03 outubro, 2011

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"escrevemos em busca da voz que mais nos fala por dentro. ajustando a vida (a escrita?) às “falas do lugar"

Essa moça tá diferente - Chico Buarque

Eu cultivo rosas e rimas
Achando que é muito bom
Ela me olha de cima
E vai desinventar o som
Faço-lhe um concerto de flauta
E não lhe desperto emoção
Ela quer ver o astronauta
Descer na televisão

Chico

Talvez não fosses forte
para a felicidade,
nem para o medo.

Olha as pessoas felizes:
ocultam-se na felicidade
como em casa, erguem

muros, fecham as janelas,
o medo
é a sua fortaleza.

O que disputam à morte
é maior que elas,
a morte não lhes basta.


(Manuel António Pina, in "Cuidados Intensivos")

pela vossa saúde

há menos de 48 horas internada parece que foi há muito tempo. espero que a partir de hoje me sinta mais ocupada uma vez que tenho acesso à net. e porque não criei este espaço só para a saudável pratica portuguesa do "bota abaixo" devo dizer que passei por dois hospitais públicos e apesar de se sentir que há realmente carência de pessoal só posso dizer que tenho sido muito bem cuidada. desde os bombeiros até aos antigos "auxiliares de enfermagem" que não sei muito bem como agora se chamam aos médicos passando pelos enfermeiros todos têm sido impecáveis. é verdade que passei 12 horas até ser realmente internada mas sem omeletes não se fazem ovos por isso senhor ministro da saúde que é tido como o milagreiro das finanças sempre aproveito para lhe dizer que vou passar mais do dobro do tempo internada por falta de material para me operarem e porque um dos especialistas só opera aqui às terças e sextas. não me parece que se possa chamar a isto poupar. como é que vão poupar comigo se eu podia ir para casa no dia em que previsivelmente serei operada? pois é paulinho a lógica do corta a direito nem sempre é o melhor remédio. e já agora também lhe digo que há falta de toalhas nos hospitais embora ainda haja dinheiro para pagar às empresas que limpam vidros. reagindo a uma "boca" minha o imigrante de leste que fez o serviço deu a entender que a empresa pertence a um senhor muito importante e que portanto embora faltem toalhas os vidros continuarão a brilhar. por isso senhor ministro aqui lhe deixo o testemunho de alguém que sabe distinguir a saúde da política. veja lá se não acaba de lixar o sistema nacional de saúde e saiba agarrar os profissionais que tem a trabalhar para o seu ministério. e já agora o meu muito obrigada aos bombeiros de lisboa e ao pessoal que encontrei no hospital de santa maria com um especial obrigada para a equipa médica de ortopedia que antes de me despachar para s. francisco cuidou muito bem de mim. e agora o meu obrigada a toda a equipa de urgência de ortopedia do s. francisco e a todo o pessoal que trabalha no piso de ortopedia deste hospital. continuem assim pela vossa saúde.

03 setembro, 2011

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Que força é essa - Sérgio Godinho


Não me digas que não me compr´endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr´endes

As palavras interditas


Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

(Eugénio de Andrade)

não é uma prosa feliz


apetece-me barco. apetece-me vela. apetece-me mar. apetece-me sonho. apetece-me fuga. apetece-me sonho. apetece-me ainda branco e azul. azul e branco. mar e ondas. e então? navegar claro. para onde? longe muito muito longe. tão longe que se tornava perto. de quê? de um lugar pequenino onde não se ouvem constantemente palavras feias como fome desemprego doença corrupção. um lugar onde as pessoas roubam comida. das hortas dos outros. da casa dos outros dos mercados e campos. onde quer que haja comida aparece gente com fome. ir para longe de um pequeno lugar (des)governado por uns meninos que passam a vida a correr para um lugar maior onde não há fome porque uma bruxa chamada angela manda meninos como o zezito e o pedrito e o marianito e outros itos (muitos) que andam por esse lugar fazer coisas más nas suas casas. primeiro foi o zezito. andava cá e lá num disparate de voos que todos pagámos só para ouvir a bruxa má e acenar com a cabeça para cima e para baixo para cima e para baixo para cima e para baixo. acho que ficou tão doente de fazer aquele exercício que foi em busca de cura em lugares maiores. espero que não tenha ficado traumatizado porque apareceu o pedrito que o afastou da brincadeira porque gosta muito da bruxa angela e anda encantado a acenar com a cabeça para cima e para baixo para cima e para baixo constantemente. depois chega ao pequeno lugar onde pertence e põe-se a brincar com o vitinho que é um aluno muito marrão e aplicado que está convencido que vai ganhar o prémio nobel da economia mas estou mesmo a ver é que vai dar com "os burrinhos na água". é que já não sou só eu que não os aguento. é o lugar que não temos. esta devia ser uma prosa feliz. mas não é.

