Um blog do dia a dia, com muitas estórias, alguma poesia, música, fotografia, crítica, comentários... para desabafar, porque sem um grito ninguém segura o rojão!
10 setembro, 2009
Aganju - Bebel Gilberto (clica aqui)
Todos os dias
Todos os dias
nascem pequeninas nuvens,
róseas umas,
aniladas outras,
nacaradas espumas...
Todos os dias
nascem rosas,
também róseas
ou cor de chá, de veludo...
Todos os dias
nascem violetas,
as eleitas
dos pobres corações...
Todos os dias
nascem risos, canções...
Todos os dias
os pássaros acordam
nos seus ninhos de lãs...
Todos os dias
nascem novos dias,
nascem novas manhãs...
(Saúl Dias)
o que o faz correr?
vestido de negro passa por mim a correr. na mão direita uma pasta na esquerda um par de ténis e nos pés havaianas. vejo-o atravessar a avenida como se alguém corresse atrás dele. olho para trás e verifico que ninguém o segue. logo o que faz correr o homem? elementar dir-me-ão. o homem roubou os ténis porque está de fato e havaianas. mas na verdade a quem roubou os ténis uma vez que ninguém o segue? será que quem foi roubado ficou descalço e não se atreve a correr descalço pelo alcatrão? sigo no meu passo sem pressa e continuo a seguir com o olhar o homem que corre agora já do outro lado da avenida e cada vez mais longe de mim. dou comigo a pensar como será que aquele homem consegue correr tanto com umas havaianas calçadas. penso depois que seria mais fácil correr descalço. ou será que o homem se prepara para algum concurso tipo quem corre mais de havaianas? afinal ainda não há muito tempo houve uma prova assim com saltos altos. bem sei que foi uma corrida pequena (100 metros se bem me lembro) mas de qualquer modo eu não seria capaz de enfrentar a distância a correr de saltos altos. e será que a enfrentaria a correr de havaianas? não me parece. corridos os primeiros 20 metros estaria com certeza descalça. e se gosto de andar descalça na areia ou em casa não suportaria o áspero alcatrão nos meus pés delicados. seja como for. o que faz correr o homem de havaianas?
09 setembro, 2009
o melhor do twitter
Small Blue Thing-Suzanne Vega
Vaidosa

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.
Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.
Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração, como as estátuas.
E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.
Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loura e dourada como as messes
E possuis muito amor... muito amor-próprio.
(Cesário Verde)
hoje não falo de política nem de futebol
uma saudade tamanha nasceu no meu peito logo pela manhã quando pedalando vi um raio riscar o céu frente ao mar. há bastante tempo ouvia a trovoada. mas o calor é intenso claro e nunca me lembraria de usar algum abrigo para a chuva. afinal com o calor que está mesmo que a chuva me molhasse (que não molha porque é gentil comigo) eu estaria seca em pouco tempo. em áfrica sempre assim foi e estes dias lembram-me o continente de terra vermelha e cheirosa. esse cheiro a terra molhada que mal chegou para me fazer recordar como era correr pela rua com os meus amigos à chuva. e depois quando parava sempre podíamos dar uns saltos nas poças de água. aí sim quero dizer em alcântara se tivesse chovido um pouco mais o trânsito teria engarrafado pois já havia pequenas ruas repletas de uma água suja e com um ar repelente. a água que não escorre porque como sempre os escoadouros se encontram entupidos nesta altura do ano. já se esqueceram do que tem acontecido com as mudanças climatéricas. depois queixam-se que as lojas são invadidas pela água que fica tudo estragado que o prejuízo existe sempre mesmo quando há cobertura do seguro que é coisa que cada vez há menos que a crise não deixa que o dinheiro chegue para aquilo que normalmente só acontece aos outros.
08 setembro, 2009
o melhor do twitter
Tenha calma - Maria Betania (clica aqui)
Agora mesmo

Está gente a morrer e nós também
Está gente a despedir-se sem saber que para
Sempre
Este som já passou Este gesto também
Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante
Tu próprio te despedes de ti próprio
Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
Já estás diferente neste verso e vais com ele
Os amantes agarram-se desesperadamente
Eis como se beijam e mordem e por vezes choram
Mais do que ninguém eles sabem que estão a
[despedir-se
A Terra gira e nós também A Terra morre e nós
Também
Não é possível parar o turbilhão
Há um ciclone invisível em cada instante
Os pássaros voam sobre a própria despedida
As folhas vão-se e nós
Também
Não é vento É movimento fluir do tempo amor e morte
Agora mesmo e para todo o sempre
Amen
(Manuel Alegre)
assim já é demais

