13 fevereiro, 2011

O melhor do Twitter

os chicólatraschicolatras "Fora de hora o meu coração pega a pensar no seu; Será que ele também de mim não se esqueceu"

Migalhas - Simone (clica aqui)


Eu não quero mais ser da sua vida
Nem um pouco do muito de um prazer ao seu dispor
Quero ser feliz
Não quero migalhas do seu amor
Do seu amor
Sinto muito mas não vou medir palavras

Os Velhos


Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm'idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infrigiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me vêem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milénios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.

(Carlos Drummond de Andrade)

Incomoda-me a vida

A semana passada eram bocadinhos de Primavera a cada curva. Amarelos diversos e rosas e lilases e muitos dos seus matizes e o que me apetecia era parar e ficar-me por ali num campo qualquer (não, de preferência um com animais, podiam ser cavalos, sim decido-me por cavalos). Talvez os meus olhos estivessem então menos tristes. Não sei. Não estava ninguém capaz de me ler o olhar quando cheguei, mas estou quase certa que dentro de mim existia pelo menos uma paz que hoje não me acompanhava. Não sei se me faltaram hoje os bocadinhos de Primavera ou se simplesmente a dor que me acompanhou a semana toda e afinal agora apenas um incomodo, insistiu em acompanhar-me, qualquer coisa hoje me fez mais triste ou sou eu a própria tristeza há muito muito tempo e eu só não sabia porque não havia ninguém no fim da linha para me dizer que tenho os olhos tristes e que é preciso mudar, mas mudar como diz-me tu aí desse lado, mudar como, se vivo num país que de repente descobriu que os velhos morrem em casa completamente sós, para falar verdade a mim o que me incomoda não é a morte mas a vida destes velhos, mas de repente sou eu que tenho esta mania de virar tudo do avesso e ser do contra, porque o que incomoda este triste povo português é que esta semana descobriu que, afinal, é bastante comum morrer de velhice e solidão... pior: é possível morrer sem cheirar mal. Haverá coisa pior do que morrer sem cheirar mal... O que me incomoda mesmo é a vida e não a morte.

26 janeiro, 2011

O melhor do Twitter

"Morrer talvez seja o convívio forçado com todos os silêncios interiores. Quando o coração bate, mas não faz ruído algum..." (Ondjaki)

"Bom Conselho" - Chico Buarque Eugénia Melo e Castro (clica aqui)


Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança



João Gostoso era carregador


João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

(Manuel Bandeira)

O eleito

Vamos fazer de conta que o acordo ortográfico é obrigatório. Melhor: vamos fazer de conta que eu me rendi à pontuação. Melhor ainda: faço de conta que as vírgulas não me incomodam. Posto isto o Mika aproxima-se e leva o carinho que pediu. Senta-se no sofá mais próximo de mim e, por ele, digito uma vírgula. Agora senta-se e trata da sua higiene pessoal. Primeiro lambe a pata direita e então lava a cara. Vai continuar o seu trabalho e só se interrompe para olhar os meus dedos que se passeiam pelo teclado, sem saber muito bem onde se encontra a vírgula. Tal como os vários calceteiros que, na avenida da República em Lisboa, se encontram há dias a fazer um trabalho que não me parece ter qualquer hipótese de chegar ao fim. E foi esta sensação que me fez parar e tentar perceber para que são precisos cinco homens para reparar meio metro de calçada. E afinal, se o método fosse seguido por todos os empregadores, talvez o buraco orçamental não sofresse tanto e, quem sabe, o problema do desemprego estivesse resolvido. O primeiro dos homens estica o braço para o pequeno monte de pedras e pega numa delas. Passa-a para um segundo homem que a passa a um terceiro que a pousa no chão. O quarto homem coloca a pedra com todo o cuidado junto das outras que formam a calçada e, então surge o quinto homem, o actor principal, o porta voz de todo o grupo, o porta voz de todos os que como eu, não andam por Lisboa a ver passar eléctricos, mas a aprender como se constrói a calçada portuguesa... eis o homem! O eleito para dar a imprescindível porrada na pedra!

11 dezembro, 2010

As palavras que te envio são interditas


As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma  regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.
 
Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.
 
E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
 
(Eugénio de Andrade)

restou a rosa

cuido das minhas rosas melhor das minhas roseiras na verdade rosa neste momento há apenas uma mas é uma bela rosa vermelha sangue e enquanto isso os espinhos arranham-me e não sei porquê penso em ti e na rosa que nunca me deste fosse como esta cor de sangue ou negra branca amarela apenas a rosa que não existiu como tu afinal não exististe foste apenas mais um personagem que criei para fazer parte dos meus cenários apenas uma invenção mais uma só isso e então pergunto-me porque mentes tanto afinal se és só uma personagem se não passaste nunca disso porque te dei tanto porque te dei tudo o que era porque fiquei assim com cara de parva quando tu mesmo me chamaste a atenção e me disseste porque te dás inteira se não tenho nada para te dar e tu a repetires e eu teimosa dizendo não percebes nada eu não te dei nada que não tivesse recebido e era assim mas não tinha recebido de ti e o que te dei não te pertencia não era para ser desperdiçado com alguém que nunca me deu uma rosa qualquer rosa que não foste capaz de roubar num jardim como as crianças fazem no dia da mãe e deve ser a única coisa que acho que foi feita para ser roubada mas mesmo assim eu teimava em dar como se o mundo fosse todo meu e agora sinto uma coisa pegajosa que se solta das roseiras algo que me incomoda como isto de estar a pensar em ti quando devia apenas estar a pensar no que estou a fazer. tão insólito este sentimento de saber que afinal o que me fez lembrar de ti quando cuido das rosas não são os espinhos como não foi a rosa que nunca me deste mas esta coisa viscosa que se cola à minha pele. restou a minha rosa.

