Ser livre
É ficar deslumbrado com o teu sorrso
E não o molestar
Deixá-lo voar como a um pássaro
Vê-lo partir
Com mágoa de sabê-lo na viagem
Que é a tua
Alegre
No mundo onde beijei a tua boca
Eduardo Aleixo
Um blog do dia a dia, com muitas estórias, alguma poesia, música, fotografia, crítica, comentários... para desabafar, porque sem um grito ninguém segura o rojão!
14 novembro, 2006
13 novembro, 2006
Apresentando o já apresentado...
"¡No te disfraces para mí! ¡
Lo que yo verdaderamente deseo es estar contigo!"
(Jorge Bucay)
Lo que yo verdaderamente deseo es estar contigo!"
(Jorge Bucay)
A raiz do linho
A raiz do linho
foi meu alimento,
foi o meu tormento.
Mas então cantava.
(Eugénio de Andrade)
foi meu alimento,
foi o meu tormento.
Mas então cantava.
(Eugénio de Andrade)
Vai uma aposta?
Não sou pessoa de "passar a limpo". Quero com isto dizer que o que aqui escrevo sai-me como a vida. É no momento que os meus dedos pousam nas teclas que o texto vai saindo. Nunca "passei a limpo" na escola, nunca passei a limpo na vida. Às vezes recordo... às vezes apetece-me partilhar, outras apetece-me guardar só para mim. Não sou melhor nem pior que ninguém. Sou eu e isso deve bastar-me... isso deve bastar a quem chamo amigo.
Não gosto de dizer mal de ninguém nem de coisa nenhuma, mas se alguma coisa me incomoda, tenho que deitar cá para fora. Enquanto estiver engasagada até parece que não durmo bem.
Por falar nisso, ando a dormir bem melhor ultimamente. Deve ser por via de umas coisas que trazia engasagadas e despejei...
Voltemos pois às cidades e às serras (não tarda nada estou a ser acusada de plágio!), Fundão/Gardunha, Covilhã/Estrela.
A diferença mais evidente que notei nestas cidades: os nomes das coisas (mais um plágio, daqui a nada vou parar a tribunal, deixa-me pôr Tribunal, para não ser acusada de desrespeito às autoridades e quiçá à nação... quero dizer Nação, claro!)
Na Covilhã, cada nova rua, praça, avenida, fonte, rotunda tem o nome de Carlos Pinto o actual presidente da câmara, que não quer ficar esquecido pela História... só que, tal como os famosos instantâneos, esquece-se que mudar o nome a qualquer das "coisas" a que ele deu o seu próprio nome é a coisa mais certa desta vida... a glória será efémera, a menos que ele construa algo de que a terra se possa orgulhar... e usar!
No Fundão, as ruas, a biblioteca, a rotunda têm o nome de Eugénio de Andrade, nascido na aldeia da Póvoa de Atalaia, freguesia do Fundão. O Presidente da Câmara do Fundão incentiva a cultura. A cidade "mexe". A biblioteca é frequentada por pequenos e graúdos. Incentiva um grupo teatral cedendo-lhes o espaço necessário para trabalharem para as crianças em idade escolar do Concelho. Existe o projecto "Gardunha Viva" que não tarda nada fará parecer a Estrela um retrato antigo do meu álbum...
Não tenho qualquer dúvida, que apesar da quantidade de "coisas" que na Covilhã têm o nome de Carlos Pinto, a memória das pessoas esquecerá mais dificilmente Manuel Frexes...
Vai uma aposta?
12 novembro, 2006
Deixa-me que te conte
" Deixa-me que te conte" é um livrinho precioso, da autoria de Jorge Bucay, que descobre uma maneira original de pôr em livro os seus êxitos de psicanalista, através de estórias curtas - contos - em que a personagem Damião, rapaz curioso e inquieto, desejando saber tudo acerca de si próprio, procurou o Jorge, ( o autor do livro, claro ) , o " Gordo "( como é chamado ), que o ajuda a resolver os seus problemas.
Tendo eu também acabado de chegar de viagem pelas terras de Viriato e do Demo, onde me misturei, como gosto, com as pessoas simples e com a natureza, com os pinhais e com os míscaros, com as feiras das castanhas, das nozes, dos figos, do mel, de.....perdão, mas isso são outras estórias e não quero que os meus amigos prefiram as minhas estórias de viagem às que a nossa Eduarda tem para contar, bem mais interessantes, por certo...