inevitável falar das próximas eleições por aqui neste cantinho à beira mar plantado. é que a falta de vergonha da única candidata mulher envergonha-me muito. aqui há uns anos quando uma mulher como Maria de Lurdes Pintassilgo aparecia no panorama político eu sentia-me envaidecida. e até achava que a política funcionaria muito melhor se estivessem mais mulheres presentes. depois comecei a sentir-me defraudada. é que mulheres como a dama de ferro ou como a esta senhora que dá pelo nome de manuela ferreira leite ( e faço o favor de lhe chamar senhora porque sou bem educada) me deixam completamente desgostada dessa alegria que sentia com Maria de Lurdes Pintassilgo. o que essa senhoria foi fazer ao paraíso de alberto joão foi algo que envergonha qualquer pessoa de bem. como é que essa senhora pode comparar o que se passa ali com o que se passa por cá? é verdade que em muitos momentos deste mandato de josé se sentiu que havia medo e que havia dirigentes mais papistas que o papa capazes das maiores vilezas para agradarem ao primeiro. mas o que se passa na quinta de alberto joão há 30 anos é algo que ultrapassa todas as ideias do que se pode considerar razoável numa democracia. e é com o dinheiro dos portugueses cubanos que se tem governado. porque se o dinheiro da europa foi para a sua quinta deixou de ser investido por cá. mas tudo estaria bem se o alberto joão reconhecesse o esforço de todos nós. acontece que não reconhece. faz de conta que tudo o que foi feito no seu jardim foi obra do seu esforço. e ferreira leite (acho que se tirar manuela me sinto menos mal) foi visitar o jardim e fazer de conta que não houve o seu parceiro insultar os jornalistas num inglês de quinta categoria. bolas que é demais minha senhora!
07 setembro, 2009
o melhor do twitter
Diz que fui por aí - Fernanda Takai (clica aqui)
Não passou

Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.
Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão - a tua mão, nossas mãos -
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?
Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.
(Carlos Drummond de Andrade)
viver o presente

não sei o que se passou no fim de semana. mas quando ele entrou na carruagem espreitou como se estivesse à espera que ela não estivesse lá. concluiu que estava e entrou. cumprimentou-a como de costume nos últimos tempos com um bom dia. e abriu o jornal (um gratuito). ela debruçou-se sobre o jornal (para se poder aproximar dele claro) e fingiu interessar-se imenso por cada uma das páginas desfolhadas. pareceu-me hoje que ele fingiu que acreditava no interesse dela e demorou mais tempo a folhear o jornal permitindo assim que ela se mantivesse mais próxima dele. notei também que quando interpelado se virava para ela em vez de persistir na atitude de estou mais interessado no que estou a ler do que no que tens para me dizer portanto deixa de me incomodar para que eu possa ler sossegado. fiquei com a impressão de que ela acabará por teimar até conseguir receber o seu beijo matutino como antes. hoje não só usou a caixinha da saúde como se atreveu a pôr um pouco de sombra nos olhos. está a fazer progressos e a ultrapassar-se a si mesma para conseguir o homem que quer. o homem que eu acho que não vale tanto esforço. mais dia menos dia ela estará entregue a si mesma e possivelmente a uma analista. mas enfim. ao contrário do que se diz recordar é morrer. o futuro não se sabe se acontecerá. o que resta é mesmo o presente. ela vive-o.
Nota: para que não caia no esquecimento deixo aqui o meu agradecimento ao motorista de táxi tão simpático quanto bonito que hoje me ajudou na estação de oeiras. bem haja.
06 setembro, 2009
O Caderno - Toquinho/ Chico Buarque (clica aqui)
Sou eu que vou ser seu amigoVou lhe dar abrigo
Se você quiser
Quando surgirem seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel
O que está escrito em mim
Comigo ficará guardado
Se lhe dá prazer
A vida segue sempre em frente
O que se há de fazer
Só peço a você um favor
Se puder
Não me esqueça num canto qualquer
Comigo ficará guardado
Se lhe dá prazer
A vida segue sempre em frente
O que se há de fazer
Só peço a você um favor
Se puder
Não me esqueça num canto qualquer
Os amigos
no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias
tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite
prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume
ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência
(Al Berto)
para viver bem
a criançada tem mais uma semana de férias. e a generalidade das pessoas que usam os transportes públicos também. porque é quando as aulas começam que se sente realmente um acréscimo de gente nos transportes públicos. por isso farei os possíveis por gozar ainda uma semana em que poderei prestar atenção mais detalhada ao que me rodeia e fazer as minhas polaróides humanas que são mais fáceis em tempo de férias porque é mais fácil usar os mesmos meios de transporte às mesmas horas. e é como se cada um de nós tivesse já um lugar mercado. lembro-me do tempo em que usava o metro como meio de transporte. o meu lugar era sempre o mesmo. como se houvesse um pacto entre mim e os passageiros àquela hora matinal ou vespertina. e isso permitia-me chegar mais tarde um minuto e perceber que o lugar estava lá à minha espera. talvez porque usasse estações terminais não sei. mas lá que a coisa funcionava isso era certo. vez por outra aparecia alguém que não estava dentro das "regras do jogo" mas isso era muito raro. e por falar em horas e em tempo convém não esquecer que os dias estão mais curtos pelo que será imprescindivel arranjar maneira de os fazer mais compridos. tenho uma amiga que se queixa frequentemente da falta de tempo para tudo e que não percebe que eu tenha tempo para tudo (segundo ela). creio que a grande diferença está na hora a que ambas nos levantamos. eu nunca depois das sete ela sem hora determinada o que faz com que comece o dia a "correr" para chegar a horas ao emprego o que não consegue muitas vezes. isso deixa-a logo em desvantagem para o resto do dia. creio que o facto de lidar tão bem com o stress tem a ver com a maneira como escolho gerir o meu tempo. sabendo que se me levantar um quarto de hora mais tarde o meu dia vai ser infernal eu levanto-me um quarto de hora mais cedo para começar o dia com a calma de que necessito para viver bem.
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