31 outubro, 2009

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os chicólatraschicobuarque ";Mas levo esse amor Com o zelo de quem leva o andor; Eu velo pelo meu amor; Que sonha"

Outra vida - João Afonso (clica aqui)


Quero ser noutra vida mensageiro de emoções
Porta-voz de ondas, tradutor de ilusões
Ser menos ainda que um pequeno carreiro
Descobrir o mistério do Universo inteiro
Emprestar a vida, descobrir quem sou

Só nos pertence o gesto que fizemos

Só nos pertence o gesto que fizemos
não o fazê-lo como, iludida,
a divindade que em nós já trouxemos
supõe errada (e não) por convencida.

Porque o traçado nosso em breve cessa,
para que outro o recomece e não progrida;
que um gesto em ser gesto real se meça,
não está em nós fazê-lo, mas na Vida.

Assim o nada a sagra quando finda
porque o que é, só é o não ainda.

(Vergílio Ferreira)

em vez de escrever

hoje estou que não me entendo tal como a canção de rui veloso. é por isso que decidi que hoje não escrevo. não sei o que me apetece. ou melhor sei. apetece-me abrir a janela e começar a voar sobre o tejo até lisboa e olhar a cidade de cima bem iluminada (será que a ponte está iluminada?) e passar pelo terreiro do paço a ver se está como antes quando havia o cais das colunas (será que já o repuseram?) e continuar por cima do arco da rua augusta e sentir a cidade... não a cidade por aqui está morta. mais morta do que eu. há muitos anos que lisboa morreu mas ninguém deu por nada. é que durante a semana é percorrida por milhares de pessoas que ali trabalham. mas à noite e aos fins de semana a cidade morre. portanto está decidido que visto o cais das colunas volto pela 24 de junho. mais tarde que agora também o movimento dos bares ainda não começou. talvez poise no english a fazer tempo. mas não posso beber nada porque depois não conseguirei erguer-me de novo no ar. terei cuidado claro e depois mais tarde muito mais tarde já de madrugada hei-de voltar só como sempre ao lugar que me pertence. e hei-de adormecer satisfeita e cansada do voo. é isto que eu vou fazer. em vez de escrever.

30 outubro, 2009

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os chicólatraschicobuarque "Eu sou seresteiro, poeta e cantor; O meu tempo inteiro só zombo do amor"

Formiga Bossa Nova - Adriana Calcanhoto (clica aqui)

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Nossa memória


Nossa memória sempre foi a memória
dos monstros nosso enigmático testamento
de altas labaredas sempre foi
o caminho
devastado pelo sangue pela circuncisa memória
dos mortos pelo perfil
dos astros — nossa colorida volúpia
sempre foi dos monstros
a mais crua linguagem húmida fuga
desolada
através do tempo através do medo
de não sermos belos de não sabermos
esculpir na cinza o sopro
de tanta luz tão prostituída —

(Casimiro de Brito)

não se perdia nada

depois de anos e anos a vivermos como se fossemos ricos alguém responsável vem dizer com todas as letras o que há muito tempo todos sabemos. que este país como o resto do mundo gasta mais do que ganha. que se instalou a noção de que é normal ser desonesto xico esperto burlão desde que isso signifique tornar-se rico. há muitos anos que vejo gente a enriquecer e a ser idolatrada por ter enriquecido rapidamente. sempre que me falam em casos desses respondo ninguém fica rico a trabalhar. e por falar em ficar ou não rico a trabalhar deixem-me aqui desabafar. é que um senhor com o nome francisco (será por isso que se tornou também esperto?) com um apelido estrangeiro vem dizer que se o salário mínimo aumentar como tinha ficado assente em concertação social o desemprego irá aumentar. será que o senhor vanzeller faz ideia de como se pode viver com € 450,00 em portugal? será que o senhor quer continuar a enriquecer à curta dos salários dos trabalhadores? como quer este senhor que aumente a produtividade neste canto quase esquecido do mundo com salários de miséria? para o quadro que faço deste senhor já quase só me falta vê-lo envolvido em redes de escravatura branca como aquelas que se têm vindo a descobrir de trabalhadores levados para espanha e mantidos em cativeiro vigiados de sol a sol sem salários e subalimentados. assim não custa ficar rico. tudo isto me enoja. por isso hoje achei que as palavras de hernâni lopes nem sequer foram tão duras quanto deviam. se em vez de porcaria tivesse dito merda não se perdia nada.

