20 janeiro, 2009

Quatro quadras soltas - Sérgio Godinho (clica aqui)

Temos aqui uma outra
não sei se você conhece
desrespeita autoridades
e diz o que lhe apetece

(Ó i ó ai) Nós queremos é justiça
(Ó i ó ai) E dinheiro para o bife
(Ó i ó ai) E não esta cóboiada
Em que tudo é tudo do xerife

Breve o dia


Breve o dia, breve o ano, breve tudo.
Não tarda nada sermos.
Isto, pensado, me de a mente absorve
Todos mais pensamentos.
O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,
Que, inda que mágoa, é vida.

(Ricardo Reis)

vale tudo. até tirar olhos!


cheguei a casa e liguei a televisão na esperança de ver um pouco do que se passou hoje nos states. afinal de contas hoje é um dia histórico não só para os americanos mas para o mundo. espero que a chanceler alemã não tenha razão. isto é espero que tenha sido eleito um presidente preto e não um presidente de cor. é que como todos sabem eu não gosto de gente de cor e tenho esperança que este Hussein seja um preto brilhante e não um homem de cor. mas hoje toda a gente vai falar disto e eu quero desabafar. é que há cerca de 2 meses fui contactada telefonicamente pela AIG (companhia de seguros americana) dizendo-me que por ser cliente da Sofinloc (instituição de crédito que me financiou o último automóvel) tinha direito a dois meses de seguro de saúde grátis e que entretanto receberia em casa os papéis para ler e assinar se estivesse interessada em continuar a beneficiar do dito seguro pagando acho que € 15,00 por mês. e digo acho porque a malandrice é tanta que as pessoas do lado de lá falam com uma rapidez impressionante e tive que interromper várias vezes a senhora para lhe lembrar que não estava a concordar com nada daquilo e que leria os tais papéis quando os recebesse e entretanto decidiria... o tempo foi passando e dos papéis nem rastro. descobri através do netbanco que tinha agendada uma transferência bancária que desconhecia e por isso mesmo cancelei-a... bendito netbanco! hoje quando abro o correio vejo uma carta da Sofinloc. pensei para mim é desta que vou sentir a baixa dos juros... pobre crédula! a carta referia que tendo eu aceite o dito seguro o mesmo passaria a ser debitado por transferência bancária a partir de 01 de Fevereiro. liguei imediatamente para o número indicado e falei com um rapaz que me garantiu que provavelmente eu não tinha recebido os papéis por falha dos CTT. perguntei então como é que se não tinham nada assinado me tinham atribuído um número de apólice e ele respondeu que as chamadas eram gravadas e por isso a minha anuência tinha feito com que me considerassem interessada. lembrei-lhe que durante a tal conversa eu tinha frisado diversas vezes que não me comprometia com nada daquilo pelo telefone. que teria que ler primeiro o contrato... pediu desculpas que tinha sido um lapso e que estivesse descansada que o seguro está cancelado a partir de hoje mas que se até ao dia 31 deste mês eu sofresse algum acidente e tivesse que ser internada estava segura. respondi lagarto lagarto lagarto e cruzes canhoto. o tipo do lado de lá riu e pediu desculpa mais uma vez. o que eu pergunto é como é possível alguém mexer no nosso dinheiro sem que tenha sido previamente autorizado. não há dúvida que estamos já no país do vale tudo. até tirar olhos!

19 janeiro, 2009

All at Once - Jack Johnson (clica aqui)

What about is gone
And it really
Won't be so long
Sometimes it feels
Like a heart Is no place
To be singing
From at all

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

(Eugénio de Andrade)

