Um blog do dia a dia, com muitas estórias, alguma poesia, música, fotografia, crítica, comentários... para desabafar, porque sem um grito ninguém segura o rojão!
05 dezembro, 2009
Ideologia - Cazuza (clica aqui)
Criança desconhecida
Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.
Acho-te graça por nunca te ter visto antes,
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,
Nem aqui vinhas.
Brinca na poeira, brinca!
Aprecio a tua presença só com os olhos.
Vale mais a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.
O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.
Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão,
Sabes que te cabe na mão.
Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.
(Alberto Caeiro)
assim vou acabando

hoje é um daqueles dias em que não me apetece nada de nada. apeteceu-me ficar em casa o tempo não ajuda ainda o inverno não começou no calendário e eu já estou cansada não fui feita para estes climas isso é mais que certo e ainda por cima a minha religião proíbe que viva contrariada. logo devo estar em pecado mortal. e assim comecei a olhar aqui para as teclas a ver se elas me ditavam alguma coisa e o resultado é que realmente vão ditando (ouvi um dia destes alguém queixar-se dos gerúndios não percebo que mal tem usam-se tanto no alentejo e afinal a frase mais ouvida todos os dias é mesmo "vai-se andando" tanto que até deu nome a peça de teatro pois então que mal têm os gerúndios?). e estive por aqui entretida com as minhas bricolages e arrumações que é o que apetece fazer quando a cabeça tem que estar distraída com alguma coisa e ainda há quem diga que o ser humano tem falhas se calhar tem mas afinal o que há de perfeito neste mundo? se ao menos deus não tivesse descansado ao sétimo dia costumo dizer quando encontro falhas logo eu que acho que o homem se foi construindo (cá está o gerúndio juro que não é de propósito) com certeza ainda não acabou a construção deve ser assim mais ou menos como a catedral de gaudi em barcelona um dia há-de ter fim mas não será com certeza o fim que ele lhe daria. e esta coisa fica assim. não sei como acabar portanto vou acabando.
04 dezembro, 2009
o melhor do twitter
Nua Ideia - Gal Costa - (clica aqui)
Certeza
para chegar ao céu

quem anda pelas auto estradas não se apercebe do mundo rural quero dizer quando vou ao alentejo costumo ir pela antiga estrada nacional e passo por um pequeno lugar chamado palma que tem uma bela igreja (fica-se com a impressão de que já foi um lugar grande para ter assim uma igreja) e no alto há muito as cegonhas fizeram ninho e eu gosto de passar por ali e pensar que elas estão à espera que eu passe tolices minhas claro que as cegonhas têm muito mais o que fazer do que esperar por mim até porque cada vez se tornam mais raras as minhas visitas se eu pudesse ia muito mais vezes mas a vida é como é e não é por nos lamentarmos que a coisa melhora por isso como dizem os nosso amigos brasileiros bola para a frente (que atrás vem gente acrescentamos do lado de cá). mas quem não anda pelas auto estradas como eu perde também a noção da quantidade de estradas que se têm vindo a construir. hoje até parecia uma saloia a ver estradas que passavam por cima de estradas eu que sempre achei piada ao efeito que fazem nos filmes parecia uma parva que nunca tinha visto uma coisa assim. agora começo a perceber porque é que o tribunal de contas tem chumbado todos os projectos das estradas de portugal uns atrás dos outros. é que qualquer dia inventa-se uma estrada direitinha ao infinito e ninguém precisa mais de aviões nem de barcos nem de empurrões para chegar ao céu.
03 dezembro, 2009
Todo Amor Que Houver Nessa Vida! - Cazuza (clica aqui)
sabes, pai
sabes, paio cachecol bege nos muros da foz
cobria as árvores com o seu pêlo, ao vento
o boné azul, marinheiro nos cabelos louros
sussurrava pequenas frases às silentes águas
o teu sorriso tão leve, enternecia o rosto
esses óculos, teu cabelo nas tardes de sol
ou o barco encalhado na areia breve
junto ao castelo onde nos passeávamos
eu tu a mãe, duas ou três falas e o meu corpo
que se chegava a vós junto à estrada
nestes muros da foz, abertos ao mar
que voava
(Jorge Reis-Sá)
falamos depois

