20 setembro, 2007

Soneto de amor


Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.
Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.
E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.
Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!
(José Régio)

Peço apenas um minuto da vossa atenção.

Peço desculpa, senhores. Peço muita desculpa por pedir mais uma vez emprestada a vossa atenção. É que eu preciso mesmo de desabafar e eu sei que por aqui há umas pessoas que se interessam pelas mulheres como eu e se calhar também pelos homens como o meu marido... enfim quase ex-marido, mas pronto, enquanto há vida há esperança é o que se costuma dizer nestes casos e eu não sou uma pessoa letrada, enfim só quero mesmo um minuto da vossa atenção.
É que o meu marido pediu o divórcio. Não, não foi por causa da Amélia. Essa deixou de o interessar logo que eu descobri o segredo... porque afinal ele percebeu que eu os tinha visto. Então ele mesmo arranjou maneira de pôr a Amélia fora de casa. Bem feita para ela saber como elas nos mordem! Julgava a sonsa que ia ficar com ele, pois tramou-se! Bem feita!.
O pior é que desta vez eu também estou tramada. É que o meu marido apaixonou-se por uma gaiata com metade da idade dele, por sinal também ela casada e por sinal também ela disposta a abandonar o marido da idade dela e o bebé que tem com menos de 1 ano. Isto só prova o que eu já vos disse: o meu marido é um sedutor, não há nada a fazer. Eu nem posso culpar as mulheres porque eu mesma sei que ele nos dá a volta à cabeça, que é que as desgraçadas hão-de fazer...
Só que desta vez esta miúda parece que o "agarrou" mesmo. É que o meu marido nunca tinha falado em divórcio apesar de eu saber que nunca fui a única mulher da sua vida em momento nenhum... e agora senhores, o que faço? Como vou viver sem o homem da minha vida? Como vou viver sem me desesperar todas as noites olhando para o relógio, esperando muitas vezes uma chegada que não acontece nunca... quando volto do trabalho ele está a dormir na nossa cama e eu dou-lhe um beijo de leve e deixo-o dormir, coitado que há-de estar cansado e vou-me à lida da casa e a ajudar os miúdos...
Será que a miúda agora o vai deixar também dormir como eu ou desta vez ele não tem vontade de seduzir mais mulher nenhuma?
Desculpem senhores o tempo que vos tomei e muito agradecida pela atenção dispensada. Sobretudo ao senhor Bartolomeu e à senhora Lenor, que tentaram ajudar cada um à sua maneira... Muito agradecida aos dois.

19 setembro, 2007

Beira Mar - Maria Bethânia (clica aqui)

Dentro da dor a canção
Dentro do guerreiro flor
Dama de espada na mão
Dentro de mim tem você

Tenho o nome de uma flor

Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei

(Eugénio de Andrade)

O malandro do meu marido.

Estou casada há 20 anos com o mesmo homem. O meu marido é um sedutor. É o que sabe fazer melhor: seduzir. Tão bem que ao fim de 20 anos, quatro filhos e dificuldades tremendas para sustentar a casa, continuo casada e a sustentar toda a situação.
Hoje vim aqui porque estou muito zangada mas não sou capaz de lhe dizer. Vim aqui contar o que ele me fez. Venho desabafar. Se quiserem fazer o favor de me darem um minuto do vosso tempo...
Tenho uma colega que se tornou minha amiga. Por razões que não vêm ao caso ficou sem casa. Falei com o meu marido para que ele permitisse que ela ficasse o tempo de que necessitasse em nossa casa até resolver a situação. Ele passou-me a mão pelo cabelo, deu-me um beijo na testa e disse, claro querida, tu e o teu bom coração, faz como achares melhor.
Hoje encontrei-os na cama. Na minha cama. O meu marido e a minha melhor amiga... Saí sem que dessem por mim. Fui fazer perguntas a outras colegas e fiquei a saber que quando veio cá para casa a Amélia (é assim que ela se chama) já era amante do meu marido. Fui levada a oferecer-lhe a minha casa e a possibilidade de estarem juntos sem dificuldade.
Contei aqui só para desabafar. Não vou dizer nada ao meu marido. Vou continuar a sustentar a casa e os filhos. Arranjarei uma maneira de pôr a Amélia fora de minha casa sem que ele vá com ela? É isso que agora me preocupa. Não consigo olhar para ela mas tenho medo que ele me abandone. Tenho medo que ele parta com ela. Como poderei continuar a viver sem as palavras bonitas que ele me diz todos os dias? Não sei viver sem o ouvir mentir. Gosto das mentiras dele. Não suportarei se ele ficar em silêncio, se desaparecer se for com ela.
Vim aqui só para desabafar... e tentar não perder o malandro do meu marido.