Por isso, voltemos à estória de Jorge Bucay, que se chama o Elefante Acorrentado...
" Quando eu era pequeno, adorava o circo e aquilo de que mais gostava eram os animais.Cativava-me especialmente o elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos outros miúdos.Durante o espectáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um peso, tamanho e força descomunais...Mas depois da sua actuação e depois de voltar para os bastidores, o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas."
" No entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns centímetros no solo.E embora a corrente fosse grossa e pesada, parecia-me óbvio que um animal capaz de arrancar uma árvore pela raíz, com toda a sua força, facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir."
" O mistério continua a parecer-me evidente."
" O que é que o prende então?"
" Porque é que não foge?"
" Quando eu tinha cinco ou seis anos ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia decidi questionar um professor, um padre um tio sobre o mistério do elefante.Um deles explicou-me que o elefante não fugia porque era amestrado."
" Fiz então a pergunta óbvia:
- Se é amestrado porque é que o acorrentam?"
" Não me lembro de ter recebido uma resposta coerente. Com o passar do tempo esqueci o mistério do elefante e da estaca e só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito essa pergunta."
" Há una anos descobri que, felizmente para mim,alguém fora tão inteligente e sábio,que encontrara a resposta:"
" O ELEFANTE DO CIRCO NÃO FOGE PORQUE ESTEVE ATADO A UMA ESTACA DESDE QUE ERA MUITO, MUITO PEQUENO."
" Fechei os olhos e imaginei o indefeso elefante recém-nascido, preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o elefante puxou, esperneou e suou para se tentar libertar.E apesar dos seus esforços não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para ele."
" Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte e no outro e no outro...Até que um dia, um dia terrível para a sua história, o animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino."
" Esse elefante enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge, porque coitado, pensa que não é capaz de o fazer."
" Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois de nascer."
" E o pior é que nunca mais tornou a questionar seriamente essa recordação."
" Jamais, jamais tentou pôr novamente à prova a sua força..."
" - E é assim a vida, Damião.Todos somos um pouco como o elefante do circo: seguimos pela vida fora atados a centenas de estacas que nos coarctam a liberdade."
" Vivemos a pensar que não somos capazes de fazer montes de coisas, simplesmente porque uma vez, há muito tempo, quando éramos pequenos, tentámos e não conseguimos."
" Fizemos então o mesmo que o elefante e gravámos na nossa memória esta mensagem: " não consigo, não consigo e nunca hei-de conseguir...""
" Crescemos com esta mensagem que impusemos a nós mesmos e por isso nunca mais tentámos libertar-nos da estaca."
" Quando por vezes sentimos as grilhetas e as abanamos, olhamos de relance para a estaca e pensamos:
NÃO CONSIGO E NUNCA HEI-DE CONSEGUIR.
"O Jorge fez uma longa pausa. Depois, aproximou-se, sentou-se no chão à minha frente e prosseguiu:"
" - É isto que se passa contigo, Damião.Vives condicionado pela lembrança de um Danião que já não existe, que não foi capaz."
" A única maneira de saberes se és capaz é tentando novamente, de corpo e alma...e com toda a força do teu coração."
Jorge Bucay
( Deixa-me que te conte)
- Os contos que me ensinaram a viver.
Espero que gostem desta estória.
Uma semana de trabalho com alegria interior.
Abraços do
Eduardo Aleixo
Tendo eu também acabado de chegar de viagem pelas terras de Viriato e do Demo, onde me misturei, como gosto, com as pessoas simples e com a natureza, com os pinhais e com os míscaros, com as feiras das castanhas, das nozes, dos figos, do mel, de.....perdão, mas isso são outras estórias e não quero que os meus amigos prefiram as minhas estórias de viagem às que a nossa Eduarda tem para contar, bem mais interessantes, por certo...
Por isso, voltemos à estória de Jorge Bucay, que se chama o Elefante Acorrentado...
