12 fevereiro, 2008

Companheiro


Você vem comigo
mesmo onde eu não for
e me leva?
(Eduardo Feijó Neto Machado)

Foi quase como dar a volta na roda gigante

Acho que já referi aqui o facto de ter dado uma queda na rua aqui há uns dias. Na altura fiquei cheia de dores mas depois tomei uns analgésicos e a coisa aliviou o suficiente para eu continuar a fazer a minha vida normal e até um pouco mais do que isso: avarias que quem me conhece bem não estranha.
Acontece que as dores foram piorando, ando mal dormida, é difícil arranjar posição para dormir e para me deitar e levantar pior ainda. Vestir-me tornou-se algo absolutamente devastador... de modo que, como diria o meu amigo Alfredo, tirei-me dos meus cuidados e fui ao médico. O homem palpou-me e mandou-me fazer umas radiografias.
Fui ontem marcar e hoje fui fazer. A clínica é um luxo. Algo a que não estamos muito habituados em Portugal, mas que, pelos vistos já vão aparecendo com mais frequência. Eu é que como sou pouco assídua desse género de coisas fico espantada quando vejo algo com bom aspecto e que até funciona.
Estava marcada para as 17 horas e antes disso estava lá. Havia muita gente para ser atendida, não apenas para fazer exames mas para marcar e receber os que tinha feito. O sistema de senhas é tipo Brisa para quem conhece e realmente foi um pouco demorado até chegar a minha vez, mas depois disso fui atendida em 10 minutos...
O que eu não estava à espera era que me metessem numa cama que resvala e me deixassem de pernas para o ar com uma linda paisagem (para distrair) no tecto.
Custou-me muito fazer os exames porque hoje não tomei analgésicos senão quando cheguei a casa. Conheço-me bem e sei que se não tivesse dores não iria fazer os exames. Por isso se quando entrei na clínica estava cheia de dores, quando saí mal podia dar um passo. Mas como sou teimosa, lá fiz o caminho de volta a casa onde cheguei muito mais tarde do que o costume porque as pernas não obedeciam à minha vontade...
Sei que não estou bem. Se estivesse tinham-me dito. Vou ter que esperar uma semana pelo resultado, mas fica-me na memória o facto de fazer radiografias não num sítio escuro como me recordava mas numa sala bem iluminada e preparada com o último grito da moda para tal efeito.
Em Lisboa!

11 fevereiro, 2008

Timor - Luis Represas (clica aqui)

Da cruz se faz uma lança em chamas
que sangra o céu no sol do meio dia
do meio dos corpos a mesma lama
leito final onde o amor nascia

Ai Timor
calam-se as vozesdos teus avós
Ai Timor
se outros calam
cantemos nós

Timor


Não olhes distraído
É contigo.
Timor nasceu país estrangulado
Timor é seara destruída
Timor é lágrimas e muito sofrimento
Timor é chaga viva e imensa solidão
Timor é luto e morte agigantada.
Não olhes distraído
É contigo.
Timor é urgente.
É tempo ainda
Grita ao Mundo:
É urgente respeitar a
LIBERDADE.
(José Almeida da Silva)

Para Loro Sae.



Eu sei que sou uma sonhadora, sei que os meus sonhos são utópicos, sei que posso ser anarquista até morrer e que nem por isso o anarquismo terá alguma vez forma e pés para andar... eu sei. Sou sonhadora mas não sou burra de todo.
O que eu não percebo é porque é que homens que lutaram décadas pela independência e democracia de um país, embora um pequeno país, se estejam a matar. Desculpem a minha ignorância, a minha falta de entendimento. Acontece que não entendo mesmo como é que se tenta matar um homem que deu a vida pelo seu país, como se tenta matar um homem que fez tanto que mereceu o Nobel da Paz...
Desculpem-me não entendo.
Entendo menos que um guerrilheiro como Reinado haja feito o que fez... pois há a possibilida de ele nem sequer estar envolvido nesta tentativa de assassinato e de ter sido morto horas antes... para sossego da minha alma, confesso que esta teoria a ser verdade me agradaria muito. Porque me custa entender que alguém que arriscou a vida toda para defender uma pátria alveje pelas costas um homem chamado Ramos Horta...
E depois a tentaiva contra Xanana... foi preparada por Reinado igualmente? De todos aqueles anos de luta, de companheirismo não restou nada? Como é que eu posso compreender uma coisa destas? Aguém, é capaz de me fazer entender o que se passa em Timor? Alguém é capaz de fazer com que eu volte a ter a minha fé inabalavel nos homens?
Se houver alguém por aí capaz de me explicar, por favor fale, porque eu estou muito triste e muito desiludida com o que se passa em Loro Sae....

