01 janeiro, 2012

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Ondjaki
(último) - "amanhã fará verão dentro de mim"... (e do mundo...)

Com Fúria e Raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra


(Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas")

Chico: Bastidores - "Se Eu Soubesse" (clica aqui)

Ah, se eu pudesse te diria na boa
Não sou mais uma das tais
Não ando com a cabeça na lua.
Nem cantarei 'eu te amo demais',
Casava com outro se fosse capaz
Mas acontece que eu saí por aí
E aí, larari larari larari larara

barafunda


não vou fazer balanços logo eu que não gosto da palavra não começo um prosinha desta maneira há-de ser da hora com certeza não será porque desacostumei de passar por aqui de tão triste e deprimida que ando com os pedros e os antónios e os vascos e mais a quantidade de inteligências luminosas que não mandam nada mas fazem de conta que sim. e por falar em manda tenho andado a pensar que a ângela devia ganhar o salário do zé (baroso) uma vez que faz o serviço todo (ou quase todo) pronto concedo que talvez possa dividir com o francês pequenino que gosta de se pôr em bicos de pés a ver se mostra a popa dos anos cinquenta. o zé pode ficar com o salário mínimo e assim ganhar umas isenções quando vier a portugal e pode ser que tenha o azar de adoecer por cá já se safa das taxas desmoderadoras acabo de inventar a palavra não me tinha ocorrido mas também não me tinha ocorrido que as pessoas gostam de ir para as urgências dos hospitais e à conta disso o paulo teve que inventar as desmoderadas a ver se as pessoas sossegam e ficam em casa a descobrir como se liga o aparelho descodificador da tdt de modo a verem televisão ainda não perceberam que não devem ir passear para os hospitais porque andam por lá bactérias mortíferas e não fosse termos um ministro que percebe muito de impostos e taxas nunca perceberiam que afinal a tdt parece que não é para todos mas para os que têm sorte de viver onde existe a tal magia a que chamam digital terrestre. por isso companheiros amigos camaradas façam o favor de se manterem quietinhos que o país é de brandos costumes e não fica bem pôr-me eu aqui a incitar a malta a invadir as urgências e levar a família toda atrás para fazer número e sair sem pagar porque afinal parece que para mim (felizarda) é mais barato ir a uma urgência de um hospital privado do que para um público. azar o meu que gosto mais do público. eles bem querem que eu vá para um bom privado mas eu que sou burra e teimosa deixo-me ficar onde estão os profissionais mais qualificados... enquanto eles não se mudarem para o privado.

03 outubro, 2011

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"escrevemos em busca da voz que mais nos fala por dentro. ajustando a vida (a escrita?) às “falas do lugar"

Essa moça tá diferente - Chico Buarque

Eu cultivo rosas e rimas
Achando que é muito bom
Ela me olha de cima
E vai desinventar o som
Faço-lhe um concerto de flauta
E não lhe desperto emoção
Ela quer ver o astronauta
Descer na televisão

Chico

Talvez não fosses forte
para a felicidade,
nem para o medo.

Olha as pessoas felizes:
ocultam-se na felicidade
como em casa, erguem

muros, fecham as janelas,
o medo
é a sua fortaleza.

O que disputam à morte
é maior que elas,
a morte não lhes basta.


(Manuel António Pina, in "Cuidados Intensivos")

