora faça frio. É claro que se cá estivesses me gozavas por eu dizer que está frio, habituada como estás aos rigores do Inverno do Canadá. Bem queres que eu vá ter contigo, mas não me apetece, sabes? Então não era melhor vires tu cá em pleno Verão e irmos até ao Algarve, sul de Espanha, Barcelona, quem sabe às ilhas gregas? Eu sei que conheceste tudo com o teu António. Mas desde que ele se foi és a mulher mais moderna e independente que conheço, sobretudo tendo em conta que teimas em continuar analfabeta.
Sei que tal como arranjaste uma maneira de escrever uns "gatafunhos" que só mesmo tu compreendes, arranjarás maneira de ler o que escrevo hoje para ti.
Vinha no comboio, o sol brilhava, o rio estava azul e liso, com os reflexos do sol a fazer uma estrada prateada. E pus-me a pensar nas férias que passámos várias vezes contigo. Só fazias o que te apetecia, como dizias. Gostavas muito do teu António, mas agora que és dona do teu nariz, nunca mais ninguém manda em ti. Ficávamos sentadas na cozinha, depois de termos desligado a televisão. Os miúdos estavam na cama há horas, estafados de mar e sol, M às tantas também se ia deitar e ali ficávamos as duas. Contavas-me as estórias da tua infância (ainda eras mais traquina que eu) e eu contava-te as minhas.
Gostavas de falar de amor. Dizias que eu e M éramos o casal perfeito, que nunca nos tinhas ouvido discutir, que estávamos de acordo em tudo (só não percebeste nunca a que preço!); também não percebeste nunca porque é que eu não queria casar com ele, nem com ninguém. E eu então eu dizia-te "tia, isso é tudo muito bonito, mas nada é para sempre!". Mas tu teimavas. Que um dia ainda havias de fazer o nosso casamento. Acho que agora percebeste que não o farás jamais. Como também percebeste que os nossos laços continuam fortes, mais "nós" que laços na verdade.
Tenho saudades de ti! Da tua sabedoria imensa de mulher analfabeta. Fazes anos dentro de dias. Não sei quantos, mas sei que são mais de 70. Eu sei que não se diz a idade de uma senhora. Mas tu és das minhas. Estás-te nas tintas para as convenções.
Por isso , vamos combinar: vens cá no Verão, seis meses digamos e vamos dar umas curvas. Olha que Espanha não é nada do que era quando a visitaste com o António. O mundo mudou. Agora escrevem-se cartas na NET, e eu sei que tu gostas das minhas cartas.
Sei também o quanto gostas de mim e dos miúdos, sobretudo do Chiquinho, o teu menino que protegias de tudo e de todos. Porque era o caçula ou porque o achavas muito parecido contigo quando eras menina?
Portanto, vamos combinar. E como és mulher de palavra vais cumprir. Só não cumpriste aquela promessa que me fizeste de voltares aos bancos da escola para aprenderes a ler. Mas pronto. Lês à tua maneira o que te interessa. E porque te adoro estás perdoada. E cá te espero lá para Julho, quando começa a fazer calor "comme il faut".
Deixa-me só contar-te que apareceu hoje aqui em Lisboa, bem perto da zona onde nasceste e cresceste um cartaz contra os emigrantes. Tu que andaste por esse mundo fora para teres uma vida decente, o que pensas desta corja de canalhas que se esquece dos nossos emigrantes e quer escorraçar os nossos imigrantes? Eu sei o que dirias... não precisas, já ouvi!

Beijos e um abraço bem apertado desta tua sobrinha que te adora

Maria Eduarda

A MELHOR ESTÓRIA DE MARÇO

Para mim, a estória digna de figurar no blogue, como a melhor estória de Março, refere-se à gloriosa coragem demonstrada pela D. Maria Dolores Ramos, a Ti Dolores, mulher de 77 anos, que ficou a ver um comboio passar por cima dela, naquele dia 15 de Fevereiro, na antiga passagem de nível de Teixe, em Barroselas, Viana do Castelo, sem apanhar um único arranhâo e sem deixar o seu espírito de humor notável.
Tendo transposto um carril, caíu e não conseguiu levantar-se, por causa da artrose.« A muito custo lá me consegui sentar no meio da linha, e por ali fiquei seguramente uns dez minutos, à espera que alguém passasse para me ajudar»
" Mas não apareceu ninguém.« Quem passou foi o comboio. Foi Deus e Nossa Senhora de Fátima que me salvaram», conta a idosa.Não esconde os momentos aterradores por que passou quando olhou em frente e viu o comboio aproximar-se na sua direcção.« Ainda esbracejei a ver se o maquinista me via no meio da linha, mas qual quê?», recorda, sempre com umas gargalhadas à mistura."
" Demonstrando um sangue-frio e uma lucidez impressionantes, Maria Dolores deitou-se ao longo da linha e ficou ali, " quietinha e muito direitinha " à espera que o comboio lhe passasse por cima.« Olhe, comecei a rezar e a pedir perdão a Deus pelos meus pecados. Mas quando vi que a primeira carruagem passou por cima de mim e nem me tocou, pensei logo que estava safa. E safei-me mesmo», conclui.
" O comboio acabou por parar, cobrindo ainda parte do corpo dela e o maquinista foi a correr ver o que se tinha passado, tendo ficado embasbacado, quando a viu sã e salva, sem um único arranhão".
" Vieram logo outras pessoas, levantaram-me e ficaram a segurar-me, mas eu disse-lhes logo que não precisava que me segurassem, porque me aguentava muito bem em pé. Perguntaram-me também se eu estava bem da cabeça e eu disse que, se calhar, estava melhor do que eles", gracejou.
" Nesse dia, por acaso, até dormi bem. No outro a seguir é que o meu coração começou a bater com muita força, mas meti um comprimido debaixo da língua e passou logo, conta Maria Dolores que sofre também de angina de peito."
" Agora, e sempre que tem uma oportunidade, dá uma espreitadela nos comboios, que lhe passam mesmo ao pé da porta, como que para tentar perceber como ainda está viva, , depois de um monstro daqueles lhe ter passado por cima. " Às vezes, baixo-me para ver a altura que vai da parte de baixo do comboio até à linha. E olhe que, às vezes, até me arrepio."

