07 março, 2009

Desespero


Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.
Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.
Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu
A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero.
(José Carlos Ary dos Santos)

a igreja católica e a sua moral


mesmo que quisesse não poderia falar de outra coisa senão da fúria que me invadiu quando ouvi a notícia sobre a menina estuprada e condenada a excomunhão juntamente com os familiares e médicos que tiveram intervenção no aborto... o estuprador ficou de fora. afinal para a conhecida hipocrisia da igreja católica o estupro é um pecado menor. mesmo que praticado sobre uma menina de 9 anos. de facto é verdade que sou agnóstica. pelo menos até ver. o que na minha idade já representa um possível futuro com viragem ao budismo e ao interior de mim mesma. da alegria e da vontade de viver. não me converteria jamais a uma igreja que não se rege por princípios morais. nunca se regeu. falam dos muçulmanos mas de facto se os católicos existissem de facto se seguissem as leis da religião católica seriam muito mais agressivos que os muçulmanos. porque o islão é distorcido por alguns a quem convém a distorção. mas a bíblia como livro sagrado para os católicos não incita a esta moral dúbia. são os padres os bispos o papa e todos os responsáveis pela organização da igreja católica que ditam aquilo a que chamam de lei de deus. tão bons são uns quanto os outros. essa é que essa. o que pretende aquele padre com a excomunhão? que a menina para além de ser vítima de um homem fosse vítima de uma mais que possível morte por gerar dentro do seu pequeno corpo outra criatura? uma criatura fruto da mente distorcida de um homem que satisfez os seus desejos com uma menina e que no fim de tudo ainda se fica a rir pelo menos para a igreja católica? vou ficar por aqui antes de começar a escrever os palavrões que me vão na cabeça enquanto escrevo. acho que é melhor. para não me igualar a uma igreja nojenta. e manter a compostura pois então. de vez em quando faz-me bem um exercício de boa educação.

06 março, 2009

Gota d'água - Chico Buarque (clica aqui)


Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
Pode ser a gota d'água
Pode ser a gota d'água....

E ao anoitecer


E ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia
(Al Berto)

Christian e os seus sonhos


Christian era um pobre boer que trabalhava para Russel um alemão endinheirado que possuía uma vasta fazenda de palmar a cerca de 250 km do Dondo em Angola. o afrikans teria a idade que eu tenho hoje e várias ideias brilhantes. aliás penso que o homem nem dormia só a a cogitar na melhor maneira de ficar rico e fazer um casamento acertado. faltou-me dizer que Christian era solteiro. solteiríssimo pelo menos que se soubesse... pois bem. na fazenda de Russel nada faltava. a casa era belíssima de um só piso com uma bela piscina e vários pavões que se passeavam por ali mostrando a sua beleza. e Christian que nunca percebi muito bem o que fazia para Russel sonhava. a dormir e acordado. um dia perguntou ao meu pai se ele gostava de se casar. e o meu pai respondeu que como tudo na vida o casamento tem convenientes e inconvenientes. perguntou o boer quantas vezes se tinha casado o meu pai e ele respondeu uma. - ah! então tu não gostas de te casar. o Russel sim que já casou seis vezes. realmente o alemão mudava de mulher mal elas começavam a ficar maduras. casava com jovens de 20 anos que podiam ser suas filhas. mas não eram e ponto final. acontece que o Christian perguntou ao meu pai que idade tinha a minha irmã ao que o meu pai respondeu 14 e perguntou de seguida porque queres saber... é que eu ando à procura de noiva para casar mas afinal a tua filha já é muito velha. depois dos 12 anos não se consegue ensinar nada a uma mulher elas acabam mandando em nós... não admira que permanecesse solteiro! propôs então ao meu pai um outro "negócio" que faria dos dois os homens mais ricos de Angola quiçá de África! Comprariam milhões de metros de arame farpado e iriam para o sul do país. então construiriam uma cerca gigante e tudo o que lá ficasse dentro era deles. o meu pai entrava com o dinheiro do arame farpado e ele com o trabalho... parece-me justo. pena que afinal a vida não seja assim tão simples. morreu soterrado depois do 25 de Abril em Cabinda para onde teve que fugir para não ser morto pelos militares dos vários partidos angolanos que guerreavam entre si. e ficou com todo o tempo do mundo para continuar a sonhar.

