07 janeiro, 2008

Ao cigarro

Cigarro, minhas delícias,
Quem de ti não gostarás?
Depois do café, ou chá,
Há nada mais saboroso
Que um cigarro de
Campinas
De fino fumo cheiroso?
Cigarro, quanto és ditoso!
Já reinas em todo mundo,
E esse teu vapor jucundo
Por toda parte esvoaça.
Até as moças bonitas
Já te fumam por chalaça !...
Sim; - já por dedos de neve
Posto entre lábios de rosa,
Em gentil boca mimosa
Tu te ostentas com
vaidade.
Que sorte digna de inveja!
Que pura felicidade!
Anália, se de teus lábios
Desprendes subtil fumaça,
Ah! tu redobras de graça,
Nem sabes que encantos
tens.
À invenção do cigarro
Tu deves dar parabéns.
Qual caçoula de rubim
Exalando âmbar celeste,
Tua boca se reveste
Do mais primoroso chiste.
A tão sedutoras graças
Nenhum coração resiste.
Embora tenha o charuto
Dos fidalgos a afeição,
E do conde ou do barão
Seja embora o favorito;
Mas o querido do povo
És tu só, meu cigarrito.
Quem pode ver sem
desgosto,
Esse charuto tão grosso,
Esse feio e negro troço
Nos lábios da formosura?
É uma profanação,
Que o bom gosto não
atura.
Mas um cigarrinho chique,
Alvo, mimoso e faceiro,
A um rostinho fagueiro
Dá realce encantador.
E incenso que vapora
Sobre os altares de amor.
O cachimbo oriental
Também nos dá seus regalos;
Porém nos beiços faz calos,
E nos faz a boca torta.
De tais canudos o peso
Não sei como se suporta!...
Deixemos lá o grão-turco
No tapete acocorado
Com seu cachimbo danado
Encher as barbas de sarro.
Quanto a nós, ó meus amigos,
Fumemos nosso cigarro.
Cigarro, minhas delicias,
Quem de ti não gostará?
Certo no mundo não há
Quem negue tuas vantagens.
Todos às tuas virtudes
Rendem cultos e homenagens.
És do bronco sertanejo
Infalível companheiro;
E ao cansado caminheiro
Tu és no pouso o regalo;
Em sua rede deitado
Tu sabes adormentá-lo.
Tu não fazes distinção,
És do plebeu e do nobre,
És do rico e és do pobre,
És da roça e da cidade.
Em toda a extensão professas
O direito de igualdade.
Vem pois, ó meu bom amigo,
Cigarro, minhas delícias;
Nestas horas tão propícias
Vem dar-me tuas fumaças.
Dá-mas em troco deste hino,
Que fiz-te em ação de
graças.

(Canção - Rio de Janeiro, 1864)

Os prós e os contras...

Quando há quase dois anos deixei de fumar, foram vários os factores que pesaram na minha decisão. O mais importante foi o facto de o tabaco ser tão taxado pelo Estado e depois houve outros mas também o facto de se anunciar a proibição. É que eu sou ruim, ao contrário de Scollari e não faço nada a que me obriguem, pelo que decidi que seria melhor adiantar-me e deixar de queimar dinheiro. Muito sinceramente o factor saúde não contou nada.
Ainda ontem o meu filho mais velho me dizia que eu estava com uma respiração esquisita. Respondi logo que enquanto fumei respirei sempre perfeitamente. Agora é que são elas...
Isto a propósito da lei que entrou em vigor em 1 deste mês. No andar em que trabalho há apenas duas fumadoras no momento. As outras duas já deixaram de fumar há bastante tempo. E nenhuma de nós precisou de ajudas... mas admito que haja quem precise.
Não estou aqui a defender que os fumadores devem deixar de fumar. Na verdade há que pesar os prós (o prazer é realmente qualquer coisa que não se esquece) e os contras (viver sentindo-se perseguido por uma espécie de cães de fila)
Ainda por cima a lei entrou em vigor e ninguém estava preparado para receber os fumadores. Eu cá, acho que devem pensar duas vezes: é que depois de deixar a gente habitua-se e esquece o que o tabaco fez por nós em termos de felicidade, um dia...

