07 novembro, 2007

O rio


Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.

Um rio nasceu.

(Vinicius de Moraes)

Mais uma vez a amizade.

Se 50 pessoas vos disserem que eu sou amiga delas não acreditem... e se outras 50 disserem que são minhas amigas, não acreditem também. É que a amizade como outros sentimentos só tem valor quando é recíproca. Se alguém sente que gosta de mim e que eu sou sua amiga, isso não quer dizer que eu goste dessa pessoa e tencione ser sua amiga.... posso até tentar e pode até dar resultados positivos (lembro-me aqui de ti, Fritz, da antipatia que senti por ti à primeira vista, mas tu soubeste cativar-me e torná-mo-nos bons amigos).
É por isso que tenho poucos amigos. Mas os que tenho sou eu que os escolho... afinal até me dou ao luxo de escolher a família, apesar dessa treta dos laços de sangue, quero lá saber, o que conta mesmo são os laços do coração, o resto é paródia. Para mim.
Uma das minhas amigas mais queridas é a filha de Pepe. Porque eu olho para ela e sei quando ela não está bem, quando tenho que passar por cima das minhas tristezas para inventar estórias, frases para a pôr a rir... e para depois ter o prazer de a ouvir dizer, depois de estar contigo fico muito mais leve... e faço tudo isto sem qualquer esforço, esquecendo-me das minhas angústias, esquecendo-me de mim... porque basta olhar-mo-mos nos olhos para saber o que a outra está a pensar...
Isto para mim é amizade e não essa treta de espécie de batalhão atrás de uma pessoa, por esta ou por aquela razão.
Sou tua amiga filha de Pepe. És minha amiga filha de Pepe. Somos amigas. Porque quando nos olhamos sabemos uma d outra e encontramos as palavras certas, os gestos que nos hão-de ajudar a sorrir e a seguir a vida... com mais leveza.

06 novembro, 2007

Burn One Down - Ben Harper (clica aqui)

if you don't like my fire
then don't come around
cause I'm gonna burn one down
yes I'm gonna burn one down

A estrela



Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alto luzia?
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

(Manuel Bandeira )

Divagando só

Lamento acredita é do fundo do coração mas não tens lugar no meu mundo tão imperfeito. Tu sabes como eu sou imperfeita, cheia de defeitos, tu mesmo me foste apontando alguns ao longo do tempo e agora de repente queres entrar neste mundo que criticas com tanta veemência... lamento mas de verdade aqui não há lugar para ti. Aqui estão as pessoas que eu amo, os meus amigos, o meu passado, os meus erros mas também o que vou aprendendo ao longo da vida... e uma coisa que eu aprendi foi que os erros não se cometem duas vezes, muito menos três... e é por isso que tu ficas aí desse lado exacto e perfeito, desse lado onde as pessoas não erram nunca, onde o pecado é punido, onde deus existe e as almas do outro mundo também...
No meu mundo só há almas deste mundo. Tão imperfeitas quanto eu, tão vaidosas quanto eu, tão penadas como eu... um mundo que vou construindo todos os dias com a ajuda dos amigos e dos outros que não sendo amigos são pelo menos cooperantes e a quem sinto obrigação de abrir as portas e as janelas e deixar entrar o sol de novembro porque todos os dias, cometem pequenos erros, daqueles que não matam ninguém que não agridem que não precisam de dizer eu sou perfeito, não erro e os meus amigos são como eu perfeitos deuses... daqueles que não magoam ninguém.

05 novembro, 2007

Me and Mrs Jones - Michael Buble (clica aqui)

Me and Mrs Jones, we got a thing going on
We both know that it's wrong
But it's much too strong to let it go now
We meet ev'ry day at the same cafe
Six-thirty I know she'll be there
Holding hands, making all kinds of plans
While the jukebox plays our favorite song

Apelo


Porque
não vens agora, que te quero
E adias esta urgencia?
Prometes-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência...

Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento
O desejo o limite dos mortais.

(Miguel Torga)

