12 fevereiro, 2009

Entre os lagos


Esperei-te do nascer ao pôr do sol
e não vinhas, amado.
Mudaram de cor as tranças do meu cabelo
e não vinhas, amado.
limpei a casa, o cercado
fui enchendo de milho o silo maior do terreiro
balancei ao vento a cabaça da manteiga
e não vinhas, amado.
Chamei os bois pelo nome
todos me responderam, amado.
Só tua voz se perdeu, amado,
para lá da curva do rio
depois da montanha sagrada
entre os lagos.


(Ana Paula Tavares)

as antigas sextas feiras 13


onde vão os anos em que mudávamos a data dos PC's na véspera de uma sexta feira 13? trabalhava numa pequena sala. todos os meus colegas de trabalho eram computadores. e eu era feliz naquele buraco com uma pequena clarabóia a luz eléctrica todo o dia ligada a porta fechada. eu e os meus colegas de trabalho. fumava enquanto trabalhava. fumava desalmadamente. ralhava com os meus colegas quando eles não me obedeciam. e é claro que só não me obedeciam quando não lhes dava instruções correctas. não sei se tenho saudades desse tempo. sei que era feliz. hoje tenho colegas de carne e osso e o computador é apenas uma ferramenta de trabalho que uso mais do que os meus colegas. não perdi a mania de conversar com o PC e eles riem. dizem que eu falo com o trabalho. mas também tagarelo um pouco com eles se não estiver demasiado sobrecarregada de trabalho. esses momentos acontecem sobretudo à sexta feira porque eu gosto de terminar a semana com tudo feito. são manias que a gente apanha. como diz o meu queridíssimo CB sou uma trabalhóloga. posso ouvir uma anedota uma desgraça uma tragédia. mas se não me disser directamente respeito continuo a trabalhar. amanhã é sexta feira 13. dois dos meus sobrinhos fazem anos. e eu não tenho já que me preocupar com os vírus de sexta feira 13. o avast trabalha para mim.

11 fevereiro, 2009

Passaredo- Chico Buarque (clica aqui)

Anda, andorinha
Te esconde, bem-te-vi
Voa, bicudo
Voa, sanhaço
Vai, juriti
Bico calado
Muito cuidado
Que o homem vem aí
O homem vem aí
O homem vem aí

Poética


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto
expediente protocolo e manifestações
[de apreço ao Sr. diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
ao cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar
com cem modelos de cartas
[e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

(Manoel Bandeira)

hoje voltei a cantar


o dia amanheceu lindo. enquanto pedalo até à estação começo a ouvir o chilrear da passarada e começo a cantarolar passaredo de Chico Buarque. para dentro. para que ninguém me ouça. muitas vezes esqueço-me de que não sei cantar e canto mesmo em voz alta seja onde for. é frequente acordar a cantar. se bem que ultimamente menos frequentemente mas quem é que tem vontade de cantar com a crise instalada e o tempo de chuva que tem feito? a propósito de cantar vou contar-vos uma estória passada comigo. estava em Lisboa há cerca de 1 ano e frequentava o antigo 7º ano no liceu D. João de Castro. a área escolhida (Filologia Clássica) obviamente tinha muito poucos alunos. a grego por exemplo era a única. os colegas do ano anterior ficaram pelo caminho e a aula era mais uma espécie de aula particular... enfim. um luxo! acontece que o professor de português era casado com a professora de grego e que eu gostava muito de ambos. um dia estávamos a fazer um teste (treze alunos numa pequena sala) e sem dar por isso eu estava cantando. o professor chamou-me e disse-me que saísse. fiquei muito triste porque ele me merecia toda a consideração... no fim da aula fui ter com ele para lhe dizer que não queria perturbar e que tinha começado a cantar sem me aperceber porque era um hábito de miúda. ele disse-me que tinha percebido isso na altura e que só me tinha mandado sair porque os meus colegas não se podiam concentrar comigo a cantar. e por fim perguntou "a menina é da Guiné?"). eu respondi que era de Angola. abriu um sorriso e contou-me que tinha estado na Guiné e que só uma pessoa com origens africanas tinha dentro de si a alegria necessária para cantar fosse onde fosse... faço os possíveis para cantar para dentro porque não sei cantar. mas se soubesse não me ralava nada que me ouvissem... pensando bem mesmo cantando mal não me ralo quando me distraio e isso acontece.

10 fevereiro, 2009

Essa mania - Mart'nalia (clica aqui)


Apesar de saber
Que nem tudo que eu quis eu pude conhecer
Nem deu pra mais prazer
Se cheguei até aqui
Bem no topo do vulcão, não posso mais descer
Mas tem como escorrer

Aceitarás o amor como eu o encaro?...


Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.