chegaste tão real que eu estava à espera de te ver. vieste porque eu pedi muito eu sei. mas tu estavas ali muito real a dizeres podes ir que eu fico. eu tomo conta dela. e tudo se misturava com o tempo em que eu era pequena e tu me beijavas durante o sono antes de partires para mais uma das tuas ausências a que eu nunca me habituei mesmo quando sabia que era a tua vida que tinha que ser assim. escrevia-te longas cartas a que tu respondias também longamente. e hoje foi como se tivesse regressado no tempo só que desta vez sou eu que preciso partir e tu sabias que eu não podia deixá-la só e então vieste para que eu possa partir descansada e eu vou sem cuidado porque sei que tu estás aqui como sempre estiveste para tomar conta de todos nós. e foi muito bom que chegasses assim só porque te chamei e não fizeste nenhuma das tuas piadas chegaste simplesmente como quem diz estou aqui sou eu não tenhas medo de nada. e disseste-me outra vez que eu sou a tua menina valente eu que de valente nunca tive nada toda a gente se engana porque eu disfarço bem faço do medo coragem e faço-me à vida que a luta espera por mim mas agora sei que tudo será mais fácil. poderei ter um descanso de guerreiro por apenas três dias porque tu estarás aqui. onde sempre estiveste. no meu coração e na minha vida. eu sei que tu tomarás conta dela na minha ausência. e depois falaremos.
02 dezembro, 2009
o melhor do twitter
Feliz - Maria Rita (clica aqui)
Chove. Há silêncio

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
(Fernando Pessoa)
ritos pagãos os meus

quando se torna necessário usar o carro em dias de chuva é que não se consegue mesmo perceber como tanta gente teima em deslocar-se para o trabalho diariamente de automóvel. é um pára arranca na marginal de dar cabo da paciência a um santo. mas a malta lá estava sossegada numa boa como quem diz isto é o que me espera todos os dias mas é assim que eu gosto e pronto. afinal já nem devia ser hora de ponta mas basta um carro empanado para tornar o tráfego lamentavelmente lento. adiante. é preciso cumprir os ritos de natal e por isso cumpram-se. no meu caso apenas os pagãos. e por isso cá estive a enfeitar a árvore de natal que está muito bonita toda de vermelho felizmente nenhuma das luzes avariada que eu não tenho paciência para arranjar coisas de somenos. o dever está cumprido. agora resta-me esperar pelo natal e se calhar aproveitar os poucos dias que me restam de férias para passear. mesmo com mau tempo. é que já começa ser normal passar esta semana de férias com chuva. muita chuva. daquela que nos deixa como a mim com uma constipação que não ata nem desata. coisa chata!
01 dezembro, 2009
o melhor do twitter
Beatriz - Jorge Vercilio (clica aqui)
Com fúria e raiva
Com fúria e raiva acuso o demagogoE o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
a tempo e horas

rotina indispensável das minhas compras de natal é mesmo a ida a são pedro de sintra. é por lá que compro mais de metade das prendas que tenho para oferecer. que é o que o natal é para mim e para a maioria das pessoas. dar. mais do que receber. e talvez seja esse o espírito. dar uma lembranças àqueles de quem gostamos mais. não dou a todos porque se sentiriam na obrigação de retribuir e isso eu não quero. mas há pessoas para quem compro coisas com o maior cuidado porque são pessoas muito importantes para mim. é gente que vive comigo o ano inteiro gente que me escuta gente a quem escuto gente enfim sem a qual os meus dias se tornariam com certeza tão cinzentos quanto o dia de hoje. que não ajudou a melhorar a constipação com que ando há dias. às tantas ando enganada e afinal apanhar chuva é capaz de não ser assim muito boa ideia. a minha mãe bem me previne. a filha de pepe também. é gente que gosta de mim mas que eu acho sempre que estão a exagerar nos cuidados a ter com a saúde. e por falar em saúde e já que passo a vida a dizer mal de quase tudo por aqui convém uma vez por outra lembrar que também há coisas que funcionam bem no meio do caos em que vivemos. a unidade familiar de saúde de oeiras está a funcionar melhor que os médicos privados que tenho frequentado. ao contrário da maior parte das unidades de saúde ali a hora marcada é cumprida. não se marcam vinte doentes para as oito da manhã que acabam por sair de lá às duas da tarde. não. ali o paciente é marcado para o meio dia e meia e é atendido ao meio dia e meia. numa consulta que começou às oito da manhã e em que cada um está devidamente assinalado. juro que fiquei boquiaberta. e muito bem impressionada com todos os profissionais. parabéns. afinal ainda há coisas que funcionam neste país. a tempo e horas.
Subscrever:
Mensagens (Atom)





