07 janeiro, 2009

O desejo aceso


O desejo aceso
na lareira do corpo

Com a sua chama
sem rumo
em forma de asa


(Maria Teresa Horta)

sempre


era apenas uma menina mulher metida dentro do carro à espera que chegassem as 4 da tarde. e pensava se ao menos fosse às 5 da tarde... talvez tivesse tempo para pensar um pouco mais talvez arranjasse a coragem necessária para desaparecer uma vez mais ou para simplesmente dizer não. dizer não para dizer sim à vida. aquele foi um dos dias mais difíceis da sua vida. a menina mulher já tinha vivido muito. deitara fora a família perdera a terra jogara todo o passado para o alto. despedira-se do grande amor da sua vida no aeroporto enquanto ele implorava que ficasse. mas ela sabia que não podia ficar. sabia que seria a ruína da vida dos dois. mal por mal antes despedaçar-se em voo. a sós. aquele era o caminho possível. o único que vira. não pensou que mais tarde lhe surgiriam outros homens menos complicados com vidas livres prontos para se entregarem a ela. e só a ela. mas aconteceu. só que ela nunca mais foi de um homem só. o que ficou no aeroporto viajou dentro do seu coração. deu a volta ao mundo. e ele continua ali. como no primeiro dia em que o viu. será ele. sempre. por muitos homens que passem... será ele. sempre.

06 janeiro, 2009

O Sonho Impossível - Maria Bethania (clica aqui)

É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz

Uma voz na pedra


Não sei se respondo ou se
pergunto.
Sou uma voz que nasceu na
penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou
crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel
ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma
torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede
e a da chama.
Com esta pequena centelha
quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo
em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das
árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda
não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre
o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez
e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem
a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser
aberto por uma palavra.

(António Ramos Rosa)

o meu rebento


faz hoje 32 anos o meu primeiro rapazinho. não planeado mas amado desde o primeiro minuto que soube da sua existência no meu ventre. as dificuldades a instabilidade no emprego nada me assustava. dentro de mim existia uma vida e eu estava feliz como nunca. mesmo não se vendo barriga nenhuma eu fui logo comprando vestidos pré mamã e não os deixei até que nascesse o meu rebento que tinha um enxoval completamente cor de rosa. numa família de mulheres eu não podia esperar nada que não fosse uma menina. mas nasceu o meu rebento. pequenino e muito feio. não me deu trabalho para nascer. foi até quando nasceu uma criança fácil. e perante o espanto da parteira quando exclamei que ele era muito feio ela argumentou que era meu filho e eu afirmava claro que é meu filho. mas é muito feio! vestido de cor de rosa e chupeta inclusive não havia quem não me dissesse olhando-o está vestido cor de rosa mas é um rapaz não é? é. o meu rebento não enganava ninguém nos seus fatos cor de rosa. depois foi crescendo normalmente ficando cada vez mais lindo. lindo de verdade. foi uma criança que não me deu grandes problemas. apenas aqueles de ser um pouco preguiçoso na escola mas nada que o fizesse ser aluno de negativas. excepto a Matemática. mas até aí conseguiu positiva quando precisou. foi premiado pelo seu comportamento exemplar pelo professor Jasmim que apreciava a disciplina e resolvia fora da escola os problemas de disciplina com os alunos. já passaram 32 anos. ainda não tem nenhum rebento o meu primeiro rebento. mas acho que é feliz. isso é que importa. parabéns pois filho. para ti e para mim. hás-de nascer um minuto antes da meia noite. no dia de reis. foste um belo presente.

05 janeiro, 2009

Shape of my heart - Sting (clica aqui)

I know that the spades are the swords of a soldier
I know that the clubs are weapons of war
I know that diamonds mean money for this art
But that's not the shape of my heart
He may play the jack of diamonds
He may lay the queen of spades
He may conceal a king in his hand
While the memory of it fades

Nós temos cinco sentidos


Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.
- Como quereis o equilíbrio?
(David Mourão Ferreira)

eu sei que sou capaz.


ano novo vida velha. o mesmo frio a mesma luta a mesma desilusão a mesma recusa. não cruzar os braços nunca. acreditar que alguma coisa pode mudar. o tempo passa segundo a segundo mas é sempre o mesmo tempo. o tempo não existe. o que existe é o que vivemos. o que fica é a ternura que demos e recebemos. o tempo não importa. importa que tenhamos tempo para nós. tempo para fazer o que queremos sem que o tempo passe. quero tempo sim. para estar aqui e na rua e no trabalho e com os amigos. para ler os meus livros e ouvir música. para fazer arranjos em casa e ajudar os que me estão mais próximos. tempo. preciso de tempo mas não desse tempo que vai escorrendo pelos ponteiros do relógio. preciso do meu tempo. é o que mais quero depois da saúde. tempo para fazer o que amo. e vou ter. eu sei que sou capaz.