06 janeiro, 2008

Partido Alto - Chico Buarque (clica aqui)

Deus é um cara gozador, adora brincadeira
Pois prá me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado me botar cabreiro
Na barriga da miséria nasci batuqueiro
Eu sou do rio de janeiro
Diz que Deus dará, diz que dá, não vou duvidar, ô nega
E se Deus não dá, como é que vai ficar, ô nega?
Diz que deu, diz que dá, e se Deus negar, ô nega
Eu vou me indignar e chega, Deus dará, Deus dará

A hora do cansaço


As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.
(Carlos Drummond de Andrade)

Num dia de reis.


Estamos no ano da graça de 1977, em Ponta Delgada e aguardo que os reis magos cheguem em toda a sua sabedoria com a prenda que me foi reservada... espero acompanhada da minha amiga Gena que não me larga um segundo, na sua sabedoria de médica e mãe, me vai dando conselhos para que os reis magos possam entregar o meu presente sem sobressaltos.
De facto faltam 3 minutos para a meia noite quando chegam, os três, transportando a minha prenda: um menino, o meu primeiro menino, que amo há muito, para quem canto há muito, todos os dias "sem fantasia" de Chico Buarque, que espero sem saber que será um rapazinho, pensando que é mais uma menina como é tradição na família, o enxoval praticamente todo cor de rosa, e ele nasce com cara de rapaz, nem a chupeta cor de rosa engana quem quer que seja...
Olho-o e pego-lhe, digo o que penso, que bebé tão feio, de facto nasceu bastante inchado como a maioria dos recém nascidos e nem o facto de ser meu filho como diz a parteira chocada com o meu comentário e a quem respondo, é meu filho mas é muito feio...
Era sim, quando nasceu. Mas bem depressa se fez um bonito bebé e hoje um homem bem bonito.
Hoje almoçámos juntos, mais a minha mãe, a minha nora, e o meu neto mais velho, sobrinho deste filho que nasceu para cuidar de crianças, que sempre gostou de crianças, que assim que os irmãos chegavam ao primeiro ano de vida dizia que queria mais um mano...
Ao fim da tarde falei com a Gena... chegámos à conclusão que é muito bom, passados 31 anos, continuarmos a ser amigas e a falar embora vivendo a 300 km de distancia...
Já estamos em 2008... e agradeço hoje o presente que os reis magos me deram há 31 anos. E por isso me sinto abençoada, e por isso nada de mal nunca me poderá acontecer, porque fui abençoada por três meninos que hoje são homens, que me deram (e ainda dão) muito trabalho, mas que serão sempre, juntamente com os seus filhos os amores da minha vida. Sempre.

05 janeiro, 2008

Sampa - Caetano Veloso (clica aqui)

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
chamei de mau gosto o que vi
de mau gosto, mau gosto
é que Narciso acha feio o que não é espelho
e a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
nada do que não era antes quando não somos mutantes

As pessoas sensíveis


As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não: "Com o suor dos outros ganharás o pão".
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem"

(Sophia de Mello Breyner)

pode ser que para o ano...