como sempre estás comigo


pois é amiga. já passaram 3 anos sobre a tua morte e continuas sempre presente. a vida é apenas uma soma de dias uns melhores que outros. todos temos o direito de parar a contagem. ou fazer os possíveis para que a contagem pare o mais depressa possível. é claro que até se pode pensar que foi uma atitude egoísta. mas será que quem te acusa disso se lembra que levaste a vida inteira a dar? que ensinaste tudo o que sabias sem pedir nada em troca. que quando precisavas do apoio de alguém vinhas pé ante pé sem saber o que fazer à timidez corando por tudo e por nada quando eu brincava com essa maneira de ser que nunca mudou enquanto te conheci. eu lembro sobretudo o momento em que me agarraste pelo braço e pediste fica comigo. esse medo de ficar só. querias morrer mas tinhas medo. julgo que no fundo será assim para todos nós. por isso são tão felizes os que morrem de repente sem que ninguém o espere. mas tu... tu podias ter vivido muito mais do que os 50 anos que viveste. tu podias. mas não quiseste. estavas farta de medicamentos de médicos e a perspectiva de uma nova cirurgia apavorava-te. estou aqui e embora não pareça estou do teu lado. apoiaria qualquer escolha que fizesses. a minha amizade por ti sempre foi incondicional. e tu sabias. por isso o disseste tantas vezes à filha de Pepe. hoje apeteceu-me escrever-te. não no dia do aniversário da tua morte que foi há dias mas no dia do aniversário da morte da Elis Regina, do nascimento de Martin Luther King e na véspera do dia de tomada de posse do primeiro presidente preto dos USA. vá lá não cores. tu sabes que o termo preto não é depreciativo. é a constatação de um facto. e também sabes que eu não gosto mesmo é de gente de cor duvidosa. por isso amanhã já sabes. vai até à casa branca por mim e sopra uns conselhos sábios como aqueles que tantas vezes me deste ao novo homem da casa branca.

18 janeiro, 2009

Autumn Leaves - Diana Krall (clica aqui)

Since you went away
The days grow long
And soon i'll hear
Old winter's song
But i miss you most of all
My darling
When autumn leaves
Start to fall

Começa a haver


Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das coisas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida...
Calaram o piano no terceiro andar...
Não oiço já passos no segundo andar...
No rés-do-chão o rádio está em silêncio...

Vai tudo dormir...

Fico sozinho com o universo inteiro.
Não quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anticitadino! —
Antes, recluso,
Num desejo de não ser recluso,
Escuto ansiosamente os ruídos da rua...
Um automóvel — demasiado rápido! —
Os duplos passos em conversa falam-me...
O som de um portão que se fecha brusco dóí-me...

Vai tudo dormir...

Só eu velo, sonolentamente escutando,
Esperando
Qualquer coisa antes que durma...
Qualquer coisa.

(Álvaro de Campos)

aproveita o dia


dia de inverno mesmo. ainda não percebi muito bem se chove ou é apenas a humidade do nevoeiro que molha a rua. é que não saí de casa. aproveito estes dias mais feios para adiantar coisas que são chatas de fazer e levam tempo. assim durmo mais um pouco e depois deito-me ao trabalho. e também decidi escrever já porque logo tenho outras coisas combinadas e assim já que aqui estou aproveito e faço tudo de uma só vez. o que mais me custa em Portugal é o clima. não fui feita para o inverno. detesto o frio. o sol faz-me falta mas não me importo tanto com a chuva. afinal fui habituada com as tempestades tropicais que nada têm a ver com estes dias de chuva seguidinhos a maioria das vezes uma chuva que nem chega a ser chuva de verdade. mais parece cacimbo. uma chatice que me incomoda e me tira a vontade de sair de casa. se é um dia de domingo pois é certo que aproveito o tempo. aproveito sempre. o meu lema é aproveita o dia. portanto mesmo não gostando dos dias de inverno como hoje é o que faço. aproveito o dia.

17 janeiro, 2009

Mel - Caetano Veloso (clica aqui)

Ó abelha rainha, faz de mim
Um instrumento de teu prazer
Sim, e de tua glória
Pois se é noite de completa escuridão
Provo do favo de teu mel
Cavo a direta claridade do céu
E agarro o sol com a mão

Noite



Noites africanas langorosas,
esbatidas em luares...,
perdidas em mistérios...
Há cantos de tunguru luas pelos ares!...
Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros...
Noites africanas tenebrosas...,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das historias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos...
E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias...
Por isso as noites são tristes...
endoidadas, tenebrosas langorosas,
mas tristes...
como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas...,
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas...
É que os meninos brancos...
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas...
Os meninos brancos... esqueceram!...
(Alda Lara)