" Quando eu era pequeno, adorava o circo e aquilo de que mais gostava eram os animais.Cativava-me especialmente o elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos outros miúdos.Durante o espectáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um peso, tamanho e força descomunais...Mas depois da sua actuação e depois de voltar para os bastidores, o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas."
" No entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns centímetros no solo.E embora a corrente fosse grossa e pesada, parecia-me óbvio que um animal capaz de arrancar uma árvore pela raíz, com toda a sua força, facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir."
" O mistério continua a parecer-me evidente."
" O que é que o prende então?"
" Porque é que não foge?"
" Quando eu tinha cinco ou seis anos ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia decidi questionar um professor, um padre um tio sobre o mistério do elefante.Um deles explicou-me que o elefante não fugia porque era amestrado."
" Fiz então a pergunta óbvia:
- Se é amestrado porque é que o acorrentam?"
" Não me lembro de ter recebido uma resposta coerente. Com o passar do tempo esqueci o mistério do elefante e da estaca e só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito essa pergunta."
" Há una anos descobri que, felizmente para mim,alguém fora tão inteligente e sábio,que encontrara a resposta:"
" O ELEFANTE DO CIRCO NÃO FOGE PORQUE ESTEVE ATADO A UMA ESTACA DESDE QUE ERA MUITO, MUITO PEQUENO."
" Fechei os olhos e imaginei o indefeso elefante recém-nascido, preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o elefante puxou, esperneou e suou para se tentar libertar.E apesar dos seus esforços não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para ele."
" Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte e no outro e no outro...Até que um dia, um dia terrível para a sua história, o animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino."
" Esse elefante enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge, porque coitado, pensa que não é capaz de o fazer."
" Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois de nascer."
" E o pior é que nunca mais tornou a questionar seriamente essa recordação."
" Jamais, jamais tentou pôr novamente à prova a sua força..."
" - E é assim a vida, Damião.Todos somos um pouco como o elefante do circo: seguimos pela vida fora atados a centenas de estacas que nos coarctam a liberdade."
" Vivemos a pensar que não somos capazes de fazer montes de coisas, simplesmente porque uma vez, há muito tempo, quando éramos pequenos, tentámos e não conseguimos."
" Fizemos então o mesmo que o elefante e gravámos na nossa memória esta mensagem: " não consigo, não consigo e nunca hei-de conseguir...""
" Crescemos com esta mensagem que impusemos a nós mesmos e por isso nunca mais tentámos libertar-nos da estaca."
" Quando por vezes sentimos as grilhetas e as abanamos, olhamos de relance para a estaca e pensamos:
NÃO CONSIGO E NUNCA HEI-DE CONSEGUIR.
"O Jorge fez uma longa pausa. Depois, aproximou-se, sentou-se no chão à minha frente e prosseguiu:"
" - É isto que se passa contigo, Damião.Vives condicionado pela lembrança de um Danião que já não existe, que não foi capaz."
" A única maneira de saberes se és capaz é tentando novamente, de corpo e alma...e com toda a força do teu coração."
Jorge Bucay
( Deixa-me que te conte)
- Os contos que me ensinaram a viver.
Espero que gostem desta estória.
Uma semana de trabalho com alegria interior.
Abraços do
Eduardo Aleixo
Respiro o teu corpo
Estou de volta. Estamos! O EA também já voltou. Mais atrasado que eu, uma vez que prometera voltar a 10 e hoje são 12! Mas está perdoado, porque nos há-de dar mais umas pérolas da sua escrita, que tudo nos fazem esquecer... olha que é só a entrar contigo Eduardo...
Regressei após um (mau) almoço na cidade do Fundão. E foi pena, porque só desta vez é que aconteceu ter um almoço tão mau. Não sei o que deu à D. Etelvina. Deve ter esquecido e salgou os pratos duas vezes! Ou alguém já o tinha feito e não a avisou. Para além disso, arroz de polvo não é arroz de tomate com polvo, que eu saiba, em parte nemhuma do mundo, nem mesmo no Fundão! Apesar de tudo, saí satisfeita: é que o senhor Paulo, empregado da casa, ganhou o prémio de empregado de restaurante "sempre sorridente", "sempre simpático", "sempre atencioso" que acabo de criar. Que homem amável!