Se fosse eu, confesso arrepiar-me-ia até ao fim da minha vida.
Agradeço que o jornalista, Vítor Costa Pereira, tenha escrito esta estória, de coragem e de desafio perante a vida. É que por ela ser muito superior àquelas em que damos mimos a fantasmas com que mimoseamos os nossos mimados " eus ", estou certo que também os meus colegas de blogue não se importam de a eleger como a melhor estória do mês de Março...

Eduardo Aleixo

A AUSÊNCIA

Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
Com as mãos e os beijos.
Eu morei em ti e em ti meus versos procuraram
Voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí
A minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios
Perderam-se
Entre palavras duras e precisas
Que tornaram a tua boca fria
E a minha boca triste como um cemitário
De beijos.

( Joaquim Pessoa )

FELICIDADE

A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.
Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
Ainda sem amor para ninguém,
Gostando apenas de demorar as mãos
Ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.
E, como menino que era,
Achava um grande mistério no próprio nome.

( Jorge de Sena )

MÁRIO VIEGAS

( Ao Eduardo Graça, Vítor Ramalho e Valter Guerreiro )

Contigo, a partir de ti, poesia passou a ser " dita ".
Até tu apareceres, ela, a poesia, era " recitada", por Vilaret.
A tua intenção foi aproximar a poesia das pessoas, libertando-a da pose e da liturgia. Foi dizer que a poesia era coisa simples, como a vida, feita com palavras simples, as mesmas que as pessoas simples usavam no seu dia-a-dia.
O teu propósito foi afastar a poesia dos salões, onde vivia afastada, num palco de " belle époque ", da plateia, onde as pessoas pagavam para ver e ouvir uma coisa que estava " no outro lado", e que era do mundo " estranho " dos poetas!
A partir da tua mensagem muita gente ficou a saber - pelo menos a pensar - que as pessoas podiam dizer poesia, com as ferramentas que todos usam, e que não custam dinheiro: as palavras.
Lembro-te, amigo, não só como divulgador de poesia, mas como grande actor que foste. A tua mímica era portentosa.Os teus olhos eram dois faróis enormes. As tuas mãos e o teu corpo falavam.A tua voz era aquilo que querias que ela fosse, mas sempre clara, limpa, forte, bem colocada, irónica, se escárnio, de doçura...Eras autêntico, no palco da vida. Respiravas nele como se fosses o próprio ar que respiravas.
Lembro-te de um outro Março. De 1974. Estávamos no Quartel, no Campo Grande. Estávamos de prevenção rigorosa. Tinha "soado" que um golpe estava em preparação. Que vinha das Caldas. O capitão do Quartel nada nos dizia. Estávamos preocupados. Tu. Eu. O Víctor Ramalho. O Eduardo Graça. O Valter Guerreiro. Perguntávamos: que dizemos aos soldados, se tivermos de sair e juntarmo-nos aos que vêm das Caldas? Mas que tropas são essas, são do MFA, ou dos Reaccionários? Tínhamos de tomar uma decisão. Não sairíamos do Quartel para nos juntarmos a forças anti-MFA. Foram momentos difíceis. Acabámos por saber a verdade através da BBC. Naquelas noites loucas de quartel, o teu talento, a tua criatividade, a tua maluca e sábia irresponsabilidade, foram um bálsamo. Saltaste para cima da mesa do bar. De boina sobre os olhos, dançaste. Dizias impopérios. Já não eras tu. Eras um boneco desarticulado. Até que o capitão surgiu. Viu-te em cima da mesa. Nos a rir, loucamente. Frontalmente para a cara do capitão. Mário Viegas põe-se em sentido. E diz, " Meu capitão, vem aí ela, a Revolução... " Noite louca. Quando o capitão desapareceu, como se tivesse visto um fantasma, pareceu-nos estar a ver uma peça de teatro, das maiores, daquelas que marcam um períiodo da nossa vida e do nosso país... Mário viegas, como foi possível teres chegado a oficial do exército e nunca teres sabido coisas elementares, como " esquerda... volver", " frente... marche", " Olhar... direita", tu... que tinhas um pelotão de 40 homens, de que eras responsável?! Como era possível?! Claro que era. Com aquele talento, tudo era possível!..

Eduardo Aleixo

28 março, 2007

Forever Young - Rod Stewart -

May you grow up to be righteous,
May you grow up to be true,
May you always know the truth
And see the lights surrounding you.
May you always be courageous,
Stand upright and be strong,
May you stay forever young

(Em especial para os meus netos Pedro, Pablo e Daniel com amor)

Aconteceu-me

Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos!
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.

(Almada Negreiros)

Por estas e por outras...


Já aqui referi a propósito de comentários maldosos de alguns senhores sobre os blogueres, que a Internet é como a vida. Aparece o bem e o mal. A questão que se põe é sempre a mesma: saber escolher entre um e outro.
Para mim e para todas as pessoas que eu conheço a Net tornou-se um bem inalienável. É aqui que eu faço contas à vida no homebanking, é aqui que eu escrevo aos meus amigos e deles recebo cartas (não apenas os emails que a malta põe a circular), aqui procuro e encontro gente que não vejo há séculos. Basta lembrar um nome e logo se arranja maneira de acessar um site que nos há-de dar acesso ao que procuramos.
Acabaram-se há anos as filas intermináveis (para mim não, que sempre fui muito organizada e trato de tudo a tempo) para entregar o IRS. Tenham atenção que o Estado, o famoso estado que somos nós todos afinal, só preencheu os campos que lhe convinha: o que ganhámos e o que ficou retido para o IRS. Outras contas que pagámos e que constam do mesmo documento, como o que pagámos para a segurança social ou para os sindicatos, não estão lá... deve ser a ver se a gente se esquece... E é preciso não esquecer nada! O que pagamos todos os dias de impostos é algo absolutamente impressionante. E é assim que vamos continuar, fazendo de conta perante a UE que somos bons alunos, quando afinal não passamos de uns cabulões que vivem à conta do povo.
Não. Isto não é discurso de esquerda, nem de direita nem de centro. É discurso de quem está farto de ser explorado até ao tutano. É o discurso que ouço todos os dias, nos transportes, na rua, nos cafés, nas instituições. É o discurso de um povo que está farto de gente que faz de conta que sabe fazer contas, que promete empregos mas que deixa as multinacionais pirarem-se para o estrangeiro, que quer ir buscar profissionais de saúde aonde quer que eles sejam mais baratos, para poderem ser ainda mais explorados e ainda por cima sentirem-se no paraíso: aconselho vivamente a irem buscar médicos à China: acho que ai podem ser contratados por tuta e meia e sentirem-se milionários. Hão-de pelo menos sentir a diferença de não viverem sob uma ditadura política.
Pelo menos cá apenas temos uma ditadura económica, que nos pode matar à fome, mas sempre, sempre, em liberdade!
Acho que foi por estas e por outras que Salazar ganhou o concurso de melhor português de sempre!

