07 agosto, 2008

Para os deuses

Para os deuses as coisas são mais coisas.
Não mais longe eles vêem, mas mais claro
Na certa Natureza
E a contornada vida...
Não no vago que mal vêem
Orla misteriosamente os seres,
Mas nos detalhes claros
Estão seus olhos.
A Natureza é só uma superfície.
Na sua superfície ela é profunda
E tudo contém muito
Se os olhos bem olharem.
Aprende, pois, tu, das cristãs angústias,
Ó traidor à multíplice presença
Dos deuses, a não teres
Véus nos olhos nem na alma.

(Ricardo Reis)

Não se pode ter tudo


Há mais de 6 horas que dois cidadãos brasileiros mantêm sequestradas pessoa dentro de uma dependência bancária no centro de Lisboa. Pelos vistos a coisa não correu como esperavam e acabam por ter um dia de cão.
Não quero fazer aqui juízos de valor sobre estes assaltantes. Afinal há por aí uns tipos que assaltam Bancos com boas intenções. E depois os Bancos assaltam-nos todos os dias, não é? Por isso, é como diz o outro, amor com amor se paga. A questão dos reféns é que pode ser mais delicada. Porque por muito boas intenções que os assaltantes tenham em relação a eles a tensão e o stress, começam a fazer-se sentir de parte a parte e a coisa pode dar para o torto... mas geralmente as coisas acabam em bem. É claro que as horas de angústia de quem está lá dentro (e aqui incluo reféns e assaltantes) e dos familiares e amigos cá fora ninguém lhas tirará e ficarão para sempre, como uma estória que muitos não querem contar mas esquecer.
Ainda falando de assaltos. Esta madrugada foi "retirada" do Tribunal de Almada uma máquina multibanco e até houve quem visse tudo. Afinal foi apenas mais um electrodoméstico lá para casa, com certeza.
E às tantas começa a sentir-se que Portugal já não é o que era. Não me lembro de existirem medidas de segurança especial enquanto o PR está de férias. De que tem medo a segurança do PR? Porque não me parece que seja o Aníbal quem está preocupado com a segurança, numas férias tão pacatas, passadas na terra como uma grande parte dos portugueses. O azar dele se calhar é que a terra é no Algarve e muito próxima de Albufeira.
Sabem que mais? Não se pode ter tudo!

06 agosto, 2008

O cio da terra - Milton Nascimento e Chico Buarque (clica aqui)

Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão
Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel
Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, a propícia estação
E fecundar o chão

Vão breves passando


Vão breves passando
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho.

De aqui a tão pouco
Ainda acabou.
Vou ser um cadáver
Por quem se rezou.

E entre hoje e esse dia
Farei o que fiz:
Ser qual quero eu ser,
Feliz ou infeliz.

(Fernando Pessoa)

Pode ser só uma questão de sorte, sei lá


O menino que queria ser deus e depois já não queria porque eu lhe disse que dava muito trabalho, decidiu que afinal quer ser deus para que não lhe caiam os dentes, não ter que ir à escola, não crescer, não casar, não envelhecer e não morrer. Só que agora decidiu aprender a tocar violino. Ofereci-lhe um violino quando fez 6 anos e hoje, depois de poucas aulas, já vai mostrando que arranca do instrumento sons e não guinchos como é normal nos iniciantes deste instrumento. Fico contente porque parece que foi mesmo um dinheiro bem empregue. Considero um bom investimento.
Senão vejamos. Um deus que toca violino e não outro instrumento mais angelical como por exemplo a harpa, pode ser um deus bem mais original não vos parece? Pode ser um deus mais preocupado com a música e logo com a cultura em geral... eu acho que este menino dará um excelente deus, tocador de violino e actor de teatro.
Pois. É que o menino que quer ser deus, gosta de teatro. Gosta de ver e gosta de fazer. Filho de actores, decora as peças dos pais e depois toda a família e amigos têm que se sentar e assistir às suas excelentes representações. No fim, é claro que ele faz vénias para agradecer os aplausos... e que vénias!
Numa coisa parece que este menino está com sorte. Ainda não lhe caiu um só dente. Quem sabe ele tem sorte e vira mesmo deus?