10 fevereiro, 2008

Bette Davis Eyes - Gwyneth Paltrow (clica aqui)

And she'll tease you
She'll unease you
All the better just to please you
She's precocious
And she knows just what it
Takes to make a pro blush
She got Greta Garbo's Stand off sighs,
she's got Bette Davis eyes

Era agosto


Era agosto
e parecia ser setembro.

Era agosto.
À maneira de quem lê poesia
acariciando cicatrizes.

À maneira de quem lê um livro
iluminando capítulos entrelinhas enredos.

Li o Anjo.

(Neide Archanjo)

É quanto basta.



Mais um dia, um dia de domingo, um dia de sol, um dia repleto de gente no paredão... fico contente porque as pessoas escolhem andar ao ar livre em vez de se meterem nos centros comerciais. Eu sei que os centros comerciais também deviam ter muita gente, mas não me lembro de ver tanta gente a passear, caminhar, correr ou simplesmente a apanhar sol como hoje. Gosto de ver que os hábitos vão mudando que já não são sempre as mesmas caras que estão por ali. Gosto de ver os pais brincando na areia com os seus filhos, alguns ensaiando ainda os primeiros passos, outros já crescidos o suficiente para ensaiarem uma peladinha como dizem os nosos companheiros de língua portuguesa, os brasileiros.
Gosto de ter tempo para ver tudo, de fotografar, filmar, olhar simplesmente... gosto tanto de ter um dia útil assim... de parar com a minha aceleração e ficar sentada depois de andar durante hora e meia, simplesmente a olhar o mar e sentir o sol. Olhando de vez em quando as pessoas que passam... eram tantas hoje. Ainda bem que a maior parte deste passeio marítimo é tão largo. É por isso e também porque não vejo carros senão durante um curto percurso e muito ao longe que prefiro este passeio aos outros da linha. Porque para além de tudo isto é bonito. Tem o som do mar e das gaivotas. Tem pequenos barcos no mar. E grandes também...
Querem ver-me feliz por ter nascido? Basta isto.

09 fevereiro, 2008

Travessia - Milton Nascimento (clica aqui)

Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver

Gestos, neuras e sonhos


As faces neuróticas do tempo
vomitam gestos absurdos.

Gritos fabricam alucinações.
A imagem é bisonha.

Viajam homens
espatifados de sonhos.

(Tadeu Terra )

Só para dizer qualquer coisa...


Tencionava descansar este fim de semana e por isso não fui trabalhar. O sol brilhava de manhã cedo e comecei o dia como gosto com uma caminhada à beira mar. Bem, foi mais um passeio do que uma caminhada se tivermos em conta a velocidade a que foi feito... porque me apetecia ohar aquele imenso mar azul num ar perfeitamente respiravel. A maré baixa deixa a descoberto as rochas e as gaivotas e outras aves marinhas vão pousando aqui e acolá...
Acontece que de repente pensei que precisava de fazer uma limpeza a fundo à casa de banho e então pensei que ela bem precisava de ser pintada, uma vez que não tendo manchas de humidade já não era pintada há uns anos.
E se bem o pensei melhor o fiz. Passei pela loja comprei a tinta, cheguei a casa, vesti a farda de pintura e mãos à obra que se faz tarde...
Acontece que na quinta feira de manhã dei uma queda na rua, escorreguei num produto qualquer de limpeza de um prédio e caí de costas, perfeitamente desamparada... as dores eram muito fortes e depois do almoço tomei uns comprimidos que uso para todas as dores e que são muito melhores que a banha da cobra. Não vou dizer aqui o nome por causa da concorrencia e para não me virem chatear mais tarde... mas lá que os danados são mesmo bons isso são. As dores aliviaram muito e regressei a casa quase bem. Sempre caminhando... no dia seguinte quando me levantei continuava com algumas dores, tomei mais dois comprimidos e passei bem o dia...
É claro que hoje, depois de tudo o que andei a fazer piorei de novo. Mas já tomei dois comprimidos e espero que com uma bela caminhada à beira mar amanhã, a coisa se resolva de vez...

