31 maio, 2010

Quando eu for pequeno

Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou
[pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

(José Jorge Letria)

não agora mãe


agora um pouco mais tranquila quanto à saúde de dionísio. afinal valeu a pena. só para o ver aqui na minha frente nadando tranquilamente. o stress passou. o dele. o meu melhorou. afinal estou de férias e é meio caminho andado para me sentir mais calma. o outro meio é fácil. o sol e a praia deserta. poder dormir o que quero gozar o sol e o mar que mais para ficar realmente tranquila... falta-me ver a minha mãe um pouco melhor. assusta-me ver a decadência dia a dia. tenho medo de a perder. não quero. faz parte de mim ainda que toda a vida não nos tivéssemos entendido os últimos tempos compensaram todos esses desencontros. acabámos por perceber que afinal não há nada mais forte que os laços que nos prendem esses laços que sinto que agora que estavam a tornar-se nós se vão desatando... essa ausência que vejo nos teus olhos mãe. ter que te pedir um beijo porque não sabes que sou eu que estou ali. e depois percebes e beijas. muito. mas eu sei que há-de chegar o dia em que não entendes um pedido tão simples como mãe não me dás um beijo? não quero que esse dia chegue. não quero sentir que te afastas um pouco mais todos os dias mãe. não me deixes só. por favor. não agora mãe.

27 maio, 2010

o melhor do twitter

Ondjakiondjaki [e pisou a PraiaDoBispo, outra e outra vez, com uma voz silenciosa que gritava azuladamente em busca de uma certa infância - e o céu também]

Doce sal - Danni Carlos (clica aqui)

Se a solidão vier, tenta se apaixonar
Vivendo dia a dia, deixando rolar, é.
Mas tem que ser alguém que valha a pena amar
Mentira por mentira eu prefiro ficar só...
Sem você... Sem ouvir, nem dizer
Porque acabou-se o que era doce virou sal!
O mundo continua indo e vindo, é natural

e ao anoitecer


e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

(Al Berto)

plantar uma árvore

é a primeira coisa que faço quando chego a casa. mudo de roupa para me sentir ainda mais confortável. logo a seguir vou tratar das minhas árvores e depois das plantas. nos últimos dias ando encantada com o nascimento do primeiro bonsai que plantei. uma laranjeira que está a nascer e a crescer dia a dia. de manhã também não resisto a espreitar o seu crescimento antes de sair para o trabalho e finalmente percebo aquela de que não se fala há muito tempo naturalmente porque a tradição já não é o que era. qualquer coisa como um homem só está completo quando fez um filho escreveu um livro e plantou uma árvore. agora já só me falta o livro. que julgo não escreverei porque para tanto é preciso talento. mas só o facto de perceber que um simples caroço de laranjeira bonsai está a brotar da terra e me vai oferecer uma nova árvore... acho que o meu entusiasmo neste momento é tão grande que vou plantar mais bonsai. espero que a oliveira dê frutos para repetir a experiência. e vamos a ver o que dá a nespereira... essa será uma experiência diferente que contarei se tiver sucesso. porque só assim poderá ser contada claro. e assim vou tentando compensar a solidão. é claro que o dionísio manuel está sempre à minha frente. tenho que lhe arranjar companhia rapidamente. é que ele não pode plantar um bonsai...

26 maio, 2010

o melhor do twitter

Chico Buarquechico_buarque "A dor é tão velha que pode morrer"

Dancemos no Mundo - Sérgio Godinho (clica aqui)

Eu só queria dançar contigo
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó
dançar como amigo só
Por ódio passado
que seja maldito
amor favorito
não tem importância
se for é de circunstância

Diz homem, diz criança, diz estrela


Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

(Eugénio de Andrade)

balha-me deuje.