BALADA DE OUTONO

Águas
E pedras do rio
Meu sono vazio
Não vão
Acordar
Águas
Das fontes
Calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar
Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar
Águas
Do rio correndo
Poentes morrendo
P'rás bandas do mar
Águas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar
Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas
Das fontes calai
Que eu não voltõ
A cantar

( José Afonso )

27 março, 2007

Some Guys Have all The Luck - Rod Stewart

Some guys have all the luck
Some guys have all the pain
Some guys get all the breaks
Some guys do nothing but complain

Estrela da Tarde


Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.
Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia
Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia
e na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia.

(José Carlos Ary dos Santos)

Amigos únicos no seu género (os meus!)


Não há nada como um abraço e um beijo de uma amiga quando se diz em jeito de brincadeira meio séria "quem me deu este rebuçado, logo agora que estou tão carente? Alguém que imediatamente nos abraça e beija e mima? Alguém que não é dengosa, por isso o gesto teve muito mais significado...
E depois receber a chamada do amigo de sempre com quem fui ingrata e egoísta. Mas o meu amigo que tudo me perdoa, que já fez uma vez 300 Km para se postar à porta da minha casa porque não conseguia contactar-me de outra maneira... que esperou horas, e por fim, desesperado por não me ver chegar a casa, já de noite, decide tentar mais uma vez ligar-me e apanha-me em casa! E quando me diz estou à tua porta há horas, pá! Vamos mas é jantar! E lá fomos os dois, pôr conversas em dia, acompanhados de um bom vinho tinto. O amigo que não conseguiu contactar-me no sábado às 9 horas da manhã (para ele eu só podia estar doente, com o telemóvel desligado a uma hora e dia em que normalmente estou a trabalhar); que acordou o meu filho depois de uma noite de festival de Tunas em Braga para saber se eu estava bem. Que pôs o meu filho em pânico... e eu nada! Voltei-me para o outro lado e continuei a dormir... perdoa-me Eduardo, mas o cansaço era tanto e tão grande... eu bem sei que o teu coração é do teu tamanho... não cabe nessa caixinha torácica aonde a maioria dos mortais o guarda!
Como diria o meu pai, amigo: "és único no teu género!"

TERESA

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
( Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

( Manuel Bandeira )

CASIMIRO DE BRITO

Quantas vezes caminhei pela praia
À espera que viesses.Luas
Inteiras.Praias de cinza invadidas
Pelo vento.Quantas estações quantas noites
Indormidas.Embranqueceram-me
Os cabelos. E só hoje
Quando exausto me deitei em mim
Reparei
Que sempre estiveste ao meu lado. Na cal frágil
Dos meus ossos.Nas hastes do mar
Infiltradas no sangue.Na película
Dos meus olhos quase cegos.

( Casimiro de Brito )

26 março, 2007

Atrás da Porta - Chico Buarque por Elis Regina

Dei pra mal
dizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que inda sou tua
Só pra provar que inda sou tua...

S/T


fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.

(José Luís Peixoto)

Da corrupção e da educação.


Baltazar Garzón, o mais que mediático juiz espanhol que se atreve a enfrentar corruptos e terroristas e criminosos de guerra, de onde quer que eles sejam, veio a Portugal e disse que a prevenção contra a corrupção começa nas escolas. Com o devido respeito, meritíssimo, aqui, não estou de acordo consigo. E com muita pena minha porque o admiro profundamente, como admiro todos os homens e mulheres que têm a coragem de deixar o sofá e de lutar por aquilo em que acreditam. Como o senhor, acredito que a luta contra a corrupção não pode ter tréguas. Mas como começar nas escolas?
Os professores não têm tempo nem para dar os programas decentemente quanto mais para educar os alunos... aliás, eles não conseguem dar aulas a alunos que não recebem educação aonde deviam: em casa. É aí que tudo começa: no seio da família. Aí é que a criança tem que ser ensinada a distinguir o bem do mal. Se uma criança for ensinada a não se deixar corromper, nunca será corruptora nem corruptível. Para isso é preciso que perceba a diferença entre o bem e o mal. Como é que um professor pode ensinar o que quer que seja a crianças que sabem que se baterem no professor têm os pais do seu lado?
Em Portugal não estamos a falar da educação que há em Espanha. Em Portugal há muito que os meninos deixaram de usar uniforme escolar, porque é "antipedagógico". Em Portugal os pais não têm tempo para estar com os filhos, para conversar com eles... estão ocupados o tempo todo a ganhar dinheiro para lhes comprarem tudo aquilo a que eles se julgam com direito. Os pais em Portugal não estão ralados com dar amor. Não estão preocupados com educar. Se for preciso trabalham 14 horas por dia para que os meninos possam estar em colégios que façam deles prodígios de ganhar dinheiro no futuro. São país facilmente corrompidos pela vertigem do dinheiro. Não têm tempo nem moral para ensinar os filhos que a corrupção é uma coisa que pertence ao lado do mal. E que tão mau é quem tenta comprar alguém, como aquele que se deixa comprar!
Não sei como se pode combater a corrupção. Mas acredito que há gente em Portugal, que sabe e que está disposta a ganhar esta causa. Uma dessas pessoas é uma grande mulher, de pequena estatura, mas, tal como os homens, as mulheres também não se medem aos palmos. Chama-se Maria José Morgado e tem a fibra, a garra e a vontade necessárias para vencer este combate. Assim lhe dêem os meios necessários!

