08 outubro, 2007

Carta


Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Tenho corpo p'ra sofrer
Boca para gritar
E comer o que comer
Os meus pés que vão
No chão
Minhas mãos são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica feito
Para o branco me dizer
"Obra de preto sem jeito"
E minha cubata ficou
Aberta à chuva e ao vento
Vivo ali tão nu e pobre
Magrinho como o pirão
Meus fios saltam na rua
Joga o rapa sai ladrão
Preto ladrão sem imposto
Leva porrada nas mãos
Vai na rusga trabalhar
Se é da terra vai para o mar
Larga a lavra deixa os bois
Morre os bois... e depois?
Se é caçador de palanca
Se é caçador de leão
Isso não faz mal nenhum
Lança as redes no mar
Não sai leão sai atum...
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Um pouco de coração
De coração e perdão
Jesus Cristo meu irmão.

(Alexandre Dáskalos)

O meu segredo

Sou um rapazinho de 2 anos. Tenho uma família maior que a dos meus amiguinhos da escolinha onde ando. Tenho em casa uma mãe e um pai (alguns dos outros meninos da minha escola só têm um pai ou uma mãe em casa) e um irmão e uma irmã mais velhos que eu. Temos uma casa grande e eu gosto muito do meu quarto e do meu irmão. Às vezes também gosto de brincar com as bonecas da minha irmã e com ela.
Hoje a minha tia veio fazer uma visita, almoçou connosco e eu chorei porque não queria comer mas queria estar sentado ao pé dela. É que eu gosto muito de ter muita família à minha volta e nem sempre ela pode vir a minha casa para eu lhe poder dar beijinhos e abraçar.
Eu gosto muito da minha mãe e do meu pai e de toda a gente. Eles julgam que eu não sei falar mas não é verdade. Eu sei, mas não quero que eles saibam para não me obrigarem a ser crescido assim muito de repente como a minha irmã que para o ano já tem de ir para a escola e o meu mano que já sabe as letras e os números todos. Eu sei muito bem o que são letras e também sei que as uso para falar mas esse é o meu segredo. Só estou um bocadinho preocupado hoje porque ouvi a minha mãe contar à minha tia que desconfia que eu sei falar, que já me "apanhou" mais do que uma vez a dizer frases inteiras e correctas... a verdade é que já me distraí mais do que uma vez a falar ao telefone porque como não a vejo esqueço-me e digo tudo direitinho (a sorte é que ela não tem a certeza porque depois eu volto a dizer coisa nenhuma)... quero ser pequenino sempre para a minha tia vir brincar comigo e fazer de conta que me esconde os brinquedos e fazer a magia de os fazer aparecer daí a pouco...

07 outubro, 2007

Yamore - Salif Keita & Cesária Évora (clica aqui)

Un tem fé, si un tem fê
No também viver sem medo e confians
Num era mais bisonho
Olhar de nos criança ta a tornar brilhar de inocença
E na mente CE esvitayada
Temporal talvez ta mainar

A nossa casa


Ambição
minha e da Maria
foi termos uma casa nossa
onde nos contarmos os cabelos brancos.
Sonho realizado.
Casa definitiva já temos.
Lote 42.Talhão 71883.
Fachada pintada a cal.
Classica arquitectura rectangular.
Uma via asfaltada com um único sentido.
Tudo sito no derradeiro bairrismo
que e' morar no bairro de Lhanguene.
Pelo menos envelhecer já não é problema.
O resto na altura mais propícia
surgirá por si.
Parece que está por pouco.
Na lista onde eu consto
É injusto que tarde
estarmos juntos.

(José Craveirinha)

