08 fevereiro, 2009

Mulheres

Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido...
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas,
E as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.
Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas...
És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro
atrás de casa e tinham cara de pau).

(Manoel Bandeira)

o final de um dia de domingo


mais um domingo com cheiro a mofo. não fosse o meu filho netos e a bricolage morria de tédio... é uma maneira de dizer porque a verdade é que acabo sempre por aproveitar bem o dia. mas dá-me muitas vezes para pensar ao fim de um dia de domingo o que pensaria eu do dia seguinte se fosse reformada. se não soubesse que amanhã me espera mais um dia de trabalho mais ou menos igual ao de tantos anos sendo que todos são diferentes sendo que todos os dias aprendemos algo de novo sendo que todos os dia conhecemos alguém ainda que seja apenas por escrito. alguém que fica a saber o nosso nome e que telefona e pergunta por nós e às vezes fica assim uma espécie de agradecimento que as faz ligar-nos pelo Natal ou pela Páscoa ou só porque sim porque lhes apeteceu e até para pedir conselhos de ordem particular. ao fim de um dia de domingo. hoje dia 8 de Fevereiro de 2009 sei que o mais certo é amanhã levantar-me arranjar-me tomar o pequeno almoço e pegar na bicicleta para iniciar o meu trajecto em direcção ao emprego. e se por um mal estar de momento me digo hoje não me apetecia nada ir trabalhar logo me lembro dos desempregados que todos os dias aumentam e parece-me pecado mortal sequer passar-me uma ideia destas pela cabeça. o que faria eu se não tivesse que sair todos os dias e chegar ao fim do dia com a sensação de dever cumprido? que pensarei eu no primeiro domingo ao fim do dia da minha vida de reformada (se lá chegar, claro...).

07 fevereiro, 2009

Yolanda - Pablo Milanes (clica aqui)

Si me faltaras no voy a morirme
Si he de morir quiero que sea contigo
Mi soledad se siente acompañada
Por eso a veces se que necesito
Tu mano
Tu mano
Eternamente tu mano

Cada Dia Matilde


Hoje a ti: és esbelta
como o corpo do Chile, e delicada
como uma flor de anis,
e em cada ramo guardas testemunho
de nossas indeléveis primaveras:
Que dia é hoje? O teu.
E é o ontem amanhã, não sucedeu,
nenhum dia se foi de tuas mãos:
guardas o sol, a terra, as violetas
em tua breve sombra quando dormes.
E assim cada manhã
presenteias-me a vida.

(Pablo Neruda)

para o Luís.


há muito que não te escrevo e resolvi portanto contar-te coisas aqui do país ... sei que te tornaste um pouco galego (em Roma sê romano não é?). suponho que o tempo pela Galicia não esteja muito melhor do que por cá mas devo dizer-te que hoje o sol abriu durante longos períodos por aqui. nesta costa que tu amas tanto quando acordei o sol já ia bem levantado (sabes que há muito tempo que não dormia tantas horas seguidas? acho que foi por ter o meu filho e o meu neto "italianos" por aqui que o meu coração sossegou e me deixou dormir tanto tempo. ou terá sido apenas cansaço... sei lá). o que posso dizer-te com toda a certeza é que mal saí de casa fui direita ao paredão aproveitar os momentos em que o sol brilhava. fiz algumas fotos mas nada de especial. mais para te mostrar como o dia estava... claro que se te escrevo é porque fui ao cabeleireiro e sei do que tu gostas que as tuas amigas te falem das conversas que por lá se passam. mas sabes que hoje a conversa azedou um pouquinho porque a manicura é xenófoba e parece esquecer que Portugal é um país de emigrantes e que por isso mesmo devemos ser os primeiros a receber bem quem vem para cá trabalhar. isto se quisermos ser bem recebidos por esse mundo fora. o que não podemos é criticar a atitude xenófoba dos ingleses em relação aos portugueses e depois fazer o mesmo em relação aos estrangeiros que apenas procuram uma oportunidade de vida melhor e muitas vezes apenas uma maneira de sobreviver. pois eu sei que não é propriamente conversa de cabeleireiro mas já sabes como eu sou. de qualquer maneira parece-me ter conseguido mudar um pouco a atitude daquela mulher. e só por isso já valeu a pena. aqui te deixo Luís a primeira foto da manhã de hoje. com amor.

05 fevereiro, 2009

Dance Me To The End of Love - Leonard Cohen (clica aqui)

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Acreditei no mar


Percorri a umbria de um eclipse
que nas vagas não reflectia

Apaguei os olhos e sorri com uma lágrima

Ao abrir , fitei o azul

o azul do céu , do mar e da lua

Ouvi então estremecerem as ondas
e a areia lacrimar.