04 janeiro, 2009

Poster - Jack Johnson (clica aqui)

Looking at himself
but wishing
he was someone else
Because the posters
on the wall
they don't look like him at all

Recordo ainda


Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

(Mario Quintana)

as laranjas da Emilia


depois de 3 dias a fazer o papel de fada do lar retomei o meu papel favorito. o de andarilha. o dia amanheceu mais ou menos limpo mais ou menos frio. o suficiente para fazer com que me apetecesse pegar na máquina fotográfica e rumar ao Ribatejo matando de uma vez uma série de lebres. passear visitar família mais ou menos chegada e sobretudo a minha querida Emília mãe do coração que continua a ver-me como a sua bebé e assim continua a tratar-me. quando lá cheguei tinha acabado de vir do hospital de uma urgência e estava a fazer o almoço. genica de quem chega aos 84 anos anos com uma vida de ternura dada em troca de quase nada. derretida com a lembrança de uma foto recente minha numa moldura diz que foi o melhor presente de natal que recebeu. querida tia Emília que no meu coração serás sempre a minha mãe não gosto de te ouvir falar de morrer. não fales disso. não chames a morte que o destino não há-de querer apartar-te de mim tão depressa. vais ver que foi só uma crise de hipertensão tu gostas da comida "apetitosa" e nas festas abusaste. vais ver que foi só isso. um dia destes passo por aí a ver-te. e todos os dias te telefono claro. mesmo assim falámos de tantas coisas e deixei-te tão bem. e gostei tanto de ter decidido sair assim e aproveitar para te ver. desta vez ralhaste com razão mas que queres? faço parte da geração sandwich e nem sempre é fácil acudir todos os fogos. mas amo-te muito. como tu me amas a mim. isso é que importa. e que decidas ficar por cá ainda mais uns anitos. vais ver que não partes tão cedo. vais ver...

03 janeiro, 2009

Olá - Jorge Palma (clica aqui)

conheço a tua cara
mas não sei o teu nome
escrevo já aqui
não sei o qué arroba ponto com
eu vou-te reencontrar
noutro bar de estação
ou talvez quando perder mais um avião

Surpresa


Morto ficou na rua
com um punhal no peito.
Não o conhecia ninguém.
Como tremia o farol,
mãe!
Como tremia o pequeno farol
da rua!

Era madrugada. Ninguém
pôde assomar-se a seus olhos
abertos ao duro ar.

Que morto ficou na rua,
que com um punhal no peito
e que não o conhecia ninguém.

(Garcia Lorca)

o ano mudou. foi só.


o estado de Israel faz-me lembrar aqueles adultos que toda a vida se queixaram da forma como foram educados e fazem exactamente o mesmo com os filhos. são aquelas pessoas que nada aprendem com os erros. nem com os seus nem com os alheios. esqueceram que há bem pouco tempo historicamente falando foram vítimas de um holocausto e parece quererem agora provocar outro. digo agora mas é claro que não me estou a referir ao que se passa no presente mas a tudo o que se tem passado nestes anos de guerra no médio oriente. a Europa parece já ter tomado uma posição. as manifestações repetem-se por todas as capitais mundiais clamando por paz. judeus e palestinianos no estrangeiro dão as mãos e pedem paz. porque raio há-de ser diferente nos seus territórios? porque é que os EUA continuam a apoiar Israel em vez de tomarem uma posição firme para acabar com a estupidez daquela guerra? o poderio israelita contra o extremismo palestiniano. cá para mim é preciso que alguém se imponha e arranje uma solução para pôr as crianças na ordem. e acaba de me passar pela cabeça que os milhares de sapatos deixados numa auto estrada de Miami bem podem ser sapatos de árabes contra Bush que continua impávido e sereno perante mais esta ofensiva. o ano mudou. foi só.