queria contar o que os noticiários não informaram. queria dizer que pela primeira vez na sua já longa história os trabalhadores do organismo onde estou há 11 anos uniram-se e concentraram-se em frente ao edifício principal para exigirem mais uma vez entre outras coisas serem recebidos e obterem resposta a anseios antigos e novos. durante uma hora fomos todos amigos. quero dizer. os que se atreveram a estar presentes. porque ainda há muita gente que tem medo de dar a cara e prefere esconder-se por trás de uma capa de sim senhor ministro para não arriscar nada. se bem que eu ainda não percebi o que podem ter ainda a perder. adiante. como de costume os dirigentes não estavam presentes. apesar de saberem que a concentração estava agendada e meio dia de greve. não estavam. mas quiseram saber de manhã quem aderia à greve de tarde. para quê não sei. é que eu tenho o hábito de informar o serviço de pessoal que faço greve. não vão pensar que estou doente prefiro que pensem outras coisas. o que quiserem. e quanto pior melhor. mas entre a malta também estava pelo menos uma pessoa que ocupa um lugar de directoria. alguém que disse aos seus subordinados que se não estivessesm presentes na concentração e não fizessem greve não valia a pena irem queixar-se de falta de pessoal e excesso de trabalho. haja alguém de coragem e bom senso. mulher pois claro. queria contar tudo. mas ouvi há pouco na televisão alguém largar boca fora um "à séria" e fiquei mais uma vez com os cabelos em pé. balha-me deuje.

25 maio, 2010

o melhor do twitter

Chico Buarquechico_buarque "A felicidade morava tão vizinha; Que, de tolo; Até pensei que fosse minha"

With or without you - Danni Carlos

My hands are tied, my body bruised
She got me with
Nothing to win and
Nothing left to lose

And you give yourself away
And you give yourself away
And you give
And you give
And you give yourself away

Poeminha sobre o tempo

O despertador desperta,
acorda com sono e medo;
por que a noite é tão curta
e fica tarde tão cedo?

(Millôr Fernandes)

um dia perfeito

o dia valeu a pena. afinal há dias em que vale a pena sair de casa apesar das nuvens apesar da chuva apesar do vento apesar... o trabalho a correr sobre rodas nada de avarias informáticas. o outlook aberto e eu olhando de soslaio à espera do email que me diria se o resultado dos últimos exames seria positivo. chegou por volta do meio dia ufa até que enfim já estava a desesperar mas afinal acabei posso pensar em ir mais adiante ou melhor vou mais adiante e depois penso nisso. assim é que eu funciono. se penso muito não faço nada. é dar corda ao instinto e está feito. depois o resto da tarde tranquilo. adormeci no metro e por pouco entrava no túnel final do cais do sodré. cansada sim mas feliz. e apesar do vento a bicla voa e em menos de nada estou em casa onde me aguarda um novo amigo. olho-o de frente e de lado. é um presente do meu neto. é cego mas pouco importa. penso que o mais importante será dar-lhe um nome. olho-o de novo e o primeiro nome que me vem à cabeça é dionísio. olho em frente neste momento e lá está. mas há pouco acrescentei-lhe um nome e eis que o meu companheiro se chama dionísio manuel. exactamente. assim quando estiver de bem com ele chamo só pelo primeiro nome e se ele se portar mal (o que é muito pouco provável) chamo pelos dois. levou algum tempo a habituar-se ao novo habitat mas agora está tudo bem. só lhe falta uma companheira. e eu vou tratar disso rapidamente.

24 maio, 2010

o melhor do twitter

Ondjakiondjaki receita para evitar (mais) estragos internos: quietude...

One of Us Cannot Be Wrong - Leonard Cohen (clica aqui)

I showed my heart to the doctor
He said I'd just have to quit
Then he wrote himself a perscription
and your name was mentioned in it
then he locked himself in a library shelf
with the details of our honeymoon
and I hear from the nurse that he's gotten much worse
and his practice is all in a ruin.

Walking around


Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.

Todavia, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.

Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas.

(Pablo Neruda)