É interessante perceber as diferenças que existem entre os habitantes de duas terras tão próximas como o Fundão e a Covilhã...
Duas terras em sopés de cadeias montanhosas que se confundem, a Gardunha e a Estrela, são completamente diferentes. Os fundanenses sempre viveram da agricultura. Os covilhanenses (se este não for o nome correcto, peço que me corrijam) viveram no último século, sobretudo da indústria. Pois bem: os fundanenses sempre foram pobres e habituaram-se a ter um espírito de entreajuda, que hoje se reflecte no modo como acolhem os turistas: de braços abertos, sempre dispostos a ajudar, de sorriso na cara. Peço desculpa a quem se sentir ofendido com esta minha apreciação, mas foi o que eu senti nestas duas cidades. E a explicação para a diferença de "temperamentos" destas duas gentes serranas, tão próximas geograficamente foi-me dada por uma mulher do povo, que de letras pouco sabe, mas muito sabe da vida!
E vou deixar o resto da minha viagem serrana para os próximos dias, senão depois falamos de quê?
Uma boa semana para todos.
11 novembro, 2006
Até quase já...
Vim à biblioteca Eugénio de Andrade no Fundão e é daqui que vos escrevo. Nestas pequenas localidades o acesso à Net é gratuito e sem complicações burocráticas. Eu que tenho sempre algum receio de me pedirem uma quantidade de coisas, fiquei espantada com a facilidade com que me concederam acesso à Internet. Basta esperar que saia um "freguês" e pronto. As funcionárias todas muito simpáticas. De resto parto amanhã da Gardunha com impressões óptimas a todos os níveis. As pessoas são amáves, afáveis, prestativas... não parece que gente vivendo no meio de nada seja tão simpática. Mas a verdade é que, tirando uma ou outra excepção daquelas que confirmam a regra, me tenho dado lindamente por aqui.
Ganhei mais um amigo: CC. Não menciono o nome porque sendo actor, é pessoa conhecida que gosta de preservar a sua intimidade.
É um tipo fantástico. Parece saído de um livro de banda desenhada: é realmente mais uma personagem com figura de gente. Mas uma beleza de pessoa. Que correu para mim de braços abertos para se despedir, depois de dois dias de convívio, como se realmente eu lhe fosse deixar saudades. Acho que ele achou algum interesse na maneira como eu encaro a vida. No fundo algumas ideias que ele tinha no fundo de si, mas não era capaz de pôr cá fora.
Está um dia de sol lindo e eu estou mesmo aqui de passagem... sobretudo porque o EA me enviou um sms dizendo que só estaria em Lisboa segunda feira, e eu achei que era um abuso deixar o Meu Tempo parado tanto tempo. Então vim aqui para vos dizer que está tudo bem comigo e está tudo bem com ele.
Tirámos umas férias da blogoesfera: no meu caso bem curtas, mas no fundo sinto-me ainda como a primeira responsável por este espaço, já que fui eu que o criei.
E aqui vos deixo. Amanhã provavelmente começartei a publicar as impressões e fotografias que levo destas pedras e desta gente. Gente boa, esta gente serrana. Sempre preocupados com o sol que eu apanho e que me vai fazer mal... porque está muito baixo. Eles é que sabem: mas eu sou mesmo como os lagartos e só estou bem ao sol.
É por isso, que me fico já por aqui. Até quase já...
08 novembro, 2006
Passaredo

Ei, pintassilgo
Oi, pintaroxo
Melro, uirapuru
Ai, chega-e-vira
Engole-vento
Saíra, inhambu
Foge asa-branca
Vai, patativa
Tordo, tuju, tuim
Xô, tié-sangue
Xô, tié-fogo
Xô, rouxinol sem fim
Some, coleiro
Anda, trigueiro
Te esconde colibri
Voa, macuco
Voa, viúva
Utiariti
Bico calado
Toma cuidado
Que o homem vem aí
O homem vem aí
O homem vem aí
Ei, quero-quero
Oi, tico-tico
Anum, pardal, chapim
Xô, cotovia
Xô, ave-fria
Xô, pescador-martim
Some, rolinha
Anda, andorinha
Te esconde, bem-te-vi
Voa, bicudo
Voa, sanhaço
Vai, juriti
Bico calado
Muito cuidado
Que o homem vem aí
O homem vem aí
O homem vem aí
(Francis Hime/Chico Buarque)
É um Cansaço!
