07 setembro, 2007

Cantas

Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa o teu canto
o silêncio é todo meu


(Eugénio de Andrade)

Não gosto. Não Tolero. Não engulo.

Esta tem sido a semana de toda a violência mas também de toda a confusão. Não percebo muito bem porque se noticiam mortos no dia em que acontece um assalto e no dia seguinte se vem desmentir. Quem dá informações destas à imprensa? Os jornalistas não confirmam o que lhes dizem as suas fontes? É uma nova forma de fazer jornalismo? Só se vende o que é sensacional? A verdade pode ser esta hoje e outra amanhã, incluindo a notícia sobre mortos e feridos?
Todos os dias tem havido um facto violento. Desde o assalto a Bancos (que quando não incluem violência parece que têm menos importância, e é verdade, porque o dinheiro é apenas papel e os Bancos têm lucros imensos e seguradoras que lhes pagam estes percalços... o que é o mesmo que dizer que no fundo o que os assaltantes de Bancos fazem é roubar as seguradoras que nos fazem a vida num inferno o ano inteiro e aqui quase me apetece dizer, bem hajam) a ourivesarias ou carrinhas de transporte de dinheiro.
Se me perguntarem se me sinto segura digo que me sinto como sempre me senti. Enquanto não me tocar directamente provavelmente continuarei a andar pelas ruas sem prestar atenção a carros ou pessoas com ar suspeito. Tudo o que me roubaram até agora foi um telemóvel que não valia nada mas que me deixou indignada. Tão indignada como se me tivessem tirado um cêntimo da carteira ainda que sem recurso a violência. Porque não é o valor das coisas que me importa mas o facto de alguém mexer nas minhas coisas sem me pedir licença! Não gosto. Não tolero. Não engulo!
E por isso fico por aqui. Amanhã talvez haja mais.

06 setembro, 2007

Learning To Fly - Pink Floyd (clica aqui)

Into the distance, a ribbon of black
stretched to the point of no turning back
a flight of fancy on a wind swept field
standing alone my sense reeled
a fatal attraction holding me fast,
how can I escape this irresistable grasp?

Fábula chinesa


É tudo muito cheio de detalhes
Tecidos e lugares de muitas cores
Dançar e dançar o jogo do eco

A moça me lembra alguém

Cheiro suave de pêssego
Correr descalço pela floresta
Sentir as folhas geladas nos pés
Vento despreocupado no rosto

O encontro além das sequóias

Abraço rodopiado de pernas no ar
É tudo muito cheio de detalhes
Tecidos e lugares de muitas cores

Dançar e dançar o jogo do eco

Como numa fábula chinesa
O dragão da vontade não voa
Flutua nas águas do céu

(Rogério de Paula)

Um dia destes conto-te.

Pois foi, falei imenso. Ouviste-me com atenção como de costume. É bom poder contar com uma amiga assim.
E agora? Não. Não te vou falar da Madeleine, nem de assaltos com mais ou menos violência, neste país a que nos acostumámos a apelidar de brandos costumes. Hoje ainda me apetece contar-te outras coisas, para além dos problemas do dia a dia. Hoje apetece-me contar-te coisas de quando eu era bem candengue.
De quando o meu mundo era a Rua Ele Rei D. Dinis em Luanda. Das pessoas que habitavam esse mundo e do que faziam os candengues como eu para matar o tempo.
Havia o Tó-Zé, o Zezo, o Toni, o Barrabas, o Jorginho, o meu irmão... menina era eu apenas. E depois havia os "miúdos da casa dos mulatos". O mais novo era o Euclides e ganhava todos os concursos de musica que organizávamos, gritando as canções de Roberto Carlos até ficarmos com medo que as veias do pescoço dele esticassem tanto que quebrassem. No fim ganhava uma laranja. Chegámos a fazer um "conjunto" com instrumentos musicais de madeira, que fabricávamos sem ajuda dos kotas. Esses estavam sossegados quando a brincadeira era a música. Já quando organizávamos guerras "dos brancos contra os mulatos" havia sempre feridos entre nós os brancos que éramos muito menos e menores... mas eu lá ia sarando as feridas com a caixa de costura que tirava à minha mãe e onde colava uma cruz vermelha. Enchia-a com pensos rápidos e mercurocromo. Podia ter dado uma boa enfermeira... mas afinal não dei.
Um dia destes vou contar-te da minha avó Gertrudes. A que me contava estórias todas as noites, sempre as mesmas mas sempre diferentes... Um dia destes conto-te.