carta aberta a helena andré

exma senhora ministra espero que esta a vá encontrar de boa saúde e sem insónias. quero também pedir desculpa desde já pela falta de vírgulas e de maiúsculas mas as teclas saltaram e eu não ganho o suficiente para substituir o teclado. mas estou muito esperançada com futuro. afinal a possibilidade de trabalhar durante dois meses quarente e cinco horas semanais só pode trazer-me benefícios tal como teve a bondade de me elucidar hoje via intranet. é claro que eu ainda não tinha percebido as vantagens que esta medida me traz. mas agora depois dos seus esclarecimentos estou muito mais descansada. estou certa que trabalhando quarente e cinco horas semanais dormirei muito mais tranquila uma vez que o trabalho dá saúde e eu às tantas sou doente embora não tenha ainda dado por isso. lamento realmente não ter agora que a senhora é ministra a possibilidade de tratá-la por lena como nos seus belos e esquecidos tempos de sindicalista. mas afinal estou certa que o facto de ter aceite este convite para o cargo que por ora ocupa veio trazer aos trabalhadores portugueses vantagens imensuráveis que não teriam obtido se no seu lugar estivesse uma outra pessoa qualquer sem uma cultura sindicalista. por isso estou aqui a agradecer a sua imensa bondade e disposição para me explicar a bondade das medidas que quer impor. é que eu sou assim um tantinho estúpida (não digo burra porque não quero ofender o nobre animal) e ainda não tinha percebido o alcance da sua generosidade. é por isso justo que me mostre agradecida senhora ministra. por hoje é tudo quem sabe amanhã nova medida excepcionalmente favorável aos trabalhadores me leve a escrever-lhe outra carta de agradecimento. com os melhores cumprimentos. a abaixo assinada.

23 maio, 2010

o melhor do twitter

Ondjakiondjaki "toma esta lágrima", murmurou Dissoxi. "É o resto de um desamor?", perguntaram. "Não. Deve ser do vento... Algum vento assim cá dentro..."

Não me deixe só - Vanessa da Mata (clica aqui)

Não me deixe só
Que o meu destino é raro
Eu não preciso que seja caro
Quero gosto sincero do amor

Fique mais, que eu gostei de ter você
Não vou mais querer ninguém
Agora que sei quem me faz bem

Não tenho para ti quotidiano


Não tenho para ti quotidiano
mais que a polpa seca ou vento grosso,
ter existido e existir ainda,
querer a mais a mola que tu sejas,
saber que te conheço e vai chegar
a mão rasa de lona para amar.

Não tenho braço livre mais que olhar
para ele, e o que faz que tu não queiras.
Tenho um tremido leito em vala aberta,
olhos maduros, cartas e certezas.

Neste comboio longo, surdo e quente,
vou lá ao fundo, marco o Ocupado.
Penso em ti, meu amor, em qualquer lado.
Batem-me à porta e digo que está gente.

(Pedro Tamen)

hyde park em santarém

estou a perder qualidades é o que é. atacada pela preguicite aguda dou três voltas na cama obrigando-me a descansar. e descanso um pouco mais. e depois há tanto tempo que não andava aqui por casa em pijama até ao meio dia. afinal a praia não é tudo. descubro novos prazeres bem simples e saborosos. faço o almoço com muita calma. é domingo e embora seja cada vez mais raro vez por outra há que cozinhar para a família. com calma. tomo o meu banho e almoçamos. os miúdos a enrolar a comida na boca. afinal tomaram o pequeno almoço há pouco tempo e não têm fome. seja como for sabe bem estar com os meus netos mesmo quando implicam um com o outro. faço ideia o que seria se estivessem sempre juntos. afinal a minha é uma grande família. o meu neto mais velho foi adptado pelos avós do mais novo e o mais novo foi adoptado pelos do mais velho. eu ganhei uma neta por ser irmã do meu neto mais velho e mais novo ganhou uma irmã por ser analogia com o irmão. adiante que já percebi que estão baralhados. fui buscar a minha mãe e fomos todos passar a tarde a casa do meu filho mais velho. faço de conta que estou no hyde park e deito-me na relva. digo à minha nora que é o meu primeiro dia de praia. afinal é o que fazem os londrinos ou os madrilenos. fazem dos parques das respectivas cidades a sua praia.

22 maio, 2010

o melhor do twitter

Ondjakiondjaki desenhou, na areia, os complexos gatafunhos que formavam uma imagem quase hipnótica. chamou-lhe tristeza. e julgou ser possível apagá-la...

Coisas que eu sei - Danni Carlos (clica aqui)

Coisas que eu sei
As noites ficam claras
No raiar do dia
Coisas que eu sei
São coisas que antes
Eu somente não sabia...
Coisas que eu sei
As noites ficam claras
No raiar do dia
Coisas que eu sei
São coisas que antes
Eu somente não sabia...