Uma mãe mal amada

África é a minha mãe e é para mim a mãe que todos gostariam de ter tido. Uma mãe que às vezes não sabe muito bem como gerir os recursos de que dispõe e que em alguns casos são muitos e noutros muito escassos porque isto de filhos já se sabe há os que prestam e os que não prestam, há os que se importam com a família e os que só se importam consigo mesmos... cá para mim o facto de muitos desses filhos terem estudado na Europa fê-los esquecer os valores mais importantes e fundamentais da cultura africana, sendo que a opinião dos mais velhos deve ser sempre escutada e o mais possível seguida e que a família, o seu bem estar, deve estar sempre em lugar cimeiro...
Vejo frequentemente o Repórter África que é a maneira que encontrei de me manter actualizada com as notícias desse imenso continente que me acostumei a chamar de "minha casa"... e acho graça a algumas notícias que são bem o espelho do que certos senhores fazem dos países que governam. Em Luanda, miúdos e também graúdos, sem emprego, dedicam-se a lavar carros a preços muito inferiores aos praticados pelos estabelecimentos estatais. Fazem-no na rua pois claro, onde mais o poderiam fazer uma vez que muitos deles vêm fugidos das zonas de guerra, sem família, sem tecto, sem nada...
Acontece que é proibido por lei lavar carros na via pública, uma medida muito europeia não lhes parece? E realmente ridícula quando aplicada numa cidade como Luanda que está cheia de gente que tem de viver de expedientes e que de resto se especializou nisso... mas expediente por expediente parece-me que lavar carros na via pública não terá efeitos muito nocivos, tirando o de roubar clientela aos estabelecimentos que alimentam a família de José Eduardo dos Santos e quejandos...
E por aqui me fico, com saudades dessa minha mãe tão mal tratada por alguns dos seus filhos.

06 outubro, 2007

Um Caso Mais - Trovante (clica aqui)

Enquanto for só ternura de Verão eu vou
Enquanto a excitação der para um carinho eu dou
Traz
Uma leveza
Ah, mas concerteza eu dou
Um outro melhor bom dia.

A meu favor


A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

(Alexandre O'Neill)

Apenas preconceitos

Falta-me o tempo, falta-me o espaço, falta-me a vontade... dói-me o corpo, suponho que estou doente mas não quero acreditar, não gosto da ideia, amanhã saio e acabo com esta sensação de febre e recomeço do zero... qual zero qual quê, o zero não existe é evidente que um algarismo que só é lido à direita não existe, tudo o que existe nesta minha vida tem esquerda e direita é um preconceito como outro qualquer, estou cheia deles e até faço gala de alguns, não escondo, nunca escondi que sou elitista, nem toda a gente serve para as minhas amizades, muito poucos são os que vão ficando, mas não faz mal porque esses ao menos são capazes de dizer não gosto de suásticas porque me fazem lembrar o nazismo e não ser nazi é apenas um preconceito, como não ser racista... não gosto de gente de cor seja ela branca, preta ou amarela... gosto de gente inteira que não precisa de ter cor, esta ou aquela para ser de verdade, para ter vidas de verdade, de quem se levanta antes do sol para ir ganhar o pão para a boca...
Tenho preconceitos sim, não gosto de gente que vive de aparências, que desdenha de quem trabalha, que vive à custa dos outros e se acha muito esperta, muito inteligente porque ludibria o sistema fiscal ou judicial ou qualquer outro que lhe atrapalhe os planos e chamam parvos aos que se recusam a fazer o mesmo...
Sigo uma corrente política todos o sabem sou "anarquista graças a deus" e graças ao mesmo deus sou também ateia e agnóstica... é por isso que cumpro as regras que me imponho... porque isto mesmo com regras já é difícil de viver quanto mais sem regras... é claro que o preconceito lidera todas as minhas regras. Dita o que devo ou não devo fazer. O que é certo e o que é errado... e isto tudo são apenas preconceitos eu sei... e de que não me envergonho.

Nota: este texto foi-me inconscientemente ditado (pelos meus dedos como sempre) depois de ler http://avancando.blogspot.com/2007/10/debulha.html

05 outubro, 2007

Roda Viva - Chico Buarque e Fernanda Porto (clica aqui)

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá

"Eu sempre..."


Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém, e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto,
Sou um romano da decadência total,
Aquela do século IV depois de Cristo,
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.

(Mário Cesariny )

Tem que ser tem que ser...

