02 janeiro, 2012

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os chicólatras
"Tinha cá pra mim; Que agora sim;
Eu vivia enfim o grande amor;
Mentira"

Salif Keita - Cesaria Évora - Yamore! (clica aqui)

Un tem fé, si un tem fê
No também viver sem medo e confians
Num era mais bisonho
Olhar de nos criança ta a tornar brilhar de inocença
E na mente CE esvitayada
Temporal talvez ta mainar

Labirinto ou Alguns Lugares de Amor

O outono

por assim dizer
pois era verão
forrado de agulhas

a cal
rumorosa
do sol dos cardos

sem outras mãos que lentas barcas
vai-se aproximando a água

a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros

os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
tão fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo
e é branco

(Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água")

aos tiros

o grupo jerónimo martins bazou... a ver quem vai atrás. o vitinho deu um tiro no pé. sorri perante o resultado das cobranças coercivas do passado ano. a ver vamos como será num futuro que se prevê com menos funcionários. é claro que se podem ir buscar funcionários à saúde e à educação que não dão dinheiro e por isso não interessam nada como diria a apresentadora do pior programa televisivo de sempre. bem pode o gaspar pôr funcionários a cobrar porque de outra maneira não me parece que se safe. senão vejamos: porque é que o governo quer que os contribuintes peçam recibos de tudo e de mais um par de botas? obriga quem não pagava iva a pagar e fica a saber tim por tim tim da vida de todos nós. desengane-se quem pensa que se trata apenas de contribuirmos para passarmos a pagar menos. está visto que com estas medidas e falta de visão a cobrança de impostos não alcançará os níveis necessários e daqui a três ou quatro meses teremos novas medidas de austeridade. desengane-se também quem ainda canta de galo porque não cantará por muito tempo... quem sabe o pedro arranja um tacho qualquer na europa e também baza... para a holanda tomar conta de negócio lícitos e honestos que o rapaz é gente séria segundo dizem e eu não sou ninguém para duvidar. do que eu duvido mesmo é das cabecinhas pensadoras como a dele...

01 janeiro, 2012

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Ondjaki
um 2012 cheio de palavras, poesia e vida...

ivete sangalo gilberto gil e caetano veloso o meu amor (clica aqui)

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita

Ode ao Gato


Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

(José Jorge Letria, in "Animália Odes aos Bichos")

para o meu gato com gratidão

o dia não foi de domingo porque muito mais sossegado. saio e não há trânsito na vila. as ruas quase desertas as lojas todas fechadas nem uma cara conhecida e desconhecidas muito poucas. estou com pouca disposição para passear o corpo pede-me sossego e agasalho e no entanto não resisto a comprar um enorme gelado. será o meu almoço decido. foi. vou até carcavelos e há body borders no mar tão raso que quase consigo ver crianças nuas a brincar nas poças. amanhã como será... acabo de apagar alguma linhas. há uma primeira vez para tudo. não quero que a minha tristeza contagie seja quem for. a lucidez pode também ser um defeito e seja como for acabo de assistir a um programa fantástico na globo. ivete caetano e gilberto cantando as suas músicas e as de outros muito grandes como chico. mas continuo aqui a assoar o nariz como se isso fosse a coisa mais importante do mundo. cansada das noites mal dormidas quero libertar-me desta expectoração e desta tosse tenho pena do gato que me olha com ar de que é que eu posso fazer por ti de cada vez que acorda com a minha tosse. diz que começou um novo ano para mim nada mudou. amanhã volto ao hospital e volto a fazer o penso e a olhar a mesma ferida e depois fisioterapia embora saiba que dificilmente volte a andar como andava as minhas pernas estão desiguais e por muito que me digam que vai correr bem penso que provavelmente terei que ser operada de novo ou usar um aparelho que me ajude a controlar os movimentos. nem uma coisa nem outra me apetece. só quero que o gato não me olhe mais com aquele ar aflito de quem não pode fazer nada por mim.

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Ondjaki
(último) - "amanhã fará verão dentro de mim"... (e do mundo...)

Com Fúria e Raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra


(Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas")

Chico: Bastidores - "Se Eu Soubesse" (clica aqui)

Ah, se eu pudesse te diria na boa
Não sou mais uma das tais
Não ando com a cabeça na lua.
Nem cantarei 'eu te amo demais',
Casava com outro se fosse capaz
Mas acontece que eu saí por aí
E aí, larari larari larari larara

barafunda


não vou fazer balanços logo eu que não gosto da palavra não começo um prosinha desta maneira há-de ser da hora com certeza não será porque desacostumei de passar por aqui de tão triste e deprimida que ando com os pedros e os antónios e os vascos e mais a quantidade de inteligências luminosas que não mandam nada mas fazem de conta que sim. e por falar em manda tenho andado a pensar que a ângela devia ganhar o salário do zé (baroso) uma vez que faz o serviço todo (ou quase todo) pronto concedo que talvez possa dividir com o francês pequenino que gosta de se pôr em bicos de pés a ver se mostra a popa dos anos cinquenta. o zé pode ficar com o salário mínimo e assim ganhar umas isenções quando vier a portugal e pode ser que tenha o azar de adoecer por cá já se safa das taxas desmoderadoras acabo de inventar a palavra não me tinha ocorrido mas também não me tinha ocorrido que as pessoas gostam de ir para as urgências dos hospitais e à conta disso o paulo teve que inventar as desmoderadas a ver se as pessoas sossegam e ficam em casa a descobrir como se liga o aparelho descodificador da tdt de modo a verem televisão ainda não perceberam que não devem ir passear para os hospitais porque andam por lá bactérias mortíferas e não fosse termos um ministro que percebe muito de impostos e taxas nunca perceberiam que afinal a tdt parece que não é para todos mas para os que têm sorte de viver onde existe a tal magia a que chamam digital terrestre. por isso companheiros amigos camaradas façam o favor de se manterem quietinhos que o país é de brandos costumes e não fica bem pôr-me eu aqui a incitar a malta a invadir as urgências e levar a família toda atrás para fazer número e sair sem pagar porque afinal parece que para mim (felizarda) é mais barato ir a uma urgência de um hospital privado do que para um público. azar o meu que gosto mais do público. eles bem querem que eu vá para um bom privado mas eu que sou burra e teimosa deixo-me ficar onde estão os profissionais mais qualificados... enquanto eles não se mudarem para o privado.

