12 abril, 2008

Africanices (segunda parte)


Passaram 15 dias sobre as eleições no Zimbabwe e o tempo vem dar razão ao que aqui escrevi no texto Africanices. As eleições em África são uma treta para dizer que os países são democráticos. Mugabe já tinha anunciado que quaisquer que fossem os resultados das eleições não cederia o poder. E não cederá, a menos que alguém se passe completamente e o assassine como ele tem feito a milhares de zimbabwenos a quem, se não mata tira o ganha pão o que vem a dar no mesmo.
Os países africanos dizer querer resolver o problema. Mugabe não permite que os resultados eleitorais sejam divulgados mas exige uma nova contagem de votos o que quer dizer que a oposição do país tem razão. Mugabe perdeu. E perdeu em todas as frentes.
E apesar da astronómica inflação diária (mais de 1000%), Mugabe ainda não extraiu da sua vaca sagrada todo o leite que quer...
A África do Sul, país que devia ter mais responsabilidade vem dizer que não se pode obrigar nenhum presidente a demitir-se. Pois... então porque é que o homem se sujeita a eleições?
Estas africanices são uma dor de alma. Muitas vezes me perguntam se eu não gostaria de voltar a Angola e ficam admirados quando digo que não. Porque não sou saudosista e porque não seria capaz de viver num país de gente que é agora muito mais explorada pelos seus irmãos de raça do que foi no tempo do colonialismo pelos brancos.
Gostaria muito e espero sinceramente acabar os meus dias numa aldeia perto do Mindelo em Cabo Verde ou mesmo no Mindelo... mas Angola e outros países como este não. Obrigada.

11 abril, 2008

Hot Legs - Rod Stewart (clica aqui)

Hot legs, youre wearing me out
Hot legs, you can scream and shout
Hot legs, youre still in school
I love you honey

A criança que ri na rua


A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo -

Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer cousa de amor,
Ainda que o amor seja mudo

(Fernando Pessoa)

Espero que amanhã isto saia melhor.


Como toda a gente tenho imensos defeitos. Para falar verdade eu acho que sou um bocadinho diferente porque as virtudes são menos do que no comum dos mortais... mas enfim: sou como sou, pequena mas de boa vontade. E que para alguns é defeito para mim é virtude.
Estou a falar de medo. Medo que as pessoas têm de perder a sua vidinha de todos os dias, medo de enfrentarem quem os afronta... medos de coisas que acham que pode pôr em causa a sua imagem. Não passa da imagem de cobardes, mas não se apercebem disso. É gente que é capaz de estar de bem com deus e com o diabo.
Quem me conhece sabe que eu prefiro estar de bem com o diabo... se calhar porque acho que é ele que detém o verdadeiro poder. Se calhar porque fico assim mais aconchegadinha na vida, mais quentinha, enfim. Todos sabem que eu prefiro climas tropicais e que o frio que tive esta semana não me deve ter feito muito bem à mioleira. Há quem torre a mioleira no deserto eu torro a minha em países europeus que têm uma coisa chamada primavera que se parece mais com o inverno...
Eu sei que não estou a escrever nada de jeito, mas não faz mal. Afinal estou só a terminar uma semana enquanto ouço Hot Legs na voz de Rod Stweart... Bem sei que há os clássicos mas eu prefiro os menos clássicos. Na minha vida não há simetria. O que eu gostava mesmo era de poder comprar pares de sapatos desiguais... é que comprar dois pares diferentes para usar um de cada cor, acho que sairia um pouco caro demais...
Não liguem. O frio deu cabo do que restava da minha alegria. Mas amanhã estarei de volta com mais vontade. Prometo.

10 abril, 2008

Dor Elegante - Chico César (clica aqui)

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
(Por favor!)
Ela é tudo que me sobra
Sofrer vai ser!
A minha última obra

Ainda sabemos cantar


Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.

(Eugénio de Andrade)

Hoje lembrei-me da Ana.


Nos meus tempos de liceu, tive uma professora de matemática cujo maior prazer era pôr as alunas a chorar. Muita gente dizia que era boa professora, mas a verdade é que eu só recordo o facto de ela ter tanto prazer em pôr as alunas a chorar.
Tinha uma colega de nome Ana que ficava na primeira fila da sala ao centro. Era uma pequena enfezada com os cabelos enormes e encaracolados e um tom amarelado de pele, como costumam ter as pessoas doentes. Para além de tudo isto, recordo que ela não mantinha relacionamento com qualquer colega, era um bicho do mato perfeito e quando eu tentava dirigir-me a ela porque me fazia impressão aquela timidez tão acentuada ela corava e arranjava maneira de se pirar sem quase falar comigo.
Ana era a vítima preferida da Drª Laura na minha turma. Aula de matemática em que a rapariga não ficasse a chorar não era dia para a professora.
Todas tínhamos portanto razões para não querermos chamadas orais com aquela senhora. Uma vez fez-me uma pergunta muito simples sobre o teorema de Pitágoras. Como se chamava o triângulo. E eu, embora soubesse perfeitamente a resposta respondi que era um triângulo cateto. Ela, que já tinha sido professora da minha irmã sete anos antes e que a tinha chumbado com muito gozo à sua disciplina, obrigando-a a repetir Ciências, contou a estória do cateto ao liceu inteiro. Porquê? Porque eu em vez de me pôr a chorar como ela queria, desatei a rir...
Ainda hoje tenho o costume de rir quando alguém me faz uma maldade... são maneiras que cada um de nós arranja para se defender...
Será que a Ana conseguiu ao longo da vida arranjar alguma defesa contra este tipo de gente?

