Um blog do dia a dia, com muitas estórias, alguma poesia, música, fotografia, crítica, comentários... para desabafar, porque sem um grito ninguém segura o rojão!
05 março, 2010
A luz de tieta - Caetano Veloso (clica aqui)
Urgentemente
É urgente um barco no mar
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
(Eugénio de Andrade)
logo se verá

dia de chuva intensa já ninguém se lembra dos dias de sol até são pedro deixou de gostar de portugal provavelmente tão desgostoso quanto eu com o que me rodeia decidiu que havíamos de as pagar caro. que isto é assim mesmo um mal nunca vem só. a malta anda deprimida vou ao neurologista e só vejo gente a bater mal da tolinha. aqui por casa a situação está cada vez pior. o surrealismo aumenta dia após dia quero tratar da minha vida e não posso. as conversas mudam como nuvens pelo céu e tornam-se completamente incompreensíveis. já não sei quando sou mãe ou filha ou cunhada ou irmã ou sobrinha ou apenas alguém que está de visita. a loucura é algo que enlouquece quem convive com alguém que está à beira da demência absoluta. são os sacos cheios de coisas para viagens imaginárias. sem sair de casa passa-se quinze dias em paris outros tantos em aveiro e de caminho vai ao alentejo e conta-se pelo telefone às amigas e à família todas estas aventuras. fala-se com um filho e tanto se chama padrinho como madrinha como marido. liga-se para a polícia a dar parte do desaparecimento de um marido que morreu há mais de dez anos e de repente a polícia bate-me à porta e lá tenho que explicar que a pessoa que ligou tem alzheimer pedir desculpas agradecer a simpatia e a boa educação. no meio de tudo isto tenho sete livros para estudar até dia 10. e ela quer voltar à escola. logo se verá.
04 março, 2010
o melhor do twitter
Quem És Tu, de Novo - Jorge Palma (clica aqui)
Quando o tecto se escancara e se confunde com a luaA apontar-me o caminho melhor do que qualquer estrela
Ninguém me faz duvidar que foste sempre a mais bela
Por favor, diz-me que és alguém, de novo?
Quando a janela se fecha e se transforma num ovo
Ou se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?
Retrato do herói

Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar de morte certa.
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.
Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.
(Ary dos Santos)
verdades simples

um dia de greve da função pública. alguns serviços fechados. escolas tribunais serviços de finanças segurança social na loja do cidadão. os números do governo falam em cerca de 13%. os sindicatos em 80%. talvez a média esteja certa. eu por exemplo tive que utilizar serviços de um hospital. a médica estava e atendeu-me como sempre de modo muito competente e simpática. já a única reunião mensal que existe no dito hospital e que se passa na primeira 5ª feira de cada vez e que se destinam aos familiares de pessoas com demência ou seja é um apoio para nos ajudar a saber como lidar com estas pessoas que tanto são dóceis como de repente se tornam agressivas não existiu porque os responsáveis fizeram greve. entrevistada por uma jornalista do jornal público contei o que se tinha passado e expliquei que eu própria estava a fazer greve. pedi ontem aos meus colegas que não atendessem nenhum dos casos que tenho entre mãos. só assim uma greve faz sentido. é a única maneira de as pessoas entenderem que há gente que se insurge contra arbitrariedades e não se limita a cruzar os braços e esperar que alguém faça alguma coisa por eles. acabo de ouvir o medina carreira dizer que não valia a pena fazer greves porque não íamos ganhar nada com isso. é a opinião de muita gente. não é a minha. não tem que ser. durante quatro anos os professores lutaram para ter um sistema de avaliação justo. conseguiram. afinal somos todos ou não somos funcionários públicos? ou continuamos a viver "o triunfo dos porcos" onde todos são iguais mas uns são mais iguais que outros? o que se passa é que há gente que sabe que é a união que faz a força e há gente que nunca há-de perceber uma verdade tão simples.
03 março, 2010
o melhor do twitter
Abraça-me bem - Veiga - (clica aqui)