ONTEM À NOITE SALAZAR

Ontem, à noite, Salazar, ficou banzado quando soube que a gente lusa o tinha considerado o maior português de sempre, num concurso, por voto democrático, palavra que ele sempre abominou, ficou banzado, mas por pouco tempo, foi quando ouviu que Cunhal tinha ficado em 2º lugar, que o velho ditador sucumbiu, não percebeu, voltou a morrer e a descer, como títere, numa peça burlesca, para o fundo da terra, não ouvindo já os comentários que são usuais nestas circunstâncias.
A minha opinião é que o povo, com a sua sabedoria, tendo ouvido durante semanas os intelectuais, os políticos e os analistas, que descreveram os " curricula " das personagens históricas, pensou e disse da sua justiça. Se há pessoas que não gostam, paciência. Não há motivo para dramas: o velho ditador já morreu, já não volta a chatear. O que se deve é pensar nos motivos que há para que esta votação tenha sido o que é. Que fermento existe neste regime democrético, sim, mas injusto, que leva as pessoas a lançarem contra o seu rosto pardacento o sorriso cínico e sério de Salazar?
Cá por mim... até fiquei admirado dos excelentes resultados obtidos por Camões e por Aristides de Sousa Mendes. Pessoa ficou lá muito para trás. Mas são eles que mais me importa. Em sua homenagem o blogue publica poemas dedicados a Pessoa, que, ontem à noite, nem triste, nem alegre, por certo diria: " Mais do que isto é Jesus Cristo/ que não sabia nada de finanças/ nem conta que tivesse biblioteca"; e a Camões, que sabedor das mazelas desta alma lusa, teria saído do estúdio, se fosse no seu tempo, e iria lembrar Dinamene para as margens do Tejo...

Eduardo Aleixo

POEMA DE LUIS DE CAMÕES

Aqueles claros olhos que chorando
Ficavam, quando deles me partia,
Agora que farão?Quem mo diria?
Se porventura estão em mim cuidando?


Se terão na memória, como ou quando
Deles me vim tão longe de alegria?
Ou se estarão aquele alegre dia
Que torne a vê-los, na alma figurando?


Se contarão as horas e os momentos?
Se acharão num momento muitos anos?
Se falarão c'oas aves e c'os ventos?


Oh, bem-aventurados fingimentos,
Que nesta ausência tão doces enganos
Sabeis fazer aos tristes pensamentos!

( Luís Vaz de Camões, in Cem poemas portugueses do Adeus e da Saudade, Selecção organizada por José Fanha e José Jorge Letria )

POEMAS DE ÁLVARO DE CAMPOS

1.
Não estou pensando em nada
E essa coisa central , que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o Verão quente do dia.

Não estou pensando em nada, e que bom!

Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida...
Não estou pensando em nada.
É como se me tivesse encostado mal,
Uma dor de costas, ou num lado das costas.
Há um amargo de boca na minha alma:
É que no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada..

2.

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto -
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo..
E a luxúria única de não ter mais esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

( Álvaro de Campos )

Meu Caro Amigo - Chico Buarque e Francis Hime

Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

25 março, 2007

Teresinha -Chico Buarque

O terceiro me chegou como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada também nada perguntou
Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama e me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não

Se instalou feito posseiro, dentro do meu coração

Casa


Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão. . .

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

(David Mourão Ferreira)

No mundo da lua.


Eu sei que sou uma chata. Quando alguém me sai na rifa é difícil largar-lhe a labita... mas também tenho que me entreter com alguma coisa, não é? Embora não seja, como a maioria dos portugueses filha de deus, mas de um homem e de uma mulher de carne e osso... mesmo assim também tenho direito o à minha dose de divertimento e lazer.
Assim dei-me a mim mesma uma trégua: 3 dias para descansar, para fazer as coisas de que gosto mas sobretudo para descansar. Descansar das pessoas, do burburinho, de mim mesma. Ouvir Chico Buarque que é o que estou fazendo agora, coisas tão antigas e tão pouco conhecidas, mas belas "você não viu o samba que eu lhe trouxe/ ai eu lhe trouxe rosas/ ai eu lhe trouxe um doce/ as rosas vão murchando/ o que era doce, acabou-se" e outras rimas de simplicidade e maravilha. Que pena não constarem no youtube ou constarem tão cortadas que não são postáveis aqui no nosso blogue...
Mas voltando às minhas rifas. Ontem vim aqui falar do meu engenheiro de estimação... que afinal parece que não é engenheiro: terá eventualmente uma licenciatura em engenharia o que não lhe dará direito a usar o título, se não estiver inscrito na Orem dos Engenheiros... mas mesmo isso (a veracidade da licenciatura) parece que não está muito claro! Francamente não sei o que é que eu tenho andado a fazer que não ouço os cochichos mais importantes... isto foi o que eu ouvi ontem num programa que se chama o "Eixo do Mal" e que é composto por pessoas quase tão boazinhas quanto eu! Quase: que para serem tão generosas como eu, ainda terão que esgalhar muito!
Levei a semana entretida com as cenas tristes que "parece" que aconteceram no CDS-PP (PP=Paulo Portas?) e na Universidade Independente que parece ter fortes ligações a Angola, em questões que passam por lavagem de dinheiro sujo de tráfico de diamantes e provavelmente outros em que o país é rico.
NO CDS há uma senhora que diz que foi agredida por um deputado. Ele diz que não e dá a entender que ela só disse o que disse porque ele é preto... ele só disse que não é branco, mas para mim é assim, se não se assume como branco, sendo mestiço, então só se pode assumir como preto... acontece que me cheira mais a que seja apenas mais um homem de cor... duvidosa! Segundo as línguas viperinas deste nosso pequeno país, parece que não é a primeira vez que o senhor resolve as coisas à "porrada", entre aspas porque é uma palavra que detesto, porque soa mal! Soa a... àquilo que é, pronto!
E parece que foi a estória da UI que trouxe para a ribalta a licenciatura do meu engenheiro de estimação... que se calhar é só o meu licenciado de estimação (isto não me dá jeito nenhum, pelo tempo que me cheira que o homem ainda vai "lá" estar), ou que até a licenciatura terá sido assim, a modos que comprada... realmente tenho que me informar sobre esta estória. Agradeço a todos e a qualquer um que me possa informar com verdade do que por aí se vai passando, que eu já me estou a passar com a minha ignorância... Que mania a minha de andar sempre no mundo da lua! É que nunca mais aprendo a andar com os pés na terra...