09 abril, 2008

Eu resistirei - Adriana Calcanhoto (clica aqui)

Desde que nasci muita coisa já sofri...
Maldade existe aqui...
mesmo assim eu não fugi...
Tanta Pilantragem!
Tanta Sacanagem!
Eu testemunhei...
mas eu resistirei!
Quanto mais baterem...
mais eu vou reagir...
me empurram para baixo...
mas eu não vou cair

Esquina


Procuro alguma coisa bela
na rua que perdeu a alma
a lua, alguma coisa nova

Procuro alguma coisa séria
a prova de que estou na terra
a estrela que não for loucura

Procuro alimentar os olhos
com a luz que brota na calçada
na curva de uma esquina clara

Procuro aquilo que me espera
o corpo que recusa o escuro
a mão que enfim me desamarra

(Nei Duclós)

Só fico até querer.


Quem teme que eu reaja a provocações idiotas de quem anda à deriva e decide descarregar as frustrações em cima dos outros, desengane-se. Já passei por isto. Há quem tenha um medo irracional de quem sabe mais.
Há quem pense que toda a gente aprecia o poder.
Mas há gente que sabe e que se está nas tintas para o que se diga. Há gente que sabe e que até está disposta a ensinar. Há gente profissionalmente digna que não se vende nem conspurca a memória de quem não está presente para se defender. Há gente capaz de tudo isto, sem sequer alterar o tom de voz. Há gente que aprendeu a representar e que não embarca nas primeiras emoções.
É gente racional. Gente vulgar e banal que não pretende mais do que viver a sua vidinha com tranquilidade. Gente que não está disposta a suportar as humilhações dos frustrados que lhes aparecem pela frente, assim como que caídos do inferno...
Há gente que pensa que os outros não são capazes de fazer o que eles não conseguiram nem conseguirão nunca. Porque para conseguir realmente alguma coisa nesta vida é preciso vontade. Vontade de verdade. É preciso querer. É preciso acreditar. É preciso dizer nos momentos mais difíceis "eu sei que sou capaz".
E é por isso, porque me chateia ver filmes de 5ª categoria protagonizados por actrizes de 10ª que eu só fico até querer.

08 abril, 2008

Blowing in the wind - Bob Dylan & Joan Baez (clica aqui)

How many roads must a man walk down,
Before you call him a man?
How many seas must a white dove sail,
Before she sleeps in the sand?

III


Olhando o meu passeio
Há um louco sobre o muro
Balançando os pés.
Mostra-me o peito estufado de pêlos
E entre as coxas um lixo de papéis:
— Procura Deus, senhora?
Procura Deus?
E simétrico de zelos, balouçante
Dobra-se num salto e desnuda o traseiro.
(Hilda Hilst)

O que eu acho...


Aos 50 anos já se viveu um bom bocado. Aos 50 anos já se viu o mesmo filme várias vezes. Aos 50 anos devemos saber o que fazer para mudar o fim do filme. E a experiência ensinou-me que, na maioria das vezes o melhor é esperar para ver e só se as coisas ameaçarem definitivamente um final pouco feliz, actuar.
A vida dá muitas voltas. É como uma roda gigante a que temos que nos afeiçoar. E tirando os nossos princípios e escrúpulos tudo pode mudar. Basta para isso estar de espírito aberto e pronto. Esperamos.
Isto vem a propósito de que acho que estou a entrar num filme que já vi. Um filme em que os pequenos poderes acham que podem tudo sem olhar e sem ouvir ninguém... a lei do nosso queridíssimo Sócrates: "quero: logo posso. LOGO MANDO". Como podem ver, hoje não me faltam as maiúsculas como por vezes acontece.
Sócrates tem feito escola na Administração Pública e, por mais que queira dizer que estamos num país democrático onde cada um pode dizer o que quer, há vários casos onde as pessoas foram punidas e agora continuam a ser com pequenas perseguições que não lembram ao diabo.
Seria bom que quem tem pequenos poderes, percebesse de uma vez por todas que se conseguem melhores resultados pedindo do que mandando...
É o que eu acho.

