09 junho, 2007

"Tá-se bem"

O calor abateu-se de repente sobre Londres. Depois de dias seguidos de chuva, alguns com bastante frio, a cidade amanheceu ensolarada. Num dos grandes armazéns, vejo um casal pronto para a praia. Ela de biquini e ele de calção de banho. Claro que se trata de uma campanha publicitária. De qualquer modo, nunca me passou pela cabeça ver isto em Portugal.
Em Central Park o cenário transformou-se: o parque pretende tornar-se praia. Há cadeiras espalhadas em torno do Serpentine que se encontra aliás sujíssimo. Até dos cisnes tenho pena, tal a sujidade à superfície da água.
Mas os londrinos não se incomodam com tão pouco. Estendem as toalhas pela relva ou usam as cadeiras de praia que lhes forma postas à disposição e gozam aquela praia improvisada. No fim de contas, tirando a areia e o mar, o cenário está completo: o sol aberto e o calor não faltam. É bem bonita esta praia verde!
É um calor sufocante. O tecto de ozono está com certeza muito baixo e cá por baixo o calor sufoca. Mas não os londrinos... esses estão felizes e contentes. Não há smog, logo "tá-se bem".

08 junho, 2007

A Sua - Marisa Monte (clica aqui)

Tô com sintomas de saudade
Tô pensando em você
E como eu te quero tanto bem
Aonde for não quero dor
Eu tomo conta de você
Mas, te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem

Posso escrever os versos mais tristes...


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.


Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.


Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.


Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.


A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.


De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.


Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.



(Pablo Neruda)

Piratas e piratas.

Saio em Baker Street pelas 12 horas. Várias saídas do metro estão fechadas pela polícia. Ninguém diz o que se passa. Há problemas, é só o que se ouve. Dou a volta ao quarteirão. Sou obrigada a desviar caminho pela polícia. Não deixam tirar fotos. Amavelmente mas com autoridade. Meto a câmara na mochila e decido voltar para trás.
Ao fim da tarde tento de novo. A polícia mantém-se mas em menor número. De uma saída do metro vejo que surge o pirata das caraíbas, acompanhado por uma bela rapariga. O pirata está vestido a rigor. Sigo-os.
Levam o mesmo rumo que eu: o museu de cera mais famoso do mundo: "Madame Thussaud". Cá fora não há fila para entrar o que considero ser muito bom. O segurança que está a revistar as pessoas olha para o pirata e pergunta-lhe a rir porque se vestiu assim. O rapaz não fala inglês. Em resposta sorri apenas. Observo que tem um belo sorriso. Estou atrás do casal na fila para comprar bilhete.
Já lá dentro tiro várias fotos ao rapaz que se deixa fotografar por toda a gente. É muito simpático. Às tantas vejo-o a apontar uma pistola a Bush. Há gente à minha frente não consigo fazer a foto. Pergunto-lhe em inglês se pode apontar a pistola de novo a Bush. Abre o sorriso e volta a fazer a pose. Sempre pronto.
De todas as vezes que vou a Londres encontro figuras capazes de me encantar. Este pirata das caraíbas italiano é mesmo um cromo!

Homem do Leme - Xutos & Pontapés - (clica aqui)

E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...

(Para a Marta Ferreira...)

07 junho, 2007

Oxalá - Madredeus

Oxalá, o tempo passe, hora a hora,
Oxalá, que ninguém se vá embora,
Oxalá, se aproxime o Carnaval,
Oxalá, tudo corra, menos mal

Que nenhuma estrela queime o teu perfil


Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.


Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.



(Sophia de Mello Bryner)

Um menino que quer ser deus.

Partiste há 6 anos, no dia da criança. Sem te despedires de ninguém. Afinal de contas levaste dois meses a despedir-te. Dois meses em que querias partir e nós te agarrávamos com o egoísmo próprio de quem ama. Por isso, um dia quando chegámos para te ver, tu tinhas acabado de partir. Sem dar tempo a mais nenhum adeus.
Mas hoje o teu neto João que não conheceste, está aqui comigo. Tem 5 anos feitos há dias. E quero contar-te que estive a conversar com ele (ele gosta muito de conversar, sabes, como tu) e ele esteve a dizer-me que quer ficar para sempre com 5 anos, que não quer crescer, nem namorar, nem casar, nem ter filhos, netos, nem ficar velho, morrer e ir para o céu... O João não quer um destino comum como a maioria dos mortais. Quer ficar para sempre com 5 anos e em vez de crescer quer virar deus.
Exactamente o que te estou a dizer. Tens um neto que quer permanecer com 5 anos e ser deus. Já viste o que deixaste como descendência? Na verdade só tu, minha irmã, mana velha, poderias deixar um destes casos por resolver. O que tu gozarias se conhecesses este teu neto! Se bem que os outros não lhe ficam atrás, cada um à sua maneira.
Ainda bem que exististe e que me deixaste esta herança admiravel que são os teus (meus) netos. No dia da criança, que é o teu dia, partiste. Criança para sempre, tu que dedicaste a tua vida a ensinar cianças. Conversamos todos os dias... mas hoje tinha que te dizer, que um dos teus netos quer ser... deus!