pela vossa saúde

há menos de 48 horas internada parece que foi há muito tempo. espero que a partir de hoje me sinta mais ocupada uma vez que tenho acesso à net. e porque não criei este espaço só para a saudável pratica portuguesa do "bota abaixo" devo dizer que passei por dois hospitais públicos e apesar de se sentir que há realmente carência de pessoal só posso dizer que tenho sido muito bem cuidada. desde os bombeiros até aos antigos "auxiliares de enfermagem" que não sei muito bem como agora se chamam aos médicos passando pelos enfermeiros todos têm sido impecáveis. é verdade que passei 12 horas até ser realmente internada mas sem omeletes não se fazem ovos por isso senhor ministro da saúde que é tido como o milagreiro das finanças sempre aproveito para lhe dizer que vou passar mais do dobro do tempo internada por falta de material para me operarem e porque um dos especialistas só opera aqui às terças e sextas. não me parece que se possa chamar a isto poupar. como é que vão poupar comigo se eu podia ir para casa no dia em que previsivelmente serei operada? pois é paulinho a lógica do corta a direito nem sempre é o melhor remédio. e já agora também lhe digo que há falta de toalhas nos hospitais embora ainda haja dinheiro para pagar às empresas que limpam vidros. reagindo a uma "boca" minha o imigrante de leste que fez o serviço deu a entender que a empresa pertence a um senhor muito importante e que portanto embora faltem toalhas os vidros continuarão a brilhar. por isso senhor ministro aqui lhe deixo o testemunho de alguém que sabe distinguir a saúde da política. veja lá se não acaba de lixar o sistema nacional de saúde e saiba agarrar os profissionais que tem a trabalhar para o seu ministério. e já agora o meu muito obrigada aos bombeiros de lisboa e ao pessoal que encontrei no hospital de santa maria com um especial obrigada para a equipa médica de ortopedia que antes de me despachar para s. francisco cuidou muito bem de mim. e agora o meu obrigada a toda a equipa de urgência de ortopedia do s. francisco e a todo o pessoal que trabalha no piso de ortopedia deste hospital. continuem assim pela vossa saúde.

03 setembro, 2011

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Que força é essa - Sérgio Godinho


Não me digas que não me compr´endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr´endes

As palavras interditas


Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

(Eugénio de Andrade)

não é uma prosa feliz


apetece-me barco. apetece-me vela. apetece-me mar. apetece-me sonho. apetece-me fuga. apetece-me sonho. apetece-me ainda branco e azul. azul e branco. mar e ondas. e então? navegar claro. para onde? longe muito muito longe. tão longe que se tornava perto. de quê? de um lugar pequenino onde não se ouvem constantemente palavras feias como fome desemprego doença corrupção. um lugar onde as pessoas roubam comida. das hortas dos outros. da casa dos outros dos mercados e campos. onde quer que haja comida aparece gente com fome. ir para longe de um pequeno lugar (des)governado por uns meninos que passam a vida a correr para um lugar maior onde não há fome porque uma bruxa chamada angela manda meninos como o zezito e o pedrito e o marianito e outros itos (muitos) que andam por esse lugar fazer coisas más nas suas casas. primeiro foi o zezito. andava cá e lá num disparate de voos que todos pagámos só para ouvir a bruxa má e acenar com a cabeça para cima e para baixo para cima e para baixo para cima e para baixo. acho que ficou tão doente de fazer aquele exercício que foi em busca de cura em lugares maiores. espero que não tenha ficado traumatizado porque apareceu o pedrito que o afastou da brincadeira porque gosta muito da bruxa angela e anda encantado a acenar com a cabeça para cima e para baixo para cima e para baixo constantemente. depois chega ao pequeno lugar onde pertence e põe-se a brincar com o vitinho que é um aluno muito marrão e aplicado que está convencido que vai ganhar o prémio nobel da economia mas estou mesmo a ver é que vai dar com "os burrinhos na água". é que já não sou só eu que não os aguento. é o lugar que não temos. esta devia ser uma prosa feliz. mas não é.

07 junho, 2011

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os chicólatras

Tom's Diner - Suzanne Vega (clica aqui)

"It is always
Nice to see you"
Says the man
Behind the counter
To the woman
Who has come in
I am waiting
At the counter
For the man
To pour the coffee


Quotidiano (Reflexão)

Por exemplo, as coisas que faltam neste lugar:
uma enxada para que as mãos não toquem na terra,
um ninho de pardais no canto da relha,
para que um ruído de asas se possa abrigar,
um pedaço de verde no monte que ainda vejo,
por detrás dos prédios que invadem tudo.

Mas se estas coisas estivessem aqui,
também faria falta um copo de água para ver,
através do vidro, um horizonte desfocado;
e ainda os restos de madeira com que,
no inverno, é costume atiçar o fogo
e a imaginação que ele consome.

Como se tudo estivesse no lugar,
pronto para ser usado na data prevista,
sento-me à janela, e fixo a única coisa
que não se move:
o gato, hipnotizado por um olhar
que só ele pressente.