05 setembro, 2007

Can't take my eyes off you - Damien Rice (clica aqui)

And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky

Não estamos sós


Não estamos sós:
setembro traz ainda
um fruto em cada mão.
Mas os homens, as aves e os ventos
já não bebem em ti a direcção
(Eugénio de Andrade)

Desde que as gaivotas me acordaram...


Sou acordada pelo grasnar das gaivotas. Mal saio dos centros urbanos os meus sonos são interrompidos por sons que me são estranhos. No campo acorda-me o galo de madrugada, depois as vacas, as cabras... às vezes é o sino da igreja. Junto ao mar são as gaivotas que ainda de madrugada seguem os barcos que se fazem à faina do mar.
Ao meu lado dormes sereno. O sono de quem atravessou um deserto a sós e sabe que mais tarde ou mais cedo terá de o fazer de novo... mas enquanto isso repousas.
Enquanto isso... logo que te levantes entras nessa agitação incontrolável, essa actividade que me assusta porque fico com a impressão de que tens medo que o mundo se acabe no segundo seguinte.
Não sei como fazer que entendas que a vida não é, não pode ser essa correria ou corres o risco de perder o sentido da vida.
Quem busca equilíbrio tem primeiro que encontrar a calma necessária a todas as descobertas. Porque a vida se revela uma novidade todos os dias. Nada é como previmos. Nem nós nem quem nos rodeia. Não somos donos do tempo... por isso é preciso, é absolutamente necessário, viver com vagar e saborear cada momento.
Desde que as gaivotas me a acordaram...

04 setembro, 2007

É p'ra amanhã - Antonio Variacoes - (clica aqui)

É p'ra amanha
Bem podias viver hoje
Porque amanha quem sabe se vais ca estar
Ai tu bem sabes como a vida foge
Mesmo que penses que esta p'ra durar





Cela forte

Presos no elevador, ela quer saber
por exemplo, o número do meu sapato
quantas vezes já fui à Europa

se gosto de cerveja, vinho ou uísque.

Investigando os bolsos do meu paletó
ela quer saber, por exemplo
se prefiro viver na cidade ou no campo

por que não visito mais minha mãe

onde ocultei os meus antigos demônios.
O interrogatório seria menos triste se
as luzes não nos invadissem com tanta força

se a modernidade não insistisse em abrir

nessas cabines voláteis, janelas voltadas
para a mecânica noite metropolitana.
Desabotoando minha camisa, ela quer

saber quantos dedos eu tenho em cada mão

onde compro meus malditos sapatos
se frequento restaurantes marroquinos.
Certos detalhes bicudos, risonhos e gelados

(pormenores da rotina sexual dos pinguins)

isso é tudo o que ela e a cidade ainda
não arrancaram de mim.
Ela quer saber, ela quer muito saber

por exemplo, sobre a multidão de mãos

orelhas, pernas, pés, braços, beijos
mas, palavra, depois de doze horas neste
porão já não sei mais de quem são.

Pobres pinguins de vida fácil.

(Valério Oliveira)

Olhem que não.

