24 julho, 2008

Astronauta - Gabriel o Pensador


Essa vida de internauta me cansa
Astronauta, cê volta e me deixa dar uma volta na nave,
passa a chave que eu tô de mudança
Seja bem-vindo, faça o favor
E toma conta do meu computador
Porque eu tô de mala pronta, tô de partida
E a passagem é só de ida
Tô preparado pra decolagem, vou seguir viagem, vou me desconectar
Porque eu já tô de saco cheio e não quero receber nenhum e-mail com notícia dessa merda de lugar

Santo nome em vão


o ruim de ser povo
é avalizar um empréstimo novo
em Calcutá
sem nunca ter ido lá.
(Ulisses Tavares )

É aqui que eu vivo


Este é o meu país. Um país com muitas singularidades e terras igualmente singulares. Terras onde os lugares de estacionamento são pintados com metade do tamanho necessário, ou seja, pretende-se que os automóveis ocupem uma parte do passeio. Noutras há ruas íngremes e estreitas com dois sentidos onde há quem estacione dos dois lados da via o que faz com que seja impossível passar em qualquer dos sentidos. Há quem saia do carro, quem buzine, mas o remédio é mesmo fazer marcha atrás e procurar outro caminho.
No meu país há juízes que condenam pessoas a pagar indemnizações por danos morais a pais que não queriam aceitar como seus os filhos e de repente decidem que sim senhor afinal querem mesmo ser pais e a sua moral tem que ser reparada em euros...
No meu país é notícia o facto de Bin Laden ter ficado satisfeito e ter celebrado o 11 de Setembro... fantástico não é? nenhum de nós imaginaria que o homem ficasse tão contente, a não ser os media que pelos vistos achavam que o senhor tinha ficado mergulhado numa profunda tristeza que o levou a uma ainda maior depressão que por muito pouco não o levou ainda ao suicídio...
No meu país há um autarca que vai pagar os livros de estudo das crianças do ensino básico da sua Câmara. Se a medida é eleitoralista não me importa. No meu país há autarcas que fazem o que o governo devia fazer... um governo que obriga as pessoas a estudarem 12 anos mas não os ajuda a pagar nem um!
Este é o meu país. Que eu compreendo. E a que acho piada. No fim de contas em todos os outros países há coisas peculiares... só que é neste que eu vivo.

23 julho, 2008

Paciência - Lenine e Vanessa da Mata (clica aqui)

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida é tão rara
Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

A criança que pensa em fadas

A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

(Alberto Caeiro)

Histórias que o escaravelho me contou


Há coisas que eu digo que sei que é difícil acreditar. Raramente me queixo do calor. Na verdade amo o Verão e dispenso o Inverno. Nem da roupa de Inverno gosto. Posso passar várias estações em comprar um peça de roupa. Não gosto do Inverno. É definitivo!
Mas o calor do interior às vezes pode fazer-me mal. Fez-me mal. Três dias de dor de cabeça que não houve comprimido que remediasse, duas noites sem dormir por causa do calor, uma torreira abrasadora: e ainda assim eu olhava em volta e as pessoas sorriam. Simpáticas as pessoas que me rodearam estes dias no Alentejo profundo. Se me dirigia a alguém pedindo alguma informação respondiam com sorrisos, houve até uma rapariga que ao lado do namorado lhe apertava o braço para que ele me desses a resposta pretendida com o ar mais tímido deste mundo. Mas ainda assim sorriu, quando agradeci e desejei bom dia.
E foi assim que me levantei bem cedo, tomei um duche frio e o pequeno almoço e me dirigi ao Redondo, vila do Baixo Alentejo que se encontra bastante bem cuidada e ruas desertas de gente, com as temperaturas a passarem os 40º ao fim do dia. Mas de manhã a estrada está concorrida e o calor ainda não sufoca. Vejo um burro e uma pequena carroça, perecem-me uma coisa de brincar. Apetece-me parar e fotografar. Impossível, não há onde parar o carro, a estrada está concorrida e eu tenho que chegar a tempo à Biblioteca Municipal do Redondo que é financiada pela Fundação Calouste Gulbenkian. Bendito judeu que mesmo depois de morto sabes o que fazes!
Pois é: aguarda-me "Histórias que o escaravelho me contou". Dois actores decidem levar a cena texto de Manuel António Pina em teatro de sombras. Uma coisa muito bonita de se ver. São apenas 20 minutos mas os miúdos espojados em cima de colchões espalhados pelo chão estão "agarrados" ao palco. De pequenino é que se torce o pepino. Diz o povo e é verdade.
Acabada a peça há mais duas horas e meia de "oficina". Os miúdos aprendem a fazer marionetas que se mexem através de arames. E depois cada grupo faz a sua própria estória e representa. Duas delas foram realmente muito bem inventadas, estruturadas e contadas. Num canto, uma menina linda de olhos claros e cabelos loiros, recusa-se a entrar na brincadeira. Percebo-lhe a timidez. Num primeiro impulso quase lhe digo que vá, mas depois lembro-me de mim naquela idade e penso "eu era assim"... e fico onde estou.
Ao fim da tarde faço a estrada de regresso. Tenho saudades do mar. É a primeira coisa que procuro quando regresso a casa. E ele ali está, imenso como sempre... E eu, como a miúda olho de longe e espero que ele não me reconheça.