Uma carta de boa intenção

Começo Novembro como quem começa Janeiro e decido fazer uma carta de boas intenções. Como sou muito calona, na verdade desta carta consta apenas uma intenção. Se eu a cumprir dou-me por satisfeita. Não gosto de traçar metas muito ambiciosas, é uma coisa de cada vez, quando decido está decidido e depois, bem depois conto com a minha boa vontade para cumprir, o que geralmente não é difícil. Como tudo nesta vida também ter mau feitio tem um lado bom. O lado bom do meu mau feitio é a teimosia. Sou muitíssimo teimosa... pois bem, querem vocês saber desde o início qual a proposta que me fiz desta vez.
Pois é muito simples. Desde hoje (já iniciei o processo, pois!) deixo o carro em casa. Das minhas caminhadas passa também a fazer parte o percurso casa estação, estação casa. Não é sobretudo pelo aquecimento global confesso, mas vai por arrasto. Tenho que caminhar por indicação médica, então decidi não ganhar apenas em saúde, mas no que gasto em gasolina e estou convencida pelo caminho que isto leva não tarda nada estarei rica... o que é chato porque é coisa de que nunca gostei (gente rica) mas prometo arranjar maneira de gastar os troquitos da gasolina em coisas proveitosas e que me dão muito mais alegria como por exemplo os livros.
Esta é a minha carta de intenção para este fim de ano. Se alguém por aí precisar de ajuda para elaborar uma coisa deste género diga, que eu sou calona para muita coisa mas não para caminhar... e menos ainda para ler... E a ver se com esta minha ajuda o próximo Novembro será menos quente que este (se bem que é a parte boa do aquecimento global, mas então, nada é perfeito e parece que a água começa a fazer falta)

04 novembro, 2007

Saiba - Adriana Calcanhoto (clica aqui)

Saiba!
Todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
E também eu e você...

Escolha

Entre vento e navalha escolho o vento
entre verde e vermelho aquele azul
que até na morte servirá de espelho
ao vento que por dentro me deslumbra
Entre ventre e cipreste escolho o Sol
Entre as mãos que se dão a que se oculta
Entre o que nunca soube o que já sobra
Entre a relva um milímetro de bruma.

(David Mourão Ferreira)

Como um cais...

Acabo de acender velas de cheiro aqui pela casa. Digo isto porque não tenho nada para dizer. Ou por outra não me apetece dizer nada porque não me sinto bem apesar deste verão espectacular, apesar das longas caminhadas ao sol, apesar de haver quem nade no mar, até parece que estou na minha terra é o que é, ainda ontem um dos meus filhos brincava com o "abençoado aquecimento global", é claro que como tudo há-de ter algumas vantagens e a deste aquecimento é termos este calor em Novembro, só espero não vir a pagá-lo caro no inverno que se aproxima, só espero não ser obrigada a bater demasiado o dente para não estar para aqui armada em parva... mas mesmo assim não me sinto bem. Não tenho vontade de conversar, tenho uma imensa falta de assunto acho que fico assim quando vejo a senhora Arroz na TV a opinar sobre tudo e sobre todos com aquele seu ar tão doutoral de quem sabe tudo e não tem dúvidas de nada. Como eu gostava de ser assim tão inteligente e saber o que fazer em cada e em todos os segundos da minha vida... quem me dera ser assim tão segura, tão firme, tão sem dúvidas, tão sem necessidade de respostas...
Mas não sou, paciência... e olhem que nem é por falta do apelido porque na minha família há um ramo do arroz, há sim senhor, não sei muito bem quem são mas sei que existem e se não sei bem é porque na realidade me estive sempre nas tintas para uma série de coisas, tomara eu ter tempo para conhecer tudo o que realmente me interessa, mas se calhar fiz mal, às tantas se me tivesse aproximado do ramo arroz hoje era assim uma espécie de doutora em tudo, sobretudo em relações com o exterior logo eu que até sou má a relacionar-me com o interior, logo eu que às vezes tudo o que quero é estar assim sossegadinha no meu canto a olhar as velas que ardem e a pensar nas pessoas de quem tenho saudades, naquelas que partiram para sempre da minha vida e que eu tento amarrar a este cais que é sempre tão pouco seguro, tão pouco seguro como eu este meu cais...

03 novembro, 2007

Boa Sorte/ Good Luck - Vanessa da Mata & Ben Harper (clica aqui)

Tudo o que quer me dar
É demais
É pesado
Não há paz
Tudo o que quer de mim
Irreais
Expectativas
Desleais

A hora da partida


A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
(Sophia de Mello Bryner Andressen)

quero palavras novas

não construo pontes, limito-me a atravessar pontes. podem entender-me no sentido literal ou lateral da palavra. é verdade não construo pontes. atravesso-as.
quantas pontes atravessei hoje? não faço ideia, de norte para sul de sul para norte de oeste para este e de este para oeste e de novo de norte para sul e de sul para norte numa repetição nunca igual, usando as pontes para me afastar de ti.
primeiro as pontes serviam para me levar para ti. mas agora. agora uso as pontes para me afastar mais e mais até estar no infinito. porque como diz o poeta as palavras estão gastas e eu não sei viver com palavras gastas.
por isso me afasto de ti. para encontrar alguém que me ensine novas palavras, que me ensine o significado de cada palavra e de todas as palavras que gastámos para que se tornem novas de novo, para que voltem a viver e me deixem de novo feliz.
por isso atravesso pontes sem cessar. em busca de alguém que tenha palavras para me dizer. palavras que não estejam gastas. palavras novas e reluzentes de juventude, não essas palavras velhas que já chegaram gastas à tua boca. essas que eu não digo porque estão gastas. e eu atravesso pontes. para inventar novas palavras.

