17 dezembro, 2006

Estamos no lado errado do mundo.


A Palestina decidiu facilitar a vida a Israel e está à beira de uma guerra civil. Israel reconheceu finalmente que tem armas nucleares; a propósito não ouvi um único comentário do senhor Bush ou da senhora Rice a propósito deste assunto. Até aqui, nada de novo. No Iraque foram raptados 30 funcionários do Crescente Vermelho e não se sabe do paradeiro de cento e dois emigrantes clandestinos senegaleses que naufragaram quando se dirigiam a Espanha ou Itália... Continuamos sem ter nada de novo... Tudo isto são factos que infelizmente vão fazendo parte do lado errado deste mundo em que vivemos.
Porém, e há sempre um porém, em Copenhaga a madrugada foi agitada e acabou com cinco feridos e trezentas pessoas detidas, porque fizeram uma manifestação a favor de um grupo de jovens a quem tinha sido cedido um espaço pelo governo que agora lhes foi retirado para ser vendido... retirado é como quem diz, porque ninguém arredou pé. É claro que isto também não é novidade (pelo menos na Dinamarca): as pessoas manifestam-se pelo que consideram ser justo e exigem que o governo cumpra promessas. É claro que a Dinamarca é um país do primeiro mundo: pode dar-se a estes luxos... Nem que seja para se manifestarem por causas que a nós nos podem parecer ridículas.
Por cá, vamos deixando que o governo continue arrogantemente a desrespeitar todas as promessas que fez em campanha e pior, a desrespeitar os direitos mais fundamentais dos cidadãos: liberdade, emprego, estabilidade para formar família sem ter que se preocupar se hoje está em Lisboa e amanhã em Trás-os-Montes, ou pior ainda, sem emprego!
Abençoado povo que tudo aceitas de cabeça baixa e braços caídos...

Muda de vida

(Para todos os meus amigos que não estão satisfeitos com a sua vida, mas que ainda não tiveram vontade para a mudar...)

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens...que ser assim?...

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens... que ser assim?...

Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver
Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver

(Antóno Variações)

A vida é feita de acasos?


Pois eu que não acredito em nada, sou uma pessoa muito dada a coincidências... ou serei apenas mais atenta que a maioria dos mortais ao que se passa à minha volta, apesar das pessoas terem de mim a ideia de que sou "desligada".
Há um ou dois anos, talvez dois, vi na estação do metro do Cais do Sodré, uma rapariga que me prendeu o olhar, pela tatuagem que trazia no ombro. Estávamos no Verão e portanto a tatuagem era bem vísível... Ela entrou numa carruagem diferente da que eu usei e voltei a encontrá-la à espera de metro, passados 20 minutos no Campo Grande. Aí, apanhámos as duas a mesma carruagem e reparei que ela saiu na Cidade Universitária.
Ao fim do dia, chegada ao prédio em que habito, entro e quem é que estava à espera de elevador? A mesma rapariga, que depois vim a saber habitar por cima do meu apartamento há pouco tempo!
Não sei se há coincidências, nem sequer se há explicações para o que se passa comigo com frequência... Sou eu que atraio coincidências, ou simplesmente as coisas estavam escritas dia a dia no meu percurso de vida quando nasci?
Na sexta-feira o que tornou o "encontro" especial, foi o facto de andar a ler o livro "A Vida Nova" que me fez sentir como personagem surgida ali no meio do livro...
Se achas que o teu livro me pode ajudar de algum modo Eduardo, agradeço que mo emprestes... mas já sabes que eu não tenho essa fé que tu tens... portanto não fiques desiludido comigo, se no fim eu ficar na mesma... acasos sempre existiram... e podem de facto mudar uma vida, apenas porque as nossas vidas são feitas de acasos.

16 dezembro, 2006

UM LIVRO MARAVILHOSO


" É apenas mais um rosto ", texto da Eduarda, sobre um encontro no metro, por duas vezes, no mesmo dia, que a sensibilizou, com alguém, que antes nunca vira, levou-me à minha estante, onde tenho um livro, que vivamente lhe recomendo, não só a ela, mas a todos, que já passaram por acontecimentos, que podem ser casuais, só aparentemente, mas que poderão, segundo a autora do livro, obedecer a razões, que a pura lógica não explica...

O livro chama-se: " Sincronicidade e o Self - o Tao da Psicologia " e a autora é Jean Shinoda Bolen, autora do livro famoso, a Travessia para Avalon.