29 outubro, 2009

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os chicólatraschicobuarque "Eu nasci sem sorte; Moro num barraco; Mas meu santo é forte; E o samba é meu fraco"

Canto Moço - José Afonso (clica aqui)


Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.

Quero

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

(Carlos Drumond de Andrade)

a tribo cresce

mais um dia feliz. o manel nasceu esta madrugada. a tribo ganhou um novo membro. como diria a minha avó materna bonito como todos na família. é claro que não é verdade. esta tribo não é diferente de nenhuma outra. tem gente linda e gente feia como tem gente boa e gente ruim (a principal eu) um dia destes conto a estória do "principal eu" que é uma das muitas que preencheram a minha infância. é verdade que a mãe penou muito para que ele nascesse mas em compensação o manel quer é paz e sossego e não tenho bem a certeza se ele não chora porque é valente ou se é preguiçoso como eu e não se dá ao trabalho de chorar. mas a verdade é que quando o vi nos braços da mãe chorei. aflita ela dizia então tia que é isso. mas eu choro facilmente. tanto de raiva quanto de alegria. já de dor não choro. passo meses e anos até entupida com uma dor. o nó na garganta aperta-se mas eu não choro. de dor não. voltando ao manel. soube que ele tinha nascido mal liguei o telemóvel de manhã. e pensei para mim hoje é o dia em que o rapaz do sorriso luminoso não vai no mesmo comboio que eu mas não faz mal porque dentro de mim há uma nova luz. podem achar que eu sou piegas e tonta e tudo o que se quiser. eu mesma também tenho essa opinião. mas a verdade é que o grande milagre aquele em que eu acredito de verdade é o do nascimento. a ensombrar a chegada do manel (sê muito bem vindo) a dor de não estares presente para o conhecer mana velha. mas se as coisas são como tu acreditavas que seriam com certeza já o conheceste. quem sabe ele está tão caladinho por isso. eu confesso que adorei a sensação sempre nova de embalar um recém nascido. foi pois mais um dia feliz. a tribo cresce.

28 outubro, 2009

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os chicólatraschicobuarque "Quem é essa mulher; Que canta sempre o mesmo arranjo?; Só queria agasalhar meu anjo; E deixar o seu corpo descansar"

Chuvas de cabo verde - Sérgio Godinho e Tito Paris (clica aqui)


Beleza de Cabo Verde
está na maneira de olhar
árvore que tinha sede
foi-se também emigrar
nela encostado, o emigrante
trinca do fruto da morna
não há nenhum que não cante
a vez em que à terra torna


Sobre a palavra


Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece

Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama

Assim se morre dizias tu
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura

Na porosa fronteira do silêncio
a mão ilumina a terra inacabada

Interminavelmente

(Eugénio de Andrade)

o dia nasceu feliz

sou escorpião como tu. mas se calhar sou mais refinada ou terá a ver com o meu mau feitio. pois já sabes amigo do peito. eu sou assim. engulo engulo engulo e um dia acabou-se. é por isso que hoje que celebras o teu 52º aniversário eu me mantive muito caladinha. nada de chamadas telefónicas. nada de sms. deixei-te uns mimos no facebook. nada comparado com aqueles com que me costumas brindar. foi o que se pôde de arranjar. o teu filho como todo o filósofo deixou-te algo mais criativo. será que ele é como eu e prefere o antes ou depois dos dias? andava há dias a matutar se devia ou não de fazer como todos os anos e telefonar-te. mas afinal se tu só te lembras do meu aniversário quando alguém (e eu sei bem quem) te lembra porque raio hei-de continuar a fazer figura de parva? não meu amigo. lembro-me de ti todos os dias. fiquei muito contente ontem quando te descobri aqui entre a meia dúzia de pessoas que pelos vistos não só me lêem como me entendem (o que é muito mais difícil). mas tu sempre estiveste entre aqueles que estão no meu coração. mesmo quando não estamos de acordo (e são tantas as vezes não é?). mesmo quando se passam meses sem que dês um ar da tua graça quando passas aqui pela cidade. eu sei. também sei que tens muitos amigos. bem sei que és muito atarefado. mas ainda não perdi a esperança de te ouvir dizer agora vou parar um pouco e voltar a escrever ao teu lado. aqui. onde o tempo é quando. parabéns amigo. o dia nasceu feliz. que sejam assim todos os dias da tua vida. à tua saúde.

