07 novembro, 2008

Rumo


É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra ...

Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!

Vamos, companheiro ...
É tempo!

Que o meu coração
se abra à mágoa
das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!

Vamos!
que outro oceano nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama ...
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...

(Alda Lara)

sim nós podemos


há pessoas assim. eu mesma tenho entre alguns mais próximos de mim gente que nunca parece cansar-se que nunca precisa parar. gente que precisa de pouco tempo para dormir e acorda como se tivesse feito uma cura de sono. eu também já fui assim mas infelizmente por um distúrbio com que nasci e que tenho que corrigir diariamente. agora estas pessoas de que falo que eu saiba não têm distúrbio nenhum. às vezes penso que se drogam. mas é claro que não. são pessoas com muita energia e com muita vontade de fazer coisas de ajudar os outros de trabalhar infinitamente sem chegarem jamais ao esgotamento. Obama parece ser uma destas pessoas. foi eleito há 3 dias depois de um ano de campanha duríssimo primeiro contra a senhora Clinton e depois contra McCain. mas não descansou. fez um belo discurso e começou a trabalhar já e dando contas ao mundo em conferências de imprensa do que tenciona fazer do que é preciso fazer. agora mais do que nunca acredito que ele crê realmente na sua frase de campanha yes we can. enquanto isso o senhor Berlusconi entretém-se a dizer disparates e a rir dos mesmos. o primeiro é um homem brilhantemente preto o segundo é um homem de cor. de cor duvidosa.

06 novembro, 2008

Deixa o Mundo Girar - Pólo Norte (clica aqui)

Deixa o mundo girar para o lado que quer
Não o podes parar nem tens nada a perder
Estás de passagem
Não o leves a mal se te manda avançar
Talvez seja um sinal que não podes parar
Estás de passagem

Estilhaços


Ondas que arrebentam
nos muros duros
estilhaçando sonhos:
saberás a razão
desta tempestade
furiosamente devastadora
que aniquila a vida?

(Germano Rocha)

maus sinais


ontem andei mais pela superfície de Lisboa do que é costume. mesmo assim no total não mais de 20 minutos. devo dizer que não andei pela baixa. confesso que há muito tempo que não vou à baixa de Lisboa. de vez em quando o Chiado e a baixa apenas à noite se vou a algum concerto. deserta devo dizer. mesmo no Verão. uma tristeza. mas ontem durante o total de 20 minutos pela superfície de Lisboa contei 6 mendigos. entre velhos muitos jovens homens e mulheres. em pontos onde não se espera de todo encontrar mendigos. impressionou-me. estou acostumada aos cegos que aparecem no metro e que são sempre os mesmos. as romenas desapareceram há anos de circulação. agora que a miséria torna o seu rosto mais visível é verdade. sinal dos tempos. hoje ao entrar numa carruagem de metro em hora de ponta de manhã surpreendeu-me encontrar dois lugares vazios. sentei-me e percebi porque estavam vazios. deitado a dormir nos dois bancos em frente ia um homem de cerca de 30 anos e fraca estatura. mal me sentei outra rapariga seguiu o meu exemplo e sentou-se ao meu lado. quer isto dizer que as pessoas receiam aproximar-se de gente com comportamentos marginais. não querem ver a miséria em seu redor. talvez se queiram distanciar dela desta maneira. numa das estações já a mais de meio do percurso um homem que foi sempre em pé bateu com jornal no homem deitado e disse-lhe que não podia estar assim a ocupar dois lugares. e saiu. pensem nisto. o homem soergueu-se com um ar ensonado e pude então ver que tinha uma grande corcunda. voltou a deitar-se e seguiu viagem. fiquei a pensar que provavelmente conseguiu escapar à vigilância e dormir ali toda a noite. e continuou a dormir enquanto o deixaram claro...

05 novembro, 2008

Jorge Palma - Essa Miúda (clica aqui)

Essa miúda é um exagero
Diz que sem ti não sabe voar
E tu adoras voar com ela
E enquanto inventas espaços novos
Ela vai arquitectando uma teia
Para te aconchegar

Coração viajante

Chegam e vão entrando em mim
Como por um caminho aberto.

Passam e vão
Levando da poeira de minha carne
Na carne do seu corpo.

Ficam em mim, como na estrada,
As marcas dos seus pés
E o murmúrio distante dos seus cânticos.

O meu corpo tem saudades.
Ele as iluminou,
Como o braseiro dos serões,
Dando sangue, dando calor.

O meu corpo tem nostalgia.
Ele vive,
Na carne que elas levaram dele.
Na alma que elas arrancaram,
Aos punhados, dos meus olhos.