Sem corpo nenhum


Sem corpo nenhum,
como te hei de amar?
— Minha alma, minha alma,
tu mesma escolheste
esse doce mal!

Sem palavra alguma,
como o hei de saber?
— Minha alma, minha alma,
tu mesma desejas
o que não se vê!

Nenhuma esperança
me dás, nem te dou:
— Minha alma, minha alma,
eis toda a conquista
do mais longo amor!

(Cecília Meireles)

folclore

parece que o sol será de pouca dura. e estamos todos muito cansados de dias tristes e cinzentos como os políticos que por aí andam. uma semana inteira com más notícias. sem fátima e futebol parece que finalmente todos acordam para a realidade que nos toca e os dias que nos esperam que ainda que sejam de sol não deixarão de ser tristes e cinzentos como os dias de inverno. isto acreditando que mais cedo ou mais tarde a primavera há-de chegar... afinal o meu bonsai laranjeira está a despontar enquanto o outro já só tem dois frutos. isto não é qualquer coisa a que não se possa dar importância. nada como plantas e árvores para nos orientarem pelas estações do ano. à minha frente está a pequena oliveira. não sei se algum dia dará azeitonas mas espero que sim. e mesmo que isso não aconteça ela é uma bela árvore em ponto pequeno. tem o ar forte que eu gostaria de ver nos nossos governantes. ela é forte e segura de si. como uma árvore tem que ser. como todos devíamos ser. pena que não somos árvores. pena que não seja por nos vestirmos de verão que ele está aí. pena que tenhamos dado cabo do planeta com a aquiescência dos senhores do mundo que mais do que quaisquer outros nos incentivam a dar cabo do pouco que nos resta. embora pela frente até pareçam estar muito interessados no meio ambiente. mas é claro que nesta altura no meu país o que importa mesmo é o aumento de impostos de desemprego e de miséria. o resto é folclore.

21 maio, 2010

o melhor do twitter

os chicólatraschicolatras "É mais uma história de amor; Que outro me tome o lugar; Não está mais aqui quem chorou; Um outro que venha chorar"

Formiga Bossa Nova - Adriana Calcanhoto (clica aqui)

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.
Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.
Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

Poeminha sobre o trabalho

Chego sempre à hora certa,
contam comigo, não falho,
pois adoro o meu emprego:
o que detesto é o trabalho.

(Millôr Fernandes)

a minha notícia do dia

a noticia do dia que para mim é velha. os trabalhadores da segurança social serão os primeiros a serem chamados a fazer 45 horas semanais em picos de actividade num máximo de dois meses por ano e essas horas serão compensadas mais tarde quando for possível... esta é a notícia em traços gerais. não foi o correio da manhã que publicou a notícia. foi o jornal de negócios. para mim isto é importante. a ver. no meu local de trabalho de há uns tempos para cá todos os meses semanas e dias são picos de actividade. não me parece que nos seja dada a possibilidade de gozar mais tarde horas feitas em picos de actividade. o mal desta notícia é que todos sabemos que se está escrito que para tal é necessário o acordo do trabalhador também sabemos que é muito fácil pressionar os trabalhadores quer sejam ou não sindicalizados. o mal nestas coisas é abrir um precedente. e ele está aberto no sector privado logo também no público dada a convergência que tem vindo a ser feita entre os dois sectores. não sou contra esta convergência. estou contra o modo como tem vindo a ser feita. pega-se no pior do privado e aplica-se à administração publica. depois pega-se no pior da administração pública e aplica-se ao privado. porque é que a bitola é sempre medida por baixo? porque é que os senhores que deixaram portugal e a europa de rastos estão numa muito boa (tirando o bode expiatório do costume que foi preso) e quem paga as favas são os trabalhadores? em cinco anos a segurança social portuguesa perdeu 25% dos trabalhadores. gente com know how que faz muita falta. ninguém se lembrou de os incentivar a ficar. o que importa são os números. o trabalho aparece feito... ninguém parece interessado em saber se bem ou mal...