Transcrevo, para abrir - eventualmente - o apetite, um texto, da capa do livro, para apresentação do mesmo:

« Em cada uma destas situações foi-se surpreendido pela coincidência e não se consegue explicar como é que ela podia ter acontecido.Intuitivamente cada acontecimento foi sentido como significativo e foi levantada a possibilidade de existir uma conexão invisível e desconhecida ou uma maneira pela qual acontecem coisas como estas.Quem não experimentou esta estranha coincidência, essa súbita e desconcertante penetração, esse relâmpago ocasional de percepção extra-sensorial que surpreende?.Podem esses acontecimentos ser postos de parte como mero acaso, ou têm algum significado mais profundo para nós?.»

Ora esta obra, de uma autora, que segue o pensamento de Jung, o pai da Psicologia das Profundidades, do Eu Interior, dos Arquétipos e do Inconsciente Colectivo, « oferece uma abordagem para desvendar as mensagens ocultas nessas ocorrências e descobrir o seu significado nas nossas vidas.»

« Num nível mais profundo, a Dra Jean Bolen explora a interrelação entre essas " coincidências com significado" e a sensação intuitiva de que somos parte de uma unidade profunda com o universo. Este princípio subjacente é chamado Tao na filosofia oriental e Sincronicidade na Psicologia de Jung.Vemo-lo a manifestar-se na vida quotidiana por intermédio dessas "coincidências" que nos sugerem um significado interior que não podemos explicar de uma maneira racional»

Repara que para vermos essas manifestações, que nos acontecem a todos, é preciso muita atenção. Aos sinais. Eles podem ser muito importantes. Podem ser a chave das nossas vidas. Das suas mudanças.

Mas será que o que te aconteceu foi mesmo uma sincronicidade,ou uma mera casualidade?
Eu sei que a resposta não é fácil... O livro, a absorção deste conceito de Sincronicadade, ajuda muito...

Se não quiseres comprar o livro, eu empresto. Isto, claro, se estiveres interessada...

Eduardo Aleixo

Calçada de Carriche

(Para todas as mulheres, num abraço de solidariedade)

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.

Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

(António Gedeão)

A cidade dos cães


"Dogville" é um filme de 2003 que eu ainda não tinha visto apesar da insistência da minha sobrinha actriz que lê e vê os mesmos livros e filmes e peças de teatro que eu, uma vez que temos gostos muito semelhantes. Pois hoje, como diria o velho Alfredo, tirei-me dos meus cuidados e vi o filme.
É na realidade uma peça de teatro filmada e trata de sentimentos e emoções, trata do homem, que afinal é um bicho.
Resumindo a estória: uma rapariga perseguida por gangsters acaba por ir dar um povoado, Dogville, perdido no meio do nada e que é habitado por 15 adultos e algumas crianças, todas pertencentes à mesma família. É ajudada pelo filho do médico, que se auto intitula escritor, sem que tenha escrito qualquer livro, mas que consegue convencer a população a abrigar a rapariga, Grace, por duas semanas, para depois decidirem se deve ou não continuar a abrigá-la.
Grace tenta conquistar os habitantes do povoado, oferecendo-se para os ajudar nas suas tarefas, mas todos recusam, dizendo que o trabalho ali chega apenas para eles... Passado o tempo de "prova" é decidido que Grace fica, apesar de ser procurada pela polícia como desaparecida. A princípio ela consegue que os habitantes a deixem trabalhar um pouco para cada um e com o pouco que ganha, vai comprando uma a uma as estatuetas, que são sete ao todo e que estão à venda na única loja do povoado. Conquista os habitantes, um a um, até que a polícia invade o povoado com um cartaz procurando Grace por assaltos a Bancos. Quando perguntam à polícia quando ocorreram os assaltos a polícia responde "nos últimos 15 dias"... portanto todos sabem que o cartaz é uma mentira, que Grace esteve ali aquele tempo todo, mas esta notícia faz com que Grace comece a ser mal tratada: obrigam-na a trabalhar o dobro por metade do preço, começa a ser violada por um dos habitantes e quando tenta fugir com a ajuda do filho do médico, é violada pelo homem que a devia ajudar a fugir a troco de dinheiro e depois de o fazer a leva de volta a Dogville, onde ela passa a ser mesmo escravizada, arrastando correntes para onde quer que se mova, para que não tente fugir de novo. Grace apenas tentou fugir, mas nunca perde a esperança, não chora, não se revolta... aceita tudo com resignação. Até que o filho do médico de quem ela gosta e que diz amá-la, também ele quer o seu corpo e ao perceber que ela não quer que ele faça o mesmo que todos os outros fizeram, decide traí-la e telefonar aos gangsters que lhe tinham oferecido uma recompensa se ele desse notícias dela.
Quando os gangsters chegam, percebe-se que o chefe é o pai de Grace que se tinha desentendido com ela por ela o chamar de arrogante, quando ele acha que ela é mais arrogante que ele, por suportar todas as dores e violências sem se rebelar... numa primeira conversa com o pai ela diz que pretende ficar em Dogville, que o que os habitantes lhe fizeram é apenas resultado da vida sem sentido que levam, mas depois pensa melhor e diz ao pai que quer mesmo vingar-se, matando todos os habitantes e deitando fogo ao povoado. E quer que a família que tem as crianças veja os seus filhos morrerem um a um depois de dizer à mãe "se não chorares pelo primeiro que morrer pouparemos os outros", porque esta mulher lhe tinha partido as estatuetas que ela tinha comprado com muito esforço, por acreditar que ela tinha seduzido o seu marido... Grace nunca se defendeu dos insultos que todos lhe dirigiam e o único que sabia das violações era Tom o filho do médico que dizia amá-la, mas que apesar disso a traiu e que ela, apesar de dizer que o amava mata com um tiro na cabeça.
Um filme muito violento, cru, com interpretações fantásticas... tinha saudades de ver Laureen Bacall. E Nicole Kidman é sempre extraordinária.
Uma visão do que cada homem é capaz quando as circunstâncias o permitem... Aonde pode chegar a maldade, a violência, o ódio... que acaba por poupar apenas Moisés, o cão, que como que por milagre se salva das chamas.
Um filme que me deixou de rastos.