18 setembro, 2007

Unforgettable -Nat & Natalie Cole (clica aqui)

And forever more, that's how you'll stay
That's why, darling, it's incredible
That someone so unforgettable
Thinks that I am unforgettable too

O silêncio


o silêncio me sorve
em longos e largos
goles, sobe
pela boca, absorve
securas, vazios
estios. sabe
que a lida não é dura
nem leve: ela é breve
e se atreve.


(Demétrio Azevedo Soster)

Só porque ainda não sei...

Acordo de madrugada e o peso da solidão sufoca-me. Fazem-me falta as minhas crianças. Como ocupar o tempo que me deixam livre, agora que estão de férias com o pai? Que faço destas noites em que entro no quarto onde deviam estar a dormir e não os tenho? Como consigo adormecer sem antes lhes contar a estória do dia e ouvir a estória inventada pelo mais novo todos os dias. Que falta me faz a tua estória filho, que me faz rir quase até às lágrimas! Como faço para ocupar todo este vazio que sinto?
Ainda não sei que daqui a uns anos esta sensação será de alívio, de dever cumprido, de saudades de os ter junto de mim mas também de ter a liberdade do tempo todo do mundo só para mim. Agora não sei ainda que um dia me sentirei sufocada por esta agitação que agora me falta...
Agora choro porque me sinto só sem as minhas crianças. Agora passo o resto da noite a passar a ferro para ter as mãos ocupadas e o espírito liberto para pensar em como estarão. Se estarão bem, se gostam de estar com o pai que mal conhecem, com a família do pai, com o outro irmão... Sei que não terei coragem de telefonar para saber se estão bem. Não é por medo mas por orgulho, para não dar o braço a torcer, para que ninguém perceba que me fazem falta, que por dentro estou em cacos... para que todos continuem a pensar que sou realmente forte, que a imagem que têm de mim é absolutamente verdadeira, que nunca me vou abaixo, que não há nada que me derrube.
Agora choro com saudades dos meus filhos. De manhã irei trabalhar com um sorriso na cara, para que todos saibam que as saudades não me atingem, que os meus filhos não me fazem falta que passei uma noite descansada... Ainda não sei que um dia quando eles saírem de casa será assim. Ainda não sei que um dia desejarei ficar sozinha comigo mesma. Ainda não sei que há outras formas de viver a vida, de a preencher, um lugar onde as minhas crianças serão homens e continuarão ocupando os seus lugares de crianças dentro do meu coração.
Hoje choro. Só porque ainda não sei...

17 setembro, 2007

Under african skies - Paul Simon & Miriam Makeba (clica aqui)

This is the story of how we begin to remember
This is the powerful pulsing of love in the vein
After the dream of falling and calling your name out
These are the roots of rhythm
And the roots of rhythm remain

Metáfora


Este poema, dedico-o à minha grande amiga Maria Eduarda, autora do blog andondehaespaco.blogspot.com, onde ela magistralmente vai desfiando aquilo que a alma lhe sente. Como vês Maria, o prometido não foi de vidro, se foi, era do bom, da Marinha Grande, feito ainda pelos arcaicos processos artesanais. "Nada melhor que o belíssimo produto nacional";))))

Hoje vi-te!
Como rio que se solta da barragem que lhe prende as águas.
E pegaste-me, envolvendo-me com toda a força do teu querer
Levaste-me leito abaixo, entre margens de desejo.
Despenhámo-nos em cascatas palpitantes, seguindo
Ora rápido, ora lentos, ora calmo, ora agitados,
Saltando de fraga em fraga, galgando por cima de penedos.
Buscando desenfreadamente a plácida foz, onde
Um mar imenso serenamente nos acolhe
E nos guarda, repousados, em seus segredos.
Quando sentires medo, chama por mim.