27 outubro, 2009

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Ondjakiondjaki "não esqueças nunca / o gosto solitário / do orvalho" [matsuo bashô] - que saudades de te ter conhecido, senhor poeta...

Brand New Day - Sting (clica aqui)

How many of you people out there
Been hurt in some kind of love affair?
And how many times did you swear
That you’d never love again?
How many lonely, sleepless nights?
How many lies, how many fights?
And why would you want to
Put yourself through all of that again?
Love is pain I hear you say
Love is a cruel and bitter way of
Paying you back for all the faith you ever had in your brain

Se cada dia cai


Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

(Pablo Neruda)

à espera de um sorriso

ontem não dei conta aqui de uma nova etapa da minha relação com o rapaz que ilumina o meu dia com o seu sorriso. pois é. mas desde ontem que o rapaz do sorriso me cumpri menta com um belo bom dia seguido do seu sorriso que torna mesmo os dias como o de hoje enevoados completamente iluminados. respondo com o meu bom dia seguido do meu sorriso gasto. olho o rapaz e lembro os meus filhos naquela idade. a adolescência que é geralmente um período tão difícil para todo o ser humano não parece afectar este rapaz. podia não sorrir uma vez por outra quando me vê. podia até fazer de conta que não me vê. pelo menos naqueles dias em que estará menos bem disposto por se levantar tão cedo. mas não. o rapaz do sorriso é isso mesmo. mais do que um belo rapaz com uma bela black power é um sorriso. ele é o sorriso. e durante cerca de um quarto de hora ele acompanha-me com o seu sorriso. e chego ao emprego e tudo me parece mais leve. há um dia na semana em que não o vejo. terá aulas a outra hora ou sei lá. nem sei se vai para as aulas. afinal não faz muito sentido morar na linha de cascais e ter aulas na linha de sintra. mas pode ser. algum curso profissional. o rapaz lá segue tão magro quanto sorriso. espero que o manel não esteja a dar muito trabalho para nascer. e espero que tenha um sorriso assim. que ilumine os meus dias também.

26 outubro, 2009

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os chicólatraschicobuarque "O que será ser moça; E ter vergonha de viver"

O Homem do Leme - Xutos & Pontapes (clica aqui)

E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

Se a luz tivesse beiços

Se a luz tivesse beiços rir-se-ia
de quem fecha os olhos para ver
do claro dia apenas sombra e esquivando o perigo
de uma relação íntima com a dúvida

não ousou nunca
dar-lhe o braço, para não sentir
o corpo dela a enlaçar o seu, e provar-lhe
da carne o inesperado gosto.

(Júlio Pomar)

parece que sim

ser católico ateu ou islamita não é defeito. é uma forma de estar na vida. juro que este assunto do saramgo tenho andado a evitar. como evitei com a maité. é que ouço tanto burburinho que acabo por pensar que não posso ficar na minha concha e fazer de conta que nada acontece. afinal as poucas pessoas que me seguem merecem-me tanto respeito quanto os milhares que seguem estes assuntos. começar por dizer que quer se goste ou não do escritor saramago (fique registado que eu gosto) há que admitir que o homem precisa tanto de levantar outra polémica com a igreja para vender livros como eu de sarna para me coçar. é perfeitamente idiota esta afirmação. quanto ao resto pois. polémicas à parte a bíblia no seu antigo testamento não são escrituras como muito bem afirma o meu amigo zé do mar mas oraturas. cada um lê e interpreta como quer. é assim uma espécie de quadro pós moderno daqueles completamente em branco e com um nome bonito? francamente não sei. há anos que me propus ler o tal livro mas há tanta coisa mais interessante no mercado que francamente... e afinal estar a ler um livro onde tanta gente meteu o bedelho e que provavelmente foi alterado e revisto milhares de vezes ao longo dos anos... para ser franca não me apetece. eu sei que devia. mas então. é uma preguiça que me dá. prefiro ler o antónio ou o joão lobo antunes. prefiro ler saramago. prefiro ler ana luisa amaral. prefiro ler tantas outras coisas que me falam do tempo que é meu. ter uma religião é acreditar em algo. estar ateu é acreditar em si mesmo e no homem. nada disto é suficientemente importante para levantar tanta polémica. afinal de contas muito piores foram as declarações do aníbal (essas sim bem graves) e dois dias depois já ninguém falava no assunto. será que saramago enquanto homem e figura pública é mais importante que o pr? parece que sim.

