25 março, 2011

adeus antónio


não o via há treze anos e apesar da minha má memória visual reconheço imediatamente a sua figura extremamente magra. entra na carruagem e apesar de vários lugares vagos onde se pode sentar atravessa a carruagem para dar umas moedas ao homem que vinha a tocar um instrumento artesanal mistura de teclado e ferrinhos que lamento não ter fotografado. reparo que é o único na carruagem que dá dinheiro ao homem e este deseja-lhe felicidades e bênçãos. encosta-se então e posso observar melhor este médico que não exerce a sua profissão há muitos anos por ser portador de doença psíquica que o impede de o fazer. durante anos vi-o assinar o livro de ponto desenhando flores e agora vejo-o com um fato completo um pouco amarrotado e sujo mas apesar de tudo lembro-me de o ter visto com um ar bem mais indigente há muitos anos quando percorria a linha de lisboa a cascais a pé carregado de sacos. tantas estórias teria para contar deste homem com aspecto quixotesco. olho mais uma vez. acho-o mais magro ainda. mantém a cabeleira mas desta vez mais cuidada do que há uns anos. sai na baixa chiado e eu penso se terão conseguido ao fim de todos estes anos que se reformasse... esta é uma das muitas estórias que poderia contar aqui (quem sabe um dia me passe esta preguiça de escrever...) mas agora que já saí do metro e estou num comboio completamente cheio porque é dia de greve no sector não me apetece nada senão olhar o par que dança junto à estação fluvial de belém... e tentar adivinhar o que os faz dançar à beira rio na capital de um país à beira do abismo. adeus antónio. até um dia destes.
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