Voltaram os raios lunares,
voltei ao luar da noite
húmida e fria
em que me movo
e te deito.

Minha gárgula de vida,
meu eterno mar.

(Nuno Travanca)

à minha frente a eternidade


às vezes apetece-me falar de coisas que não interessam nada. pelo menos a mim. no fim de contas sempre fui considerada uma original que acha mais útil um curso de filosofia do que um de engenharia... cada um é como cada qual e cada qual é (não posso dizer que este blogue pode não parecer mas é um espaço de respeito). interessa que o senhor Stanley que ganha a vida à custa da desgraça do vício dos outros (e como ganha!) perdeu 90% da sua fortuna e ainda assim o que lhe resta não me passa pela cabeça o que será... eu parece-me que ouvi falar em 800 milhões de euros. ora eu não sei o que são 800 milhões de euros nem quero saber. o que quero mesmo é dormir muito descansadinha, manter o meu posto de trabalho e o meu nome limpo seja lá onde for. foi assim que o senhor Horta viveu toda a vida. não deixou testamento mas deixou uma bela lição de vida. guardar dinheiro para quê? o dinheiro fez-se para gastar naquilo que nos dá prazer e felizmente os meus luxos não vão além de livros, cinema e fotografia... nem são dos mais caros pois não? é verdade que gosto muito de viajar e tenho estado parada mas a seu tempo lá voltarei... depende do tempo que me restar. mas isso é coisa que ninguém sabe. na minha cabeça resta-me ainda a eternidade.

04 fevereiro, 2009

Me deixa em paz -Teresa Cristina e Seu Jorge (clica aqui)

Evitar esse amor
É impossível
Evitar a dor
É muito mais
Você arruinou a minha vida
Me deixa em paz

Não vale a pena pisar


O capim não foi plantado
nem tratado,
e cresceu. É força
tudo força
que vem da força da terra.
Mas o capim está a arder
e a força que vem da terra
com a pujança da queimada
parece desaparecer.
Mas não! Basta a primeira chuvada
para o capim reviver.


(Manuel Rui)

assim mesmo é que é!


ando há tempos a pensar no assunto. é que não sei bem se hei-de bater ou se hei-de aplaudir a CML ou as suas Juntas de Freguesia ou seja lá quem for o responsável pelo estado das ruas e passeios da capital. creio que são responsabilidade da Câmara e mesmo que não sejam legalmente são moralmente pelo menos segundo o meu ponto de vista. pois então de que se trata? como todos já demos por isso este tem sido um Inverno especialmente chuvoso o que torna os passeios da cidade em autênticos parques infantis bem apetecíveis para a pequenada que gosta de brincar de salta pocinhas e pular bem dentro delas até fazer espichar água por todo o lado. eu mesma acho a brincadeira interessante desde que estejamos de galochas (eu e e os putos que ainda gostam mais de saltar pocinhas do que estar agarrados aos vídeo games)... bem sei que são cada vez em menor número mas tenho a certeza que se tivessem pais que os levassem a passear no parque infantil mais entusiasmante do mundo em que se tornaram os passeios de Lisboa deixariam de estar sempre a pedinchar um novo game aos pais... saíam todos a ganhar. por isso se ao princípio pensei em "bater" no António agora quero é agradecer-lhe o estado a que deixou chegar as ruas e passeios de Lisboa e propor propaganda nas TV's, rádios e jornais para incentivar a prática da criançada a saltar para dentro dos inúmeros charcos que a cidade tem neste momento. assim mesmo é que é!

03 fevereiro, 2009

Kodachrome - Paul Simon (clica aqui)

Kodachrome
You give us those nice bright colors
You give us the greens of summers
Makes you think all the world's a sunny day, oh yeah!
I got a Nikon cameraI love to take a photograph
So Mama, don't take my Kodachrome

A massambala cresce a olhos nus


Vieram muitos
à procura de pasto
traziam olhos rasos da poeira e da sede
e o gado perdido.

Vieram muitos
à promessa de pasto
de capim gordo
das tranqüilas águas do lago.
Vieram de mãos vazias
mas olhos de sede
e sandálias gastas
da procura de pasto.

Ficaram pouco tempo
mas todo o pasto se gastou na sede
enquanto a massambala crescia
a olhos nus.

Partiram com olhos rasos de pasto
limpos de poeira
levaram o gado gordo e as raparigas.