25 outubro, 2009

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os chicólatraschicobuarque "Te perdôo; Te perdôo porque choras; Quando eu choro de rir; Te perdôo; Por te trair"

Não queiras saber de mim - Rui Veloso (clica aqui)

Dança tu que eu fico assim
Porque eu estou que não me entendo
Não queiras saber de mim
Hoje não me recomendo

Amanhã eu sei já passa
Mas agora estou assim
Hoje perdi toda a graça
Não queiras saber de mim

Ode aos gatos

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

(José Jorge Letria)

os pássaros

o tempo é quando e afinal chegou-se à conclusão que o Manuel tinha razão. ainda não é chegado o dia. que culpa tem ele que queiram programar contra a natureza? nenhuma. por isso aqui ficam desde já as minhas desculpas e todo o meu amor. e foi pensando nesta coisa do nascimento que para mim é um milagre verdadeiro e único que me dirigi como de costume ao meu lugar preferido para como diz o meu amigo B inspeccionar o voo dos pássaros. esses pássaros tão extraordinários que são as gaivotas que inspiraram e fizeram do filme com o mesmo nome um dos maiores da carreira de Hitchcock. e claro que como ando sempre desligada das coisas "importantes" desta vida sossegada que levo fui surpreendida pela corrida do tejo. agora são tantas as vezes que a marginal é fechada ao trânsito que eu nunca sei como será naquele dia. neste dia quero dizer. pois como menina bem comportada lá fui caminhado sendo às vezes interrompida nos meus filosóficos pensamentos sobre o milagre da vida por umas bandas que assassinavam as canções enquanto a malta das corridas tinha que gramar tudo aquilo. pois é. se eu me tivesse lembrado que o zézinho gosta destas corridas e de se misturar com a multidão e ser fotografado com admiradoras juro que tinha ficado para tirar também um foto com ele. mas como ando mais do que desligada dos pormenores que realmente interessam a todos (pelos vistos menos a mim) lá parti com pena de não ter visto gaivotas. os pássaros B. os pássaros.

24 outubro, 2009

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Ondjakiondjaki rumores de longínqua maresia/ os modos calmos do azul -entre o breve suor da madrugada e o calor secreto da mão por abraçar. | quando...?

O meu guri - Chico Buarque (clica aqui)

Chega estampado
Manchete, retrato
Com venda nos olhos
Legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente
Seu moço!
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato
Acho que tá rindo
Acho que tá lindo
De papo pro ar
Desde o começo eu não disse
Seu moço!
Ele disse que chegava lá


Sono

Dormir
mas o sonho
repassa
duma insistente dor
a lembrança
da vida
água outra vez bebida
na pobreza da noite:
e assim perdido
o sono
o olvido
bates, coração, repetes
sem querer
o dia.

(Carlos de Oliveira)

a ver vamos

melhor será mesmo mudar de assunto manel. deixaste-me o dia inteiro à seca e nem água vai nem água vem. teimas em ficar por aí. ainda nem nasceste e já mostras que és escorpião e homem. e eu não estou a gostar nada mas mesmo nada dessa tua atitude de quero posso e mando. afinal mandam as regras da boa educação que alguma coisa tivesses dito não achas? pois. pelos vistos não achas mesmo. o que eu sei é que estava convencida de que hoje poderia ter tirado a barriguinha de misérias e fotografado o membro mais novo da família e tu não te deste nem ao trabalho de dar uma explicação para essa recusa em aparecer. sabes que não vais ganhar a parada. quer queiras quer não hás-de vir a este mundo. com maior ou menor sofrimento da tua mãe. estou muito muito zangada contigo manel pelo que estás a fazer passar a tua mãe. estou tão zangada tão zangada que tudo o que eu queria neste momento era ser eu a aplicar-te a primeira palmada. não sei porquê mas quer-me parecer que não hás-de chorar só por embirração. ai balha-me deuje que até parece que me estou a ver ao espelho. tu vê lá meu menino olha que se continuas assim com esse mau feitio vais ter uma vida muito dura. olha que quem avisa amigo é. e eu sei do que estou a falar. sei o que me custam as minhas birras. eu sei. cada um é como nasce e ponto final. o pior é que a ti nem te apetece nascer. a ver vamos.

23 outubro, 2009

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chicólatraschicolatras "Quando seu moço, Nasceu meu rebento; Não era o momento; Dele rebentar"

Canção de Embalar - José Afonso (clica aqui)

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p'ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Eternidade

Vens a mim
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.