(Mário de Andrade)

um caminho para ser feliz


mais um jantar de despedida começo a habituar-me não sei mesmo como é que ainda não me habituei. este meu filho que vive em Itália saiu de casa sem que eu desse por isso. quer dizer, foi saindo... ficava fora uma noite depois duas e assim até chegar o dia em que se tinha mudado sem que eu me apercebesse. é a pessoa mais generosa que eu conheço mas tem umas pancas assim do género quem sai aos seus não é genebra e como diz o meu filho mais velho já nada que venha de nós (eu e o irmão) o espanta. ao contrario de muitas mães que tudo fazem para manter os filhos debaixo das asas eu sou muito americanizada nesse assunto. o mais velho saiu de casa quando chegou a altura de fazer a faculdade o segundo quando lhe deu na telha (que é tal e qual como eu tenho conduzido a minha vida) e o mais novo não me larga a labita. parece que se está bem por aqui... se bem que durante mais de um ano eles estavam todos fora e eu era a pessoa mais livre do mundo. de tal maneira que um dia o mais velho ligou a dizer que vinha passar o fim de semana a casa e eu respondi que podia ir mas que eu estava em Malta... parti sem dar cavaco a ninguém... o meu segundo filho é assim. faz as coisas e tudo é normal. e é. para a maioria das pessoas é que parece estranho... no fim de contas é simples. cada um tem que encontrar o seu próprio caminho para ser feliz...

09 fevereiro, 2009

Call Me Irresponsible - Michael Bublé (clica aqui)

Call me unpredictable
Tell me I'm impractical
Rainbows I'm inclined to pursue
Call me irresponsible
Yes, I'm unreliable
But it's undeniably true
I'm irresponsibly mad
For you


Que há para lá do sonhar?


Céu baixo, grosso, cinzento
e uma luz vaga pelo ar
chama-me ao gosto de estar
reduzido ao fermento
do que em mim a levedar
é este estranho tormento
de me estar tudo a contento,
em todo o meu pensamento
ser pensar a dormitar.

Mas que há para lá do sonhar?

(Vergílio Ferreira)

Mar Adentro mais uma vez


a discussão sobre o direito à morte assistida pode comparar-se à discussão sobre a legalização do aborto? de certo modo talvez. no fundo trata-se do direito do ser humano a determinar o que quer e o que não quer. eu sou contra o aborto e seria incapaz de o cometer mas há muitos anos que defendo o direito à sua legalização. porque foi dado o direito às mulheres de fazerem com qualidade uma coisa que faziam com risco da própria vida ou que pura e simplesmente não faziam por falta de dinheiro. temia-se que a legalização fizesse subir o número de abortos mas não foi o que aconteceu. o processo em termos económicos é baratíssimo e por outro lado serviu para consciencializar as mulheres sobretudo as adolescentes para a necessidade de usar contraceptivos e prevenir uma gravidez não desejada. por outro lado existe o perigo público da pílula do dia seguinte que a maior parte das mulheres ignora e que toma com demasiada frequência pondo em risco a sua vida. é urgente uma campanha bem feita para alertar sobre estas droga. e lá vou eu... Mar Adentro. hoje uma mulher de 38 anos morreu numa clínica italiana depois de 18 anos em coma... há 10 que o pai lutava para que fosse dado o direito de morrer à sua filha muito amada. hoje os suicidas já têm direito a um funeral católico se alguma vez o desejaram... se a igreja católica pode admitir missas por alma de um suicida (alguém que teve a hipótese de pôr fim à vida sem ajuda de ninguém só porque entendeu que estava farto de viver e este é um direito que não posso admitir negar a quem quer que seja) porque não admite que alguém que só vive porque está ligado a uma máquina quer dizer não vive mantém funções vitais o que é bem diferente possa ter o direito de ser ajudado a morrer se não é capaz de o fazer pelos seus próprios meios? Mar Adentro Eluana. um dia a tua estória será contada com amor. mau grado a vontade do senhor Sílvio.

08 fevereiro, 2009

Aconchego - Elba Ramalho (clica qui)

É duro, ficar sem você
Vez em quando
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim

Mulheres

Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido...
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas,
E as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.
Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas...
És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro
atrás de casa e tinham cara de pau).

(Manoel Bandeira)

o final de um dia de domingo


mais um domingo com cheiro a mofo. não fosse o meu filho netos e a bricolage morria de tédio... é uma maneira de dizer porque a verdade é que acabo sempre por aproveitar bem o dia. mas dá-me muitas vezes para pensar ao fim de um dia de domingo o que pensaria eu do dia seguinte se fosse reformada. se não soubesse que amanhã me espera mais um dia de trabalho mais ou menos igual ao de tantos anos sendo que todos são diferentes sendo que todos os dias aprendemos algo de novo sendo que todos os dia conhecemos alguém ainda que seja apenas por escrito. alguém que fica a saber o nosso nome e que telefona e pergunta por nós e às vezes fica assim uma espécie de agradecimento que as faz ligar-nos pelo Natal ou pela Páscoa ou só porque sim porque lhes apeteceu e até para pedir conselhos de ordem particular. ao fim de um dia de domingo. hoje dia 8 de Fevereiro de 2009 sei que o mais certo é amanhã levantar-me arranjar-me tomar o pequeno almoço e pegar na bicicleta para iniciar o meu trajecto em direcção ao emprego. e se por um mal estar de momento me digo hoje não me apetecia nada ir trabalhar logo me lembro dos desempregados que todos os dias aumentam e parece-me pecado mortal sequer passar-me uma ideia destas pela cabeça. o que faria eu se não tivesse que sair todos os dias e chegar ao fim do dia com a sensação de dever cumprido? que pensarei eu no primeiro domingo ao fim do dia da minha vida de reformada (se lá chegar, claro...).