(Bartolomeu)
P.S.: a fotografia é minha e dedico-a aqui ao meu navegador Bartolomeu... é a minha maneira de agradecer o seu carinho e a disponibilidade para os meus piores momentos.
Beijo.

Este quando

Bartolomeu é um navegador dos tempos de hoje, dos tempos do quando, um internauta mais exactamente. Diz a vida em verso, às vezes faz poesia, outras faz graça... mas conta a vida em verso, como é tradição em Portugal. Afinal Camões não terá sido o primeiro nem o único... e não me venham cá chatear a dizer que estou desrespeitando quem quer que seja. Como diria a senhora M. cada macaco no seu galho e eu hoje estou aqui só para falar de e para o Bartolomeu.
O mesmo que me descobriu por aqui há uns meses e que eu primeiro pensei que pudesse ser um professor de filosofia que tive.
Dele não sei nada. A não ser o que já disse. Bem, sei mais umas coisinhas pequeninas, como onde mora e gostos pessoais e que acha que somos muito parecidos. Querido Bartolomeu eu não acho nada. Como já disse estou em desvantagem uma vez que por aqui vou contando muitas das minhas emoções, muito do meu dia a dia, misturado com alguns textos que são pura ficção mas que já percebi que quanto mais invento mais as pessoas acreditam... assim se explica a mediatização de certos casos policiais que andam na berra e de que ninguém sabe mesmo nada mas de quem todos falam com verdadeiro conhecimento de causa... e antes que os meus dedos me fujam para outro lado:
Neste blogue tenho publicado sempre poesia. Porque gosto de poesia como gosto de romance. Tenho feito os possíveis por publicar os clássicos contemporâneos que prefiro, mas também muitos que são praticamente desconhecidos do grande público. Alguns até que vou encontrando por acaso... esses acasos que a vida me oferece todos os dias e que felizmente não me apanham desatenta... ser modesta aqui para quê?
Por isso hoje vou publicar sem autorização um poema do Bartolomeu. E vou publicar aqui para quê se ele está no blogue dele http://avancando.blogspot.com/? Porque o meu amigo Bartolomeu me dedicou o poema, logo passou a ser tão meu quanto dele. Verdad?
E é assim que hoje termino, oferecendo a possibilidade de ficarem a conhecer o meu navegador preferido, porque é do tempo meu que é este quando.

16 setembro, 2007

Dia de Domingo - Gal Costa e Tim Maia - (clica aqui)

Eu preciso descobrir a emoção de estar contigo
Ver o sol amanhecer e ver a vida acontecer
Como um dia de domingo
Faz de conta que ainda é cedo
Tudo vai ficar por conta da emoção
Faz de conta que ainda é cedo
E deixar falar a voz do coração

Madrigal


Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor
(Eugénio de Andrade)

Assim não!

Desde ontem tenho estado atenta às consequências da entrada em vigor do novo código de processo penal português. Só o bastonário da Ordem dos Advogados vem dizer que o código é uma maneira de os tribunais trabalharem mais depressa. Mas como é que se põe a funcionar uma máquina que está emperrada desde sempre?
É certo que as instalações de uma boa parte dos tribunais foi melhorada mas aonde está o pessoal suficiente e com formação adequada para dar seguimento a tantos processos? Os mais complicados vão sendo arquivados por não serem tratados em tempo útil. Essa é que é a verdade. O novo código pode até ser uma coisa muito boa, não podia era ter sido posto em vigor assim sem mais nem menos, sem que as instituições fossem antes dotadas de meios para poderem contribuir para uma melhor justiça.
Mais uma vez põe-se o carro à frente dos bois. É preciso mostrar serviço? Vamos a isso. Se vamos ter alguns dos homens mais perigosos à solta assim sem mais nem menos, que importância tem? Se as suas vítimas ou famílias estão apavoradas que importa? O que importam os homens e mulheres deste país? O que importa são os números. O que importa é libertar as cadeias que estão sobre lotadas. Números senhores, haja números, estatística e está tudo bem. Até porque os números são facilmente manobráveis ao contrário de certas pessoas... e dão pouco trabalho.
Vejo as forças de segurança e os magistrados e pessoal do ministério público preocupados. Porque sabem que tão cedo não vão ter meios para agir de acordo com os novos prazos estabelecidos por este código. Provavelmente com a política de encolha de dinheiros nuca virão a ter. Quem ganha com isto? Os criminosos. Esses estão cada vez mais protegidos pela lei. Quem se lembra de proteger as vítimas?
Assim não, Zé!

