24 Novembro, 2009
Nossos Momentos - Gal Costa (clica aqui)
Criança

Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,
que sozinho sofre, — e resiste,
Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...
Cabecinha boa de menino mudo
que não teve nada, que não pediu nada,
pelo medo de perder tudo.
Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto.
Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube que não possuiria.
(Cecília Meireles)
a minha prole

é verdade que não tenho tempo nem para ouvir as notícias. é verdade que mesmo aproveitando todo o meu tempo livre não consigo ler tanto quanto queria. é verdade que os encontros com os amigos têm que ser pensados ao milímetro porque não dá para estar com todos. é verdade que eu estou perfeitamente apaixonada pelos meus rapazes. os meus meninos que se tornaram homens. os meus meninos e meninas que agora me dão outros meninos que me deixam pasmada com a sua beleza como é possível bebés tão lindos meninos tão bonitos mesmo a pedirem para serem de cristal de tão lindos que são. e eu ando assim a modos que tonta com tanta beleza como se não soubesse muito bem para que lado me virar ontem era o manel hoje é a inês número dois porque parece que se vai tornado hábito na família os números dois não vejo inconveniente afinal o que importa é vê-los saudáveis lindos crescidos sossegados eu sei lá... o que eu sei é que nunca tive noção de que teria uma prole tão extensa. ainda bem que assim é porque mesmo os sobrinhos são como filhos e netos. apenas extensões do amor infinito que sinto por eles apesar de não lhes dar a entender apesar de mazinha a deitar abaixo mas por dentro toda vaidosa de os ver assim todos sentados à mesa a comer como gente grande. e cá para mim isto é apenas o começo...
23 Novembro, 2009
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Pensar em Você - Chico César (clica aqui)
Coisas de luz antiga
Aquele namorado que tinhaum nome bom: há quanto tempo foi?
A vida resvalante como gelo
e aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos.
Deu-me uma vez a mão
um beijo resvalante à hora de deitar
e na pensão. Mas tinha um nome bom.
falava de cinema e calçava de azul
e um bigode curtinho,
que escorregou aceso como gelo
no centro da pensão.
Rasguei as cartas dele
há quinze anos, em dia de gavetas
e de luz, e nem fotografia me ficou
de desarrumação. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e resvalou-me quente como gelo
à hora de deitar:
um namorado sem falar
de amor
(que a timidez maior
e o quarto dos meus pais
nessa pensão
no mesmo corredor)
(Ana Luisa Amaral)
um deserto sem camelos

vou viver esta semana o melhor que puder. será a melhor maneira de passar bem depressa. é que estou com pressa de entrar de férias. estou cansada. e dias como o de hoje quando não é possível fazer coisa nenhuma ainda me deixam mais cansada. o tempo parece parado olho para o relógio e nada e assim fica tudo muito mais difícil. o que eu quero mesmo é poder fazer muita coisa. não consigo entender os que se queixam de excesso de trabalho. eu tenho pena é dos que não têm trabalho. e de todas as vezes que vejo o telejornal lá está mais um casal no desemprego sem possibilidade de cumprir as suas obrigações. e enquanto isso ouço o senhor constâncio falar de aumento de impostos. como ouvi um economista dizer é a maneira mais fácil de combater o déficit. mais uma vez roubar os contribuintes que de resto são sempre os mesmos quero dizer aqueles que não podem fugir com o rabo à seringa. este é o país que temos. este é o país que construímos e é escusado deitar as culpas para cima de quem governa porque eles são escolhidos pelo povo. logo somos senhores do nosso destino. vão-se safando como sempre os chicos espertos que conseguem viver sem pagar impostos e ainda recebem algum por conta dos que pagam demais. estou cansada. apetece-me um deserto. um deserto grande mesmo a sério. um deserto sem camelos. é que estou farta dos camelos com quem convivo todos os dias. é o que vou pedir ao pai natal. um deserto sem camelos.
22 Novembro, 2009
Lígia - Chico Buarque de Hollanda - (clica aqui)
O pai
Terra de semente inculta e bravia,terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.
Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.
Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.
Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.
Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.
O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.
Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...
E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.
(Pablo Neruda)
salve o anjo da guarda