07 abril, 2008

A Noiva da Cidade - Chico Buarque (clica aqui)

Ai, quanta maldade a dessa moça
E, que aqui ninguém nos ouça
Ela sabe enfeitiçar
Pois todo marmanjo da cidade
Quer entrar
Nos sonhos que ela gosta de sonhar
E ser um Tutu-Marambá

A família


tem alguém no telhado
talvez a avó louca
embriagada de tiquira
tem alguém no telhado
possível o neto
esperando a lua
tem alguém no telhado
provável o gato
com medo dessa família
(Roberto Kenard)

Até já.


Já te tinha dito. A tua sala deixou de ser a tua sala. Era uma sala como outra qualquer. Uma sala com coisas, apenas coisas, daquelas em que a gente tropeça, mas sem vida.
Hoje a tua sala voltou a ter vida. É verdade que não é a mesma coisa, mas de qualquer modo é um consolo saber que foi ocupada por alguém que realmente gostava muito de ti. Alguém com uma dose acentuada de loucura mas que realizou algumas das últimas vontades. Sabes muito bem a quem me refiro, não preciso nomear ninguém...
O luto vai chegando ao fim. Fica a saudade que será para sempre com certeza. Algumas pessoas pediram-me fotos tuas. Algumas disseram que tinham medo de esquecer a tua cara. Dei as fotos (fiz cópias que eu mesma arranjei, de modo a que ficasses tu apenas na fotografia. Por mim nunca tive medo de esquecer a tua cara. Sei que as pessoas que amamos não esquecemos. Quando tinha 15 anos perdi um grande amigo. Passados todos estes anos recordo-o perfeitamente e nunca tive nenhuma foto dele...
Seja como for, minha querida, acho que vais gostar de saber que as coisas se hão-de compor, não sem muito sofrimento é verdade, mas o tempo esbate tudo. Tudo menos a amizade de verdade e as feições e gestos das pessoas que amamos.
E como sabes o que vale para mim, o que sempre valeu, são os pequenos gestos. O carinho para aqueles que estão por baixo, um gesto de ternura, um até já, de preferência ao até sempre.
Beijo.

06 abril, 2008

Kodachrome - Paul Simon (clica aqui)

Kodachrome
They give us those nice bright colors
They give us the greens of summers
Makes you think all the worlds a sunny day, oh yeah
I got a nikon camera
I love to take a photograph
So mama dont take my kodachrome away

Estou sempre pisando no mesmo chão


Estou sempre pisando no mesmo chão
Andando no mesmo lugar
Meu lugar comum

A porta fechada

Viajo, passeio, cresço
E, sem querer,
Encontro o velho lugar dentro de mim

Sou menina, sou menino
Minha travessura é o desafio
Meu amor é só um desejo

Sou mulher e duvido
Constante, súbita, precipitada, cruel
Chove, tem mar, tem lua
E meus passos preferem o velho lugar

(Fernanda Mourão)

Do lado dos mais fracos, é o meu lado.


Em Londres há manifestações contra a China e a favor do Tibete, mas não só: a favor de todos nós. Afinal quer queiramos quer não a Rússia e os Estados Unidos deixaram de ser as grandes potências mundiais e cederam o lugar à China que, assim como que não quer nada invadiu não apenas a Europa mas todos os continentes. Em Cabo Verde o centro histórico das cidades foi invadido por chineses que já se sentem invadidos por compatriotas e têm que mudar o rumo dos seus negócio ou não se governam.
A China está em todo o lado, não apenas no Tibete... e é assim, pouco a pouco, que tencionam tomar conta do mundo. E alguns governos chegam ao ponto de não receber certas personalidades como o Dalai Lama por medo da reacção chinesa. São os negócios, dizem... são. Também. Mas não só. É sobretudo o medo de enfrentar um país que cresce tanto que ameaça engolir o resto do mundo. E não há um ocidental que tenha a capacidade trabalho de um chinês. Eles não aprenderam a fazer outra coisa... Folgam um dia por ano e a maioria deles acha que é demais.
Em Paris outra grande manifestação esta contra as FARC colombianas, mas sobretudo a favor da libertação de Ingrid Bettancourt e dos cerca de 3.000 reféns que estão na posse de um grupo terrorista que se diz de guerrilheiros pela libertação... guerrilheiros? Alguém notou que o guerrilheiro mais famoso do mundo, Che Guevara que fez guerrilha na América do Sul mas também em África, alguma vez fez prisioneiras mulheres e crianças? Alguma vez usou o povo em seu favor?
Não parece eu sei. Mas olhem que a China e as FARC têm muito em comum.

05 abril, 2008

É p'ra amanhã - Antonio Variacoes (clica aqui)


É p'ra amanha
Bem podias viver hoje
Porque amanhã quem sabe se vais cá estar
Ai tu bem sabes como a vida foge
Mesmo que penses que esta p'ra durar