07 junho, 2011

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Tom's Diner - Suzanne Vega (clica aqui)

"It is always
Nice to see you"
Says the man
Behind the counter
To the woman
Who has come in
I am waiting
At the counter
For the man
To pour the coffee


Quotidiano (Reflexão)

Por exemplo, as coisas que faltam neste lugar:
uma enxada para que as mãos não toquem na terra,
um ninho de pardais no canto da relha,
para que um ruído de asas se possa abrigar,
um pedaço de verde no monte que ainda vejo,
por detrás dos prédios que invadem tudo.

Mas se estas coisas estivessem aqui,
também faria falta um copo de água para ver,
através do vidro, um horizonte desfocado;
e ainda os restos de madeira com que,
no inverno, é costume atiçar o fogo
e a imaginação que ele consome.

Como se tudo estivesse no lugar,
pronto para ser usado na data prevista,
sento-me à janela, e fixo a única coisa
que não se move:
o gato, hipnotizado por um olhar
que só ele pressente.

(Nuno Júdice)

não dei por isso

o rapaz com os auscultadores nos ouvidos balança a cabeça num movimento violento contra o peito. depois pára desliga os auscultadores e atende o telemóvel mas logo a seguir desliga a chamada e volta a ligar os auscultadores e a abanar a cabeça com a mesma violência como se quisesse dizer sim sim sim e eu chego a temer que a cabeça se solte do pescoço. a rapariga bem feita com cara de madona de olhos arregalados senta-se à minha frente e eu tenho dificuldade em largar aqueles olhos tão arregalados como se tudo à volta dela lhe causasse um tremendo espanto. a rapariga ao meu lado levanta-se para sair e a madona de corpo bem feito e olhos arregalados senta-se ao meu lado. concentro-me de novo no rapaz que continua a abanar a cabeça violentamente como se quisesse que ela caísse. finalmente também ele se dirige para a saída. fecho os olhos e vou assim até à última paragem quando ouço cais do sodré estação terminal senhores passageiros queiram abandonar o comboio. a multidão de fim de tarde desagua no cais e dirige-se às portas automáticas. sigo o meu caminho subo as escadas rolantes e eis-me no cais do comboio. sete da tarde. o céu muito nublado ameaça chuva. quem não saiba pensa que estamos no outono. se calhar estamos e eu não dei por isso.

05 junho, 2011

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Everybody Knows - Leonard Cohen (clica aqui)

Everybody knows that the boat is leaking
Everybody knows that the captain lied
Everybody got this broken feeling
Like their father or their dog just died

Everybody talking to their pockets
Everybody wants a box of chocolates
And a long stem rose
Everybody knows

Balada de Lisboa

Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo

Caravelas te levaram
Caravelas te perderam
Esta é a cidade onde chegas
Nas manhãs de tua ausência
Tão perto de mim tão longe
Tão fora de seres presente

Esta e a cidade onde estás
Como quem não volta mais
Tão dentro de mim tão que
Nunca ninguém por ninguém
Em cada dia regressas
Em cada dia te vais

Em cada rua me foges
Em cada rua te vejo
Tão doente da viagem
Teu rosto de sol e Tejo
Esta é a cidade onde moras
Como quem está de passagem

Às vezes pergunto se
Às vezes pergunto quem
Esta é a cidade onde estás
Com quem nunca mais vem
Tão longe de mim tão perto
Ninguém assim por ninguém

(Manuel Alegre)

boa sorte minha gente


pedro e paulo ou pp irão governar este país nos próximos anos. se vos parecem iguais pensem como será o entendimento entre o p que se apresentou como o candidato mais africano (não cheguei a perceber que vantagem tem ser mais africano em portugal mas isto sou eu que não primo pela inteligência) e o p que todos sabemos ser o mais xenófobo dos candidatos. como se entenderão estes dois p's? cá para mim o segundo há-de estar à frente do primeiro. sempre o vi como o político mais brilhante da actualidade. faz-me lembrar aqueles meninos que nasceram para comandar todas as brincadeiras mesmo que façam de conta que não estão a comandar. ele conseguiu passar em brancas nuvens na campanha eleitoral. como se nunca tivesse feito parte de nenhum governo. ele consegue aparecer como uma virgem sem pecado. é realmente brilhante. não estou surpreendida com os resultados destas eleições. o meu voto foi como sempre um voto útil na mediada em que não será usado senão para me defender de quem governará. um voto de que não me arrependi nunca. também desta vez não me arrependerei. não terei que pedir desculpa a ninguém pelo meu voto. o zé a quem tanto chateei parte com dignidade. resta-me admitir mais uma vez que foi um inovador neste país tão avesso a mudanças. e o que promoveu de bom veio com certeza para ficar. por isso pp não inventem. a interrupção legal da gravidez não é para voltar atrás. as novas tecnologias ao serviço de todos não são para voltar atrás. os casamentos entre pessoas do mesmo sexo não são para acabar. de resto vão estar muito entretidos a obedecer à troika e a cumprir o acordo que assinaram tão alegremente. boa sorte minha gente.