(Francisco Karam)

Obama do meu coração


estou cansada mas estou feliz. afinal Obama ganhou as eleições nos USA. li uma crónica de alguém de quem não vou dizer o nome mas de quem gosto muito a modos que criticando o interesse que estas eleições geraram em Portugal (julgo que o mesmo se passou por todo o mundo). que usamos o argumento de que tudo o que corre mal é culpa dos USA e que eles têm costas largas e tomara que continuem a ter. é claro que eu sei muito bem que a crise financeira dos USA por si só não chegou para pôr na banca rota um país tão rico como a Islândia. mas lá que ajudou ajudou. foi com o início da crise nos USA que a crise se espalhou por todo o mundo. afinal vivemos num mundo global portanto não sei qual é o espanto. há muitos anos que os portuguesinhos se interessam pelas eleições nos estates. incluída eu que nunca consegui engolir o segundo mandato de Bush e que pensei cá para mim que o povo americano era mais estúpido do que parecia. agora redimiram-se. Obama não vai salvar o mundo com um estalar de dedos mas se seguir a política económica que anunciou creio que salvará não só o seu país como ajudará o resto do mundo a sair do buraco em que se meteu. parabéns Obama. do fundo do coração.

04 novembro, 2008

Começar de Novo - Simone (Ivan Lins)

Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido

Apagar-me


Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que
depois de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme.

(Paulo Leminsk)

o Homem


é claro que não ando distraída. mas confesso que ando nervosa. tão nervosa que esta noite acordei às 3 da manhã e já não consegui dormir. não. também não é uma paixão daquelas que nos tiram o sono. não. ou talvez seja. a paixão pela política e a preocupação sobre quem irão os americanos eleger hoje. porque não tenhamos ilusões. todos ganharemos ou perderemos com quem for eleito. desde o início que aposto em Obama. porque ele aparece-me como alguém que além de bonito elegante charmoso inteligente competente tem um sorriso aberto e franco. o sorriso dos que dormem descansados de consciência tranquila. mas temo pela sua vida. quer ganhe quer perca. para muitos fanáticos racistas o homem já foi longe demais. afinal o kl klux klan não deixou de existir. só se esconde um pouco mais. por isso me angustia. como me angustiou ver a casa da velha avó africana cercada de arame. aposto que a velha senhora de panos não achou graça. afinal aquela é a casa e a terra dela. é como querer meter uma gaivota (pronto escolham outra ave qualquer) numa gaiola. os mais novos da família acham que tiram alguma vantagem com o alargamento da estrada. veremos. tomara que possam gozá-la com saúde. portanto o que peço aqui é que a protecção a Obama não seja desleixada mesmo que ele perca as eleições. afinal para muitos fanáticos isto é apenas ficção. mais até que o livro O Homem. porque aí um preto chega à presidência por acidente. não tinha disputado eleições. Obama será o primeiro presidente preto dos USA. oxalá e buda me ouçam. faço figas.

03 novembro, 2008

A Rita - Chico Buarque (clica aqui)

A Rita matou nosso amor
De vingança
Nem herança deixou
Não levou um tostão
Porque não tinha não
Mas causou perdas e danos
Levou os meus planos
Meus pobres enganos
Os meus vinte anos
O meu coração
E além de tudo
Me deixou mudo
Um violão

Eu


eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha

(Paulo Leminsk)

acho


sentado ao meu lado o homem vai falando. primeiro não percebo se fala sozinho se está ao telemóvel com mãos livres. não consigo perceber e decido ficar atenta. o homem vai repetindo a gente quer mas não é capaz a gente quer mas não é capaz. saio de casa e digo vou passar pelo bar mas não entro. e entro. e tomo a primeira a segunda e todas as outras até que o empregado decide parar de me servir. completamente zonzo chego ao emprego onde toda a gente sabe porque chego atrasado. olham-me alguns com pena outros com raiva. nos teus olhos vi compreensão e é por isso que falo. percebo então que está mesmo a falar comigo. como se estivesse no analista fala fala fala... só quer ser ouvido. continua a dizer que mantém o emprego porque a empresa é de um amigo de infância. que o vai ameaçando com o olho da rua há muitos anos mas não chega nunca a fazê-lo. é dos poucos amigos que tem continua dizendo. durante o resto do dia não produz nada. finge que trabalha mas vai dizendo para si mesmo quando sair daqui vou direito a casa beijar a minha mulher e as minhas filhas. são tudo o que tenho sabe. tento concentrar-me nesta ideia. não passarei pela porta do bar. agora sinto-me melhor vou comprar flores quando sair daqui para dar à minha mulher. sabe há quanto tempo não lhe dou flores? eu também não. e saio tomo o caminho que me leva ao homem que vende pó. apercebo-me por onde vou mas digo passarei por ele sem sequer lhe falar e entrarei na florista para comprar rosas. rosas vermelhas para a minha mulher. e hei-de comprar também chocolates para as minhas filhas. repito isto pelo caminho para não me perder mas quando passo pelo traficante paro e compro o suficiente para duas linhas de pó. entro em casa e deito-me. esqueço as flores e os chocolates. esqueço que tenho uma mulher que gosta de mim. esqueço que amanhã vou voltar a dizer hoje não e repetir tudo. ontem quando cheguei a casa a minha mulher e as minhas filhas não estavam e eu não me apercebi. de manhã ao acordar ela a minha mulher não estava lá. acha que ela se cansou de esperar que eu cumprisse as promessas de sempre?