Naúfrago de las estrellas - João Afonso


Mais uma vez com os clandestinos, hoje que a União Europeia completa 50 anos!

24 março, 2007

A Sua - Marisa Monte

Eu só quero que você saiba
Que estou pensando em você
Mas, te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem
E que eu te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem

Spiderman - Michael Buble Jazz

Is he strong? Listen, Bud!
He's got radioactive blood.
Can he swing from a thread?
Take a look overhead.
Hey there, there goes the Spider-man!

Reportagem

Aborrecido, passeio
Pelas ruas da cidade.
Deixei agora o Rossio
E atravesso o Borratém.
Deu meia-noite pausada
No Carmo. Um amigo meu
Passa e tira-me o chapéu.
Paro a uma esquina. Esmoreço
Numa saudade que surge
Dentro de mim não sei como:
Uma saudade infinita,
Misto de choro e revolta.
Alguém me chama no escuro:
Volto a cabeça. A uma porta
Um vulto mexe. - Sou eu!,
Não fuja, sou eu... - Mas quem?
Retrocedo, não conheço
A mulher que me chamou.
Na verdade ninguém ouve,
Ninguém distingue o apelo
Do amor que anda perdido
No mistério de mentir:
Deixo-a ficar onde estava;
Dou-lhe um cigarro e um sorriso
Dizendo que vou dormir.
Atira-me boa-noite
Num frio olhar de ofendida.
Meto à rua do Amparo
A perguntar se esta vida
Não terá finalidade
Menos sórdida e banal?
Atafonas. Uma Igreja.
Mais acima o Hospital.
Um marinheiro propõe
A esta que atravessou
A rua do Benformoso
Irem tomar qualquer coisa
Na Leitaria da Guia.
Ela pára. É uma catraia
Que talvez não tenha ainda
Dezasseis anos. Bonita.
Devagar vou-me chegando
Xaile, uma blusa, uma saia...
E oiço a fala dos dois.
Ele parece uma onda,
Impetuoso, alagante.
Ela é um breve bandó
Num corpito provocante.
E seguem... Ele, encostado,
Muito encostado e aquecido
Lá vai como se encontrasse
Um objecto perdido
Que foi milagre encontrá-lo...
Cortaram além!... E param?
Oiço o rebate de um estalo
E um grito subtil de prece
Amedrontada na fuga...
Desço ao Marquês do Alegrete.
Um candeeiro sinistro
Numa casa que se aluga...
Vejo um polícia. Arrefece.
Um grupo de três sujeitos
Discute o vinho de Torres.
Varrem as ruas. Um gato
Bebe água numa sarjeta;
Uma carroça parou
Carregada de hortaliça
Junto à Praça da Figueira.
Corto a rua dos Fanqueiros
Já um pouco estropiado...
Acendo um cigarro. A noite
Lembra um fantasma assustado...
Chego ao Terreiro do Paço.
O arco da rua Augusta
Parece mais imponente
Na minha desolação...
Vou até ao cais. Em baixo
O rio bate sem reacção...
A maré vasa. No céu,
Vão-se apagando as estrelas.
Um guarda-fiscal dormita
Na guarita, mas de pé.
Um velhote com um cesto
E uma lata vem dizer-me
Se eu quero beber café.
Num banco de pedra. Cismo.
E ali me fico a cismar
Em coisa nenhuma... O dia
Principia a querer ser
Mais um passo na incerteza
Das nossas aspirações...
As águas do rio a escutar
Parecem adormecidas...
E o dia nasce! Vem triste,
Nublado, fosco, cinzento,
Enquanto pela cidade
A vida acorda e desata
O matinal movimento...


(António Botto)

Cinquentaeanos!

A União Europeia faz amanhã cinquentaeanos! O engenheiro também fará este ano cinquentaeanos. Já eu, tenciono fazer este ano cinquenta anos...
Pois é: sou mázinha! Mas se por tantos anos se"bateu" em Mário Soares, se ridicularizou, se disse que ele não tinha aprendido a falar francês depois de tantos anos de exílio em França, porque não havemos de ridicularizar o engenheiro que tem um sotaque horroroso de português. Acho que quem cuida da imagem do homem devia cuidar desta faceta. É que um estrangeiro que tenha aprendido a falar português , pensará provavelmente que o engenheiro fala crioulo ou qualquer outra língua que misture umas palavras de português.
Pois é engenheiro, espero que até completar os seus cinquentaeanos, aprenda a dizer cinquenta anos. Olhe que daqui até Setembro é um pulinho... mas o senhor, já sabemos, está mais interessado no inglês que no português. A sua língua não lhe serve para nada, não tem importância nenhuma, poderá eventualmente desaparecer do programa das escolas para dar mais tempo ao inglês, quiçá ao castelhano, ao francês ao maltês...
O senhor, que é o meu engenheiro de estimação (sim, porque o outro, o que anda agora lá por fora, pelas Áfricas a tentar fazer boas acções, como bom católico praticante que é, isto só lhe fica bem), não tinha a minha estima! Porque não era alto e giro e grisalho como o engenheiro! Porque era demasiado bom rapaz para o meu género. Eu aprecio mais o seu estilo "malandreco", de quem anda a enganar convencido que me engana!
Sabe que isto de mulheres, é uma seita! A gente nunca sabe o que elas querem, do que elas gostam... se é branco querem preto, se é rico querem pobre, se é giro querem feio... umas ingratas! E então em tratando-se de gajas? Aí então é que a porca torce mesmo o rabo! Porque essas quebram, mas não vergam!

23 março, 2007

Ne Me Quitte Pas - Jacques Brel

Je ferai un domaine
Oú l'amour sera roi
Oú l'amour sera loi
Oú tu seras reine




Não é o coração


Não é o coração
mas esta carne
em seu rumor.