Nasceste agora mesmo. Vem comigo.

(Jorge de Sena)

até amanhã meu amor

amanhã a família estará maior. o Manuel não quis nascer por vontade própria. diz ele que está muito bem onde está. coisas de quem sabe da vida. e como está ali muito aconchegadinho na barriga (barrigão balha-me deuje) da mãe não quer sair nem por nada. é assim como quem diz então convidaram-me para entrar e agora querem que eu saia? ainda por cima sei que lá fora o tempo está muito incerto. mas amanhã lá terá que ser Manuel. e olha que eu hoje estou muito contente contigo porque tu sabes bem como eu aprecio esse espírito de resistência essa personalidade forte e vincada (balha-me deuje a quem "puxarás"?) e é por estar muito muito contente com essa tua atitude rebelde que escrevo o teu nome com maiúsculas. vai-te habituando meu menino que o mundo aqui fora é feito de minúsculas. o pessoal é que anda distraído e ainda não deu por isso. mas vai por mim que sei o que digo. seja com for meu querido podes confiar em mim e nascer porque a tua mãe com certeza já nem pode dar um passo. (isto sou eu a fazer chantagem contigo). é claro que ela está bem mas ansiosa por te conhecer. sim. é que estas modernices das ecografias não dão para ver bem o teu rosto. e a gente quer mesmo ver se és lindo como a tua mãe e comprido como o teu pai. isso é que seria uma bela combinação. mas se for ao contrário não te preocupes que não tens nada de que te envergonhar. estamos todos cá. somos a tua família. e estamos prontos para te receber com muito amor e alegria e fazer de ti um rapaz de princípios e carácter. até amanhã meu amor.

22 outubro, 2009

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Chicólatraschicolatras "Eu vou rasgar meu coração; Pra costurar o teu"

Retrato de um play boy -Gabriel o Pensador (clica aqui)

É até engracado
Eu não decido nada, pela moda eu sou guiado
Adoro reggae, mas não sei o que Bob Marley diz
E se eu soubesse talvez não fosse tão infeliz
Mas eu sou um otário, a minha vida não presta,
Inteligencia? Não tenho, a burrice é o que me resta
Então agora dá licença que eu vou parar
Minha cabeça tá doendo, eu vou descansar
Este lugar já está fedendo. Quem mandou eu pensar ?

Agora mesmo

Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado
Está gente a morrer e nós também

Está gente a despedir-se sem saber que para
Sempre
Este som já passou Este gesto também
Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante
Tu próprio te despedes de ti próprio
Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
Já estás diferente neste verso e vais com ele

Os amantes agarram-se desesperadamente
Eis como se beijam e mordem e por vezes choram
Mais do que ninguém eles sabem que estão a despedir-se

A Terra gira e nós também A Terra morre e nós
Também
Não é possível parar o turbilhão
Há um ciclone invisível em cada instante
Os pássaros voam sobre a própria despedida
As folhas vão-se e nós
Também
Não é vento É movimento fluir do tempo amor e morte
Agora mesmo e para todo o sempre
Amen

(Manuel Alegre)

o amor que me faz bem

ouvir antónio lobo antunes deixa-me sempre com a sensação de que o amo mais e mais. todos os dias. ele nunca se repete. qualquer frase que diga por curta que seja se transforma em poema. deixa-me em extâse. mais uma vez vem dizer que não está interessado em escrever estórias. e ainda bem porque para escrever estórias há muitos escritores. mas para escrever poesia em prosa ele tinha que existir. ele inventou uma nova forma de escrever. mas não sabe disso. ele inventou a ternura mas não sabe disso. ele inventou-me e a deus e ao universo. antónio lobo antunes é quase o meu génio de estimação. se gostaria de o conhecer pessoalmente? o melhor é mesmo não. talvez como ele mesmo diz sofresse uma desilusão. o que eu amo realmente é a sua escrita. o que eu amo realmente é a ideia que faço dele. é como quando nos apaixonamos por alguém e não conseguimos por isso conhecer a pessoa. é esse estado de fantasia que nos deixa com os pés no ar (que saudades eu tenho de me apaixonar!) se por acaso chegamos a conhecer alguém a coisa torna-se complicada. porque passamos a ver todos os seus defeitos e virtudes. a imaginação perde-se com a fantasia. e eu não quero perder esta ideia que me faz amar o escritor. e como não amar um homem que nos vem dizer que beija os amigos? agora. beija os amigos. e percebeu que é bom beijar um homem. como não amar este homem... voltarei a falar do antónio quando tiver lido a sua último escritura. até lá... que se prologue a minha paixão. é só o que desejo.