o dia ficou muito mais bonito


quando eu era criança e o meu pai estava em casa (o que só acontecia durante cerca de metade do ano por força da sua profissão) costumava ficar ao colo dele à noite na varanda da casa gozando o calor das noites angolanas e o resto da família (mãe manos e tia ou avó) enquanto me fazia cafuné. quando eu começava a ficar com sono punha-me a coçar a cabeça e o meu pai mandava-me então para a cama. como eu queria continuar a gozar daquele bem estar que tinha durante tão pouco tempo respondia que não tinha sono mas caspa. a resposta ficou de tal maneira presente que até ao fim dos seus dias sempre que me via coçar a cabeça perguntava-me se eu estava com caspa. é que ainda hoje faço o mesmo quando estou com sono. e foi assim que ontem publiquei o comentário do Filipe. a caminho da cama passei para desligar o PC e vi a mensagem e publiquei. depois desliguei e deitei-me adormecendo como é meu costume logo de seguida. de manhã levantei-me e fiz o que o Filipe me disse e que de resto já me tinha prometido a mim mesma uma vez que por motivos vários já não ia caminhar para o paredão desde o dia de natal. e tudo aquilo me faz bem. as mudanças que observo todos os dias. hoje por exemplo enquanto a maré subia as gaivotas mostravam-se extremamente irrequietas sem porém "gritarem". mas levantavam voo com frequência. pouco habitual nelas quando a maré está baixa e como observa o Tim e muito bem é a sua hora. pois bem. tomei o meu pequeno almoço arranjei-me peguei na na câmara e lá fui fazer aqueles "petits cinq kilométres" como gosto de lhes chamar. e fico refeita de uma semana de trabalho duro e o cansaço sai pelos poros e as boas notícias vão chegando e o dia fica muito mais bonito.

16 janeiro, 2009

Águas de Março - Tom Jobim & Elis Regina (clica aqui)

É um passo é uma ponte
É um sapo é uma rã
É um belo horizonte
É uma febre terçã...

São as águas de março
Fechando o verão
É a promessa de vida
No teu coração...

III


não sei dizer este azul que encaminha
os céus...
sei respirá-lo intenso
na vibração densa, descompassada
dos olhos que se entornam nele...
não sei morrer noutra cor.
antes esta tonalidade
assim-breve
assim-escorregadia
desintegrando a noite
reinventando o dia.
e eu...
eu não sei escrever este azul
que dá luz á manhã...

(Ondjaki)

preciso dedicar-me ao budismo


todos somos diferentes e geralmente atraídos por pessoas que são o nosso oposto. foi isso que aconteceu há uns anos quando foi trabalhar comigo uma mulher da minha idade e que aparenta sempre uma serenidade fantástica. encarregue de a ensinar só a via sair do sério frente ao computador. ela realmente não suportava aquele bicho que não lhe obedecia... e quando me pedia ajuda dizia que não percebia porque é que ele me obedecia a mim. mas rapidamente porque é muito inteligente o PC se tornou numa ferramenta de trabalho sem qualquer mistério para ela. eu ria de todas as vezes que a via zangada com ele. outra característica que nos distinguia era a arrumação. eu sou uma pessoa organizada o que não significa que seja sempre arrumada. quer dizer: eu não arrumo nada. organizo. por isso para terceiros pode parecer que as minhas coisas estão desarrumadas mas a verdade é que eu sei sempre onde está cada coisa. esta minha amiga costumava arrumar a minha secretária depois de eu sair. e quando eu entrava de manhã cedo a sorte dela era chegar mais tarde porque eu ficava furiosa por não encontrar nada do que queria. quando ela entrava vinha com o seu ar de felicidade tranquila e dizia-me então hoje tinha tudo arrumadinho... e eu agradecia como se ela tivesse feito algo que me tivesse facilitado a vida. foi assim que comecei a arrumar as coisas fora do alcance da sua vista para não ter que encontrar tudo arrumadinho mas fora do lugar que eu destinara... a vida profissional separou-nos mas continuámos muito amigas. a empatia nunca terminou e de há uns meses para cá desde que voltou a trabalhar em Lisboa almoçamos juntas uma vez por mês. é preciso marcar o dia em que nos vamos encontrar no mês seguinte porque se assim não for ela não aparece. mas como tem o hábito de cumprir todos os compromissos se o dia estiver agendado ela não falha. como não falhou hoje. gostava de reagir com a tranquilidade dela a todas as tormentas. mas tenho mau feitio sou explosiva e tanto me emociono até às lágrimas como me apetece bater em toda a gente... a minha consolação é que saber que no fundo sou boa pessoa... apenas demasiado emotiva. preciso de me dedicar ao budismo. é o que eu acho.