20 julho, 2008

War - Bob Marley (clica aqui)

Until the philosophy which hold one race
Superior and another inferior
is finally and permanently discredited and abandoned
Everywhere is war, me say war.
That until there are no longer first class
and second class citizens af any nation
Until the color of a man's skinis of no more significance
than the color of his eyes
Me say war.



Frente a frente


Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!

(Eugénio de Andrade)

Tenho mais que fazer


Já sei. Sou política e socialmente incorrecta quando estou com acessos de mau feitio. Mas que querem? Passados 10 dias ainda não percebi o que levou àquele tiroteio na Quinta da Fonte entre pretos e ciganos. Não percebi e continuarei sem perceber porque agora parece que só se fala nos ciganos voltarem ou não a ocupar as suas casas no bairro. Dizem que não se sentem seguros, que os pretos são dez vezes mais que eles, que são "cidadões" com os mesmos direitos que todos (deveres é que me parece que são muito menos, mas enfim, se calhar sou eu mesmo só por causa do mau feitio), mas alguém explicar porque é que houve o tiroteio ainda não ouvi. Fala-se à boca pequena em negócios de droga. Os ciganos teriam como ajudantes alguns pretos e a coisa parece que não correu bem... foi o que ouvi, mas não sei se é verdade.
O que sei é que a política usada para a integração dos ciganos é um disparate completo. Alguém disse que ser cigano não é raça é profissão. De resto uma profissão que eu gostava de ter. Não o modo como agora a maior parte deles ganha a vida, traficando droga e armas, mas a vida de saltimbancos que fez deles uma lenda... isso sim é que são ciganos de verdade e não de profissão. Querem integrar um povo que é português há mais de 500 anos? Que está instalado por aqui há mais de 500 anos? Cá para mim a culpa é da ASAE que lhes andou a lixar os negócios de contrafacção de roupa, cd's e dvd's... Desintegre-se a ASAE e os ciganos integram-se de novo... a ver vamos.

Nota: vou estar ausente por uns dias, ainda não sei quantos, os que me der na bolha como é costume. Tenho mais que fazer que aturar os coitados dos ciganos e dos pretos.

19 julho, 2008

Tiro ao Álvaro - Adoniran Barbosa e Elis Regina (clica aqui)

de tanto levar frechada do teu olhar
meu peito até parece sabe o quê?
tábua de tiro ao álvaro
não tem mais onde furar

teu olhar mata mais do que bala de carabina
que veneno e estriquinina
que peixeira de baiano
teu olhar mata mais do que atropelamento de artomovel
mata mais que bala de revórver

Discurso


E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

(Cecília Meireles)

Coisas que já não fazem parte do nosso mundo.