Não é o coração
mas teu silêncio
de intenso furor.

Não é o coração
mas as mãos
sem corpo, vazias.

Na grave melodia
de um instante
tu e eu
em desequilíbrio
na infame
consistência
de um absoluto
obstáculo.


(Ana Marques Gastão)

Todos os dias te lembro e todos os dias te esqueço...


Jurámos que seríamos um do outro para sempre, lembras-te? Ainda que nunca nos pertencêssemos de verdade, ainda que os nossos corpos fossem amados por outros corpos, ainda que os nossos filhos fossem filhos de outros corpos... Jurámos que seria assim.
Não sei se cumpriste. Eu não cumpri: todos os dias te lembro e todos os dias te esqueço. Durante muito tempo adormeci nos teus braços. Como adormeço agora. É nos teus braços que adormeço, sempre que não me encontro apaixonada por ninguém. Aí sei que tu és o que ficará para sempre comigo. Que contigo não terei desilusões. Por isso não te procuro. Sigo-te à minha maneira, silenciosa... sem que dês por isso. Não quero voltar a passar por tudo. Ambos sabemos, sempre soubemos, que eu nunca seria a outra e que tu nunca desistirias de tentar que eu fosse... Foi por isso que tentaste impedir o meu casamento. Porque sabias que eu seria incapaz de uma traição... quanto mais de duas. Não pelos outros, sabes, tu sempre soubeste: é por mim que não o faço. Porque nunca mais teria uma noite sossegada... foi por isso que voei para longe de ti, literalmente falando, foi por te amar de uma maneira tão completa que casei com outra pessoa, foi porque não podia ser a outra! Foi por isso que durante todos aqueles anos acordei e adormeci pensando em ti. Que te escrevi diariamente, cartas que não te enviei, porque não eram para ti, mas para mim: para manter acesa em mim uma chama que me desse vontade de viver...
Depois vieram outros. Apaixonei-me por outra pessoa e aí o teu fantasma desapareceu da minha vida. Foram muitos os anos felizes, porque muito poucas mulheres têm a sorte de se manterem apaixonadas por uma mesma pessoa durante 17 anos! De se sentirem completamente amadas durante 17 anos! É muito tempo... poderia ter sido para sempre... mas como eu sempre digo, para sempre é tempo demais!
Por isso, voltei para ti, que serás a minha quase eternidade. Quase porque também a ti eu esqueço quando me apaixono por outras pessoas. Só que agora nada é de verdade. Tive a minha dose de felicidade. Não me queixo da vida. Ela tem sido boa comigo. Deu-me muito mais do que eu merecia, ainda que, às vezes de uma maneira um tanto torta.
Não. Não me posso queixar porque a ti, terei para sempre. Todos os dias te lembro e todos os dias te esqueço...

Bette Davis Eyes - Kim Carnes

And she'll tease you
She'll unease you
Just to please you
she's got Bette Davis eyes

TEXTO DE JACINTO LUCAS PIRES

" Caro leitor, não o conheço, mas quero contar-lhe uma história que me contaram.É uma coisa curta e muito simples, não demora nada. É a história de um homem chamado Gelsomino, que tinha oitenta e poucos anos e vivia numa casa nas montanhas.Um dia Gelsomino estava sentado na mesa da cozinha a tentar escrever um poema sobre os sinais dos céus.Já há muito que se interessava por nuvens e outros fenómenos celestes e tinha uma grande colecção de apontamentos sobre o assunto. O poema que resultaria desse trabalho seria, certamente, longo, denso e sábio como o seu autor. Talvez um grande volume de capa preta, talvez até mais do que um. Gelsomino ainda não tinha começado propriamente a escrever, queria que as palavras lhe saíssem bem ponderadas, com o peso natural das coisas naturais e definitivas, mas os termos " formas pensantes", " negrumes que brilham" e " simples esplendor" espreitavam-lhe já no fundo da cabeça. No momento solene em que se preparava para escrever o primeiro verso na folha, Gelsomino ouviu um ruído e levantou-se.Abriu a porta lentamente.Lá fora um cão preto com um pequeno pássaro na boca olhava-o sem surpresa. Um cão preto, normal, que ele nunca tinha visto por aqueles lados.O homem não disse nada. O cão baixou o focinho e pousou o pássaro morto no degrau da entrada.Depois deu meia volta e foi-se embora pelo caminho de terra sem se virar para trás. Gelsomino ficou parado a olhá-lo até ele desaparecer.Agora sabia que já não podia escrever belas frases sobre nuvens e coisas no céu. Fechou a porta. De pé na sala vazia, pensava como poderia organizar o seu conto breve sobre o homem e o cão."

Jacinto Lucas Pires

( Texto constante do livro: " Cartas a Deus ")

Evocando Manuel da Fonseca

Evocando o grande escritor alentejano, Manuel da Fonseca, transcrevo um dos mais belos poemas seus e dedico-o principalmente aos amigos, que não vejo há muito tempo, mas que sei por onde andam:
- Francisco Bélard. Hoje jornalista do jornal " O Expresso ". Era, de nós todos, o mais culto e o mais ponderado. Tinha um poder de síntese maravilhoso.
- Casimiro José Moreira Branco. O que só falava com pessoas que conheciam o Manuel da Fonseca e o Fernando Pessoa. Dizia ele, claro. Embora seja verdade que quando foi pedir namoro a uma rapariga da Escola Comercial de Beja, encontro marcado na porta norte do jardim da cidade e que teve uma duração muito curta, desistiu do pedido que fora responsável pelo encontro, encontro planeado ao milímetro das palavras, só porque lhe pareceu que a gaja não percebia nada de literatura.
- Arlindo Caldeira. Andava na alínes de História. Nunca mais o vi. Ganhou alguns prémios de ensaio no Diário de Lisboa-Juvenil, para onde eu também escrevia. Escrevia bem, o Arlindo. E as suas críticas eram sempre lúcidas.
- Fernando Silva. Hoje, Professor universitário e investigador. Lembras-te, Fernando, daquela bebedeira monstra que apanhámos, a discutir, horas e horas, bem regados de bagaço, se Myrtilis se escrevia com y, ou sem y?..
Todos éramos amigos, pobres e felizes, tal como Ernesto Hemingway dizia dos tempos de Paris, onde iniciou as suas lides literárias e começou a percorrer o mundo.
O nosso mundo era, porém, outro. O da " Meia Laranja ", local do centro de Beja ( Pax-Júlia ), onde víamos as " garinas " passar e combinávamos qual o fado de Coimbra que cantaríamos às nossa amadas na próxima serenata. Ao som da guitarra dedilhada pelo Bélard da Fonseca.
Poi é pensando principalmente nestes meus queridos amigos que passo a transcrever o seguinte poema de Manuel da Fonsaca:

MATARAM A TUNA
Nos domingos antigos do bibe e pião
Saía a Tuna do Zé Jacinto
Tangendo violas e bandolins
Tocando a marcha Almadanim.
Abriam janelas meninas sorrindo
Parava o comércio pelas portas
E os campaniços de vir à vila
Tolhendo os passos escutando em grupo.
Moços da rua tinham pé leve
O burro da nora da Quinta Nova
Espetava orelhas apreensivo
Manuel da Água punha gravata!
Tudo mexia como acordado
Ao som da marcha Almadanim
Cantando a marcha Almadanim.
Quem não sabia aquilo de cor?
A gente cantava assobiava aquilo de cor...
( Só a Marianita se enganava
Ai só a Marianita se enganava
E eu matava-me a ensinar...)
Que eu sabia de cor
Inteirinha de cor
E para mim domingo não era domingo
Era a marcha Almadanim!
Entanto as senhoras não gostavam
Fazim troça dizendo coisas
E os senhores também não gostavam
Faziam má cara para a Tuna:
- Que era indecente aquela marcha
Parecia até coisa de doidos:
Não era música era raiva
Aquela marcha Almadanim.
Mas Zé Jacinto não desistia.
Vinha domingo e a Tuna na rua
Enchendo a rua enchendo as casas.
Voavam fitas coloridas
Raspavam notas violentas
Rasgava a Tuna o quebranto da vila
Tangendo nas violas e bandolins
A heroica marcha Almadanim!
Meus companheiros antigos do bibe e pião
Agora empregados no comércio
Desenrolando fazenda medindo chita
Agora sentados
Dobrados na secretária do comércio
Cabeças pendidas jovens-velhinhos
Escrevendo no Deve e Haver somando somando
Na vila quieta
Sem vida
Sem nada
Mais que o sossego de falas brandas...
- Onde estão os domingos amarelos verdes azuis
Encarnados
Vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
Da heroica marcha Almadanim?!
Ó meus amigos desgraçados
Se a vida é curta e a morte infinita
Despertemos e vamos
Eia!
Vamos fazer qualquer coisa de louco e hroico
Como era a Tuna do Zé Jacinto
Tocando a marcha Almadanim!
( Manuel da Fonseca ).
Quanto a nós, queridos amigos, prometo que vou contactar-vos para este gesto heroico que é os alemtejanos, tão contemplativos que somo todos, nos encontrarmos e cantarmos como nos velhos tempos...
Um abraço.
Eduardo Aleixo

22 março, 2007

Dá-me Lume - Jorge Palma

Chegaste com três vinténs
E o ar de quem não tem
Muito mais a perder
O vinho não era bom
A banda não tinha tom
Mas tu fizeste a noite apetecer
Mandaste a minha solidão embora
Iluminaste o pavilhão da aurora
Com o teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar

Eu fiquei louco por ti
Logo rejuvenesci
Não podia falhar
Dispondo a meu favor
Da eloquência do amor
Ali mesmo à mão de semear
Mostrei-te a origem do bem e o reverso
Provei-te que o que conta no universo
É esse passo inseguro
E o paraíso no teu olhar

Dá-me lume, dá-me lume
Deixa o teu fogo envolver-me
Até a música acabar
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas
Há tanto tempo a acenar

Eu tinha o espírito aberto
Às vezes andei perto
Da essência do amor
Porém no meio dos colchões
No meio dos trambolhões
A situação era cada vez pior
Tu despertaste em mim um ser mais leve
E eu sei que essencialmente isso se deve
A esse passo inseguro
E ao paraíso no teu olhar

Dá-me lume, dá-me lume
Deixa o teu fogo envolver-me
Até a música acabar
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas
Há tanto tempo a acenar

Se eu fosse compositor
Compunha em teu louvor
Um hino triunfal
Se eu fosse crítico de arte
Havia de declarar-te
Obra-prima à escala mundial
Mas eu não passo dum homem vulgar
Que tem a sorte de saborear
Esse teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar
Esse teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar

When We Dance - Sting

I'm still in love with you
I'm gonna find a place to live
Give you all I've got to give
When we dance, angels will run and hide their wings
When we dance, angels will run and hide their wings

Garras dos sentidos


Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.

Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.


(Agustina Bessa Luís)

Não consigo recordar o som da tua voz...