03 outubro, 2011

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"escrevemos em busca da voz que mais nos fala por dentro. ajustando a vida (a escrita?) às “falas do lugar"

Essa moça tá diferente - Chico Buarque

Eu cultivo rosas e rimas
Achando que é muito bom
Ela me olha de cima
E vai desinventar o som
Faço-lhe um concerto de flauta
E não lhe desperto emoção
Ela quer ver o astronauta
Descer na televisão

Chico

Talvez não fosses forte
para a felicidade,
nem para o medo.

Olha as pessoas felizes:
ocultam-se na felicidade
como em casa, erguem

muros, fecham as janelas,
o medo
é a sua fortaleza.

O que disputam à morte
é maior que elas,
a morte não lhes basta.


(Manuel António Pina, in "Cuidados Intensivos")

pela vossa saúde

há menos de 48 horas internada parece que foi há muito tempo. espero que a partir de hoje me sinta mais ocupada uma vez que tenho acesso à net. e porque não criei este espaço só para a saudável pratica portuguesa do "bota abaixo" devo dizer que passei por dois hospitais públicos e apesar de se sentir que há realmente carência de pessoal só posso dizer que tenho sido muito bem cuidada. desde os bombeiros até aos antigos "auxiliares de enfermagem" que não sei muito bem como agora se chamam aos médicos passando pelos enfermeiros todos têm sido impecáveis. é verdade que passei 12 horas até ser realmente internada mas sem omeletes não se fazem ovos por isso senhor ministro da saúde que é tido como o milagreiro das finanças sempre aproveito para lhe dizer que vou passar mais do dobro do tempo internada por falta de material para me operarem e porque um dos especialistas só opera aqui às terças e sextas. não me parece que se possa chamar a isto poupar. como é que vão poupar comigo se eu podia ir para casa no dia em que previsivelmente serei operada? pois é paulinho a lógica do corta a direito nem sempre é o melhor remédio. e já agora também lhe digo que há falta de toalhas nos hospitais embora ainda haja dinheiro para pagar às empresas que limpam vidros. reagindo a uma "boca" minha o imigrante de leste que fez o serviço deu a entender que a empresa pertence a um senhor muito importante e que portanto embora faltem toalhas os vidros continuarão a brilhar. por isso senhor ministro aqui lhe deixo o testemunho de alguém que sabe distinguir a saúde da política. veja lá se não acaba de lixar o sistema nacional de saúde e saiba agarrar os profissionais que tem a trabalhar para o seu ministério. e já agora o meu muito obrigada aos bombeiros de lisboa e ao pessoal que encontrei no hospital de santa maria com um especial obrigada para a equipa médica de ortopedia que antes de me despachar para s. francisco cuidou muito bem de mim. e agora o meu obrigada a toda a equipa de urgência de ortopedia do s. francisco e a todo o pessoal que trabalha no piso de ortopedia deste hospital. continuem assim pela vossa saúde.

03 setembro, 2011

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Que força é essa - Sérgio Godinho


Não me digas que não me compr´endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr´endes

As palavras interditas


Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

(Eugénio de Andrade)

não é uma prosa feliz


apetece-me barco. apetece-me vela. apetece-me mar. apetece-me sonho. apetece-me fuga. apetece-me sonho. apetece-me ainda branco e azul. azul e branco. mar e ondas. e então? navegar claro. para onde? longe muito muito longe. tão longe que se tornava perto. de quê? de um lugar pequenino onde não se ouvem constantemente palavras feias como fome desemprego doença corrupção. um lugar onde as pessoas roubam comida. das hortas dos outros. da casa dos outros dos mercados e campos. onde quer que haja comida aparece gente com fome. ir para longe de um pequeno lugar (des)governado por uns meninos que passam a vida a correr para um lugar maior onde não há fome porque uma bruxa chamada angela manda meninos como o zezito e o pedrito e o marianito e outros itos (muitos) que andam por esse lugar fazer coisas más nas suas casas. primeiro foi o zezito. andava cá e lá num disparate de voos que todos pagámos só para ouvir a bruxa má e acenar com a cabeça para cima e para baixo para cima e para baixo para cima e para baixo. acho que ficou tão doente de fazer aquele exercício que foi em busca de cura em lugares maiores. espero que não tenha ficado traumatizado porque apareceu o pedrito que o afastou da brincadeira porque gosta muito da bruxa angela e anda encantado a acenar com a cabeça para cima e para baixo para cima e para baixo constantemente. depois chega ao pequeno lugar onde pertence e põe-se a brincar com o vitinho que é um aluno muito marrão e aplicado que está convencido que vai ganhar o prémio nobel da economia mas estou mesmo a ver é que vai dar com "os burrinhos na água". é que já não sou só eu que não os aguento. é o lugar que não temos. esta devia ser uma prosa feliz. mas não é.