Acabei de escrever uma mensagem que não sei se chegarei a publicar... é que pela primeira vez, escrevi algo que estava dentro de mim mas que não me apetece mostrar. Melhor: acho que não devo mostrar... há males que vêm por bem e por isso o melhor é mesmo seguir em frente sem olhar para trás, a não ser que isso sirva para me lembrar de que não devo confiar nas pessoas pelas aparências, nem pelo que dizem pensar... Só para isso serve o passado. Para não voltar a errar no mesmo ponto.
Portanto, adiante que se faz tarde. Um dia de chuva que me impediu de percorrer os 5 km do costume porque os pés estavam pesados de tanta água nas peúgas. Dei-me por vencida, querida chuva, querida água, por ti até desisto de continuar a ver esse mar zangado que se abre à minha frente. E vou pensando na desilusão que sentem os inscritos na Lisboa Dakar com a anulação da prova... afinal de contas é uma coisa que só podem fazer uma vez por ano, ou podiam, sabe-se lá, e eu posso ter muitos mais dias para caminhar junto ao mar, para o ver. Não é desta que vão ver o deserto que também lembra na sua imensidão, o mar... Só que eu, quando estou longe do mar fico cheia de sede. É por isso que tenho que viver junto dele, olhá-lo da janela, todos os dias diferente, ora encrespado e cinzento como hoje, ora calminho com pequenas ondas que se desfazem mansamente na areia da praia, ora um perfeito lago, azul ou verde ou todos os tons da natureza, conforme esteja o dia.
E o pior é que se fica com a sensação de que o terrorismo pode definitivamente influenciar as nossas vidas. Não acho que o rally fosse mal anulado. A segurança das pessoas está em primeiro lugar e a verdade é que, se alguma coisa corresse mal os organizadores da prova teriam todos contra si. Mas aqui para nós, não vamos mudar a nossa vida só porque uns fundamentalistas se arrogam o direito de matar, sequestrar e intimidar o mundo inteiro.
Quando se deu o 11 Março em Madrid o meu filho mais novo achou terrível que eu continuasse a viajar de comboio e metro todos os dias... sentia que eu estava ameaçada. Expliquei-lhe que não podíamos mudar a nossa vida em função de gente que não presta.
Mas a verdade é que neste caso a coisa é bem diferente. Aqui fica a minha solidariedade aos ex futuros participante do Lisboa Dakar 2008... pode ser que para o ano haja mais.

04 janeiro, 2008

Drão - Caetano Veloso


O verdadeiro amor é vão, estende-se, infinito
Imenso monolito, nossa arquitetura
Quem poderá fazer aquele amor morrer!
Nossa caminha dura
Cama de tatame pela vida afora
Drão os meninos são todos sãos

fingir que está tudo bem

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos
afoga.
(José Luís Peixoto)

Às vezes prefiro os cavalos!


O Sebastião tinha 20 anos de idade, mais de 1,80 metros de altura, olhos azuis e cabelos encaracolados castanhos. Era originário de uma das famílias mais "bem" do Porto e vivia em Ponta Delgada, onde eu o conheci, a ele e aos seus 3 irmãos e pais... fora os setter ingleses que também pertenciam à família e como tal tomavam as refeições à mesa com o resto da família...
O Batão como lhe chamávamos tinha na verdade uma idade mental que não ultrapassava os 12 anos e era uma criança adorável, mesmo quando fazia tropelias próprias dos seus 12 anos... o Batão adorava animais, especialmente cavalos e era capaz de ficar a trabalhar no centro hípico sem nada receber em troca, dias seguidos, esquecendo-se até de comer...
Outra das coisas que o Batão gostava de fazer era jogar poker de dados... e pedia-me os dados para poder treinar! Treinar dados... parece impossível mas é verdadeiro.
Do Batão há inúmeras estórias para contar... o Batão que eu tratava como a um irmão mais novo e que estava sempre pronto a ajudar-me até nas tarefas domésticas.
Hoje lembrei-me do Batão. Pensei no Batão todo o dia. Não sei porquê. Talvez porque me tivesse dado vontade de voltar a montar e ter pensado que é um disparate não o fazer, com um centro hípico aqui mesmo à mão de semear...
Como o Batão também eu tenho uma paixão por cavalos que nos conhecem muito melhor que a maioria dos homens.
Tomara que volte a encontrar-te Batão... nos teus doze anos de menino que me ficou na lembrança.

03 janeiro, 2008

Tempo dos assassinos - Jorge Palma (clica aqui)


Vivemos no tempo dos assassinos
Tempo de todos os hinos
Ouvimos dobrar os sinos
Quem mais jura
É quem mais mente

Tuas mãos


Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.

(Pablo Neruda)

Chamar os bois pelos nomes.