Esperavas-me todos os dias às 5 da tarde, à esquina do edifício aonde eu vivia. Eu chegava e dizia "olá". Tu nada dizias. Eu ia falando enquanto nos encaminhávamos para a padaria... falava por mim e por ti.
Chegados à padaria esperavas-me à porta. Regressávamos a minha casa e eu continuava falando, de tudo e de nada. Tu calado. Limitavas-te a olhar-me por trás das lentes à John Lennon, cabelos compridos pelos ombros, chinelas com sola de pau como as minhas. Dizia-te que devias cuidar do cabelo, que ficarias careca rapidamente, que devias abandonar os charros, que devias voltar a falar com a tua família e com os teus amigos. Que devias deixar de perseguir o meu pai pela cidade, com a tua moto barulhenta só para o chateares, para que ele pensasse realmente que eu te namorava, porque sabias que ele não aprovava os teus comportamentos... isto era que eu pensava porque tu nada me dizias...
Mas houve aquele fim de ano memorável, em que apareceste na praia do morro da samba de mota, pela areia. Eu estava adormecida na areia, depois de uma noite de farra, e de uns banhos de mar e tu acordaste-me com aquela barulheira terrível. O motor da mota além de fazer o ruído insuportável do costume parecia um peixe a afogar-se num aquário. É claro que o barulho me acordou. E então com o ar mais normal deste mundo perguntaste-me, "queres saber aonde os teus pais passaram o fim de ano?"... tinhas passado a noite toda atrás deles para chatear. Não estudavas, não trabalhavas, mas estavas todos os dias 7.30 da manhã à porta de minha casa na tua mota, só para seguires o meu pai que me deixava no liceu e seguia para a repartição... eras mais um dos filhos do famoso pediatra... eras "aquele filho varrido" do senhor doutor. Voltaste para Luanda e eu voltei a adormecer.
Acho que ninguém me amou como tu. Ninguém mereceu mais o meu amor que tu... mas nunca mo disseste. E um amor que não se diz não existe. Rompeste relações com o teu melhor amigo porque nos apaixonámos e deves ter achado que era uma traição... achavas que ambos tínhamos obrigação de adivinhar o teu amor por mim e de o respeitar... ainda que o silêncio fosse a única forma que usavas para comunicar...
Quando me vim embora, Luanda estava em estado de sítio. Um amigo levou-me ao aeroporto, por ruas desertas porque havia recolher obrigatório. Decidiu ficar no aeroporto até de manhã quando acabasse o recolher obrigatório porque o meu voo estava previsto para as duas da manhã. E pelas 10 da noite, apareces tu, rompendo todas as regras, arriscando tudo para me veres uma última vez! Quis correr para ti, mas o Bernardes não deixou! Tu eras um escândalo em Luanda e nenhuma menina decente correria para os teus braços, pelo menos à frente dele, que era um homem feito e se sentia responsável por mim, já que estava sozinha em Luanda e era apenas uma menina de 16 anos... ficaste a observar-me de longe, seguiste-me com o teu olhar até à hora do embarque...
No ano seguinte, o telefone da casa da minha avó, aonde eu vivia em Lisboa, tocou. Atendi. Do outro lado apenas silêncio: mas eu sabia que eras tu. Marquei um encontro para o dia seguinte no Rossio. E tu apareceste! E foi a mesma estória... só que desta vez eu abracei-te com muita força, chorei no teu ombro e senti as tuas lágrimas na minha face... Foi a única vez que nos tocámos... não aconteceu mais nada, senão o silêncio de sempre... a minha vida estava virada do avesso, eu estava empenhada em varíadissimas causas, a liberdade irrompia pela cidade e perdi-te... para sempre.
Um dia destes vou procurar-te. Através de contactos de amigos pela Internet sei que vives no Alentejo, tal como um eremita, trabalhando apenas o suficiente para te manteres vivo e ires fumando os teus "charros". De algum modo deveria sentir-me culpada por estares assim? Não creio. Tu foste o único que seguiu a direito o caminho que traçou para si mesmo, depois de teres percebido que eu já tinha caminhos demais pela frente para seguir para um deserto onde só nós dois existíramos...
Fizeste bem Toy. Sabes? Um pode ser pouco, mas dois é demais! Um dia destes procuro-te e encontro-te para ouvir o teu silêncio...
Não consigo recordar o som da tua voz...
POEMA
A física
noção
do corpo.
A colisão
dos sonhos
feita
solidão.
acumpuntura
d'alma
( Armando da Silva Carvalho,
in " Os Ovos d'Oiro )

21 março, 2007

You Can't Always Get What You Want - The Roling Stones

And you can't always get what you want,
Honey, you can't always get what you want.
You can't always get what you want
But if you try sometimes, yeah,
You just might find you get what you need!

Encontros e Despedidas - Maria Rita

Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Os amantes


As palavras amendoam o sorriso, amado, amada

conversam e conversam, deitados lado a lado

depois, e devagar, maciamente
passam à pele absoluta do silêncio

(Isabel Cristina Pires)

Dia da Poesia, da... e da...


É dia da poesia, da árvore e o primeiro dia da Primavera deste ano da graça de 2007. Árvores e Primavera são com o meu colaborador (não gosto desta palavra, cheira-me a polícia política), por isso mudo para parceiro de escrita, Eduardo Aleixo. Ele é o homem da natureza. Sabe de campo e sabe de mar. Eu só sei mesmo é de mato... e de poesia... que de resto ele sabe também muito mais do que eu!
Estive a conversar com a minha queridíssima, cada vez mais queridíssima Lena, com quem voltarei a estar na próxima terça feira (se não houver imprevistos de última hora, amiga, tomara que não), e quero levar-te, juntamente com os cartões que me pediste esta postagem com esta pequena estória, que ilustra bem a minha urbanidade com cheiro a mato...
Andava eu pelo antigo 5º ano do liceu e em vez de uma redacção num teste, escrevi uma poesia... foi há muito tempo, no tempo em que os animais ainda falavam, passou-se em Luanda no Liceu D. Guiomar de Lencastre, mais conhecido por Liceu Feminino, apesar de, nessa altura, já ter sido transformado em liceu misto.
A professora, de quem não me lembro o nome mas de quem não esqueço a alcunha, "Tomásia" e a arte de ensinar, gostou muito da poesia (nem sequer me lembro sobre o que falava), e mostrou-a na sala de professores às colegas... Acontece que por essa altura eu já me interessava muito mais por literatura e política do que por Ciências. E nunca me interessou saber de que era feita uma flor. Por isso, quando a professora de Ciências me disse que não entendia que uma pessoa que escrevia poesias tão bonitas não gostasse de flores, tive que lhe explicar que para mim basta olhar uma flor e ver que é bela. Não estou interessada na maneira como ela é feita: basta-me que seja bela. Foi isto que eu respondi à professora de Ciências da Natureza. Para fazer um poema sobre uma flor não preciso de saber quantos estames tem. Só preciso que ela desperte em mim o sentido da poesia.

DESPERTAR

POEMA
É um pássaro, é uma rosa,
É o mar que me acorda?
Pásssro ou rosa ou mar,
Tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
Canto na erva,água no mar.
( Eugénio de Andrade )

20 março, 2007

PAGU - MARIA RITA

Sou rainha do meu tanque
Sou Pagu indignada no palanque
Fama de porra-louca, tudo bem
Minha mãe é Maria-Ninguém

Amador sem coisa amada


Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.

Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.

Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.

(António Gedeão)