Um blog do dia a dia, com muitas estórias, alguma poesia, música, fotografia, crítica, comentários... para desabafar, porque sem um grito ninguém segura o rojão!
08 abril, 2010
O Ritmo da Chuva - Fernanda Takai e Rodrigo Amarante (clica aqui)
Uma certa quantidade de gente
Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade
Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião
Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá
E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar
Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro
(Mário Cesariny)
comme il faut

enquanto na tv vai dando aquilo que quase todos os portugueses estão vendo (futebol claro) que lhes faz bem tão bem quanto uma religião. o pessoal precisa de distracção. precisa de extravasar os desgostos o dia a dia chato e pequenino (não pequenino por tamanho mas pelo pouco que se lhe liga) e depois hoje nem é preciso ter um canal por cabo para ver o liverpool vs benfica que eu não sei a quantas anda porque estou a assistir à globo que sempre me vai dando séries de comédia de fazer inveja aos melhores. há coisas que são como são. para quem sabe e o resto são cantigas. e por falar em cantigas hoje assisti a uma cena bem engraçada. no comboio da nha de cascais seguiam vários rapazes ingleses. não deviam ter vindo ver futebol porque tinham um ara quase taõ bem comportado como os helderes. só não usavam a mesma farda. estavam de calças de ganga e t-shirt e espalhavam-se por dois bancos da carruagem. eu ia de olhos fechados querendo descansar um pouco de um dia de trabalho duro e sabendo que o dia não tinha ainda terminado. tentando enfim passar pelas brasas quando entrou um homem velho na carruagem vendendo carteiras para o passa a um euro. é claro que já toda a gente tem aquilo e o homem por ali vendo que naõ se governava dirigiu-se ao grupo de britânicos e num inglês impecável lá tentou vender a sua mercadoria. argumentou até que também servia para os títulos de transporte no reino unido. não teve sorte. mas pelo menos os meninos ficaram a saber que por cá até os pobres falam inglês. comme il faut.
05 abril, 2010
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Redondo Vocábulo - João Afonso Afonso - (clica aqui)
Não é para contar uma estória que tu escreves

Não é para contar uma estória que tu escreves
e eu pinto
nem para nos apontarem a dedo que limamos
o bico aos pregos no avesso do mundo, nem a terra
é o centro deste. O universo não usa
adereços de cena
nem liga a espelhos. Tem mais que fazer
que nos copiar e tão-pouco ao fado pois ele é
velho, não tem dentes, e tresanda
ao ranço de uma açorda
salgada e sem coentros.
(Júlio Pomar)
todos precisamos de ser amados

dia de sol. céu limpo e até algum calor apesar do vento. chego ao centro de recuperação e vejo a alegria da minha mãe. deu-me o melhor presente que eu podia receber. no sábado levei-lhe o livro do manuel alegre cão como nós. por ser bom pequeno e com letras grandes. hoje já o tinha lido. depois de ter passado anos a pedir-lhe que voltasse a ler porque sei que era uma coisa boa para a doença dela ela recusava-se. aliás fazia gala de recusar qualquer sugestão de familiares ou de amigos. hoje levei-lhe o um luís sepúlveda o velho que lia romances de amor e estou quase certa que no próximo fim de semana já o terá lido. entretanto para completar a minha alegria a mané aproximou-se de mim pegou na minha mão e pensei que queria que a levasse a passear a algum sítio. afinal queria apenas que eu lhe fizesse festas na cabeça e na cara. fantástica manerira de comunicar desta mulher autista que escolhe os amigos. ela sabe distinguir quem tem medo dela e quem gosta dela. foi pois um dia muito bem empregue porque um dia feliz é sempre algo que nos faz falta. afinal já uma vez aqui o disse todos precisamos de ser amados. e a mané também.
04 abril, 2010
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Haven't meet you - Michael Bublé (clica aqui)
A minha alma partiu-se

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
(Álvaro de Campos)
só porque sim
claro que a páscoa não me diz nada senão uns dias que posso passar a fazer coisas que não tenho tempo de fazer enquanto trabalho ou simplesmente para descansar e fazer finalmente coisas úteis. o tempo não tem ajudado às minhas coisas úteis que são exactamente o contrário da generalidade das pessoas mas permitiu-me dar uma certa ordem em casa e visitar mais frequentemente a minha mãe. ontem fui buscá-la para almoçar fora com filhos netos e bisnetos. ficou assarapantada por me ver chegar à hora do almoço e percebeu então porque a tinham levado ao cabeleireiro. é claro que sem querer lhe baralhei todos os projectos. quando lhe perguntei que projectos encolheu os ombros e disse apenas coisas. mas estava num dia mais ou menos bom apreciou o almoço num típico restaurante ribatejano onde até a música que se ouve é apenas fado. uma mesa de doze pessoas que a mimavam tentando compensar o tempo que está longe de nós. depois ainda consegui que me desse colo em casa do meu filho mais velho. e enquanto me acariciava o cabelo dizia és uma filha muito querida. e não é isso que eu sinto. o que eu queria era poder continuar a viver com ela a cuidar dela mas a verdade é que aquele senhor alemão é muito mais forte que eu. mas percebo que ela entende que fiz o que tinha que fazer com muita mágoa e que passarei todo o tempo possível com ela. embora esse tempo seja sempre muito pouco. mas no próximo domingo vamos festejar os seus 85 anos com mais gente ainda. e assim será enquanto ela tiver pelo menos a noção de que estamos ali porque a amamos.
02 abril, 2010
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Águas de Março - Tom Jobim e Elis Regina(clica aqui)
Tempo livre