21 outubro, 2009

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chico buarquechico_buarque "O olhar de uma mulher faz pouco até de Deus; Mas não engana uma outra mulher"

It's Raining Again - Supertramp (clica aqui)

You're old enough some people say
To read the signs and walk away
It's only time that heals the pain
And makes the sun come out again
It's raining again
Oh no, my love's at an end.
Oh no, it's raining again
Too bad I'm losing a friend

Chove. Há silêncio

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...

(Fernando Pessoa)

abençoada chuva que nos aproxima

a chover como deve ser. foi assim que saí de casa pela manhã. pois a coisa parece que vai continuar e afinal os dias de chuva têm tanto direito à existência quanto os dias de sol. venha pois a abençoada água que tanta falta faz. por alguma razão as cheias são a grande alegria dos ribatejanos. na tentativa de não me suicidar na passagem para a estação de alcântara "colo-me" a um calmeirão tão alto quanto largo quase um quadrado quando olhei para cima achei que tinha cara de menino e quando olhei para baixo percebi que andava como os patos. mas a verdade é que não esteve com meias medidas e avançou rua fora (e eu com ele que posso ser pequena mas de parva não tenho nada) e "obrigou" os carros a parar. e eu feliz contente ia pensando se algum avançar primeiro bate nele. seja como for hoje foi mais um dia em que escapei daquela roleta russa. no comboio já estava sentado o rapaz do sorriso luminoso. lia o jornal e não me viu pelo que por hoje perdi o seu sorriso. mas amanhã é outro dia. chegada ao local do trabalho pouco menos que encharcada veio a admiração dos colegas. como é que ficaste assim se não está a chover? lá tive que explicar que não tinha chovido ali. mas por aqui sim. depois o tempo até parecia que ia sorrir mas quando saí para a rua depois do almoço chovia de novo desabaladamente. enquanto toda a gente se deixou estar sossegadinha eu decidi voltar ao trabalho até porque a chuva não estava com cara de que ia parar daí a pouco. e foi assim que de repente à minha frente estava alguém com um chapéu de chuva. alguém que me dizia estás doida ainda te constipas a apanhar chuva dessa maneira anda que eu levo-te. estava a uns cinco metros da porta do meu local de trabalho mas valeu pela gentileza e simpatia. afinal nesta cidade existe mais do que um rapaz capaz de iluminar o meu dia. se bem que este não é tão rapaz assim...

20 outubro, 2009

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chico buarquechico_buarque "Quando ela mente; Não sei de ela deveras sente; O que mente pra mim"

Rain - The Beatles (clica aqui)

I can show you that when it starts to rain,
Everything's the same,
I can show you, I can show you.
Rain, I don't mind,
Shine, the weather's fine.
Can you hear me that when it rains and shines,
It's just a state of mind,
Can you hear me, can you hear me?

Um dia de chuva


Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.

(Alberto Caeiro)

foi um bom dia

o verão foi embora quase sem aviso prévio. quer dizer os meteorologistas avisaram mas ninguém estava muito crente no que diziam. afinal ainda é uma assim uma espécie de profissão de bruxos que a gente não pode acreditar de olhos fechados. pensando bem em que podemos acreditar de olhos fechados? antes de sair de casa olhei pela janela. o dia estava tão escuro que parecia ser de noite. tive que olhar várias vezes para o relógio para ter a certeza que não estava a sair de casa umas horas mais cedo que o habitual. pensei se iria ou não de bicicleta. voltei a olhar pela janela e decidi que chovia muito. por isso o melhor era mesmo ir de bicicleta. pode parecer uma idiotice mas a verdade é que a melhor maneira de apanhar uma molha mais ou menos moderada é mesmo sair de bicicleta. rapidamente me ponho na estação. não perco tempo à procura de lugar para o carro e sobretudo não o deixo tão longe da estação que levo mais tempo a lá chegar do que de bicicleta o percurso inteiro. seja como for. a chuva caía muito forte e quando cheguei à estação de alcântara terra pousei a mochila num banco para despir a capa de chuva para que pudesse escorrer à vontade sem incomodar ninguém. logo de seguida apareceu o rapaz do sorriso luminoso que me deu o seu habitual bom dia. e não é que foi mesmo um bom dia?