30 maio, 2011

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Ilha dos Amantes - Pássaro Cego


ai, deixa ver
onde o teu peito desagua
onde é que nasce a luz da lua
eu vou sem nada pra te ver

Retrato do Povo de Lisboa

(foto de Nuno Sousa)
É da torre mais alta do meu pranto
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.

Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e põe a nu a espádua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.

É da voz do meu povo uma criança
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.

Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.

(Ary dos Santos)

o meu voto é útil


há muitos anos que não se assistia neste país tão empobrecido a uma campanha eleitoral tão intensa. até eu que não tenho o hábito de assistir a debates dei comigo em frente à televisão não por estar interessada na propaganda de sempre mas para saber quem afinal é capaz de enganar melhor. tenho ouvido como de todas as outras vezes o apelo ao voto útil. mas afinal o que é o voto útil? para que serviram os milhões de votos úteis depositados ao longo destes anos nas urnas com cruzinhas no ps no psd ou no pp? não é preciso pensar muito para chegar à conclusão que o meu voto é muito mais útil que todos esses milhões de votos. e tem tido a vantagem de nunca me arrepender. voto útil é votar naquilo em que acredito. voto útil é votar no que considero melhor mesmo sabendo que provavelmente nunca ganhará eleições mas também sabendo que dentro ou fora da a.r. não vai trair o meu voto. não darei o meu voto a nenhum dos senhores que prometeram não aumentar impostos e depois com a desculpa do desconhecimento da verdadeira realidade das finanças a primeira coisa que fazem é aumentá-los. não darei o meu voto a quem alinha e depois pede desculpa. difícil mesmo é não ter que pedir desculpa. não darei o meu voto a quem quer privatizar um bem que é de todos como a água. já em miúda me revoltava contra quem vendia a água de todos como se fosse sua no interior de angola. não darei o meu voto a quem tem vergonha dos pobres e dá 30 altos cargos a cada um dos familiares ou amigos. se desse o meu voto a qualquer um dos senhores que contribuiu para o empobrecimento do país nunca mais seria capaz de me olhar no espelho. o meu voto como sempre será um voto útil. para mim e para quem o receber.

27 maio, 2011

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Clã - Amuo (clica aqui)


Nada como um bom amuo
Apenas um recuo quando nada sai bem

E depois voltar
Como se nada fosse
E reencontrar o lugar
Guardado por um bom amuo

Nada nos falta, porque nada somos

Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.

Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada
E temos frio ao sol.

Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.

(Ricardo Reis)

é só

ouço e leio a todo o instante falar em perdoar. são as beatas os email's naturalmente construídos por gente que tem pouco que fazer ou que usa
tempo em que podia fazer algo de útil a brincar com o power point. são talvez desempregados ou quem sabe mal empregados. seja como for. cumprida a maior parte dos anos da minha vida aprendi que não sou ninguém para perdoar. mas sou gente que cresceu e todos os dias erra e todos os dias acerta e todos os dias aprende. há uns anos (bastantes) eu era capaz de manter raivas e ódios. hoje a ira não passa de uma lembrança e os ódios tornaram-se de estimação e não fazem mal a ninguém. aprendi a transformar tudo o que me desagrada muito em nada ou seja se alguém me mereceria uma raiva ou ódio há uns anos hoje merece uma indiferença tão grande que posso passar a vida ao lado dessa pessoa sem sequer me aperceber que ela existe. e não precisei de qualquer treino especial. a minha vida tornou-se muito mais interessante. talvez porque eu aprecie tanto estar comigo mesma ou simplesmente porque um dos meus ódios de estimação é ouvir dizer " a gente vamos" e outros insultos à oralidade da gramática portuguesa. e já que as palavras são como as cerejas sempre vos digo que nos devíamos preocupar mais com o nível de aprendizagem dos alunos do 12º ano do que com as novas oportunidades. é o que me apetece dizer. hoje.