Numa tarde de domingo, em Central Park, ou
numa tarde de domingo, em Hyde Park, ou
numa tarde de domingo, no jardim do Luxemburgo, ou
num parque qualquer de uma tarde de domingo
que até pode ser o parque Eduardo VII,
deitas-te na relva com o corpo enrolado
como se fosses uma colher metida no guarda-
napo. A tarde limpa os beiços com esse
guardanapo de flores, que é o teu vestido
de domingo, e deixa-te nua sob o sol frio
do inverno de uma cidade que pode ser
Nova Iorque, Londres, Paris, ou outra qualquer,
como Lisboa. As árvores olham para outro sítio,
com os pássaros distraídos com o sol
que está naquela tarde por engano. E tu,
com os dedos presos na relva húmida, vês
o teu vestido voar, como um guardanapo,
por entre as nuvens brancas de uma tarde
de inverno.
(Nuno Júdice)
voltar a ser criança

o que encontramos quando nos pomos a mexer em papéis velhos... sobretudo quando esses papéis não são propriamente nossos. é o que tenho feito em relação aos papéis da minha mãe e por consequência do meu pai. toda a vida o meu pai gostou de guardar coisas. tudo e mais alguma coisa ele achava que podia ter mais tarde alguma serventia. recordo que quando era miúda a minha mãe decidiu limpar uma mala de porão e achou de tudo um pouco mas sobretudo pregos enferrujados formas de sapateiro (onde as teria arranjado e para quê?) e cartas antigas de namoradas que de resto a deixaram roxa de ciúmes. quando chegou a casa o pai brincou com as estórias das namoradas mas ficou furioso porque ela tinha deitado fora os pregos enferrujados e disse logo que depois não se queixasse de ele não pregar um prego quando era preciso... coisa que ele só começou a fazer muito mais tarde. era assim o meu pai. guardava uma gabardina muito velha e recusava-se a pô-la no lixo ou sequer a dá-la... justificava-se dizendo que nunca se sabia o dia de amanhã e se fosse preciso virar pedinte já tinha a farda... era assim o meu pai e por isso tenho encontrado nos papéis da minha mãe coisas com mais de 40 anos. que me fazem voltar a ser criança.
01 abril, 2010
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Where Have All The Flowers Gone - Joan Baez (clica aqui)
Aos filhos

Já nada nos pertence,
nem a nossa miséria.
O que vos deixaremos
a vós o roubaremos.
Toda a vida estivemos
sentados sobre a morte,
sobre a nossa própria morte!
Agora como morreremos?
Estes são tempos de
que não ficará memória,
alguma glória teríamos
fôssemos ao menos infames.
Comprámos e não pagámos,
faltámos a encontros:
nem sequer quando errámos
fizemos grande coisa!
(Manuel António Pina)
faltas-me

sabes pai hoje li muitas das tuas cartas para a mãe. são cartas que falam de assuntos sérios mas também são cartas muito carinhosas em que não esqueces os filhos. um dia destes vou reler as cartas que trocámos mas por enquanto não sou capaz. sabes pai tenho saudades tuas. tenho saudades do teu ombro amigo e do teu humor dessa maneira como eras capaz de virar um drama em comédia. tenho saudades e não me apetece falar com mais ninguém senão contigo. a mãe está bem sabes. sabes tudo e se não fosses tu eu não seria capaz de tomar as decisões mais difíceis que tenho tomado desde que partiste assim sem mais nem menos deixando-me a sensação que afinal todos os meus esforços não serviram de nada. coo tu mesmo dizes estava escrito. não somos donos do destino. não choro por ti porque me disseram que não o devia fazer e tu sabes que eu não acredito em nada mas faz sentido deixar-te sossegado depois de teres trabalhado tanto e de teres espalhado alegria à tua volta. mas sinto muitas saudades. desculpa mas tenho mesmo que te dizer pai. faltas-me.
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