Levantas os teus olhos para me olhar assim.
Procuras cá dentro onde me escondi.
E eu tenho medo, confesso, de dar.
O mundo onde guardo tudo o que mais quis salvar.
Tu dizes que não há outra forma de ficarmos perto.
Não há como saber se o caminho é o certo.
Só pode voar quem arriscar cair.
Só se pode dar quem arriscar sentir.
Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.
Como eu quisera, emfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.
Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.
Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha côr!
Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tedio.
E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...
(Mário de Sá-Carneiro)
o costume

começo a estar farta de gente que reclama que ganha mal que é mal avaliada que sua a camisa e não é reconhecida. estou cansada de gente que diz que devíamos era fazer barulho e depois quando chega a hora de ir a uma manifestação não os vejo lá. nem perto! estpou cansada de os ouvir dizer que não fazem greves às segundas ou sextas feiras porque acham um aproveitamento indecente. depois de ouvir todos estes argumentos quero ver que desculpa darão para não fazerem greve amanhã. na sexta feira sei bem o argumento que vou ouvir. ganho pouco o dinheiro não me chega todos os centimos fazem falta. é esta visão de uma vida presente pequenina que me irrita. esta falta de convicções. gente que protesta só em casa e no emprego. gente que se queixa dos vários governos. gente que gosta de ser mal tratada para poder continuar a queixar-se deste e de qualquer governo porque a função pública é sempre culpada de todos os males do país. não apenas em portugal mas em todo o mundo. estão a empurrar as pessoas para reforma. vão sobrando computadores secretárias cadeiras. vão sobrando salas inteiras. a única coisa que não sobra é trabalho e tempo. e o conformismo do costume.
28 fevereiro, 2010
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O QUE SER? - CHICO BUARQUE & MILTON NASCIMENTO (clica aqui)
Jogo
Eu, sabendo que te amo,e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.
(Nuno Júdice)
tenho pena

que falta me faz não passar por aqui todos os dias... guardo mais coisas para mim e o peso no coração aumenta mas a verdade é que não é fácil estar aqui a escrever enquanto ao meu lado alguém fala de tudo e de nada desde que não seja do presente. conversas que não fazem sentido para mim. como vou responder a uma mulher que é minha mãe e inverte os papéis. eu sou a mãe e ela a filha só que não é tão obediente quanto nos queria fazer crer antes de adoecer. enche-se de chocolates tal como uma criança e depois recusa-se a jantar e acha que eu não devo ralhar com ela por isso pois sei muito bem que as crianças gostam de chocolates... para tomar banho é outra carga de trabalhos. as visitas chegam e ela não reconhece ninguém. troca nomes e datas e fala de coisas de outros tempo que ninguém senão ela viveu. é como se entrássemos num filme surreal. cada dia mais pequenina está muito preocupada com a escola. por outro lado não gosta da professora que só a obriga a fazer ponto cruz e ela não lhe parece que seja coisa que vá ser útil para fazer o enxoval. de repente percebe que está noiva e fica triste porque o namorado não lhe escreve. e logo depois chega à conclusão que afinal já casou e é viúva e decide que o melhor é mesmo casar amanhã ainda que na realidade não conheça o noivo. difícil assim passar por aqui todos os dias. e tenho pena.
23 fevereiro, 2010
o melhor do twitter
Telepatia - Lara Li (clica aqui)
José
E agora, José?A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
(Carlos Drummond de Andrade)
o limite é o infinito

garanto que posso começar a escrever guiões para cinema. é certo que são guiões um pouco violentos demais do tipo 500.000.000 de tiros por minuto. estórias onde aparece gente saída de armários. estórias tão interessantes de que estou certa que fariam sucesso de bilheteira sobretudo se fossem realizadas por uns tipos assim como o spielberg. de qualquer modo este mundo surrealista em que continuo a viver deixa-me exausta sobretudo porque de um minuto para o seguinte a estória muda e às tantas já nem sei bem em que filme estou. lembra-me o tempo em que as novelas apareceram em portugal e com as minhas amigas conseguíamos baralhar todos os argumentos e fazer uma nova novela a maior parte das vezes mais convincente do que as que passavam na tv. de qualquer modo sem a solidariedade de amigos mais ou menos chegados e até gente que mal me conhece cá vou levando o surrealismo até ao extremo que me é perimtido. onde é que eu já ouvi algo tipo o limite é o infinito...
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