19 maio, 2011

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Sexto andar - Clã (clica aqui)

Uma canção passou no rádio
E quando o seu sentido
Se parecia apagar
Nos ponteiros do relógio
Encontrou num sexto andar
Alguém que julgou
Que era para si
Em particular

18 maio, 2011

Os Velhos

Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm'idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infrigiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me vêem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milénios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.

(Carlos Drummond de Andrade)

boudou sauvé des eaux

uma comédia de jean renoir de 1933. uma estória simples mas muito bem contada e interpretada. uma delícia estar na cinemateca a olhar imagens recuperadas de um filme com quase oitenta anos. e assisto deliciada solto gargalhadas como há muito tempo não acontecia e sinto uma felicidade infantil invadir-me. boudou querido como lhe chamaram em português é um vadio bronco mas simpático que se atira ao rio e é "salvo" por um livreiro que se assume como um verdadeiro burguês (interessante que na altura ser burguês era uma honra. hoje se nos foge a boca para a verdade e chamamos burguês a alguém somos imediatamente acusados de usar chavões de esquerda). adiante. depois de muitas peripécias a mulher do livreiro envolve-se com boudou que detestava e descobre que o marido namora a criada (pois aqui está outra palavra maldita nos nossos dias. empregada doméstica ou secretária do lar, peço desculpa). adiante. boudou fica rico com uma cautela que o livreiro lhe oferecera e casa com a criada (insisto porque no filme ela é tão criada quanto o patrão é burguês). acabado o casamento boudou vira o barco onde seguia com a noiva e os padrinhos e desaparece. a noiva chora a morte do marido acabadinho de agarrar e este consegue chegar à outra margem desfazer-se do seu fato de noivo e voltar à sua bela vida de vadio. cá fora dou por mim a pensar no quanto era difícil fazer um filme em 1933. ontem ri à gargalhada graças a esse senhor do cinema francês mais de 30 anos passados sobre a sua partida. vale a pena estar atenta à programação da cinemateca. sem dúvida.

16 maio, 2011

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Queda do Império - Vitorino (clica aqui)



Pata de negreiro
Tira e foge á morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja luanda
Sempre em flor.

Vinheta

Eu sei! Eu sei!
Se sair daqui, o rio me engolirá...
É o meu destino: hoje devo morrer!
Mas não, a força de vontade pode superar tudo
Há obstáculos, eu reconheço
Não quero sair.
Se tenho que morrer, será nesta caverna.

As balas, o que podem as balas fazer comigo
se meu destino é morrer afogado? Mas vou
vencer o destino. O destino pode ser
conseguido pela força de vontade.

Morrer, sim, mas crivado de
balas, destroçado pelas baionetas, se não, não. Afogado não...
Uma recordação mais duradoura do que meu nome
É lutar, morrer lutando.

(Ernesto Guevara – 17 de janeiro de 1947)

façam o favor de sair

ergo os olhos para perceber quem me olha daquela maneira. quero saber a quem pertence aquele olhar que me fez erguer os olhos do moleskine e descubro que é um olhar de "frete" como se dizia no tempo que foi do meu pai ou de "carneiro mal morto" e pertence a um homem jovem vestido como um guerrilheiro urbano. tem cabelo louro comprido e encaracolado e uma barba densa e não aparada. usa um brinco na orelha e tem um físico cuidado de guerrilheiro. usa botas tipo militar claro provavelmente compradas na feira da ladra a alguém que as comprou a alguém que as fanou ou surripiou quando terminou o serviço militar. há quem as traga por recordação e há quem queira pura e simplesmente uma vez na vida receber o soldo certo. o seu olhar não me larga e entretanto eu decido controlar as entradas e saídas no metro conforme as estações. em alvalade e roma saem as velhas bem vestidas e de cabelo ripado para disfarçar a falta do mesmo. no areeiro saem jovens de mala james bond na mão e na alameda pois sai gente de todo o género. daí ao martim moniz não sai nem entra muita gente mas aqui saem os orientais africanos ciganos muçulmanos enfim toda uma fauna de emigrantes que espalham em redor de si ondas de cor e aromas diferentes e de repente esqueci o guerrilheiro urbano. no rossio saem turistas e na baixa chiado sai uma multidão de gente jovem. no meio dessa multidão sai o meu guerrilheiro urbano. e eu fico mais só até ouvir a voz que diz cais do sodré estação terminal façam o favor de abandonar o comboio. se calhar não é bem assim mas o sentido é o mesmo.