(Ana Paula Tavares)

o melhor vendedor do mundo


conforme a zona onde estivesse no meio do mato tivesse melhores ou piores acessibilidades à estrada principal e também conforme o facto de haver ou não algum comerciante na zona assim o meu pai orientava as compras que tinha que fazer para sustentar todo o acampamento que muitas vezes tinha mais de 20 trabalhadores que era preciso alimentar e não só... muitas vezes instalava o acampamento perto de algum comerciante perdido no meio do mato perto de um quimbo para ser mais fácil o acesso às compras. muitos destes comerciantes eram autênticos vampiros que se apropriavam dos poços e dos furos feitos pelo Estado e vendiam a água aos pretos como se a mesma lhes pertencesse. quando o meu pai estava presente isso não podia acontecer pelo menos de modo a que ele tivesse conhecimento do facto. mas hoje só vim aqui para vos contar a estória do melhor vendedor do mundo. numa dessas incursões de compras na lista do meu pai constava papel higiénico. quando chegou a altura fez o pedido. o comerciante respondeu lamento mas de momento não temos... ah! mas temos lixa número 1. não serve?

02 fevereiro, 2009

Son of a Preacher Man - Joss Stone (clica aqui)


Billy-Ray was a Preacher's son
And when his daddy would visit he'd come along
When they gathered round and started talking
Cousin Billy would take me walking
Through the back yard we'd go walking
Then he'd look into my eyes
Lord knows to my suprise

O menino dorme


O menino dorme.

Para que o menino
Durma sossegado,
Sentada ao seu lado
A mãezinha canta:
— "Dodói, vai-te embora!"
Deixa o meu filhinho,
"Dorme . . . dorme . . . meu . . ."

Morta de fadiga,
Ela adormeceu.
Então, no ombro dela,
Um vulto de santa,
Na mesma cantiga,
Na mesma voz dela,
Se debruça e canta:
— "Dorme, meu amor.
"Dorme, meu benzinho . . . "

E o menino dorme.

(Manuel Bandeira)

Londres é irreal


não sou capaz de imaginar sequer a cidade Londres paralisada por um nevão. acho que a única cidade fria onde eu seria capaz de viver apesar do smog e das bebedeiras às 5 da tarde nos passeios frente aos pubs no Soho. apesar de tudo isto eu seria feliz em Londres. desde que ela não paralisasse por causa de um nevão. encantam-me os bairros residenciais que mais parecem bairros de pequenas cidades. encantam-me os parques enormes com gente estendida ao sol quando ele aparece. encanta-me sobretudo a diversidade de culturas. nunca vi tanta limusina junta como em Londres. carros igual ao meu só vi um. aquilo é tudo em grande. os armazéns que têm de tudo desde roupa a electromésticos e supermercados. e aqueles que têm 6 ou 7 andares só com brinquedos. e as mulheres que param nesses armazéns a caminho do emprego para serem maquilhadas por especialistas sem pagarem um chavo. Londres é quase irreal. Londres combina a capital europeia e a cidade província. não deixem que Londres pare por causa de um nevão.

01 fevereiro, 2009

Pata Pata - Miriam Makeba (clica aqui)


Pata Pata is the name of a dance
We do down Johannesburg way.
And everybody starts to move
As soon as Pata Pata starts to play, ooh.

A água chia no púcaro que elevo à boca


A água chia no púcaro que elevo à boca.
«É um som fresco» diz-me quem me dá a bebê-la.
Sorrio. O som é só um som de chiar.
Bebo a água sem ouvir nada com a minha garganta.

(Alberto Caeiro)

mais estórias do Álvaro que vivi no Cunene


uma vez por semana havia sessão judicial na fazenda. vinham os habitantes dos quimbos da região e o administrador. causas bem interessantes passavam por ali e os julgamentos não eram complicados. o juiz (administrador) distribuía justiça a torto e a direito parecia-me às vezes que conforme a cara do freguês que mais lhe agradava. de qualquer modo não era fácil pelo menos na minha cabecinha infantil decidir se os ovos postos pela galinha de X no quintal de Z seriam de um ou de outro. algumas sessões depois percebi que às vezes eram de X outras de Y, conforme as caras de X e de Y. e como decidir a quem pertence um cobertor achado no meio do mato e que o dono encontra nas costas do vizinho? achado é roubado? na minha terra não. mas ali a justiça não se decidia assim de qualquer maneira. havia que pesar bem os argumentos de cada um porque advogados não existiam. nem defesa nem acusação. cada um advogava a sua própria casa e às vezes a maneira de convencer o juiz tinha que ver com o paleio da cada um... o Álvaro às vezes intervinha a favor de alguém que conhecia bem e que era acusado de roubo. aí era a palavra dele que o juíz tinha em conta... sabem que mais? se calhar os procuradores do ministério público cá do burgo deviam fazer um estágio por terras do Cunene.