Terminou a minha semana de trabalho por aqui. Faço greve e vou "descansar" por montes e vales, o cansaço que trago espelhado no rosto, pegado ao corpo... Porque me admiro quando me dizem "estás com um ar cansado"?. Porque eu estou efectivamente cansada, mas é sobretudo um cansaço do que me rodeia, um tédio de más notícias, uma necessidade de fugir para onde possa gastar a energia que me excede, que se excede e que não me deixa dormir... É uma raiva de sentir que não posso fazer nada para impedir o desvario que vai por este país... Uma raiva de ouvir os senhores banqueiros, virem falar agora de "peronismo"... agora que lhes toca a eles... parece que até agora estava tudo a correr lindamente... mas derepentemente (deixem-me inventar umas palavrinhas de vez em quando, que isto dá um alento, ter a ilusão de viver num país que não fala exactamente português!...) É estar farta de ouvir este governo, que só se ouve a si mesmo, achar-se muito corajoso, muito dialogante, muito democrático... Uma vontade de tapar os ouvidos, para não os ouvir dizer que o emprego aumenta, quando o desemprego é cada vez maior e cada vez mais uma ameaça real... e o que espera os novos desempregados com as novas regras sobre a matéria, que ainda não foram divulgadas, porque neste governo tudo sai a conta-gotas... como se as pessoas fossem tontas e sofressem menos assim!
Como uma anestesia local, daquelas que nos irritam, porque nos deixam horas sem sentir um pedaço de nós... é assim que eu me sinto: como se faltasse um pedaço de mim: o pedaço onde se alojava a esperança de um futuro melhor para todos; a esperança de uma sociedade realmente democrática; a esperança de poder viver no meu país com os meus filhos: de não os ver emigrar para poderem ganhar a vida; a esperança de ganhar um país de verdade! Um país livre de verdade... porque não há liberdade sem pão. E não há liberdade sem saúde. E não há liberdade sem educação.
O que tínhamos era pouco. Muito pouco. Mas fomos nós que entregámos o pouco que tínhamos. Foi o povo que elegeu este governo com uma maioria que lhe permite arrogar-se o direito de não dar direitos ao povo. (Felizmente este remorso não levo comigo, para onde quer que vá).
Eduardo Lourenço tem razão: quem tem a culpa é o povo. Votaram neles e agora aguentamos todos nós.
Uma réstia de esperança: nos EUA os democratas estão a dar uma "tareia" aos republicanos nas intercalares. Parece que as pessoas estão a acordar e até já elegeram um muçulmano! Que esta lição sirva ao meu país... e aos outros que reelegem quem já provou que não merece o nosso voto, a nossa estima, a nossa colaboração!
Enquanto houver quem não se dobre, a gente vai continuar!
07 novembro, 2006
Porque era ela, porque era eu

Eu não sabia explicar nós dois
Ela mais eu, por que eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando
Pela mão
Íamos tontos os dois assim ao léu
Ríamos, chorávamos sem razão
Hoje, lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu
(Chico Buarque)
Estórias do quarto escuro
É engraçado pensar no que falamos quando estamos com os amigos. Se são amigos de infância, naturalmente há recordações conjuntas. Fala-se muito, uma coisa puxa outra, ri-se ao lembrar as diabruras de cada um e dos terceiros... que não estão presentes, mas é como se estivessem!
Quando estamos com amigos que fizemos depois de adultos, começa a sentir-se que a amizade é real, verdadeira, pura, quando começamos a falar das nossas infâncias... É verdade que isto nem sempre será assim: há pessoas mais abertas que outras, mais faladoras ou menos... agora que penso nisso, sei que há pessoas que considero como minhas amigas mas de que não sei nada sobre as infâncias... acabo de falar com uma delas... e prometo aqui que, assim que ela melhorar o suficiente para um almoço a quero ouvir falar da infância... porque as estórias que passámos nessa altura nos marcam para a vida.
Almocei hoje com a Maria Helena e ela começou falar-me do monte no Redondo e do quarto escuro, que ela vai manter para se uma dia vier a ter netos os poder castigar... estou mesmo a vê-la castigar seja quem for quanto mais os netos!