08 fevereiro, 2008

Estrela do mar - Jorge Palma (clica aqui)

Sou a estrela do mar
só a ele obedeço,
só ele me conhece
só ele sabe quem sou no princípio e no fim
só a ele sou fiel e é ele quem me protege
quando alguém quer à força
ser dono de mim
Em silêncio trocámos segredos e abraços
inscrevemos no espeço um novo alfabeto
já passaram mil anos sobre o nosso encontro
mas mil anos são pouco ou nada para a estrela do mar

Definição


Mãos tintas de sangue,
Ódio e desespero.
Isto não é revolução.

REVOLUÇÃO é ensinar o amor,
dizer aos filhos:
nós somos todos irmãos.

Respeitar a liberdade,
a nossa e a do semelhante.
Cumprir com os nossos deveres...

e só depois reclamar,
bem alto, os nossos direitos,
em todos os seus dizeres.

REVOLUÇÃO é trabalhar.
Construir para o futuro,
seguindo sempre nos trilhos,

do progresso e da cultura,
honestidade e trabalho;
exemplo pra os nossos filhos.

(Fernanda Brito)

Lê tudo de novo.


Pois é amigo. Dizes que tens lido o blogue e me tens achado nostálgica... foi esse o termo que usaste não foi? Seja como for nem nostalgia nem melancolia têm nada a ver comigo. Eu sou alegre ou sou triste, rio ou choro e sou capaz de fazer todas estas coisas no mesmo dia.
Como hoje por exemplo... passei por tudo isto, consegui algo que queria muito há muito tempo e agora que me foi devolvido e chorei... depois almocei com a filha de Pepe e chorámos as nossas mágoas e rimos e animámo-nos uma à outra, como de costume...
Pois é amigo eu sou mesmo assim: nostalgia? De quê?
Eu sou como a minha avó materna.... mulher alegre e de extremos. Só para dar uma ideia: estava-se em 1915, 1918, por aí e ela tinha um namorado lá na santa terrinha, que era e é terra de gente coscuvilheira e vaidosa... fiquem descansados oh família que não divulgo o nome da terra. Pelo menos hoje... vou portar-me bem e contar só a estória da avó.
Pois o facto é que o namorado morreu, não sei se de tuberculose, se de acidente, não recordo sequer se alguma vez ela me contou do que ele morreu. Morreu e pronto.
Então a minha avó, vestiu-se de luto dos pés à cabeça, como se se tratasse de uma viúva verdadeira. Nem o lenço preto na cabeça lhe faltou...
Aquilo foi um prato cheio lá na terra. Comentavam as pessoas que se ela se comportava assim é que as coisas entre ela e o namorado tinham ido além do que era permitido a dois namorados...
Pois é: 15 dias depois a minha avó botou os olhos no meu avô e nos seus olhos azuis, despiu o luto, vestiu-se de encarnado, conquistou-o e casou com ele em pouco tempo...
Mulher de guerra e de riso a minha avó. E eu sou como ela. Quem sai aos seus não é de Genebra como diz o meu cunhado Flávio...
Portanto, lê tudo de novo, amigo. São apenas estórias. Coisas inventadas e coisas reais. O dia a dia um pouco floreado que a cor nunca fez mal a ninguém.

07 fevereiro, 2008

Geni e o Zepelim - Chico Buarque (clica aqui)

Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni



Confissão


A mulher
do próximo
esteve aqui
Desejei
enfiar meus dentes
em sua pele
morder sua carne
chupar seus ossos
Depois ela foi embora
eu me arrependi
por sentir essas coisas
escabrosas
e juro
que lavo a boca
e não sinto mais
se ela parar de vir
dormir aqui em casa

(Réca Poletti )

Coisas de que me lembrei hoje, mana.