07 fevereiro, 2009

Yolanda - Pablo Milanes (clica aqui)

Si me faltaras no voy a morirme
Si he de morir quiero que sea contigo
Mi soledad se siente acompañada
Por eso a veces se que necesito
Tu mano
Tu mano
Eternamente tu mano

Cada Dia Matilde


Hoje a ti: és esbelta
como o corpo do Chile, e delicada
como uma flor de anis,
e em cada ramo guardas testemunho
de nossas indeléveis primaveras:
Que dia é hoje? O teu.
E é o ontem amanhã, não sucedeu,
nenhum dia se foi de tuas mãos:
guardas o sol, a terra, as violetas
em tua breve sombra quando dormes.
E assim cada manhã
presenteias-me a vida.

(Pablo Neruda)

para o Luís.


há muito que não te escrevo e resolvi portanto contar-te coisas aqui do país ... sei que te tornaste um pouco galego (em Roma sê romano não é?). suponho que o tempo pela Galicia não esteja muito melhor do que por cá mas devo dizer-te que hoje o sol abriu durante longos períodos por aqui. nesta costa que tu amas tanto quando acordei o sol já ia bem levantado (sabes que há muito tempo que não dormia tantas horas seguidas? acho que foi por ter o meu filho e o meu neto "italianos" por aqui que o meu coração sossegou e me deixou dormir tanto tempo. ou terá sido apenas cansaço... sei lá). o que posso dizer-te com toda a certeza é que mal saí de casa fui direita ao paredão aproveitar os momentos em que o sol brilhava. fiz algumas fotos mas nada de especial. mais para te mostrar como o dia estava... claro que se te escrevo é porque fui ao cabeleireiro e sei do que tu gostas que as tuas amigas te falem das conversas que por lá se passam. mas sabes que hoje a conversa azedou um pouquinho porque a manicura é xenófoba e parece esquecer que Portugal é um país de emigrantes e que por isso mesmo devemos ser os primeiros a receber bem quem vem para cá trabalhar. isto se quisermos ser bem recebidos por esse mundo fora. o que não podemos é criticar a atitude xenófoba dos ingleses em relação aos portugueses e depois fazer o mesmo em relação aos estrangeiros que apenas procuram uma oportunidade de vida melhor e muitas vezes apenas uma maneira de sobreviver. pois eu sei que não é propriamente conversa de cabeleireiro mas já sabes como eu sou. de qualquer maneira parece-me ter conseguido mudar um pouco a atitude daquela mulher. e só por isso já valeu a pena. aqui te deixo Luís a primeira foto da manhã de hoje. com amor.

05 fevereiro, 2009

Dance Me To The End of Love - Leonard Cohen (clica aqui)

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Acreditei no mar


Percorri a umbria de um eclipse
que nas vagas não reflectia

Apaguei os olhos e sorri com uma lágrima

Ao abrir , fitei o azul

o azul do céu , do mar e da lua

Ouvi então estremecerem as ondas
e a areia lacrimar.

Voltaram os raios lunares,
voltei ao luar da noite
húmida e fria
em que me movo
e te deito.

Minha gárgula de vida,
meu eterno mar.

(Nuno Travanca)

à minha frente a eternidade


às vezes apetece-me falar de coisas que não interessam nada. pelo menos a mim. no fim de contas sempre fui considerada uma original que acha mais útil um curso de filosofia do que um de engenharia... cada um é como cada qual e cada qual é (não posso dizer que este blogue pode não parecer mas é um espaço de respeito). interessa que o senhor Stanley que ganha a vida à custa da desgraça do vício dos outros (e como ganha!) perdeu 90% da sua fortuna e ainda assim o que lhe resta não me passa pela cabeça o que será... eu parece-me que ouvi falar em 800 milhões de euros. ora eu não sei o que são 800 milhões de euros nem quero saber. o que quero mesmo é dormir muito descansadinha, manter o meu posto de trabalho e o meu nome limpo seja lá onde for. foi assim que o senhor Horta viveu toda a vida. não deixou testamento mas deixou uma bela lição de vida. guardar dinheiro para quê? o dinheiro fez-se para gastar naquilo que nos dá prazer e felizmente os meus luxos não vão além de livros, cinema e fotografia... nem são dos mais caros pois não? é verdade que gosto muito de viajar e tenho estado parada mas a seu tempo lá voltarei... depende do tempo que me restar. mas isso é coisa que ninguém sabe. na minha cabeça resta-me ainda a eternidade.