11 maio, 2011

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Ondjaki
[...] acesa - a tarde? depois do golpe da angústia ou durante o sopro que imita a vida?
... eu convoco aos meus sonhos a palavra rebelião!

Diálogo


Levarás
pela mão
o menino
até ao rio. Dir-lhe-ás
que a água é cega
e surda. Muda,
não. Que o digam
os peixes, que em silêncio
com ela sustentam
seu diálogo
líquido, de líquidas
sílabas
de submersas
vogais.

(Albano Martins)

Clã - Embeiçados (clica aqui)

Diz-se que o amor é cego
Deforma tudo a seu jeito
Mas eu acho que o amor descobre
O lado melhor do que parece defeito

Porque eu gosto gosto dele
e ela gosta gosta de gostar de mim



faz isso por mim leonor

chegaste leonor como quem não sabe o que se passa neste mundo. e sabes. sabes tão bem que dormes. levas o dia todo a dormir. assim uma espécie de gatinha que dorme o dia todo e de repente despertas com toda a energia e viras o teu mundo do avesso. os teus pais não se queixam. eu que já passei por muitos bebés sei que tu trazes dentro de ti a minha revolta. e por isso choras a plenos pulmões. és muito pequenina e não sabes ainda gritar mas um dia destes aprendes. eu sei que aprendes. tu minha neta. tu a princesa desejada e esperada com muito amor. tu que hás-de crescer afastada de mim como o teu primo pablo e que eu hei-de amar da mesma maneira saudosa e triste quando sinto que tudo farão para que acredites que só tens uma família. tal como o país em que nasceste. só quem tem poder pode mandar. quem não tem submete-se. por isso te digo querida leonor aprende a rebelar-te. aprende rapidamente uma coisa tão simples como saber o que está certo e o que está errado. não deixes que te manipulem. não permitas leonor tu que nasceste princesa com um nome de rainha que te imponham verdades que não são tuas. tu que já nasceste num tempo tão distorcido num mundo virado do avesso abre esses pulmões e deita cá para fora tudo o que te incomoda. faz isso por mim que não posso gritar sem magoar quem amo. faz isso por mim leonor. eu que te hei-de amar até ao último dia da minha vida. mesmo que te digam que não.

25 março, 2011

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os chicólatraschicolatras "Me vejo a teu lado; Te amo? Não lembro"

Adoniran Barbosa e Elis Regina - Saudosa Maloca (clica aqui)

Só se conformemo quando o Joca falou:
"Deus dá o frio conforme o cobertor"
E hoje nóis pega a páia nas grama do jardim
E prá esquecê nóis cantemos assim:
Saudosa maloca, maloca querida,
Dim dim donde nóis passemos os dias feliz de nossas vidas
Saudosa maloca,maloca querida,
Dim dim donde nóis passemo os dias feliz de nossas vidas.

Assim o amor


Assim o amor
Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

adeus antónio


não o via há treze anos e apesar da minha má memória visual reconheço imediatamente a sua figura extremamente magra. entra na carruagem e apesar de vários lugares vagos onde se pode sentar atravessa a carruagem para dar umas moedas ao homem que vinha a tocar um instrumento artesanal mistura de teclado e ferrinhos que lamento não ter fotografado. reparo que é o único na carruagem que dá dinheiro ao homem e este deseja-lhe felicidades e bênçãos. encosta-se então e posso observar melhor este médico que não exerce a sua profissão há muitos anos por ser portador de doença psíquica que o impede de o fazer. durante anos vi-o assinar o livro de ponto desenhando flores e agora vejo-o com um fato completo um pouco amarrotado e sujo mas apesar de tudo lembro-me de o ter visto com um ar bem mais indigente há muitos anos quando percorria a linha de lisboa a cascais a pé carregado de sacos. tantas estórias teria para contar deste homem com aspecto quixotesco. olho mais uma vez. acho-o mais magro ainda. mantém a cabeleira mas desta vez mais cuidada do que há uns anos. sai na baixa chiado e eu penso se terão conseguido ao fim de todos estes anos que se reformasse... esta é uma das muitas estórias que poderia contar aqui (quem sabe um dia me passe esta preguiça de escrever...) mas agora que já saí do metro e estou num comboio completamente cheio porque é dia de greve no sector não me apetece nada senão olhar o par que dança junto à estação fluvial de belém... e tentar adivinhar o que os faz dançar à beira rio na capital de um país à beira do abismo. adeus antónio. até um dia destes.