15 dezembro, 2006

Com uma viagem na palma da mão


Agarras-te à hora
Em que o tempo não passou
Mergulhas nas cores
Que a loucura te emprestou
E quando te vês para lá do espelho
Encontras a solidão

Descobres o Mundo
De quem tem pouco a perder
E sobes às estrelas
Que ontem não podias ver
E perdes o medo de estar só
No meio do multidão

Tradições
Atrás de contradições
Fizeram-te abrir os olhos
Podes dizer: Eu... sou


(Jorge Palma)

É apenas mais um rosto...

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Tem cerca de 1,75m, é moreno (tipo árabe), traços de rosto vincados, fortes, cabelo encaracolado cortado não muito curto, olhos negros e vibrantes.
Nunca o tinha visto. Hoje estava encostado na estação do metro do Campo Grande, no lugar onde eu própria costumo encostar-me... Apanhou o mesmo metro que eu e não sei onde saiu, uma vez que eu saí antes dele... Nunca o tinha visto antes e, embora algo me tenha atraído para este homem, não pensei nele todo dia. Era mais uma cara para esquecer, se...
Se eu não andasse a ler um romance que se intitula "A vida Nova" de Orhan Pamuk (o Nobel da literatura de 2006, que eu confesso que não conhecia), e que conta a estória de pessoas que leram um certo livro e que ficam tão obcecadas por ele, que a sua vida é virada do avesso. O personagem principal começa por procurar o seu "Anjo" que o libertará de uma vida sem sentido para o acompanhar numa vida repleta de sentido. São as coincidências que conduzem este personagem ao seu anjo...
Pois. Acontece que, quando voltei para casa, o homem que me tinha impressionado de manhã, se sentou à minha frente no metro! Um homem que eu nunca tinha visto, cruza-se comigo no mesmo dia de manhã e ao fim do dia... isto, enquanto eu ando a ler um romance que diz que há livros que mudam a vida das pessoas. E é verdade. Assim como há filmes que nos mudam a vida.
A figura do homem não me sai da cabeça. Pareceu-me um empregado desqualificado, de calças de ganga e camisolão de lã, sem quaisquer adornos mas com algo de feminino no rosto marcadamente masculino! Não ia a ouvir música, nem transportava qualquer livro ou jornal ou o que quer que fosse... Era um homem que não tinha nada que me chamasse à atenção, não tivesse sido o facto de eu o "ver" enquanto leio um romance que se chama "A Vida Nova"!
A ver se penso nele no fim de semana... a ver até que ponto tudo isto é capaz de me impressionar... e de mudar a vida em função de um livro que fala de outro livro...