05 agosto, 2008

Slip Slidin' Away - Live at Abbey Road - Paul Simon (clica aqui)


I know a woman
Became a wife
These are the very words she uses
To describe her life
She said a good day
Ain’t got no rain
She said a bad day
As when I lie in bed
And think of things that might have

O frio especial


O frio especial das manhãs de viagem,
A angústia da partida, carnal no arrepanhar
Que vai do coração à pele,
Que chora virtualmente embora alegre
(Álvaro de Campos)

Devia ser apenas um casal de turistas


Ao fim do dia comentei com um colega que se todos os dias de trabalho corressem tão bem quanto o de hoje, nenhum de nós sofreria de stress. Se bem que eu não considero que o stress me abale. Saio do trabalho e esqueço o que lá ficou, assim como entro e esqueço os meus problemas pessoais. É uma atitude que aprendi há muito tempo e que tem dado sempre bons resultados. Não estou aqui a dar conselhos. Sei que somos todos diferentes e que muitos de nós não conseguem desligar os problemas pessoais dos problemas domésticos ou de trabalho. Mas vale a pena tentar.
Seja com for soube-me bem ver o casal de jovens turistas que se sentou à minha frente e que vim a perceber serem australianos. Ambos bonitos, ele de estatura normal, ela bastante bonita, invulgar até, preocupadíssima pelos vistos com a sua imagem. Por várias vezes tirou um espelhinho da bolsa e dava uns retoques nas pestanas, nas sobrancelhas, na boca... nos intervalos trocava gestos de ternura com o seu parceiro.
Nada de anormal até aqui, não é? Pois é. Só que a dita rapariga muito bonita e muito jovem é de uma magreza assustadora. Os seus braços magérrimos não fazem um conjunto harmonioso com as mãos demasiado grandes para uns braços tão magros. Os joelhos destapados por uma saia amarela são ossudos e as pernas, como se diz mais parecem duas esferográficas.
E eu pensei cá para mim, que pena uma rapariga tão bonita sofrer de bulimia ou de anorexia. Não sei se ela sofre de alguma delas é certo. Mas todo o seu comportamento diz que sim. A preocupação exagerada com a sua aparência, sobretudo numa jovem turista bonita e de férias deixou-me de pé atrás. Porque sei que ambas as doenças fazem com que as pessoas se olhem ao espelho com uma frequência exagerada, mesmo considerando que possa tratar-se de gente vaidosa.
Gostava de estar enganada. Gostava de pensar que estou errada, que aquela jovem não está doente e que vai ser muito feliz para o resto da vida ao lado do belo parceiro que a acompanhava e com quem trocava gestos de ternura que começam a mostrar-se demasiado raros entre nós.

04 agosto, 2008

Nada mais - Gal Costa (clica aqui)

Sinto quando alguém te interessa,
mesmo quando finges que não vês.
Se desapareces numa festa, eu já sei.
Não te quero ouvir falar do tempo
se eu só pergunto: Onde vais?
Mas se quiser saber se voltas logo,
You don´t no, nada mais.
Vão dizer que são tolices, que podemos ser felizes
mas tudo o que eu sei, não dá pra disfarçar
dessa vez doeu demais.
Amanhã será, jamais.

Estás só. Ninguém o sabe


Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.


(Ricardo Reis)