05 março, 2009

Corazón Partío - Alejandro Sanz (clica aqui)

Dar solamente aquello que te sobra,
Nunca fue compartir, sino dar limosna, amor.
Si no lo sabes tú, te lo digo yo.
Después de la tormenta siempre llega la calma,
Pero, sé que después de ti,
Después de ti no hay nada.

Sinto


Sinto
que em minhas veias arde
sangue,
chama vermelha que vai cozendo
minhas paixões no coração.

Mulheres, por favor,
derramai água:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.

(Federico García Lorca)

até breve querida Pilar


acabo de receber um email de Piar Puebla. a minha querida Pilar de quem tenho tantas saudades. se tivesse uma filha gostaria que fosse como ela. espero que as outras mulheres da minha família não fiquem tristes com esta minha afirmação. amo as minhas sobrinhas como se filhas fossem e quero muito bem à minha nora e às mães dos meus netos. gosto muito de todas mas nenhuma é a Pilar. isto é. entre mim e a Pilar sempre houve aquela cumplicidade do entendimento pelo olhar. por isso podem perceber o quanto fiquei feliz por saber das razões do silêncio dela que são mais do que repeitaveis e ter a certeza que o convite que me faz para a visitar em Madrid é do fundo do coração e que me receberá certamente com muita alegria. por isso Pilar vou começar já a olhar para o calendário e ver quando posso visitar-te. quanto a mim pois já sabes a minha casa sempre esteve aberta para ti e assim continuará. a filha pródiga à casa torna. e assim tu voltas para mim e nem sabes a alegria que me dá ter lido as tuas palavras. e o orgulho que terei por ter o teu primeiro romance oferecido e autografado por ti! minha querida Pilar... acho que para sempre contigo nunca será tempo demais. costumo dizer que a net é um mundo. felizmente um mundo capaz de aproximar as pessoas. até breve querida Pilar.

04 março, 2009

Á minha maneira - Xutos e Pontapés (clica aqui)

Ja sei que vou arder na tua fogueira
mas sera sempre sempre
a minha maneira e as forças
que me empurram
e os murros que me esmurram
so me farao lutar a minha maneira

Uma vida esquecida


Eu conheço o vidro franja por franja
meticulosamente
à porta parado um homem oco
franja por franja no espaço
meticulosamente oco uma porta parada.

Um relógio dá dez badaladas ininterruptamente
dez badaladas por brincadeira dança
um homem com pernas de mulher
e um olhar devasso no Marte
passo por passo uma criança chora
uma águia e um vampiro recuados no tempo.

(António Maria Lisboa)

ainda as estações da CP


comentei com várias pessoas a situação que ontem aqui descrevi sobre a proibição de fotografar a estação de Alcântara Terra. e digo esta porque não sei se é proibido fotografar todas as outras.
ninguém compreendeu porque é proibido fotografar um local público. eu ainda menos. a única razão que vejo para a proibição é o estado degradado em que muitas destas estações se encontram. Alcântara Terra podia ser recuperada e daria uma bela estação de comboios. Alcântara Mar é outro caso de abandono e este parece-me que ainda mais grave uma vez que se situa numa zona de Lisboa muito perto do Tejo e portanto turística. até pela oferta cultural ali mesmo à mão de semear. não falo do que se vê exactamente na estação à superfície mas dos seus acessos. mais parecem catacumbas e realmente não vejo como há gente a trabalhar ali (a própria bilheteira da estação e um café). o chão mete nojo as paredes não devem ter sido pintadas desde que a estação foi construída e bem precisavam de um branco luminoso para dar um ar de alegria a quem passa. as escadas rolantes são mais as vezes (muito mais) que não funcionam. junto à saída para Alcântara um cego toca acordeão todas as manhãs. suponho que não se importe uma vez que é cego mas suspeito que para além disso também sofra de falta de olfacto porque o cheiro a limpeza não é coisa que impere por ali. a falar verdade já dei uma queda bem feia por causa da sujidade do pavimento e já vi mais gente cair exactamente no mesmo lugar. devia ter apresentado queixa mas então. nunca há ninguém da CP a quem apresentar queixa. só aparecem para chatear quem está a fotografar o que quer que seja ainda que não seja a estação. e para dar uma razão ao Filipe para ser multada (não no passe que eu não uso querido Filipe mas na assinatura) e pagar em dobro os meses de Março e Abril aqui deixo uma foto da estação de Alcântara Terra. a tal que é proibido fotografar. quem quiser que venha cá multar-me ou se for caso disso meter-me em Tires (que de resto conheço e é até bem arejado).