06 junho, 2007

Garota de Ipanema -Tom Jobim Vinicius de Moraes (clica aqui)

Ah! Se ela soubesse que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

Dizem que a paixão o conheceu


Dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite
enumera o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice


conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo


dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

(Al Berto)

Obrigada Pepe.

Pepe teria feito, se fosse vivo, 90 anos ontem. Foi um homem inteiro, de verdade. Lutou contra o fascismo, incentivou a filha a que fizesse o mesmo, ajudou muita gente... construiu o seu pequeno império, num tempo em que não era possível fazê-lo com a ajuda do emblema do partido que se muda conforme muda o governo...
É verdade. Passados mais de 30 anos da revolução de 1974 o que conta é quem está no poder. E quem quiser um tachinho, uma vidinha melhor, um vislumbre de qualidade de vida, terá que se sujeitar a ter pelo menos um partido, que o defenderá e lhe arranjará um poleiro logo que possível. É claro que conheço muita gente que se demarca do partido, mal este deixe de lhe fazer falta... se os tempos mudarem e for preciso, pois com toda a certeza será fácil dar a volta ao assunto e demonstrar por a+b que a fidelidade não foi jamais quebrada. Ou "jamais- jamé" em francês como o nosso querido ML que não se cansa de mostrar que, sendo engenheiro, tem uma queda acentuada para as línguas estrangeiras, como hoje demonstrou mais uma vez usando o vocábulo "peanuts"... Isto é assim mesmo: gente fina é outra "chose". Pois é meu caro ML também eu sei "un petit peu de français" "and so a litlle of english". (Perdoem-me se dei algum erro mas que diabo, eu não sou ministra!).
Voltando a Pepe. Ainda que não tivesse feito mais nada, Pepe já teria tido a virtude de ter feito uma filha, tão pequena quanto brilhante. E ter uma amiga como a filha de Pepe é algo de muito sério. Porque quem tem uma amiga assim nem precisa de ir à bruxa. Ela conhece toda a gente, por dentro e por fora. Sabe os mapas que levam a cada uma e sabe exactamente o que cada uma delas fará em determinado momento.
E já agora obrigada Pepe por continuares vivo na tua filha e nos teus netos. Só homens grandes como tu, como o meu pai, permanecem ao nosso lado e ao lado dos nossos amigos, para sempre. Sem que "para sempre" seja tempo demais.

05 junho, 2007

Nickel song - Melanie Safka

You know they're only putting in a nickel
And they want a dollar song, oh
They're only putting in a nickel
And they want a dollar song

Oh yeah, all I ever wanted was the music

Baixo-relevo


Dentro de um secular sossego
nós somos
a escultura de amanhã
(trilhos de formiga
descem no cabelo
patinado de pó o coração)


Tu e eu
só estátuas de amanhã
Não temos na mão a flor
um livro uma espingarda
uma cadeira gasta onde morrer
E sem o monstro gótico apunhalado aos pés


(Todos os sonhos são de pedra ou bronze
não os meus de palha ou papel)


Tu e eu
baixo-relevo
vendidos tocados expostos em vida
perseguidos pelos milionários
e pelos mortos talvez que invadiram já
o pedestal das estátuas


Tu e eu
elípticos de sexo
ontem gritada no teu peito
hoje secreto no meu ventre


deserdados da sombra
já sem gesto
escultura de amanhã

(Luiza Neto Jorge)

A velha senhora.

Desceu do 1º piso do autocarro e ficou à porta. As obras na rua retardaram suficientemente o andamento dos autocarros para que eu pudesse apreciar aquela velha senhora. Da altura de uma criança de 10 anos e com uns pés que calçavam calculo que um europeu 40. Trazia um vestido curto branco, que se segurava no pescoço à custa de alfinetes de ama.
A cara completamente pregueada de rugas deixava entrever, a quem se desse o trabalho de olhar cuidadosamente, que por trás daquelas rugas imensas se tinha escondido um dia um belo rosto. Hoje a cabeça, as orelhas (também cobertas de rugas, como eu nunca tinha visto outras) e os pés, completamente fora do contexto do resto do corpo. Tudo nesta velha senhora encolheu, excepto estes.
Não consegui perceber se o cabelo era de verdade ou se se tratava de uma peruca. Podia estar apenas imensamente sujo e dar-me a ideia de que era realmente uma peruca... ou pode apenas ter realmente caído e dado lugar à peruca.
Olhei a velha senhora demoradamente. Apoiava-se numa bengala de tamanho adequado ao seu corpo. Saiu do autocarro na paragem, com alguma agilidade. As pernas nuas mostravam também os sinais do tempo. De muito tempo. Calculei que a velha senhora terá mais de 100 anos. E pensei que provavelmente já assistiu a muitos funerais... mas não tenho a certeza de que assistirá ao seu próprio funeral... Porque quem chegou àquela idade com aquela agilidade, apesar de ver o seu tamanho extremamente reduzido, faz-me crer que atingiu a eternidade... Pelo menos para mim.