19 maio, 2010

o melhor do twitter

Chico Buarquechico_buarque "Vai cessar o som; A sessão já foi; Despertar é bom; Mas dói"

Palpite - Adriana Calcanhotto

To com saudade de você
Debaixo do meu cobertor
De te arrancar suspiros
Fazer amor.
To com saudade de você
Na varanda em noite quente
E do arrepio frio que dá na gente
Truque do desejo,
Guardo na boca o gosto do beijo

Eu sinto a falta de você
Me sinto só

Amo-te no intenso tráfego


Amo-te no intenso tráfego
Com toda a poluição no sangue.
Exponho-te a vontade
O lugar que só respira na tua boca
Ó verbo que amo como a pronúncia
Da mãe, do amigo, do poema
Em pensamento.
Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me no silêncio
Dos teus lábios.
Molda-me a partir do céu da tua boca
Porque pressinto que posso ouvir-te
No firmamento.

(Daniel Faria)

sonhos e outras coisas sem importância

que bom falar com amigos. amigos com quem quase não falo. sobretudo porque não gosto de telefonar. e é por isso que por mais que me lembre das pessoas tenho alguma dificuldade em ligar. mas ligou j primeiro e depois s que não vejo há anos e mesmo assim foi preciso um funeral para estar com ela. vive muito longe mas a verdade é que crescemos juntas e às tantas a distancia separou-nos e o facto de eu mesma ter estado durante anos rodeada de mar. muitos dos meus amigos actuais não sabem que eu vivi nos açores e que os meus filhos mais velhos nasceram ali. e foi bom durante algum tempo mas depois. depois. mar. tanto mar tanto mar como diz o chico. e eu que não sei viver sem mar comecei a pensar que era mar demais e gente de menos. as mesmas caras todos os dias. não é que por cá seja diferente. só a quantidade é diferente. digamos que há mais escolha. que as limitações são menores. que há um pouco mais do que falar. há mais gente e posso entreter-me a imaginar estórias diferentes para cada um. e contar por aqui as estórias que imagino. e que assim postas podem passar por verdadeiras. todos precisamos de um pouco de sonho. há quem invente os seus próprios sonhos e quem viva os sonhos imaginados por outros.

O Rio _ Marisa Monte (clica aqui)

Ouve o barulho do rio, meu filho
Deixa esse som te embalar
As folhas que caem no rio, meu filho
Terminam nas águas do mar
Quando amanhã por acaso faltar
Uma alegria no seu coração
Lembra do som dessas águas de lá
Faz desse rio a sua oração

18 maio, 2010

Revolução

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

orgulho-me de ser uma ovelha ronhosa.


não sei o que me deu para ouvir hoje o josé. digo isto só porque sei de cor todas as respostas a todas as perguntas. sei de cor o discurso. sabemos todos. afinal isto não está assim tão mal como se pensa estamos a pagar menos subsídios de desemprego e afinal há 600.000 desempregados. se se pagam menos subsídios quer dizer que cada vez há mais gente a viver pior uma vez que para além de continuarem desempregados agora não são subsidiados. isto óptimas noticias segundo o josé. e do ponto de vista dos gastos é claro que as notícias são muito boas. mas para quem está desempregado não me parece que sejam boas notícias. já sei que não posso fazer nada além do costume. participar em manifestações e fazer greve. também sei que são poucas as pessoas que o fazem. afinal não convém que o ministro das finanças não tenha razão quando diz que portugal não é a grécia. nós por cá somos assim a modos que um rebanho que adora dizer ao pastor que come mal mas antes isso que nada. fazer barulho? para quê? fazer greve? para quê? acabam sempre por ter razão pois seria necessário criar uma união de todos os trabalhadores para uma vez na vida abandonarem o rebanho. e os que mais se queixam são sempre os que menos se rebelam. tenho pena. tenho dó. eu até posso fazer parte do rebanho... só que sou a ovelha ronhosa. e orgulho-me disso.

16 maio, 2010

o melhor do twitter

Chico Buarquechico_buarque "Mas, finalmente é domingo; Naturalmente, me vingo; Eu vou me espalhar por aí"

Telegrama - Zeca Baleiro (clica aqui)

Hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria...