02 novembro, 2007

Nossos Momentos - Gal Costa (clica aqui)

Teu castelo de carinhos
Eu nem pude terminar,
Momentos meus, que foram teus
Agora é recordar.

A chuva desce a ladeira


A água da chuva desce a ladeira.
É uma água ansiosa.
Faz lagos e rios pequenos, e cheira
A terra a ditosa.

Há muitos que cantam a dor e o pranto
De o amor os não qu'rer...
Mas eu, que também não os tenho, o que canto
É outra coisa qualquer.

(Fernando Pessoa)

carta aberta a um pequeno deus

pensas que tens o dever e o poder de punir. pensas que podes ajuizar os outros mas és incapaz de olhar para dentro de ti. mesmo quando reconheces os teus erros, apresenta-los como muito menores que os dos outros, portanto não passíveis de julgamento ou de punição.
convém que saibas que compreendas que me ouças. tu és um criador mas não "o criador" aquele que segundo as vozes populares tudo pode. tu és apenas um artista. um artista é alguém que cria algo. não é um juiz.
a tua mulher deixou-te porque se cansou de aturar o teu egocentrismo, o teu "eu é que sei", "eu sou o melhor" "vê como todos me adoram", "repara como eu posso moldar as pessoas, como as posso fazer gostar do seu trabalho e de si mesmas mas, mas de sobretudo de mim"...
a tua mulher cansou-se e partiu. levou com ela o vosso filho mas nunca te impediu de o visitares, passaste a férias com ele (se não passaste todas foi porque preferiste deixá-lo com as avós e viajar a estar com ele ou levá-lo contigo).
podes levar o teu filho com as tuas companheiras. ele compreende tudo. ao contrário de ti que não entendes senão o insulto como forma de cuspires a raiva de saber que afinal nem toda a gente te acha o maior da nossa praça.
em mim hás-de acabar de perder a amiga se continuas a agir como um pequeno deus. tu sabes que eu não acredito em deus muito menos em ti. e a paciência para te ouvir horas seguidas a falar do mesmo, a teimar nessa ideia de que és mesmo tão bom que não entendes como ela te pôde substituir, essa paciência está a chegar ao fim.
não deixes que isso aconteça. acorda. e aceita que é muito bom ser humano. muito melhor que ser um pequeno deus. muito mais saudável. porque assim, pelo menos podes descobrir quem são os teus amigos de verdade e não essa montanha de aduladores que te seguem porque precisam do trabalhinho que lhes darás se souberem adular-te como gostas.

01 novembro, 2007

Problema de Expressão - Clã (clica aqui)

E até nos momentos em que digo que não quero
E o que sinto por ti são coisas confusas
E até parece que estou a mentir,
As palavras custam a sair,
Não digo o que estou a sentir,
Digo o contrário do que estou a sentir.

É urgente

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


(Eugénio de Andrade)

agora que estás comigo

é dia de todos os santos o que significa que 365 dias não chegam para nomear todos os santos ou talvez seja uma maneira de pedir desculpa aos santos esquecidos os menos notáveis os que nunca tiveram a chance de ser publicitados. porque isto dos santos é como tudo na vida... até para ser santo é preciso ter sorte.
eu não tive a sorte de ter um santo (ou santa) que me impedisse de te matar. não me arrependo de te ter matado de verdade porque não me restava outra alternativa, tu sabes e eu sei que depois de te ter morto dentro de mim não podia continuar a viver arriscando cruzar-me contigo e voltar a sentir aquela angústia de te querer mais do que a qualquer outra coisa no mundo. não adianta explicar isto pois ninguém percebe. o advogado que me defendeu não percebeu, aliás eu não pedi advogado nenhum estou-me nas tintas para os advogados, estou-me nas tintas para a minha defesa estou-me nas tintas para a minha condenação.
a minha condenação foi a coisa melhor que me podia acontecer. aqui tenho todo o tempo e toda a falta de espaço de que necessito para estar contigo.
quando começo a irritar-me com os outros detidos arranjo maneira de me mandarem para a solitária. e só quando já estou completamente cheio da tua presença, do teu cheiro, da tua voz, das minhas mãos no teu cabelo, só aí começo a portar-me de modo a sair para poder tomar um pouco de sol... porque tu gostas de sol e eu não posso impedir-te de teres o que mais amas. agora que estás comigo. para sempre.