03 março, 2009

Utilidade do Humor - Clã (clica aqui)


Podia ter tudo do bom e do caro
Que nada acudia ao meu desamparo
Sou a alma do mundo mais bem informada
Quanto mais me informo mais sei que sei nada

Não fosse um sentido de humor apurado
Que me faz viver a sonhar acordado
Não via tão claro o significado
E tudo seria bem mais complicado

Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

(Miguel Torga)

aqui entre nós


parece que a morte do corrupto presidente da Guiné foi exactamente como ele gostava. violenta. foi o que fez toda a vida. se morresse de forma pacífica como outros ditadores seria mais uma injustiça. cá por mim sou sincera. só se perderam as que caíram no chão. e adiante que este assunto está deveras morto só falta mesmo enterrar... esta manhã saí de casa para o trabalho com a câmara uma vez que C me tinha enviado um sms avisando que hoje levaria as crias e como sabe que eu gosto de as fotografar avisou-me. aproveitando que estava equipada em Alcântara Terra decidi tirar mais umas fotos da torre com um galo no alto. a vista dali é bem diferente e bem mais próxima que de Alcântara Mar. era muito cedo e havia pouca gente por isso estava bem à vontade. procurei um sítio onde pudesse fotografar a dita torre sem "apanhar" as árvores pela frente. e clique clique clique. eis senão quando um dos dois funcionários da CP que por ali estavam à conversa se me dirigiu dizendo que eu não podia estar a fotografar a estação. fiquei "banza" claro. expliquei ao senhor que estava a fotografar a torre e até me dispus a mostrar o que tinha fotografado. sorriu então e disse que não era necessário. explicou-me que o que estava no alto da torre era um galo. ainda bem porque se não fosse isso não saberíamos. e depois contou que sabiam que tempo ia fazer em cada dia conforme a posição em que o galo estava. por fim pediu desculpa e eu agradeci a explicação. continuo sem perceber porque não se pode fotografar a estação de Alcântara Terra. não há qualquer dístico de proibição e normalmente também não há funcionários por ali... se calhar pensaram que eu pudesse fazer parte de alguma rede terrorista que planeasse um atentado... digo eu! só não disse ao senhor funcionário da CP que hoje não fotografei a estação de Alcântara mas já a fotografei noutras alturas. aqui entre nós claro!

02 março, 2009

Convite (Caixa de mensagens) - Clã + Jorge Palma (clica aqui)

Este convite fica aqui
às voltas no ar
Este nonvite é para ti
se acaso aí chegar
Podes não ter tempo ou disposição
Podes até não estar por cá
Ouvi dizer que tu também não andas na maior
Talvez nos faça bem arejar

Poema da despedida


Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

(Mia Couto)