Os justos


Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

(Jorge Luis Borges)

saber e imaginação precisam-se


vi há pouco um programa sobre a morosidade da justiça. acontece que ando há dois dias a moer a cabeça e sem conseguir expor o meu espanto. o caso é coisa simples. um vizinho invade a casa de outro tendo este a porta aberta (digamos que quase entrou sem pedir licença) e desatou a insultar. o outro retribuiu os mimos e acabaram os dois na gnr a apresentar queixa um do outro. como a invasão de domicilio é crime público pois entra o ministério público ao barulho. sendo amiga de uma das partes há muitos anos foi-me pedido que aceitasse ser testemunha do bom carácter do meu amigo. e assim lá fui eu de oeiras para santiago do cacém. no tribunal como testemunhas deste lado éramos apenas vinte e seis (mais ou menos uma tribo de ciganos) e do outro só três ou quatro (nem percebi de tão poucos que eram). pois então. estávamos todos presentes o julgamento já tinha sido adiado uma vez por licença de parto do senhor doutor juiz (tem tanto direito como qualquer cidadão por isso não leiam aqui a ironia do costume). iniciou-se o julgamento. pelas 13 horas intervalo para almoçar. de regresso às 15 horas testemunha após testemunha ficávamos cada vez menos mas às 6 da tarde ainda éramos sete. dispensados cinco (os que como eu vivem longe) dois foram convocados para o próximo dia 20. nada disto teria qualquer importância se eu não me tivesse posto a pensar no dinheiro que vai custar esta "brincadeira". para já uma série de gente que, como eu não pôde cumprir os seus deveres laborais. e depois... será assim tão difícil julgar um caso com este? um juiz a gastar tempo e dinheiro com um processo destes (peço desculpa porque é claro que é tão importante para os envolvidos como qualquer outra coisa) mas não estarão os tribunais cheios de processos como este? não haverá um meio mais fácil e barato de resolver este tipo de questão? quase que aposto que com um pouco de saber e de imaginação se pode chegar a uma solução mais barata e menos morosa.

14 maio, 2010

o melhor do twitter

os chicólatraschicolatras "Olhou nos nos olhos da garota; Aqueles olhos verdes como o mar; Depois, de improviso saiu uma lágrima e ele acredita de afogar"

Não me deixe só - Vanessa da Mata (clica aqui)

Não me deixe só
Que o meu destino é raro
Eu não preciso que seja caro
Quero gosto sincero do amor

Fique mais, que eu gostei de ter você
Não vou mais querer ninguém
Agora que sei quem me faz bem

13 maio, 2010


A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

frente a frente

atravesso a ponte vasco da gama em direcção a sul. já tinha saudades deste sul. entro na autoestrada e dou por mim a pensar em ti. em ti que amei ou julguei amar há muito que deixei de saber se o amor existe acho que é como uma religião agarramo-mo-nos a essa ideia como quem se agarra a uma bóia com medo de afundarmos com medo de ficarmos sós com medo de... eu que deixei de estar só há muito tempo que me sinto tão bem na minha companhia estou aqui em casa dos meus amigos deixei-os a jogar às cartas e vim para o quarto porque já precisava de estar sozinha para te contar das viagens que fiz com o coração aos pulos sempre para sul sempre para sul convencida que valia a pena investir uma parte da minha vida contigo e afinal... afinal fiquei com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. e depois de ti depois fiz outras viagens ainda mais para sul sempre o sul o sul e o coração alvoroçado o cansaço deitado para trás das costas porque estavas lá e afinal... afinal não estavas. também não estavas. e hoje que estás aqui na mesma casa que eu tu que não estavas a sul e que passaste tantos anos da tua vida comigo e olho-te e estranho e penso que ouvi alguém dizer que o amor é alguém que ama e outro que se deixa amar. e eu deixei que me amasses e confundi tudo e às tantas pensei que era verdade mas hoje sei que não. pode ser até que o amor exista. eu ainda não me encontrei com ele assim frente a frente.

11 maio, 2010

o melhor do twitter

os chicólatraschicolatras "A Rita matou nosso amor; De vingança; Nem herança deixou; Não levou um tostão; Porque não tinha não; Mas causou perdas e danos"

Fascinação - Ney Matogrosso (clica aqui)

Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar
Tonto de emoção
Com sofreguidão
Mil venturas previ
O teu corpo é luz, sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso prende, inebria, entontece
És fascinação, amor