15 setembro, 2007

This is a rebel song - Sinead O'connor (clica aqui)

I love you my hard englishman
Your rage is like a fist in my womb
Can't you forgive what you think
I've done
And love me, I'm your woman

Aflicto


A Marco Milani


Que la luz no se vaya de aquí hasta que se pudra,
hasta que se me deshaga
en lo que yo pudiera haber soñado
al mundo.

(Oswaldo Roses)

"Eu sou daqui, eu não sou de marte..."

e por isso não fui trabalhar hoje. Que bom haver um dia em que podemos dizer, hoje não me apetece ir trabalhar e não vamos e ninguém nos pode exigir um justificação nem marcar falta nem chatear com o que quer que seja. Que bom acordar e pensar no professor Agostinho da Silva esse poço de sabedoria que nos ensinou que "o homem não nasceu para trabalhar mas para criar"... mas sobretudo poder decidir o que fazer sem me sentir culpada nem em falta com ninguém. Que bom...
Sair de manhã cedo e caminhar à beira mar, cantando e fotografando o que me apetece. Cantando sim e por isso é que também digo àqueles que me olham desconfiados enquanto canto e rio na via pública que não sou de marte. É que não sei se os marcianos cantam. Acho que ninguém sabe. Espero que saibam cantar para o bem do universo. Porque cantar e rir são coisas boas e que por enquanto ainda não pagam direitos de autor. Por falar nisso: quem terão sido as primeiras pessoas a cantar e a rir? Bem quase que aposto que o homem primeiro aprendeu a rir, acto que não requer ensinamento e que se pode fazer em qualquer altura sem ser acusado por exemplo de desafinar... é claro que cantar é fácil, muito fácil. Difícil é cantar bem. Mas como diz o poeta, "no peito de um desafinado também bate um coração". Por isso perdoem-me o cantar mal e deixem-me continuar a cantar porque no meu peito também bate um coração.

14 setembro, 2007

Africa Nossa - Cesaria Evora (clica aqui)


África, África, África
África minha
África nossa.
Berço di mundo
Continenti di mundo

Nos teus dedos

Nos teus dedos nasceram horizontes
e as aves verdes vieram desvairadas
beber neles julgando serem fontes

(Eugénio de Andrade)

O zé e mais do mesmo...

O governo decidiu dar mais dinheiro à justiça para 2008. Acho bem. Muito bem. O mesmo governo decidiu tirar dinheiro à saúde e à educação. Acho mal. Acho muito mal. Acho mesmo péssimo. Tenho-me perguntado vezes sem conta para onde vai o dinheiro dos nossos impostos. Eis uma questão fantástica. Porque quanto mais nos entram nos bolsos menos nos dão em troca. Das duas uma: ou nós somos uns queixinhas ou o governo quando acabar este mandato tem cheios os cofres do estado. Pois isto é mesmo assim, tudo com minúsculas que esta gente não merece mais.
Um dia destes, brincando, Bartolomeu perguntava-me se quando me doía o ouvido ia ao clínico geral ou ao otorrino. Pois é Bartolomeu, o ouvido é o menos que se vai tratando com umas mezinhas caseiras e se ficar surda melhor para mim que ele ouvem-se por aí coisas que melhor seria não ouvirmos para dormirmos muito descansadinhos na paz dos nossos anjos. E sempre são € 75,00 no mínimo que não me saem do salário, cada vez mais curto ao fim do mês... porque os meus impostos não são para pagar a saúde. Se calhar até servem para coisas muito mais importantes eu é que tenho este mau feitio de me apetecer de vez em quando dar uma de Scollari e correr tudo à porrada... Sim: no fim de contas para que é que uma gaja como eu cheia de saúde precisa de médico? Por isso não tenho médico de família... na volta hão-de achar que uma coisa assim a modos que monoparental como eu, não é uma família e por isso não tem direito a médico que esses com certeza foram criados para as verdadeiras famílias...
Não há dúvida que estas questões me fazem mal à saúde... não fosse eu despender energias ao fim do dia em caminhadas de 5 km não sei como me aguentaria sem médico, mesmo que não fosse de família, pronto... já me contentava com um mais modesto!