10 dezembro, 2010

o melhor do twitter

Chico Buarquechico_buarque@chicolatras "As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem"

Clã - Vamos esta noite (clica aqui)



Vamos
Dançar até cair, ir
Juntos vamos
Morrer de rir

De verdade não quero mais que a vida

Sob a leve tutela
De deuses descuidosos,
Quero gastar as concedidas horas
Desta fadada vida.
Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino.
Da verdade não quero
Mais que a vida; que os deuses
Dão vida e não verdade, nem talvez
Saibam qual a verdade.

(Ricardo Reis)

cenários


construo cenários faço esboços e rascunhos junto tudo e deito tudo fora ou. às vezes guardo linhas soltas à espera que um dia se tornem textos e sei que não jamais se tornarão textos eu não sei. fazer textos só rascunhos apenas coisas que sei que amanhã estarão escondidas no fundo do baú da minha memória e eu já sem memória dessas memórias dos cenários dos rascunhos da vida que afinal me disseram que vivi devagar e eu a pensar estás enganado abreviei tudo como as pessoas que lêem em diagonal para andar mais depressa e mais e mais e eis-me chegada ao ponto. sem retorno. sem memória. esqueci gente que me sorriu e me falou mesmo sem saber que eu era apenas virtual não mais que um cenário um rascunho de gente que ainda assim me falava escrevia ligava com ou sem fio e quando com fios eu apenas uma boneca articulada. mal articulada. uma coisa assim desengonçada sem saber porque alguém fala com ela. claro as pessoas são simpáticas. sobretudo com as bonecas de cenário aqueles rascunhos que hoje morenas daí a nada ruivas a gente muda-lhes a cor do cabelo e dos vestidos (a minha cabeça... quais vestidos) trapos sim trapos cosidos com outros trapos como remendos de cenários rascunhos de gente que pode ser tenha passado na minha vida e a minha memória ai doutora a minha memória a senhora desculpe mas não me lembro de si para falar verdade não me lembro de nenhum doutor simpático todos sérios todos sisudos a senhora desculpe mas tem a certeza que é doutora tem a certeza que é assim amável e conversadora? veja lá não seja apenas mais um rascunho num cenário que amanhã estará no lixo da minha memória.

19 novembro, 2010

no país do faz de conta


nunca digas desta água não beberei é provérbio e verdadeiro. tantas vezes pensei que certos amimais eram amados de modo extremo pelos seus donos e eis-me caminho de lisboa com o mika na box a miar e eu a falar com ele para o acalmar como quem fala com um bebé a explicar que tem que ir à senhora doutora e que faço isto para o bem dele embora compreenda as suas razões e afinal ele deixa de miar e escuta-me de vez em quando mais um miado mas cada vez mais espaçado. em sete rios a polícia afoba-se a rebocar carros mal estacionados faço ideia a cara dos donos quando chegarem e virem que o carro já ali não está hoje é dia grande para motoristas de táxi que quem anda de carro geralmente não sabe usar o metro ali mesmo ao lado e paro para fazer uma pergunta a um polícia e ele diz-me não sei não sou daqui pergunte ao meu colega ali abaixo e eu pergunto e o homem entretido a preparar a grua para levar mais um responde desculpe sou do porto não conheço lisboa e então passa-me pela cabeça vagamente a ideia da cimeira da nato e percebo que o panfleto que um velhote me depositou nas mãos é sobre a cimeira e é do pcp o velhote foi muito simpático e explicou tudo o que eu queria só que eu ainda tive que encontrar um polícia com vontade de me ajudar que foi buscar ao carro o guia da cidade de lisboa e confirmou o que o velho camarada indicara. será que estes dois minutos o impediram de levar mais um carro? não claro que não podem levar a noite toda afinal a polícia de todo o país está a postos é preciso mostrar uma cidade inventada sem carros à superfície muito menos estacionados em cima dos passeios é preciso fazer de conta no país do faz de conta. que é país.

14 novembro, 2010

o melhor do twitter

os chicólatraschicolatras "Qualquer prazer é pouco"

O ron ron do gatinho - Adriana Calcanhoto ( clica aqui)

No passado se dizia
que esse ron-ron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.

Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ron-ron em seu peito
não é doença - é carinho


Desnecessária explicação

Que importa a melodia,
se acaso aos outros dou,
com pávida alegria,
o pouco que me sou?

Que importa ao que me sabe
estar só no meu caminho,
se dentro de mim cabe
a glória de ir sozinho?

Que importa a vã ternura
das horas magoadas,
se ao meu redor perdura
o eco das passadas?

Que importa a solidão
e o não saber onde ir,
se tudo, ao coração,
nos fala de partir?

(Daniel Filipe)