O facto é que ela em miúda era fechada no quarto escuro, pela mãe. E diz que não ficou nada traumatizada... ali é que ela inventava as diabruras que ia fazer a seguir... o pai, que era um homem muito doce, pintou o tecto do quarto escuro de azul, para que ela pudesse ter um pedacito de céu enquanto cumpria os castigos impostos pela mãe.
São estórias destas que nos unem aos amigos. A Maria Helena conta esta estória sem mágoa... sem rancor... pelo contrário: a sua alegria é visível quando fala dos factos da infância.
O que eu gosto desta alentejana! Vou ler o "Casei com um Masai" bem rapidinho, para ter pretexto para um novo almoço, rapidamente... eu sei que não precisamos de pretextos, amiga... é só uma maneira de dizer.
É que eu sei que ela tem muitas estórias para contar... para além das dezenas, talvez centenas que já me contou... É que quando estamos juntas, enredamos os assuntos de tal maneira, que às tantas já não sabemos do que estamos a falar... Sabem como é? Claro que sim!
Quero ouvir as estórias do quarto escuro.
06 novembro, 2006
Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
Nem ensaboar.
O sabão é ruim.
A mão está suja,
suja há muitos anos.
A princípio oculta
no bolso da calça,
quem o saberia?
Gente me chamava
na ponta do gesto.
Eu seguia, duro.
A mão escondida
no corpo espalhava
seu escuro rastro.
E vi que era igual
usá-la ou guardá-la.
O nojo era um só.
Ai, quantas noites
no fundo de casa
lavei essa mão,
poli-a, escovei-a.
Cristal ou diamante,
por maior contraste,
quisera torná-la,
ou mesmo, por fim,
uma simples mão branca,
não limpa de homem,
que se pode pegar
e levar à boca
ou prender à nossa
num desses momentos
em que dois se confessam
sem dizer palavra...
A mão incurável
abre dedos sujos.
Eu era um sujo vil,
não sujo de terra,
sujo de carvão,
casca de ferida,
suor na camisa
de quem trabalhou.
Era um triste sujo
feito de doença
e de mortal desgosto
na pele enfarada.
Não era sujo preto
- o preto tão puro
numa coisa branca.
Era sujo pardo,
pardo, tardo, cardo.
Inútil reter a ignóbil
mão suja posta sobre a mesa.
Depressa, cortá-la,
fazê-la em pedaços
e jogá-la ao mar!
Com o tempo, a esperança
e seus maquinismos,
outra mão virá
pura- transparente -
colar-se a meu braço.
(Carlos Drummond de Andrade)
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
Nem ensaboar.
O sabão é ruim.
A mão está suja,
suja há muitos anos.
A princípio oculta
no bolso da calça,
quem o saberia?
Gente me chamava
na ponta do gesto.
Eu seguia, duro.
A mão escondida
no corpo espalhava
seu escuro rastro.
E vi que era igual
usá-la ou guardá-la.
O nojo era um só.
Ai, quantas noites
no fundo de casa
lavei essa mão,
poli-a, escovei-a.
Cristal ou diamante,
por maior contraste,
quisera torná-la,
ou mesmo, por fim,
uma simples mão branca,
não limpa de homem,
que se pode pegar
e levar à boca
ou prender à nossa
num desses momentos
em que dois se confessam
sem dizer palavra...
A mão incurável
abre dedos sujos.
Eu era um sujo vil,
não sujo de terra,
sujo de carvão,
casca de ferida,
suor na camisa
de quem trabalhou.
Era um triste sujo
feito de doença
e de mortal desgosto
na pele enfarada.
Não era sujo preto
- o preto tão puro
numa coisa branca.
Era sujo pardo,
pardo, tardo, cardo.
Inútil reter a ignóbil
mão suja posta sobre a mesa.
Depressa, cortá-la,
fazê-la em pedaços
e jogá-la ao mar!
Com o tempo, a esperança
e seus maquinismos,
outra mão virá
pura- transparente -
colar-se a meu braço.
(Carlos Drummond de Andrade)
Subscrever:
Mensagens (Atom)