A excepção de que gosto


A série Conta-me Como Foi é das coisas mais bem feitas que tenho visto ultimamente em Portugal, senão mesmo a melhor no género. Diz-me a filha de Pepe que a versão espanhola ainda é melhor. Pode até ser. Confio nos juízos que ela faz tanto quanto confio nos meus... mas como não conheço a versão espanhola não posso falar. E de qualquer maneira a série é um retrato de cada país no fim dos anos 60, pelo que, não tendo eu tido qualquer conhecimento do tipo de vida noutros países nessa época, nunca me poderei pronunciar sobre o que se faz lá fora com o enlatado que tem feito sucesso em Portugal
É que eu era um pouco mais velha que o Carlitos em 1968. Para ser mais exacta tinha a idade da Nonô. O Carlitos é tal qual o meu irmão era. Inventivo, sempre a preparar das suas, levando a sério muita coisa que ele não podia entender. Por outro lado a irmã mais velha, faz-me recordar a minha irmã, se bem que a minha irmã era muito diferente. Menos atrevida e muito estudiosa. Uma menina bem comportada e que só se portava mal quando se tratava de fazer o contrário do que os pais esperavam dela.
Seja como for o cuidado que foi posto nesta novela é mesmo fantástico. A luta diária daqueles pais, a preferência dada aos rapazes no que dizia respeito aos estudos (as meninas se arranjassem um bom marido não precisavam de ser preparadas para a vida), os pequenos pormenores como as embalagens de Milo, Skip ou Tulicreme, o início da revolução na vida das mulheres com os electrodomésticos... ainda me lembro do dia em que o meu pai apareceu em casa com um aspirador.... aquilo foi uma verdadeira festa, a minha mãe só faltava dar pulos de contente... e quando ele comprou uma enceradora que ela não conseguia usar por ser muito pesada (felizmente tinha um criado que a usava por ela, senão teria ficado a um canto da dispensa)?
Enfim. Revejo a série com muito prazer. Rita Blanco e Miguel Guilherme são dois actores fantásticos. Mas afinal quem não é bom actor nesta série? Os miúdos são um delírio, enfim, até agora só me apercebi de um rapaz que faz de estudante universitário e que vai francamente muito mal. Mas é mesmo assim. As excepções confirmam as regras. Esta série é uma prova disso: a excepção que tem um mau actor muito secundário para confirmar a regra dos outros que são todos bons.

03 agosto, 2008

Escuridão - Jorge Palma (clica aqui)

E eu só quero ver-te rir feliz
Dar cambalhotas no lençol
Mas torces o nariz e lá se vai o sol

Dizes vermelho, respondo azul
Se vou para norte, vais para sul
Mas tenho de te convencer
Que, às vezes, também posso...
Ter razão!

Há mais


Há mais de meia hora
Que estou sentado à secretária
Com o único intuito
De olhar para ela.
(Estes versos estão fora do meu ritmo.
Eu também estou fora do meu ritmo.)
Tinteiro grande à frente.
Canetas com aparos novos à frente.
Mais para cá papel muito limpo.
Ao lado esquerdo um volume da "Enciclopédia Britânica".
Ao lado direito —
Ah, ao lado direito
A faca de papel com que ontem
Não tive paciência para abrir completamente
O livro que me interessava e não lerei.

Quem pudesse sintonizar tudo isto!

(Álvaro de Campos)

Será que tem mesmo os dias contados?


Fui criada por pais aficionados da tourada. Talvez mais a minha mãe que ainda hoje pode sentir-se a morrer, mas se aparece uma tourada na TV ela fica logo fina. Acontece que eu nunca fui uma grande apreciadora mas de vez em quando lá ia a uma tourada. A última foi há 30 anos no Campo Pequeno e era uma famosa corrida RTP. Fiquei vacinada. A corrida metia picadores e eu nunca entendi a necessidade de ferir o animal de maneira tão selvagem... porque uma coisa é a tourada tradicional portuguesa que inclui os grupos de forcados, que esses sim têm que ser além de muito artistas muito valentes. Os cavaleiros também fazem uma bonita figura nas suas belas fatiotas, sobretudo quando se trata de gente jovem como a que hoje pareceu na corrida RTP da Figueira da Foz. Uma geração de filhos de conhecidos cavaleiros que já se percebeu, não ficam a dever nada aos babados papás.
Pois é. Em relação à polémica sobre se deviam ou não acabar as touradas em Portugal, não tenho opinião. Afinal se há quem goste... mas se acabarem com as touradas não me ficam saudades, se continuarem pois, ninguém me obriga a assistir ao espectáculo.
Quanto ao sofrimento dos bichos, pois é para isso que são criados. E os forcados quando se magoam a sério, pois paciência, quem corre por gosto não cansa.
De qualquer modo hoje gostei de assistir à festa taurina. E reparei que as bancadas estavam cheias de gente muito jovem. O que me parece é que a "festa" já esteve com dias mais contados do que está hoje.