Em Bissau um general português é acusado de compra de uma estátua em bronze, representando Ulisses Grant, desaparecida da via pública na ilha de Bolama. Encontra-se por isso, com termo de identidade e residência e impedido assim de abandonar a Guiné Bissau. Segundo o próprio acusado a sua empresa de sucata terá realmente comprado uma estátua. Não vejo muito bem o que é que uma estátua em bronze pode interessar a uma empresa de sucata, mas isso deve-se com toda a certeza ao meu desconhecimento sobre a actividade de sucateiros... em África.
Em Valongo, três homens assaltam uma agência bancária instalada ali há uma semana, à hora de almoço, quando se encontrava praticamente deserta e fogem a pé. Até agora parece que não foram apanhados. Ninguém sabe quanto dinheiro levaram, ninguém esclarece coisa nenhuma... cá para mim estes já se safaram. Provavelmente a agência ainda não tinha instalado um sistema de vigilância decente e os assaltantes sabiam-no.
Há ainda os outros dois cidadãos, segundo as notícias estrangeiros, que assaltaram um banco em Viseu e que depois de terem abandonado duas viaturas roubadas e de uma rápida troca de tiros com a polícia se "piraram" a pé e deixaram a polícia a vigiar o local.
Não é que eu goste de dizer mal da polícia portuguesa mas estes casos todos me dão uma enorme vontade de rir e quase desejo que os ladrões se safem. A sério. Eu sei que não sou normal, mas realmente depois de ter visto um dos filmes da minha vida "Um dia de cão" de Sidney Lumet com o meu actor favorito, Al Pacino, os assaltantes de bancos subiram bastante na minha consideração. Sobretudo aqueles que fogem a pé... ou os que como o personagem do filme assaltam para pagar operações plásticas a amantes transexuais.
Parece-vos que o texto começa com alhos e acaba com bugalhos? Mas olhem que não, olhem que não...

03 setembro, 2007

A Walk On The Wild Side - Lou Reed (clica aqui)

Jackie is just speeding away
Thought she was James Dean for a day
Then I guess she had to crash
Valium would have helped that bash
Said, Hey babe,
Take a walk on the wild side

Nocturno


Noite,
noite velha
nos caminhos.
A lua no alto
fingindo-se cega.
Estrelas. Algumas
caíram ao rio.
As rãs
e as águas
estremecem de frio.

(Eugénio de Andrade)

Não sei se te podes lembrar.

Não sei se te lembras. Na verdade não sei sequer se te podes lembrar. Não sei nada de ti há quase 30 anos. Mas hoje lembrei-me de ti. A propósito de uma canção, que foi nossa. Aquela que nos fazia sair da discoteca e vir para fora olhar as estrelas... Não sei se te lembras. Não sei se te podes mesmo lembrar.
Agarrei-me a ti como a uma bóia de salvação. Tu não sabes disto. Tu nunca soubeste nada. Apenas aquilo que eu deixava que soubesses. Mas depressa percebi que não eras exactamente uma bóia mas uma âncora que me arrastaria para águas paradas em dois tempos e onde ficaria agarrada contigo...
Eu sei que tu estavas no fundo e provavelmente por lá ficaste porque era lá que te sentias bem. Eu sempre gostei de luz. Mesmo a das estrelas... qualquer luz é preferível à escuridão em que estavas mergulhado e que me atraía como um profundo abismo a que eu queria fugir mas não era capaz.
Hoje lembrei-me de ti. Lembrei-me de nós. E ao olhar para trás percebo que não te conheci. Ninguém te conheceu. Nem tu. Apenas essa vontade que tinhas de fugir para a escuridão, onde te escondias... de onde fingias às vezes sair, rindo e fazer rir... fazendo-me crer que podias afinal ser apenas uma criança arrastada para um poço tão fundo...
À minha maneira, amei-te. Quando eu pensava que aquilo que sentia de mágoa e compaixão era amor... quando eu pensava que o amor era uma coisa dolorosa... se sofria, então só podia ser amor...
Mas hoje eu sei que não era. Era uma vontade irresistível de mergulhar contigo na escuridão. Ainda bem que o apelo da luz foi maior.
Não sei se te lembras. Não sei sequer se te podes lembrar.