14 dezembro, 2006

NOTAS BREVES DE DEZEMBRO


1. Fui ao encontro do sol-poente para o oferecer a todos os que se levantam cedo, olham para ele, falam com ele, o amam, e só depois partem para o trabalho, e têm desgosto de não poderem fazer o mesmo, ao pôr do sol, porquanto se encontram a trabalhar e não chegam a tempo...
Fi-lo, com amor.
Sou amigo do sol e do mar. Tenho pois confiança com ambos. Falei com eles, em vez de falar com o Pai Natal. Não vou desvendar muitos aspectos da conversa, porque... tal me foi pedido. Direi apenas que o sol e o mar me elogiaram certas pessoas, o que para mim não foi novidade. Disseram-me que mandavam beijinhos de espuma, de maresia, de algas, de conchas e de búzios, apenas para as pessoas que, vivendo junto ao mar, abrem a janela e namoram com ele, mar, e também com o sol, alaranjado, pessoas que são muito poucas, vejam bem, o que não me surprendeu... mas que me deixou triste, não vale a pena dizer porquê...

2. Foi bom ver a minha filha, Rita, comentar um poema meu, no blogue. Fiquei enternecido. Mas se falo nisto aqui é porque ... deixa-me lá ver se consigo expressar-me: é porque acho que a geração, a que ela pertence, é mais desinibida do que a minha, do que pessoas minhas amigas que eu sei que vêm espreitar o blogue, lêem o que aqui se escreve ( presumo eu ), e não se pronunciam, nem comentando no blogue, nem...e isso é que eu mais estranho, quando me contactam...não dizem nada...é estranho.Vivam as Ritas...

3. Adorei um livro de Einstein. Como é possível um génio, como ele foi , tão matemático, tão rigoroso, ter 3 coisas que eu admiro e que não é normal ver-se na intelectualidade de cá e de todo o lado: 1) Linguagem simples; 2) Espírito de humildade na exposição dos factos e das ideias; e 3) Tudo tão certinho e no entanto com o aviso de que: « Devemos duvidar da própria dúvida»...

Eduardo Aleixo

Teresinha


O primeiro me chegou
Como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia
Trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio
Me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada
Que tocou meu coração
Mas não me negava nada
E, assustada, eu disse não

O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse não

O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração

(Chico Buarque)

Gracias Michelle Bachelet!

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O neto do ditador Augusto Pinochet, parece que se enganou... julgou que ainda havia uma ditadura no Chile e que podia continuar a dizer e fazer o que lhe apetecesse, ofendendo ainda mais, as famílias das vítimas do seu avô, passando por cima de todas as hierarquias militares e políticas... disse o que lhe apeteceu, pois disse, só que a presidente do Chile, Michelle Bachelet de imediato fez um discurso que "obrigou" de imediato o exército a expulsá-lo... ela própria uma vítima de Pinochet...
Espero que os incidentes naquele país se fiquem por aqui. Na verdade a família do ditador que mandou matar e torturar milhares de pessoas, está bem. Tem todo o conforto e algo mais do que isso, enquanto o povo vai sobrevivendo como pode e ainda tem que ter estomago para ouvir um playboy de pacotilha tecer elogios a um carrasco. É claro que eu compreendo que o carrasco foi "su abuelo" e provavelmente lhe ensinou que o mundo lhe pertencia no sentido literal da palavra. Mas nem por isso o que fez é mais desculpavel. Antes pelo contrário: um soldado tem que saber respeitar primeiro o seu país, depois o seu exército. Ora este herói de meia tigela fez mais uma diabrura, daquelas que provavelmente encantavam "su abuelo". Porque em todos os ditadores existe um lado terno e amoroso que se manifesta geralmente para com a sua prole, a quem tudo permitem.
Tenho visto poucas notícias e lido nada (é que ando encantadada com "A Vida Nova") de jornais. Mas embora sabendo que estes não me lerão, quero aqui deixar o meu abraço a dois escritores que muito admiro e que, acredito que tal como eu, sintam um prazer amargo de derrota na morte deste ditador, sem que tivesse chegado a julgamento:Isabel Allende, sobrinha de Salvador Allende e uma escritora que me encanta e Luís Sepúlveda o escritor chileno que andou exilado pelo mundo e que vive há uns anos aqui na península, em Gijón, depois de ter combatido a ditadura chilena e de ter andado por esse mundo fora ajudando causas tão nobres quanto ele, como a defesa da Amazónia que tem matado tantos brasileiros (e não só), como Chico Mendes, que se atrevem a enfrentar o poderio dos senhores da madeira no Brasil.
Obrigada pois senhora presidente Michelle Bachelet!