Podia aqui falar hoje de outra coisa. Na verdade apetecia-me muito mais escrever um texto com personagens inventadas do que falar de um governo que toma medidas estúpidas e que nem sequer tem a hombridade de reconhecer que errou...
Era algo que qualquer pessoa de senso comum estava à espera. Fecham as urgências em vários locais e são transferidas para outros que já estão a rebentar pelas costuras...
Uma mulher esteve 4 horas à espera de ser atendida nas urgências do hospital de Aveiro. Morreu sem ter sido atendida. Dir-me-ão que a minha teoria de que a gente só morre quando chega a nossa hora está correcta. Até pode ser. Mas se existe uma coisa que se denomina medicina e que devia servir para, entre outras coisas, salvar vidas, seria bom que funcionasse... ainda que de vez em quando...
Uma mulher morreu e para este governo está tudo bem. É uma reforma a menos que se paga, não é? Menos uma pensão. Dinheiro em caixa, a juntar ao que conseguem com o fecho de atendimentos de urgência e maternidades (está tudo bem, não é senhor Arlindo?), afinal de contas ter um filho numa ambulância é até "altamente", não é? é radical, está na moda... daqui a uns anos quem não tenha nascido numa ambulância não tem "estilo"...
Não fosse o facto de todas estas medidas serem assassinas, peço desculpa pelo termo, mas é altura de começarmos a tratar os bois pelos nomes, estas estórias podiam até ser contadas como anedotas... de quem as criou.

02 janeiro, 2008

Escuridão - Jorge Palma (clica aqui)




e eu só quero ver-te rir feliz
dar cambalhotas no lençol
mas torces o nariz e lá se vai o sol

Casa



Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão. . .

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

(David Mourão Ferreira)

e a administração pública é que é ruim?


Uns dias antes do Natal de 2007 fui contactada telefonicamente pela Clix, empresa de prestação de serviços na área das comunicações, oferecendo-me um pacote bem mais em conta do que o que pago à TV Cabo. Expliquei no entanto ao homem que me contactou que tinha um contrato de 12 meses de fidelização por um canal que pago para além dos não sei quantos que tenho e que poucos me interessam, mas adiante. Aderi, pago a tempo e a horas e tirando um problema sério que fez com que quase me desligasse desta empresa, as coisas têm corrido bem.
O homem da Clix disse-me que ia saber o que se podia fazer em relação a isso e mais tarde ligou-me dizendo que bastava que eu arranjasse uma desculpa para com a Tv Cabo quanto à fidelização por um ano do tal canal e a coisa resolvia-se. Disse logo que não ia inventar coisa nenhuma, que diria a verdade e entretanto combinou comigo a visita da chefe dele aqui no meu domicílio para dois dias depois pelas 16 horas...
No dia seguinte telefonam-me para o telemóvel a perguntar se não os poderia receber ainda naquele dia porque assim ainda podiam regressar ao Porto naquele dia... embora me desagrade muito receber visitas deste tipo à noite, acabei por concordar para lhes facilitar a vida... Pois bem, nem com GPS, nem com as indicações que lhes dei por telemóvel, chegaram alguma vez a aparecer... também não tiveram o cuidado de voltar a ligar-me para me dar uma justificação...
e a administração pública é que é ruim?
Hoje como tinha o dia livre, dirigi-me à Station Marché aqui mais próxima de mim para que me mudassem um fusível do isqueiro do carro, que deixou de funcionar.... disseram-me que aparecesse às 14 horas e que era por ordem de chegada. Às 13.40 já eu lá estava. Falei com o mesmo funcionário da recepção que me disse que eram apenas uns minutos.
Passadas duas horas, e uma vez que não pegaram no meu carro, pedi as chaves de volta e abalei. Talvez devesse ter pedido o livro de reclamações mas na altura não me ocorreu. O que é certo é que aquele era um serviço demasiado barato para ser feito, embora o pudessem fazer em 5 minutos...
e a administração pública é que é ruim?

01 janeiro, 2008

Folhetim - Gal Costa canta Chico Buarque (clica aqui)

E eu te farei as vontades
Direi meias verdades
Sempre à meia luz
E te farei, vaidoso, supor
Que é o maior e que me possuis

As palavras


São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.


Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

(Eugénio de Andrade)

Em 2008 a última de 2007...