02 setembro, 2007

Jack Johnson - Good People (clica aqui)

where did all the good people go,
i've been changing channels i don't see them
on the tv showsw
here did all the good people go,
we got heaps and heaps of what we saw

Todas as maças vinham da Argentina

Todas as maçãs vinham da Argentina
aninhadas em sedosos lenços lilazes,
perfume transbordando da madeira,
invadindo as brancas manhãs faceiras,
uniformemente colegiais.

Nuvens e verduras murcham agônicas
em finais de tarde sempre primaveris:
ansioso, sua uma maçã argentina na mão,
olhos empurrando os ponteiros do relógio:
aguardo meu pai na sala de visitas do hospital.

(Luiz Ruffato)

Eu até gostava de ser boa pessoa...

Uma das coisas que mais me irrita é gente incapaz de assumir os seus actos e atribuir sempre as culpas a outros. Fico fora de mim com as palavras "a culpa não foi minha mas de Sicrano". Na realidade a incapacidade de assumir os próprios erros é algo que diz bem do carácter de cada um.
Um dia destes confessava a um amigo que não me considero uma boa pessoa porque a minha incapacidade de perdoar não me permite ser uma boa pessoa. A outra amiga a quem disse isto ela respondeu que uma coisa é ser boa e outra é ser otária.
Estas duas pessoas de quem gosto muito, reagiram de maneira diferente às minhas palavras... suponho que ela tem consciência de que eu eu não tenho nada a perdoar-lhe antes pelo contrário e ele sente lá no fundo uma angústiazinha por algo que fez ou não fez e não sabe muito bem se é daquelas coisas que eu posso perdoar.
A verdade é que se ele tivesse feito algo que eu achasse verdadeiramente ruim eu não voltaria sequer a falar-lhe. Sou radical, é um dos muitos defeitos que tenho. Mas assumo. Assumo tudo o que sou e tudo o que faço. Não sou assim por uma questão de educação. Não foram os meus pais que falharam. Faz parte de mim ser como sou. E sei bem que não vou mudar... há coisas que não conseguimos mudar... esta é uma dessas coisas. Não é que eu não gostasse ou não quisesse mudar. Trata-de de uma incapacidade. Não é que eu não gostasse de ser uma boa pessoa. É que sou mesmo ruim!

01 setembro, 2007

Trem das Cores - Caetano Veloso (clica aqui)

Teu cabelo preto
Explícito objeto
Castanhos lábios
Ou pra ser exato
Lábios cor de açaí
E aqui trem das cores
Sábios projetos
Tocar na Central
E o céu de um azul
Celeste celestial

Quase nada


O amor
é uma ave a tremer
nas mãos duma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz
(Eugénio de Andrade)

Viva o Verão.

Quem procura sempre encontra... e eu encontrei o Verão e arrastei-o comigo. A ver se ele se sente bem por cá... ou se vai e me deixa ficar mal. Tenho cá uma fé que ele se vai deixar estar por um tempo. É que me faz tanta falta.
Pois por onde andei, não me limitei aos mergulhos mas pude fazer algumas boas braçadas de natação que é uma coisa que não consigo fazer nas águas mais frias aqui da zona... e é como se me conseguisse libertar de todo o cansaço, ganhando um cansaço ainda maior... Mas é um cansaço gostoso, que me deixa adormecer ao sol sem me preocupar com mais coisa nenhuma por alguns minutos.
É realmente verdade que quem nasce num país tropical dificilmente se acostuma a países com Invernos, ainda que se diga que são países de clima moderado. Como eu costumo dizer, moderados assim a dar mais para o frio... e para quem andou a anunciar um Verão escaldante, convenhamos que ainda não houve esse calor todo. Pois. Realmente foi preciso ir atrás do Verão e amarrá-lo para o trazer comigo. Só não sei por quanto tempo vou conseguir tê-lo preso. É que ele é ainda mais livre que eu e não suporta amarras que não sejam as do amor e da amizade. É por isso que eu acho que ele vai ficar por aqui pelo menos por uns dias. Porque sabe o quanto gosto dele.