1/3 de boa vontade


há um corrupto a menos em África. um corrupto a menos à face da terra. não adianta nada eu sei. mas mesmo assim acho que o meu sono será ainda mais pesado que o costume. posto isto e porque a notícia já não tem nada que se lhe diga é uma repetição de inúmeras tentativas do género na Guiné Bissau passemos a assunto realmente sérios. o menino que queria ser deus já não tinha aulas de violino desde que mudou de Évora para Grândola quer dizer desde mais ou menos fins de Setembro. e eu estava preocupada porque afinal fui eu que lhe ofereci o violino porque ao ouvir tocar um dos meus filhos ele mostrou tanto entusiasmo que eu achei que valia a pena investir naquele menino tão talentoso que se achava capaz de ser deus. por isso insistia que fosse procurado um professor de violino para o menino ali em Grândola. finalmente souberam de um alemão que vive a poucos quilómetros numa pequena quinta com galinhas e porcos e horta. acontece que o homem leva € 15 euros à hora pelas aulas bem mais do que o professor em Évora. mas pronto. à cultura de um menino que quer ser deus é necessária a aprendizagem de violino por isso os pais foram com ele à primeira aula. e saíram uma hora depois todos com uma lição. o menino e a mãe tiveram uma hora de violino e o pai uma hora de violoncelo. levaram ainda um violino (para a mãe) e um violoncelo emprestados pelo professor para ensaiarem em casa uma hora todos os dias. tudo isto pelo mesmo preço... é claro que já me propus a ir a Grândola para usufruir desta boa vontade de um alemão que é meio agricultor meio professor de instrumentos de cordas e meio fabricante de instrumentos de cordas... um meio? não! um terço claro.

01 março, 2009

Rosalinda - Fausto (clica aqui)

Rosalinda se tu fores à praia
se tu fores ver o mar
cuidado não te descaia
o teu pé de catraia
em óleo sujo à beira-mar

Viver na beira-mar


Nunca o mar foi tão ávido
quanto a minha boca. Era eu
quem o bebia. Quando o mar
no horizonte desaparecia e a areia férvida
não tinha fim sob as passadas,
e o caos se harmonizava enfim
com a ordem, eu
havia convulsamente
e tão serena bebido o mar.

(Fiama Hasse Pais Brandão)

um pouco do que vi sobre a cadeia das mónicas


talvez porque a conversa sobre o autocarro 174 me tenha lembrado as horríveis condições dos estabelecimentos prisionais no Brasil recordei os anos em que trabalhei em frente à cadeia das mónicas quando desta ainda estava activa. durante esses anos passaram por lá as condenadas das FP25. numa bela manhã de sábado uma delas fugiu telha partiu-se ela acabou por correr travessa abaixo com uma perna partida e entrar no carro que lá estava para lhe dar a fuga. até hoje nunca mais se falou do assunto. dizia-se à boca pequena que tinha ido viver para Setúbal mas ao certo nunca ninguém soube. pirou-se e ponto final. outra das pessoas que por lá passou e que era muito acarinhada pelas outras prisioneiras foi a famosa D. Branca. ensinou-as a fazer tapetes de arraiolos e algumas delas conseguiram um pequeno pé de meia vendendo os ditos tapetes por tuta e meia. nos dias de visita pelas duas da tarde a travessa enchia-se de ciganos para a visita e havia sempre "festa". quando não estávamos muito ocupados punhamo-nos à janela a admirar o espectáculo. quanto à D. Branca ia sempre num carro normal ás sessões do tribunal em vez de em carro celular como as outras prisioneiras. talvez porque dali não houvesse qualquer vontade de fugir. ele dizia-se feliz ali dentro. tudo isto soube algum tempo depois das prisioneiras terem sido transferidas para Tires. um dia convenci um dos guardas a deixar-me visitar a prisão. mostrou-me tudo como se de um guia turístico se tratasse. vi as celas o que as mulheres que por ali passaram deixaram escrito nas paredes. as suas angústias e a sua raiva escarrapachadas em paredes sujas que viram correr com certeza muitas lágrimas. depois o guarda mostrou-me a lavandaria a sala onde se faziam os tapetes da D. Branca e outras costuras e por fim levou-me para o jardim do antigo convento. aí existia um fosso com grades por cima que segundo ele tinha servido antes de 25 de Abril como solitária. aquilo fazia lembrar as coisas que se contam do Tarrafal... fiquei impressionada mas contente por ter conhecido por dentro uma prisão de mulheres ainda que já lá não estivesse senão um guarda para cuidar das instalações e não das mulheres que noutros tempos eram guardadas por mulheres naturalmente. não sei porque é que hoje me lembrei disto. acho que foi mesmo por causa do autocarro 174 e porque nunca tinha contado publicamente esta estória até porque o guarda me fez jurar que não contaria a ninguém. passados que são mais de 15 anos nem me lembro do nome do guarda. sei que era um tipo simpático com uma família simpática e um trabalho menos simpático. mas cada um é para o que nasce.