02 agosto, 2008

Vai Levando - Chico Buarque e Caetano Veloso (clica aqui)


Mesmo com o nada feito, com a sala escura
Com um nó no peito, com a cara dura
Não tem mais jeito, a gente não tem cura
Mesmo com o todavia, com todo dia
Com todo ia, todo não ia
A gente vai levando, a gente vai levando,
a gente vai levando
A gente vai levando essa guia

Haicai


girassol
a luz da manhã
a menina dos olhos dança

enganados
os galos cantam
a lua saída do eclipse


(Fred Maia)

Peco por defeito


O caso é noticia mas tenho a certeza de que não é o único. O complemento solidário para idosos que este governo inventou é apenas mais uma medida eleitoralista das muitas que tem vindo a tomar. Ajudam já 100.000 idosos. Só não dizem quanto gastam com esta medida. Na verdade não basta que o idoso tenha um rendimento mensal inferior a € 400,00. É preciso que não tenha o seu pedacinho de terra ou uma casa por pequena que seja perdida nos confins do país. É preciso ainda que os filhos, se os houver, sejam igualmente pobres.
Por isso este caso da senhora a quem foi atribuído um complemento no valor mensal de € 1,00 ficou rica. Em vez dos € 297,00 que recebia agora recebe € 298,00. Ainda pensei que era erro, mas não. As contas estão feitas segundo a lei. O que ainda nos podemos perguntar é se realmente valerá a pena pagar horas extraordinárias aos funcionários da segurança social para atribuição deste complemento. É que para atribuir € 1,00 a uma pessoa, gastou-se 20 vezes mais. E tudo isto sai dos bolsos do contribuinte que somos todos nós ou deveríamos ser pelos menos teoricamente.
O governo que está preocupadíssimo com os idosos, pô-los a pagar IRS, pois então. € 400,00 é mais do que suficiente para viver em grande. Por isso, quem ganhar mais 1 cêntimo tem que pagar.
Há muita gente neste país a receber menos de € 200,00 mensalmente. Mas que importa? Afinal o governo dá com uma mão e tira com a outra. E o povo na generalidade está sempre pior. Ainda ontem um amigo me punha a questão, como é que um homem de 75 anos vive com € 179,80? Não sei EGV. Sei é que há muita gente nas mesmas condições. Sorte a tua por só agora te aperceberes do país real. Quando eu falo sou exagerada não é?. Pois agora já vês que afinal só peco por defeito.

01 agosto, 2008

Não Vou me Adaptar - Arnaldo Antunes e Nando Reis (clica aqui)

Eu não tenho mais a cara que eu tinha
no espelho essa cara não é minha
é que quando eu me toquei achei tão estranho
a minha barba estava deste tamanho
Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?

Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou!
Não vou me adaptar!
Eu não vou me adaptar!Não vou! Me adaptar!...

Oiço como se o cheiro


Oiço, como se o cheiro
De flores me acordasse...
É música - um canteiro
De influência e disfarce.

ImpaIpável lembrança,
Sorriso de ninguém,
Com aquela esperança
Que nem esperança tem...

Que importa, se sentir
É não se conhecer?
Oiço, e sinto sorrir
O que em mim nada quer.

(Fernando Pessoa)

Digo eu


É o primeiro dia de Agosto. O país encerra para balanço. As grandes cidades esvaziam-se e no Allgarve escutamos a pronúncia do norte a cada virar de esquina. É o melhor mês do ano para mim que trabalho em Agosto. Os transportes andam vazios, há lugares para estacionar o carrito se for preciso em Lisboa. Apesar da crise, de todas as crises, os portugueses continuam a fazer férias, nem que seja para ir "à terra", onde até poupam na alimentação porque a horta existe, o porco existe, as galinhas no terreiro... Digo eu.
Por falar em galinhas. O Tonga coroou hoje um novo rei. 170 Ilhas e meia dúzia de súbditos muito pobres a sustentarem uma festa de coroação como se tratasse de uma monarquia europeia num país de primeiro mundo. Diz-se que o rei é um play boy. Aos 60 anos ainda não sabe o que é trabalhar, nem virá jamais a saber. Digo eu que sou uma língua viperina.
Em Marte há água. Já se desconfiava mas agora há a certeza. Procuram alguma espécie de vida no planeta vermelho. Se não encontrarem podem levar-me a mim que eu faço as vezes de marciana. Assim como assim já estou acostumada a ser marciana na Terra. Deve ser mais fácil em Marte.Digo eu.
O petróleo voltou a subir devido às relações tensas entre o Irão e Israel. Amanhã vou meter gasolina antes que volte a subir outra vez. E vou andar mais a pé. A ver se me habituo que acho que em Marte não vou ter automóvel, nem comboio, nem metro, nem nada destas invencionices que existem cá pela Terra. Digo eu, claro.