13 dezembro, 2006

Canção de embalar

(Para o Pedro, Pablo e Daniel)

Dorme meu menino a estrela d’alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será pra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d’alva o seu fulgor

Perde a estrela d’alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme que ainda à noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

(José Afonso)

A vox populi é que a sabe toda!

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Sei que hoje assisti a dois espectáculos belíssimos e completamente grátis: o nascer e o pôr do sol... e se tenho assistido sempre ao nascer do sol, as minhas obrigações profissionais não me têm dado hipótese de assistir ao seu adeus... mas hoje sim. E o facto curioso é que o dia nasceu laranja e morreu laranja... o Tejo tendo como pano de fundo estes alaranjados (diferentes: de manhã aberto e ao anoitecer mais escuro), fica de um beleza indescritível, enche-me a alma!
É por esta e por outras como esta, que tinha decidido não tocar sequer no assunto Carolina Salgado, corrupção no futebol, literatura de cordel (é tudo tão mauzinho, que tenho dificuldade em falar deste tipo de coisas sem ficar deprimida). Mas o Eduardo Aleixo resolveu hoje falar de Pedro Rolo Duarte ou melhor, do que este senhor pensa dos blogues.
Pois o único comentário que farei a propósito deste asunto é o seguinte: as pessoas não são mais nem menos cultas, inteligentes, educadas, por terem um nome mais ou menos conhecido... Eu não criei este blogue senão porque gosto de ler, de escrever e de fotografia. Não tenho o intuito de me tornar conhecida como o senhor Pedro Rolo Duarte... Mas tenho o direito de expressar a minha opinião, que não é menos importante que a dele só porque ele tem um "nome". Eu também tenho um nome, de que gosto muito aliás e que, o que já não é para todos, está limpo... pelo menos por enquanto!, o que já não é pouco nos dias que correm... Mas se ele nos quiser visitar, cá estamos de braços abertos para o acolher, como temos acolhido gente anónima e bloguistas como nós.
E já agora, a propósito de barbeiros, senhor Pedro Rolo Duarte, quem é que lhe corta o cabelo? Eu corto o meu mais ou menos de 2 em 2 ou de 3 em 3 meses aqui mesmo no bairro onde vivo! E o cafezinho, já agora senhor Rolo Duarte, o cafezinho? Eu tomo o meu em casa, feito por mim, com bastante espuma, que ainda não achei café onde mo tirem tão gostoso! Quando quiser, já sabe, está convidado para um café tirado como deve ser aqui pela bloguista de serviço. Mas pode ser que o café que frequenta seja diferente... Era só para saber!
Porque o que realmente importa, o que realmente é fundamental, é a beleza... (o poeta é que sabe!) o espectáculo que a natureza nos proporciona todos os dias em exclusivos e originais sucessivos... pelo menos para quem está mais interessado no que verdadeiramente importa!
Ah! E a "vox populi"! Essa então sabe-a toda!

UM ARTIGO INTERESSANTE SOBRE OS BLIOGUES

Pedro Rolo Duarte escreveu, no Diário de Notícias de hoje, uma crónica intitulada, " Um livro que alterna...". Por conter matéria interesssante, respeitante aos blogues, às suas motivações, e ao livro de Carolina Salgado, tomo a liberdade de transcrever algumas pasagens:

«....distingo claramente dois patamares de blogues: os que, por serem assinados por personalidades mais ou menos conhecidas ( jornalistas, políticos, intelectuais, escritores ) ,gozam de uma relevância que lhes garante alguma influência na rede e obedecem até a uma espécie de " livro de estilo " que os inscreve numa normalidade próxima dos media classicos; e os outros, dos anónimos cidadãos, criados muitas vezes ao sabor de uma paixão ou de um ataque de raiva, e que obedecem somente aos "ventos" dos seus autores. Os primeiros são extensões de pessoas, causas, jornais, grupos de cidadãos.Os segundos são, na realidade, a vox populi, que habitualmente se encontra nos cafés, nos barbeiros, nos cabeleireiros e que está ali,também,ao alcance de um clique.»