02 janeiro, 2009

What a Wonderful World - Louis Armstrong (clica aqui)

The colors of the rainbow, so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shaking hands, saying,
"how do you do?"
They're really saying, "I love you"
I hear babies cry, I watch them grow
They'll learn much more, than
I'll never know
And I think to myself, what a wonderful world

Mesa dos sonhos


Ao lado do homem vou crescendo
Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente
Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas
Ao lado do homem vou crescendo
E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida.
(Alexandre O'Neill)

a ideia é mesmo essa


decidi começar o ano revendo os amigos de Alex. o filme tem 25 anos e continua a ser actual. e no entanto não me consigo rever no filme. nunca tive um grupo de amigos. tive quanto muito alguns amigos que juntava de vez em quando em minha casa. mas eram os meus amigos. nem por isso eram amigos uns dos outros. alguns eram ou tornaram-se mas nunca os vi como um grupo de amigos. talvez por isso todos me vejam como uma solitária. de facto não gosto de multidões. mais de 6 pessoas juntas para mim já é uma multidão. as pessoas cansam-me. não. não vou dizer que prefiro os animais. acho essa frase o mais ridícula possível. de facto o cão não é o melhor amigo do homem. o cão é apenas um tipo arguto que sabe viver. portanto convém-lhe agir de um modo fraternal para obter o que quer. e há mais. o cão ainda que doente e com dores não se queixa. arrasta-se. ao contrário dos felinos. esses sim vale a pena ter como amigos. porque não fingem ser o que não são. se estão chateados contigo viram-te as costas e pronto. e depois as aves. geralmente belas. gosto sobretudo das aves que se relacionam com o mar. as gaivotas conseguem enervar-me mas no fundo gosto delas. já os patos por exemplo são um pouco como os gatos. passam por ti sem te ligarem nenhuma. até parece que não existimos... e não me vou alongar sobre os meus favoritos porque sei que a maior parte das pessoas fica com pele de galinha se falo de serpentes. então por hoje ficamos por aqui. comecei com um filme e acabo com um pato. não faz sentido pois não? a ideia é mesmo essa.

01 janeiro, 2009

Fado triste - Vitorino & Elba Ramalho

Volto sempre ao rio às sextas-feiras
p´ra lembrar dias descuidados
noites à toa
espero que o navio sempre queira
trazer de volta o sussurro dos teus passos
numa rua de Lisboa

Tentações do Apocalipse


Não é de poesia que precisa o mundo.
Aliás, nunca precisou. Foi sempre
uma excrescência escandalosa
que se lhe dissesse como é infame a vida
que não vivamos para outrem nele.
E nunca, só de ser, disse a poesia
uma outra coisa, ainda quando finge
que de sobreviver se faz a vida.
O mundo precisa de morte. Não da morte
com que assassina diariamente quantos teimam
em dizer-lhe da grandeza de estar vivo.
Nem da morte que o mata pouco a pouco,
e de que todos se livram no enterro dos outros.
Mas sim da morte que o mate como um percevejo,
uma pulga, um piolho, uma barata, um rato.
Ou que a bomba venha para estas culpas,
se foi para isso que fizemos filhos.
Há que fazer voltar à massa primitiva
esta imundície. E que, na torpitude
de existir-se, ao menos possa haver
as alegrias ingénuas de todo o recomeço.
Que os sóis desabem. Que as estrelas morram.
Que tudo recomece desde quando a luz
não fora ainda separada às trevas
do espaço sem matéria. Nem havia um espírito
flanando ocioso sobre as águas quietas,
que pudesse mentir-se olhando a criação.
(O mais seguro, porém, é não recomeçar.)

(Jorge de Sena)

para o Carlos B


pois claro. tinha que falar com a filha de Pepe . há tanto tempo que não a vejo mas falamo-nos todas as semanas e apesar dos sms trocados tive mesmo que lhe ligar aliás na hora em que ela também estava a ligar-me... são estas coisas que fazem com que sintamos que há amigos que são mais do que isso são assim uma espécie de alma gémea. pelo natal o meu querido Carlos B ligou-me e eu que não percebi imediatamente que era ele despachei-o em três penadas. quando percebi era tarde demais e pensei para mim mesma quando tiver com tempo à larga ligo-lhe peço desculpa e falamos como devemos entre amigos. antes que eu tivesse tempo para o fazer ligou-me ele e desta vez sim. falámos por algum tempo das coisas que gostamos do que achamos que é importante na vida dos filhos e dos pais enfim. da vida. o Carlos B é um amigo que eu não quero perder e ele assegurou-me ontem que não o perderei jamais... (o raio desta palavra agora só me faz lembrar o Lino caramba). porquê? porque é das poucas pessoas que me aceita como sou e que não põe em causa aquilo em que não acredito. se calhar é porque também ele não acredita em algumas destas coisas. que tenhas um final de década de quarenta e que possas cumprir os teus sonhos para 2009. é o que te desejo sinceramente. para mim já sabes. como te disse ontem o que espero é ter mais tempo para poder estar contigo. e jogar conversa fora enquanto bebemos uns copos e tocas umas guitarradas.