(Nuno Júdice)

não dei por isso

o rapaz com os auscultadores nos ouvidos balança a cabeça num movimento violento contra o peito. depois pára desliga os auscultadores e atende o telemóvel mas logo a seguir desliga a chamada e volta a ligar os auscultadores e a abanar a cabeça com a mesma violência como se quisesse dizer sim sim sim e eu chego a temer que a cabeça se solte do pescoço. a rapariga bem feita com cara de madona de olhos arregalados senta-se à minha frente e eu tenho dificuldade em largar aqueles olhos tão arregalados como se tudo à volta dela lhe causasse um tremendo espanto. a rapariga ao meu lado levanta-se para sair e a madona de corpo bem feito e olhos arregalados senta-se ao meu lado. concentro-me de novo no rapaz que continua a abanar a cabeça violentamente como se quisesse que ela caísse. finalmente também ele se dirige para a saída. fecho os olhos e vou assim até à última paragem quando ouço cais do sodré estação terminal senhores passageiros queiram abandonar o comboio. a multidão de fim de tarde desagua no cais e dirige-se às portas automáticas. sigo o meu caminho subo as escadas rolantes e eis-me no cais do comboio. sete da tarde. o céu muito nublado ameaça chuva. quem não saiba pensa que estamos no outono. se calhar estamos e eu não dei por isso.

05 junho, 2011

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os chicólatras

Everybody Knows - Leonard Cohen (clica aqui)

Everybody knows that the boat is leaking
Everybody knows that the captain lied
Everybody got this broken feeling
Like their father or their dog just died

Everybody talking to their pockets
Everybody wants a box of chocolates
And a long stem rose
Everybody knows

Balada de Lisboa

Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo

Caravelas te levaram
Caravelas te perderam
Esta é a cidade onde chegas
Nas manhãs de tua ausência
Tão perto de mim tão longe
Tão fora de seres presente

Esta e a cidade onde estás
Como quem não volta mais
Tão dentro de mim tão que
Nunca ninguém por ninguém
Em cada dia regressas
Em cada dia te vais

Em cada rua me foges
Em cada rua te vejo
Tão doente da viagem
Teu rosto de sol e Tejo
Esta é a cidade onde moras
Como quem está de passagem

Às vezes pergunto se
Às vezes pergunto quem
Esta é a cidade onde estás
Com quem nunca mais vem
Tão longe de mim tão perto
Ninguém assim por ninguém

(Manuel Alegre)

boa sorte minha gente


pedro e paulo ou pp irão governar este país nos próximos anos. se vos parecem iguais pensem como será o entendimento entre o p que se apresentou como o candidato mais africano (não cheguei a perceber que vantagem tem ser mais africano em portugal mas isto sou eu que não primo pela inteligência) e o p que todos sabemos ser o mais xenófobo dos candidatos. como se entenderão estes dois p's? cá para mim o segundo há-de estar à frente do primeiro. sempre o vi como o político mais brilhante da actualidade. faz-me lembrar aqueles meninos que nasceram para comandar todas as brincadeiras mesmo que façam de conta que não estão a comandar. ele conseguiu passar em brancas nuvens na campanha eleitoral. como se nunca tivesse feito parte de nenhum governo. ele consegue aparecer como uma virgem sem pecado. é realmente brilhante. não estou surpreendida com os resultados destas eleições. o meu voto foi como sempre um voto útil na mediada em que não será usado senão para me defender de quem governará. um voto de que não me arrependi nunca. também desta vez não me arrependerei. não terei que pedir desculpa a ninguém pelo meu voto. o zé a quem tanto chateei parte com dignidade. resta-me admitir mais uma vez que foi um inovador neste país tão avesso a mudanças. e o que promoveu de bom veio com certeza para ficar. por isso pp não inventem. a interrupção legal da gravidez não é para voltar atrás. as novas tecnologias ao serviço de todos não são para voltar atrás. os casamentos entre pessoas do mesmo sexo não são para acabar. de resto vão estar muito entretidos a obedecer à troika e a cumprir o acordo que assinaram tão alegremente. boa sorte minha gente.