02 novembro, 2008

Diz que fui por aí - Fernanda Takai (clica aqui)


Tenho um violão para me acompanhar,
Tenho muitos amigos, eu sou popular,
Tenho a madrugada como companheira
A saudade me dói, em meu peito me rói,
Eu estou na cidade, eu estou na favela,
Eu estou por aí, sempre pensando nela

Poetai, poetas, poesia! Que a morte é no dia-a-dia


toda palavra semeia a flor
do próprio veneno
e cada frase vagueia
na versão do seu momento

toda palavra retesa a corda
do próprio arco
não faça versos não fale
o que valeu já não vale

mesmo que seja perverso
anote o verso resista
toda palavra se explica
no próprio verso em que habita

no instante exato do crime
toda palavra é uma pista
não se explique
tome um porre o que foi dito é o que morre

rasgue os versos vá embora
renegue tudo o que fez
copie de novo outra vez
passe a limpo e jogue fora

(Paulo José Cunha)

o costume


venho mais uma vez falar de gaivotas e de pássaros e de filmes e de um país onde alguns passarões voam deixando a passarada às aranhas com as suas aldrabices. pois é antes de falar de coisas sérias gostaria de lembrar que os bancos com maiúscula claro são como os casinos e aqui não precisamos de maiúscula porque não pode haver enganos só dão prejuízo de houver gestores incompetentes ou vigaristas à sua frente. peço desculpa mas dizer a verdade não pode ofender ninguém. Vale e Azevedo não é infelizmente o único vigarista com cara deslavada que quer julgar-se a si mesmo e decidir quantos anos de pena deve cumprir. os senhores do bpn provavelmente já deram de frosques como se diz na gíria nacional e sobretudo na dos bons malandros lisboetas e se não deram já têm acautelado o seu futuro e mais dia menos dia estarão a viver numa bela capital ou num pequeno paraíso fiscal com belas praias e clima tropical. que pena eu não ter nunca sentido o apelo da gestão. ou da vigarice. ou melhor das duas ao mesmo tempo. mas não faz mal porque afinal como diz o outro eu até sou rica tenho quintas todas as semanas. e só para terminar. vi mais uma vez os Pássaros de Alfred. quem não conhece o filme? quem não se lembra do ataque isolado de uma gaivota a uma mulher e depois de bandos de pássaros organizados a matarem ou tentar matar gente? hoje passei pelas gaivotas. muitas. no mar. nas rochas. na areia. também um pato numa espécie de poça no meio do mar. vinha falar de tudo isto mas a nacionalização do bpn deu-me cabo dos planos. mais uma vez somos todos nós que vamos pagar a factura. o costume.

01 novembro, 2008

Fim do mês - Xutos e Pontapés (clica aqui)

Eu não percebo
Esta coisa louca
Um mês inteiro
Sempre a esticar
Os meu problemas
São leves penas
Se comparados com
A guerra nuclear
Sigo a diante, sereno e confiante
Deixo a tristeza pra trás
Roubo uma rosa
Preparo uma prosa
Nunca se sabe do que um perfume é capaz

Não discuto

não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino

(Paulo Leminsk)

mulheres


uma manhã fria mas bonita. caminhando à hora das gaivotas vejo apenas uma. afasta-se de todos os humanos mas quando eu passo aproxima-se. penso que ela pensa que eu sou uma gaivota. como ela. ou simplesmente como todas as outras aves não foge de mim. já me explicaram porquê. na altura achei um pouco estranho mas na verdade nunca me tinha apercebido que as aves não fugiam de mim. portanto a gaivota pura e simplesmente não fugiu só porque não. na altura pensei que ela me reconhecesse como sua igual. e reparem que eu aplico o verbo reconhecer e não confundir. agora é que estou a escrever e a clarificar o que senti na altura. mais adiante o homem que saiu de um filme de terror passa por mim de calções tipo boxer que é o que ele parece óculos escuros e gorro de lã na cabeça. se calhar tem frio na cabeça porque a usa rapada... se calhar. não reparei se tem o corpo depilado mas de qualquer forma os homens de raça negra não costumam ser muito peludos... mas hei-de reparar. faz umas piruetas para descontrair penso eu. depois um homem e seu perdigueiro na praia. o bicho não pára. fareja tudo à sua volta e perto dele está um casal de namorados muito jovens. ele parece mesmo um menino. nem barba tem. observo e penso que ela está zangada com ele e ele tenta acalma-la e de vez em quando lá consegue um beijo. mas logo de seguida ela continua a mostrar-se amuada. pois é amigos homens. mulheres!