Faço aqui uma pausa para vos dizer que as classificações são deficientes e às vezes injustas. Claro que Pedro Rolo Duarte é « por razões profissionais.....um atento leitor da blogosfera nacional». Sabe pois do que diz, ao contrário deste cidadão anónimo. Mas não há dúvida de que se ele lesse o nosso blogue teria inevitavelmente de aperfeiçoar a sua classificação sobre blogues. De facto, pelo que sei da criadora do blogue, Maria Eduarda, como sei de mim próprio, que aqui comecei a escrever por seu convite, ambos somos cidadãos anónimos, mas não fazemos sala nem nos barbeiros, nem nos cabeleireiros. E, por outro lado, tenho disso a certeza, o blogue foi criado para ser uma extensão da interioridade das pessoas que nele escrevem e publicvalm as suas fotografias, embora não sejam, nem tenham a pretensão de ser, persnalidades conhecidas. Mas lá que temos o nosso "estilo" , isso temos...

Passando a outro tema vamos dar, de novo, a palavra, ao autor do artigo, que é, aliás, uma pessoa que admiro como cronista :

« Ora, a clivagem entre estes dois tipos de blogues torna-se normalmente relevante quando se dá um " caso " como o que foi criado pelo lançamento do livro de Carolina Salgado sobre Pinto de Costa....... E essa clivagem seria a chave do livro e do problema: por um lado, a autora e estilo da obra descredibilizam tudo o que nele se revela; por outro lado, a gravidade das acusações impede os media( e mais ainda as autoridades judiciais ) de a ignorarem». Concordo. Este entendimento consta no nossso blogue em artigo por mim assinado.

« Entre a vontade de ridicularizar o tema, como fizeram ( de forma desbragadamente divertida ) os Gatos Fedorentos, e a necessidade de levar a sério algumas das afirmações nele inscritas, o coração balança - e nestas circunstâncias a " vox populi " iria por um caminho, enquanto os " blogues de referência " iriam por outro...»

« Observando os dois patamares da blogosfera, o que se verifica é que o livro de Carolina Salgado desestabilizou de tal forma a comunidade que encontro reacções cruzadas: há gente circunspecta e de "referência" a brincar com o tema, e há a pura " vox populi" a descobrir motivos de séria apreensão.» Correcto. Querem um exemplo do primeiro caso? A Clara Ferreira Alves, no Programa ," O eixo do mal ",a gozar e a desprezar o assunto, só porque o livro tinha sido escrito por quem foi, não importando o resto...O nosso blogue, contudo, tomou posição,não como "vox populi", até porque não se encaixa na classificação de Pedro Rolo Duarte, como já foi explicado, mas sim porque o assunto é demasiado sério...


Eduardo Aleixo

JOGO DE PALAVRAS (?)

POEMINHA
Às vezes come-se
Não tremoços
Mas o tempo
Que nos come
Eduardo Aleixo

12 dezembro, 2006

ÂNSIA


POEMA


Ânsia de cantar, sem distracção.
De fugir, mas sem trair.
De amar, sem naufragar.
De dançar em liberdade:
O corpo
Quente
Ardente
Contente
De ser gente
No meio da gente...


Oh, Deus, que as minhas palavras sejam belas,
Mas que sejam úteis.


Que os passos que dê sejam como arados
Na terra grata de grãos pesados.


Que diga flor
Com mãos de amor
E de suor.


Que diga amada...
E que o vento trema de emoção
E que o sol fique cheio de inveja!


Eduardo Aleixo

O meu Menino é d'Oiro

(Para o Daniel, com amor)
O meu menino é d'oiro
É d'oiro fino,
Não façam caso que é pequenino
O meu menino é d'oiro
D'oiro fagueiro
Hei-de levá-lo no meu veleiro

Venham aves do céu
Pousar de mansinho
Por sobre os ombros do meu menino
Do meu menino, do meu menino
Venham vomigo, venham
Que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó.

Quantos sonhos ligeiros
P'ra teu sossego
Menino avaro não tenhas medo
Onde fores no teu sonho
Quero ir contigo
Menino de oiro
Sou teu amigo.

Venham altas montanhas,
ventos do mar,
que o meu menino
nasceu p'ra amar.
enham comigo venham,
que eu não vou só
levo o menino no meu trenó.

(José Afonso)
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