Sei que estás aí e que me vigias como um enorme olho, como um "big brother", inventas um romance, um filme, uma peça de teatro. Pensas como será a primeira cena, essa que abrirá o romance, o filme a peça de teatro. Procuras escrever mas não sai nada. Não programaste, não tens nada na cabeça não te apetece trabalhar e no entanto sabes que tens que o fazer, tem que ser tem que ser tem que ser... qual relógio a frase ecoa tic tac na tua cabeça tem que ser tem que ser tem que ser, tenho que ser capaz, tenho que ser capaz, alguma coisa há-de sair, vá procura recordar, vai lá atrás ao que viveste, mais perto ou mais longe e começa a escrever uma estória, talvez uma carta, qualquer carta, do teu pai, do teu irmão, ou talvez os momentos mais dolorosos quando viste os que mais amaste partirem, para sempre ou simplesmente da tua vida e percebeste que não há lugares vagos, quem partiu não deixa um espaço por preencher, não é possível, podes falar, podes chorar podes sorrir que o espaço está lá, vazio sem poder ser preenchido por nada, por ninguém porque as lembranças tomam conta de tudo, a saudade toma conta de tudo e vais pensando está quase, está quase... quase a chegar o dia de aniversário da tua amiga, da tua irmã, do teu pai... o da tua avó já foi e quem fica não preenche o vazio que ficou, a saudade sempre presente, dolorosa, triste... e eu sem ser capaz de chorar, por ti, por mim, por vós, eu sem saber o que fazer com a minha dor, inventando risos, viagens, passeios, arriscando aqui e ali uma manobra perigosa que afinal é apenas a manobra salvadora, a que nos fará sorrir, a que ficará conhecida como a fuga para a esquerda, faz de conta que tenho um amigo que mora aqui, faz de conta, faz de conta...
Tens que ser capaz, tens que ser capaz...

04 outubro, 2007

Change - Tracy Chapman (clica aqui)

If you knew that you would be alone,
Knowing right, being wrong,
Would you change?
Would you change?

A boca e as bocas

Apenas
uma boca. A tua Boca
Apenas outra , a outra tua boca
É Primavera e ri a tua boca
De ser Agosto já na outra boca

Entre uma e outra voga a minha boca
E pouco a pouco a polpa de uma boca
Inda há pouco na popa em minha boca
É já na proa a polpa de outra boca.

Sabe a laranja a casca de uma boca
Sabe a morango a noz da outra boca
Mas sabe entretanto a minha boca

Que apenas vai sentindo em sua boca
Mais rouca do que a boca a minha boca
Mais louca do que a boca a tua boca.

(David Mourão Ferreira)

Já não sou capaz

Quantas vezes te perguntas o que te move, o que te faz correr, o que te faz sorrir? Quantas vezes meu amor olhas para o lado e vês o que te rodeia, quem está ali de mão estendida à espera que estendas a tua mão para que possamos caminhar no mesmo sentido, não apenas como duas linhas paralelas que agora somos, mas cruzando olhares, sorrisos, abraços... quantas vezes me olhaste durante todos estes anos sem me veres, sem reparares que para além de ti existe um mundo que nem sempre poderá girar à tua volta, porque cada um de nós tem uma vida que pode ou não partilhar, mas que quem não sabe dar também não sabe receber e tu não aprendeste a receber ou só aprendeste a receber sei lá... sei lá o que digo, o que penso quando te olho e já não vejo os olhos que amava, já não vejo o mesmo rosto por quem me apaixonei, já não me apetece ficar parada a olhar-te percorrendo o teu rosto com os dedos como se fosse cega e precisasse de ler-te em braille?
Não. Já não me apetece que o meu mundo gire ao teu redor... tornou-se de repente tão pequenino esse mundo em que eu me sentia bem, porque tu estavas lá e eu gostava de te tocar de te ouvir de me deslumbrar com o deslumbramento que tens de ti mesmo... já não me apetece ficar ao teu lado, agora que te vejo como és realmente um lobo solitário que tenta escapar da sua própria armadilha... que não previu que seria agarrado pelo mundo que criou e que a redoma é de vidro, sim, mas inquebrável e pior que isso, é à prova de som, por isso deixaste de ouvir quem quer que fosse, a tua voz ecoa nessa redoma e tu já só consegues ouvir-te a ti e o reflexo de ti nesse vidro que mais parece cimento armado.
E eu já não sou capaz de dizer meu amor, não agora, já não sou capaz.