15 janeiro, 2009

Danca Ma Mi Criola -Tito Paris (clica aqui)

Dança ma mim criola cola na mim
Pensa na passá sabe num coladera
Sabura é lá na nôs terra cabo verde
Lá nô ta sinti na meio d'nôs tradiçon
Tchiga na mim bô perta'm forte quê pa'm sinti
Calor di bô morininha óh cabo verde
Sabura é lá na nôs terra cabo verde
Lá nô ta sinti na meio d'nôs tradiçon

Desejos


Queria ser um poema lindo
cheirando a terra
com sabor a cana

Queria ver morrer assassinado
um tempo de luto
de homens indignos

Queria desabrochar
— flor rubra —
do chão fecundado da terra

ver raiar a aurora transparente
se r´bera d´julion
em tempo de são João
nos anos de fartura d´espiga d´midje

E ser
riso
flor
fragrante

em cânticos na manhã renovada
(Vera Duarte)

a mim apetece-me mais uma morna


mais uma vez um comentário do Flip faz mudar o rumo dos meus dedos e vai de ir atrás dele (Flip) e deles (dedos). é que farta de passar dias inteiros a obedecer à inteligência e à razão sabe bem chegar aqui e divagar. aqui onde ninguém nem mesmo eu me diz o que tenho ou não tenho de escrever. como devo escrever. este é o único espaço na minha vida onde não sou obrigada a usar vírgulas e maiúsculas senão as que entendo dever usar. é assim como ter um negócio por conta própria onde não tenho que me preocupar com os lucros ou perdas. aqui tudo é ganho. as perdas se as há vão de imediato cano de esgoto abaixo. pois o Flip diz que já voltou a Angola 3 vezes. que bom para ti Flip. eu não voltei e muito francamente apesar de todas as recordações de uma infância e adolescência em liberdade sem o maldito frio a tolher-me os movimentos não tenciono voltar. sabes Flip... tenho medo de me desencantar. tenho medo de perceber que tudo o que vivi ou penso ter vivido lá seja um sonho algo que nunca existiu mais um produto da minha imaginação. porque leio por exemplo os romances de Pepetela, Luandino e Ondjaki só para citar os que mais leio relacionados com Angola e a realidade que me mostram não tem nada a ver com a que eu vivi. exceptuando Ondjaki que sendo o mais jovem surpreendentemente fala de uma vida que me é familiar. eu tenho a mania que sou durona e resistente a todas as mágoas mas a capa vai ficando cada vez mais fina. agora sou capaz de chorar por coisas que achava ridículas. e para sobreviver aprendi a só guardar o que me fez feliz. é por isso que não me apetece voltar embora me saiba muito bem "ouvir-te" falar nessa espécie de dialecto inventado entre o kimbundu e o português. quem sabe um dia mudo de ideias... para já o que me apetece mesmo é uma palhota perto da cidade do Mindelo a dois passos do mar e pescar um peixinho para o almoço... esse é o maior sonho da minha vida. não sei se o vou realizar mas gostava de poder viver a minha reforma (se é que algum dia virei a ter uma...) assim. num lugar sossegadinho e quente à beira mar tendo ao lado uma cidade culturalmente viva e imaginativa com muita morna à mistura.

14 janeiro, 2009

Tom's Diner - Suzanne Vega (clica aqui)

I am thinkingOf your voice...
And of the midnight picnic
Once upon a time
Before the rain began...
I finish up my coffee
It's time to catch the train

Visitações ou poema que se diz manso


De mansinho ela entrou, a minha filha.

A madrugada entrava como ela, mas não
tão de mansinho. Os pés descalços,
de ruído menor que o do meu lápis
e um riso bem maior que o dos meus versos.

Sentou-se no meu colo, de mansinho.

O poema invadia como ela, mas não
tão mansamente, não com esta exigência
tão mansinha. Como um ladrão furtivo,
a minha filha roubou-me a inspiração,
versos quase chegados, quase meus.

E mansamente aqui adormeceu,
feliz pelo seu crime.

(Ana Luisa Amaral)