A minha irmã tinha mais sete anos que eu e mais quatro que o meu irmão. As primeiras recordações que tenho dela são terríveis. Na verdade ela gostava muito de me pentear e eu passava a vida com dores no couro cabeludo porque ela me repuxava o cabelo com muita força para experimentar os seus penteados. Este martírio só acabou quando o meu pai finalmente decidiu que o melhor era que eu cortasse o cabelo à rapazinho. Aí sim. Já não havia cabelo para repuxar e eu podia brincar em paz em vez de estar nas mãos da "bruxa" como lhe chamava nessas alturas. Mas é claro que tudo aquilo era na hora da raiva. Porque o que nós lhe chamávamos mesmo era mana. E aos 7 anos eu achava fantástico que ela dormisse com rolos no cabelo e fita adesiva para repuxar o nariz... coisas que as raparigas julgavam ajudar à sua beleza naquela altura... felizmente nunca me submeti a torturas desse tipo. Por isso hei-de ficar bem velhinha depressa, mas feliz por me sentir livre da ditadura que é imposta às mulheres pela moda...
Também me lembro da mana a fazer os meus trabalhos de casa no fim do mês de Março, porque eu não os tinha feito, os trabalhos de casa de um mês inteiro de férias (em Março as escolas fechavam para férias em Luanda, por causa do calor imenso que fazia nesse mês). E a minha irmã quando percebeu que eu não tinha feito os trabalhos de casa não só me ajudou como às tantas me mandou para a cama e acabou o que eu devia ter feito durante um mês, porque já estava morta de sono... E não fez queixa à minha mãe.
Fora isto eu e ela tínhamos pouca intimidade. Ela gostava de fazer o papel de mãe dos manos e sempre que possível e denunciava-nos aos pais quando fazíamos traquinices o que não era raro, antes pelo contrário era quase uma constante...
Só me tornei íntima da minha irmã quando ela casou. Eu tinha passado 4 anos a fazer de pau de cabeleira e quando ela finalmente casou a minha tortura terminou e eu passei a ter muito mais tempo livre para mim... nessa altura já gostava de passar os dias a ler. Também gostava de ir às matinés do cinema Aviz ou Miramar...
Hoje lembrei-me muito da minha mana... um dia destes talvez volte a falar dela por aqui. Para que os netos que não a conheceram fiquem a saber um pouco mais da avó que os teria amado com loucura.

06 fevereiro, 2008

Encontros e despedidas - Maria Rita (clica aqui)


Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

A vida e a arte


— Escrevo melhor que sou
Dizia, humilde, o velho poeta.
Eu concordava, mudo.
— A poesia eu reescrevo,
Lapido, dou polimento...
Quanto a mim:
Para mudar
Uma só velha mania
Quantos anos levei!
Este sorriso que você vê,
Há décadas ensaio.
Não como ator, que finge
Mas como autor, que sou.
Se ele é hoje menos amargo
Custou-me muitas lágrimas.
Ainda dizem que a vida imita a arte!
A arte é que deveria meter-se na vida
E dominá-la, submetê-la...
Alguns não resistem a ela
E se entregam: esses são os grandes.
Conversa encerrada.
Eu, mudo.
Assino embaixo.

(Abel Sidney de Souza)

"Sinfonia em Branco"


"Sinfonia em Branco" da brasileira Adriana Lisboa é um dos livros que últimamente tenho lido com vontade de não largar. Estou chegando ao fim (o gerúndio é só mesmo porque eu gosto do tempo verbal). É um belo romance que vou ter pena de ver chegar ao fim mas como tudo na vida tem um fim, os livros também acabam. É calro que podemos sempre reler aqueles de que mais gostamos. Creio que daqui a uns tempos vou ter vontade de reler este livro.
Não falo aqui de livros, senão daqueles que realmente me tocam mais profundamente, porque se assim não fosse, restaria muito pouca coisa de que falar pois, como já aqui tenho dito, leio muito. Mesmo quando um livro não me prende eu tento ler até ao fim, tento perceber onde o autor quer chegar. Já me aconteceu acabar um livro e ficar com a sensação de que o autor se limitou a debitar uma série de patacoadas sem interesse e querendo fazer-se passar por filósofo... e lá vou eu por outros caminhos...
Voltando à Sinfonia em Branco, o romance fez-me lembrar as alturas da minha vida em que senti que tinha pura e simplesmente quebrado, que me tinha feito em cacos e que não seria capaz de os colar, jamais... é claro que eu não sou a única e infelizmente a maior parte de nós passa por estas crises... e lá vamos dando a volta conforme podemos... ou não damos pura e simplesmente e cortamos os pulsos ou pensamos nisso ou tomamos veneno ou pensamos nisso, ou pura e simplesmente dizemos vou continuar, mesmo quebrada eu vou continuar porque sei que sou capaz.
Este tem sido o meu lema. Muita coisa dentro de mim se quebrou ao longo dos meus 50 anos. Algumas eu consegui colar com muita paciência e habilidade... outras não foi possível de tal maneira estavam estilhaçadas... Mas eu continuo porque sei que sou capaz.
Se puderem leiam "Sinfonia em Branco". Só porque vale a pena.