decido ficar por casa e descansar o mais que puder. não é bem assim claro. é preciso fazer pela vida mas o dia começa bem uma vez que antes mesmo e preparar o pequeno almoço tento de novo o que não sei para pôr a arca frigorífica a trabalhar. nada. nem sinal. sentada já a tomar o pequeno almoço ouço um clique e as luzes vermelhas acendem-se. mais uma vez o meu anjo da guarda deu conta do recado. pode ser que não tenha razão mas que explicação se pode dar a um fenómeno destes? eu já a deitar contas à vida a pensar na compra de uma outra afinal esta já tem tantos anos seria natural que quisesse aposentar-se afinal ninguém é de ferro... e eis que assim sem mais nem menos ela me diz de repente estive só a descansar um pouquinho mas já estou pronta para continuar a trabalhar para ti. obrigada anjo da guarda que me deixaste o espírito livre para outras coisas que eu só de pensar nas deslocações que teria que fazer para escolher o que moais me convinha até já estava a ficar com suores frios. ainda por cima agora que anda toda a gente numa folia (suponho que eu recuso-me a entrar em hipermercados nesta altura aos fins de semana) e eu fico logo cheia de falta de ar não consigo ver nada para mim é uma doença. que bom que foi poder voltar para a cama e dormir mais um soninho descansado antes de me levantar leve como uma pena e tratar da minha vida. amanhã também é dia e a semana vai ser bem cheia. mas depois lá vem mais um período pequenino de descanso. viva pois o meu anjo da guarda.
21 Novembro, 2009
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A luz de tieta - Caetano Veloso (clica aqui)
Aprendamos amor
o que é eisso do cheiro a liberdade

ouço algures a expressão cheiro a liberdade e ponho-me a pensar que cheiro pode ter a liberdade. estranho. a frase é quase um clichet e no entanto o que quer realmente dizer? eu gosto do cheiro a café a mar e a maresia e também do cheiro a terra molhada quando chove... hoje choveu e eu não dei pelo cheiro a terra molhada. poucas vezes cheira a terra molhada em lisboa. e é pena porque quase sempre que chove quando estou na rua estou lá. metade da minha vida activa passa-se por lá. de segunda a sábado muitas vezes. e o cheiro da terra molhada faz-me bem. acho que o cheiro a liberdade também me faria. acontece que eu não sei mesmo a que cheira a liberdade. mas se alguém souber por favor diga-me. é que eu gostava tanto de um cheirinho assim. não o sinto se calhar porque não estou presa a nada ou a coisa nenhuma ou se calhar estou mas não dou por isso o que vem a dar no mesmo. quem corre por gosto não cansa também se diz. nem prende. conheço gente que quando vai de férias diz que se sente em liberdade. eu sinto que estou de férias. suponho que esse é o ponto. talvez eu esteja a sonhar menos do que devia mas o facto é que me sinto tão completamente cheia de sorte (apesar da arca frigorífica acabadinha de avariar e provavelmente sem conserto devido aos anos de uso) quando olho para o lado e percebo a quantidade de pessoas que estão em situações trágicas... talvez se eu conseguisse cheirar a liberdade fosse um pouquinho demais.
20 Novembro, 2009
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Jorge Palma - À Espera do fim (clica aqui)
Dois rumos

| Mentir, eis o problema: minto de vez em quando ou sempre, por sistema? Se mentir todo dia, erguerei um castelo em alta serrania contra toda escalada, e mais ninguém no mundo me atira seta ervada? Livre estarei, e dentro de mim outra verdade rebrilhará no centro? Ou mentirei apenas no varejo da vida, sem alívio de penas, sem suporte e armadura ante o império dos grandes, frágil, frágil criatura? Pensarei ainda nisto. Por enquanto não sei se me exponho ou resisto, se componho um casulo e nele me agasalho, tornando o resto nulo, ou adiro à suposta verdade contingente que, de verdade, mente. (Carlos Drummond de Andrade) |
amanhã quem sabe...

às vezes as coisas parecem acontecer porque as chamamos quer dizer falamos delas e quando não aconteciam passam a acontecer. é assim a vida. um dia destes dizia por aqui que não há o hábito de cumprimentar pessoas que vemos todos os dias. cruzamo-nos todos os dias. e foi preciso um rapaz de sorriso brilhante para eu me aperceber que isto acontece. porque o rapaz me desejava um belo bom dia. hoje uma rapariga preta de calças de ganga e blusa rosa choque ao cruzar-se comigo na rua desejou-me um bom dia. não me lembro de a ter visto antes mas se calhar passo por ela tantas vezes que ela decidiu desejar-me um bom dia. quando lhe respondi já ela tinha passado por mim. a ver se da próxima vez me antecipo. acho que vou começar a desejar um bom dia a todos aqueles com que me cruzo diariamente ainda que corra o risco de me acharem louca. afinal os que me são próximos acham mesmo que eu sofro de uma boa dose de loucura por isso adiante. se tenho fama mais vale ter também o proveito não é? e a caminho da ual na avenida duque de loulé mais precisamente junto ao edifício da tap está um engraxador com uma belíssima caixa vermelha e com pomadas para todos os gostos. na ida não tinha qualquer cliente e eu pensei que se calhar ele não se safava muito bem na sua profissão porque muita gente passou a usar ténis como eu que não quero outro calçado. mas afinal o homem escolheu bem o sítio. afinal em frente à tap está a edp. são duas empresas com muitos funcionários que não se podem dar ao luxo a que eu me dou de me calçar como muito bem entendo. e como a semana não acabou para mim o resto fica para amanhã quem sabe...
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