Pois cá estou de volta e como as tristezas não pagam dívidas nem os aumentos que nos esperam a partir de hoje, (o primeiro dia da graça de 2008), vou contar uma estória que se passou comigo no último dia da graça do ano de 2007 (ontem, portanto)...
Como vos disse fui passar o fim do ano ao deserto alentejano, pelo menos segundo o senhor de sua graça Mário Lino. Antes de partir e já com as bagagens no carro, fui fazer a minha caminhada junto ao mar como de costume, encher os olhos de mar até porque não sabia muito bem quanto tempo ia ficar por lá (pelo deserto, evidentemente!)
A viagem foi tranquila, almocei em casa de S e CC, um arroz de polvo maravilhoso cozinhado por ele e depois do almoço, pegámos no Ambrósio (CC hoje chamou-lhe Alfredo e realmente eu gostei, pelo que, como ainda não tem os sacramentos da santa madre igreja, vou adoptar para ele o nome de Alfredo. Mas ontem ainda era Ambrósio!
Depois de fazermos as últimas compras para um fim de ano que se queria em beleza, apesar de no deserto, pedi ao Ambrósio que nos indicasse um sítio não muito longe dali, onde pudéssemos ver água. O Ambrósio disse logo que havia a cerca de 20 km a Barragem Dois Minutos que era bem bonita, portanto aceitámos a sugestão e aqui vamos nós que se faz tarde...
Às tantas ouvi o meu celular emitir o sinal de mensagem, como era complicado ver do que se tratava uma vez que o celular estava no bolso do polar que eu trazia vestido por baixo da parka que estava completamente abotoada (é que o deserto alentejano é frio p'ra burro, pelo menos para mim!), continuei a conduzir. À entrada e quase saída também de uma aldeia perdida no meio daquele deserto, o celular começa a tocar e como chamadas eu só não atendo se não ouvir chamar, estacionei o carro, tirei o cinto de segurança, desabotoei a parka e finalmente consegui atender o telemóvel... era uma amiga a desejar-me um bom ano, ainda falámos um bom bocado, depois li a mensagem que era uma daquelas imensidões de mensagens de ano novo a desejar tudo e mais alguma coisa, quando o que eu quero mesmo é saúde e sossego, pus de novo o cinto de segurança e arranquei em direcção a uma rotunda que estava a uns 50 metros do sítio onde eu tinha parado...
Muito bem escondidos estavam 3 (três) carros da GNR que mandaram parar imediatamente, o que fiz, até porque não ia de certeza a mais de 30 Km /hora. Um dos senhores agentes deu a volta à viatura, olhou os selos todos, pediu-me os documentos da viatura e a carta de condução e eu respondi sim senhor agente, deixe-me só ver se encontro aqui no meio da confusão da minha mochila a carteira dos documentos, ele respondeu esteja à vontade, temos tempo, a viatura é sua? respondi que sim enquanto continuava à procura da carteira, ele disse-me nesse caso mostre-me só a carta de condução, finalmente encontrei a carteira mostrei-lhe a carta de condução, perguntou-me se eu vivia em Oeiras eu disse que sim, então e para onde vai, respondi a uma barragem aqui próximo que aqui o amigo Ambrósio nos indicou, então faça favor de seguir, tenha uma boa viagem, em segurança...
E pronto: CC que viajava atrás tinha posto há cerca de 10 minutos o cinto de segurança que é coisa que nuca faz quando viaja atrás, eu tinha o telemóvel de tal maneira que tive que estacionar para atender, e o agente da GNR estava mais preocupado com as ovelhas que lhe estão a morrer (soubemos disto, porque mal me devolveu a carta de condução gritou para um homem que estava do lado de lá da rotunda, ó Manel estão a morrer-me as ovelhas todas)...
Lá demos com a barragem apesar de morte anunciada do Ambrósio que já renasceu hoje como Alfredo. Regressei a casa cedo e tranquilamente (4,5 de média em gasolina, que tal, também queriam não queriam?, façam como eu, nada de auto estradas, nada de pressas que o mundo não está para acabar e pneus sempre bem calibrados).
Um bom ano para todos... e que eu tenha saúde para ir aqui contando as estórias do dia a dia que a maior parte das pessoas esquece, mas que em mim provocam ataques de riso de tal forma que me sinto na obrigação de as partilhar convosco.
Um bom 2008!