04 junho, 2007

É você - Tribalistas (clica aqui)

Deita no meu leito e se demora
Na vida só resta seguir
um risco, um passo, um gesto rio afora
Na vida só resta seguir
Um ritmo, um pacto e o resto rio afora

Como a vida sem caderneta


Como a vida sem caderneta
como a folha lisa da janela
como a cadela violeta
- ou a violenta cadela?


Como o estar egípcio e mudado
no salão do navio de espelhos
como o nunca ter embarcado
ou só ter embarcado com velhos


Como o ter-te procurado tanto
que haja qualquer coisa quebrada
como percorrer uma estrada
com memórias a cada canto


Como os lábios prendem o corpo
como o corpo prende a tua mão
como se o nosso louco amor louco
estivesse cheio de razão


E como se a vida fosse o foco
de um baço, lento projector
e nós dois ainda fôssemos pouco
para uma tempestade de cor


Um ao outro nos fôssemos pouco
meu amor meu amor meu amor


(Mário Cesariny)

Dias úteis

"Mesmo por pretextos fúteis a alegria é o que nos torna os dias úteis". Esta frase é da canção "Dias Úteis" de Sérgio Godinho. Gosto dela por ser tão simples quanto verdadeira. Na verdade não tenho nenhuma apetencia pela infelicidade, pela curtição de tristezas, porque tudo tem um lado bom. Tudo. Mesmo quando perdemos um amigo. Fica a saudade que é uma coisa bem bonita de se sentir...
Mas lá vou eu por outros caminhos. O que quero hoje é dizer mais uma vez que a Adélia me torna os dias úteis muito mais úteis. Sim: trata-se da mesma Adélia de que já aqui falei. A tal que é bonita e simples e terna. A que tem uma família pequena mas que a defende com unhas e dentes.
Pois a Adélia que me cumprimenta com o seu habitual "bom dia princesa" e se despede com "adeus princesa"... não me parece que tenha lido Clara Pinto Correia. Não leu com toda a certeza uma milésima parte dos livros que eu li, mas sabe muito mais da vida do que eu. Porque ela sabe o que importa. Ela sabe sorrir. Ela sabe dar alento. Ela sabe ter graça.
Andava eu pois a pensar como poderia retribuir todos os bons momentos que esta mulher bela e simples me tem proporcionado, quando descobri que ela "adora" o meu perfume.
Hoje ofereci-lhe a loção do mesmo nome. E era ver os olhinhos dela a rirem de felicidade pura, qual criança a quem tivesse sido oferecido o mais desejado presente de natal. Primeiro não percebeu que eu estava a oferecer. Pensou que eu estava a mostrar. Mas quando eu disse "é teu" ela quase me sufocava em abraços...
Há muito tempo que dar um presente não me deixava tão feliz. Mais uma vez a Adélia tornou o meu dia útil.

03 junho, 2007

Just The Way You Are - Diana Krall

I don't want clever conversation
I never want to work that hard
I just want someone that I can talk to
I want you just the way you are.

Todos por um


A manhã está tão triste
que os poetas românticos de Lisboa
morreram todos com certeza


Santos
Mártires
e Heróis


Que mau tempo estará a fazer no Porto?
Manhã triste, pela certa.

Oxalá que os poetas românticos do Porto
sejam compreensivos a pontos de deixarem
uma nesgazinha de cemitério florido
que é para os poetas românticos de Lisboa não terem de
recorrer à vala comum.

(Mário Cesariny)

Estou de volta.

Que saudades deste meu tempo! E que bom chegar e ver que os amigos andam por aqui. Os que conheço e os que não conheço...
Estive ausente por motivos de força maior e nem sequer era por falta de acesso à NET que deixei de escrever, mas porque realmente não gosto de publicar sem fotos e fora do meu espaço isso não me era possível...
Mas vou falar aqui da jovem vietnamita que me arrancou a mala das mãos, quando me viu em dificuldades numa escada de metro. Num ápice transportou a dita para onde eu não tivesse que subir mais escadas a pé e com um sorriso despediu-se e desejou-me boa sorte. São cenas como esta que me fazem sentir que o mundo inteiro é a minha pátria. Esteja onde estiver... uma ajuda, um sorriso, dizem mais que mil palavras. Neste pequenissimo país, onde eu falo e a maior parte das pessoas faz de conta que não entende, sinto-me menos em casa do que em sítios onde preciso apenas de um olhar para ser entendida...
É este facto que me deixa perplexa. Porque é que as pessoas ouvem o que querem e não o que dizemos? Porque insistem em se ouvir a si mesmas? Porque julgam que toda a gente tem um preço? Porque pensam que o dinheiro compra qualquer um?
Estou contente por estar de volta a casa. Gosto do meu canto. Faz-me falta este meu tempo... Mas tenho pena que a maioria das pessoas seja tão autista...