03 outubro, 2007

Até parece - Marisa Monte (clica aqui)

Até parece
Que não lembra que não sabe
O que passou
Não faz assim
Não faz de conta que não pensa
Em outra chance pra nós dois
Olha pra mim
Não me torture, não simule
Não me cure de você
Deixa o amanhã dizer

Original é o poeta



Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.
Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um por todos
a quem a sorte faz devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.
Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.
Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer
(José Carlos Ary dos Santos)

O menino que um dia quis ser deus

O menino que queria ser deus já não quer. Decidiu que afinal quer aprender a ler e a escrever e quer fazer teatro. É pena. A mim dava-me jeito ter um deus assim mais ou menos à mão de semear. Pois dava... e a quem não dava?
Mas a vida é o que é e não o que queremos que seja. Por isso o meu menino deus que não gosta da escola porque os outros meninos lhe batem e ele não sabe defender-se, ou não quer ou não pode, sei lá, o meu menino que um dia quis ser deus, agora quer crescer e ir à escola contrariado e saber se um dia aprendendo a ler e a escrever e a fazer contas de somar e dividir, multiplicando e subtraindo os dados que a vida lhe vai oferecendo saberá também defender-se das agressões dos outros meninos que nunca quiseram ser deus e por isso lhe batem e por isso não aceitam a sua maneira de ser diferente deles...
Pode ser que um dia os meninos tenham sonhos maiores como o meu menino... sonhos verdadeiramente grandes como ser deus e não crescer e ficar eternamente pequenino sem ter que ir à escola, sem ter que crescer e trabalhar... Sonhos de gente grande e sábia como este de não ter que trabalhar mas apenas criar como ensinou o filósofo maior do nosso tempo...
Pois está visto que o meu menino já não quer ser deus, já não quer ser diferente dos outros meninos, só quer tentar aprender a ser igual, para que os outros meninos não lhe batam e não lhe chamem nomes feios porque ele não gosta de brinquedos de guerra, nem de monstros... porque acorda a chorar se sonha que o avô que ele tentava beijar se transforma em dragão que o persegue para que ele lhe dê um beijo... o menino que um dia quis ser deus.

02 outubro, 2007

Qualquer coisa - Caetano Veloso (clica aqui)

Berro pelo aterro
Pelo esterro
Berro por seu berro
Pelo seu erro
Quero que você me ganhe
Que você me apanhe
Sou o seu bezerro
Gritando mamãe
Esse papo meu tá qualquer coisa
E você tá pra lá de Teerã

Outono


Uma lâmina de ar
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.

(Joaquim Pessoa)

Um dia destes regresso...

Como se todo o mundo tivesse alagado e de repente esse bem tão essencial não fosse faltar nunca mais... foram primeiro os dias de mar, como se o oceano todo fosse meu e eu pudesse eternamente manter-me como um feto, recolhida, aconchegada no seu colo. A carícia de um sol aberto num céu azul, azul até demais, de fazer doer o olhar que queria resguardar para ti que me esperavas, afinal com a indiferença do costume, como se eu tivesse partido ontem, como se não tivesse faltado nunca, como se o meu lugar não tivesse sido nunca ocupado por outras pessoas... ainda assim, sabendo que assim é, queria resguardar o meu olhar e não era fácil porque o azul iluminado de sol e mar não pode ser encarado de frente sem o perigo de que me esqueça de quem sou, e eu não quero esquecer... já basta o que me fazes mesmo esquecer, essa mentira instalada na tua vida como se fosse uma coisa a dispensar, qualquer coisa, uma vez que uma coisa apenas, tanto me faz... como um animal abandonado reajo, fujo, desapareço, para sempre, para sempre, ainda que saiba que para sempre é tempo demais.
E faço-me de novo à estrada. Quero lá saber do dilúvio que se abate sobre a estrada, quero lá saber, só quero partir para longe para muito longe, onde exista um novo mar que me possa acolher, longe de ti, da tua vida de mentira, do teu mundo pequenino, tão pequenino e tão convencido de que é enorme, e real e único como as tuas verdades que pensas serem únicas... essas verdades de quem não é materialista mas joga no euro milhões, que sentido faz tudo o que te rodeia, que sentido viver de um passado que foi cruel talvez, mas hás-de reconhecer que também foi justo como tudo na vida, porque obtemos sempre aquilo que plantamos e o egoísmo é a pior das companhias assim como a vaidade, o deslumbramento, a convicção de que somos sábios quando nunca saberemos nada que realmente valha a pena mas que julgamos ter porque as vidas pequeninas, tão pequeninas, um dia destes regresso...