A notícia chega dos States... Muitos de nós dirão, só podia ser. Na verdade muitas das coisas que acontecem parece só serem possíveis nos USA. Se calhar as coisas até existem noutros países mas como não são noticiadas é como se não existissem. A comunicação social é que faz com que as coisas se tornem reais.
Estou a falar das mulheres padre que já existem nos USA e das mais quatro que estão para serem ordenadas. A excomunhão (julgo que é assim que se diz, e não como ouvi a Judite de Sousa dizer excomungação...) não as intimida e nem assusta. De facto não se entende porque é que o Vaticano insiste em ter apenas homens como sacerdotes. Excomunga mulheres que querem servir um deus em que acreditam e limita-se a pedir desculpa pelos actos dos padres pedófilos. Elas são ameaçadas de excomunhão por quererem trabalhar em algo que acreditam e que sabem com certeza fazer. Os padres pedófilos, pois, diz o Papa que o envergonham e espera que sejam submetidos à justiça dos homens. Ainda não ouvi dizer que algum deles fosse excomungado por abusar sexualmente de crianças... Extraordinário este mundo em que vivemos. E ainda ousamos criticar outras religiões. Com que moral?
O esperável é que as mulheres sejam autorizadas a dizer a missa e a dar os sacramentos tal como fazem os homens. Não o permitir é admitir que a mulher é um ser inferior, coisa que há muito tempo demonstraram não ser verdade. Quanto mais depressa o Vaticano mudar de ideias em relação a isto, melhor... para ele e para as mulheres que querem exercer uma actividade em que acreditam, sem estarem submetidas a qualquer castigo inventado por homens que se julgam capazes de substituir um ser que eles próprios consideram acima de todos.

18 julho, 2008

Amado Vanessa da Mata (clica aqui)

Sinto absoluto o dom de existir,
não há solidão, nem pena
Nessa doação,
milagres do amor
Sinto uma extensão divina

É tanta graça lá fora passa
O tempo sem você
Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer
Quero dançar com você
Dançar com você
Quero dançar com você
Dançar com você

Basta pensar em sentir


Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei-de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.

Viver é não conseguir.

(Fernando Pessoa)

Happy birthday dear Madiba.


Um dos homens mais brilhantes do século XX completa hoje 90 primaveras (talvez devesse dizer cacimbos, uma vez que é a época do ano no seu país natal), mas a verdade é que um homem que aos 90 anos continua a apelar à boa vontade dos homens só pode ter menos de 20... logo faz 90 primaveras, das quais lhe roubaram quase 1/3 mantendo-o encarcerado durante 27 anos. E quando saiu não era um homem como se poderia esperar com desejo de vingança. Sempre apelou à paz, enquanto cidadão e enquanto presidente (o primeiro negro) do seu país.
Infelizmente não há por aí muitos madibas e por isso o país não mudou grande coisa. Os homens quando não têm que comer são capazes de tudo, menos de tentar arranjar soluções para os problemas. A maioria das pessoas tem a tendência de culpar terceiros do seu infortúnio. Nunca se perguntam o que é que eu fiz de errado, deixa cá ver, vou tentar consertar, virar a vida, remar contra a maré... não. Os homens quando se sentem acossados, roubam, mentem, matam... desejam vingar-se daqueles que eles consideram os culpados de todos os seus males.
Nelson é brilhante. Porque sempre foi um homem de paz, mesmo quando era acusado de terrorista por defender a ideia de um país multirracial, onde não fosse crime nascer negro. Onde as pessoas fossem livres de se amarem, independentemente da cor da pele. Onde reinasse a igualdade. Querido Nelson, acho que foi tudo muito bonito, continua a ser um encantamento ver-te e ouvir-te mas, no teu país, negros viram-se contra negros. Matam, perseguem, obrigam a fugir quem não nasceu na África do Sul.
É pena que tenhamos todos uma memória tão curta e que o esforço e sacrifício de um homem tão brilhante quanto tu não cheguem para endireitar o mundo e despertar consciências. Tu fizeste (continuas fazendo) a tua parte.
Happy birthday dear Madiba.

17 julho, 2008

Banana Pancakes - Jack Johnson (clica aqui)


You hardly even notice it
When I try to show you this
Song it’s meant to keep you
from doing what you’re supposed to
like waking up too early
Maybe we could sleep
I’ll make you banana pancakes
Pretend like it’s the weekend now

Motivo da rosa


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

(Cecília Meireles)

Como é que eu fico?

O Algarve passou a ser Allgarve para 5% dos britânicos pioneiros residentes naquele pedacinho do nosso país. Isto é, passou a ser demasiado caro e obrigou-os a voltar ao seu país, abdicando do sol e temperaturas mais agradáveis o ano inteiro.
Com efeito a notícia é que é mais caro viver no Algarve que em Londres. Há até britânicos que vão a Londres com malas vazias que trazem carregadas de produtos mais baratos.
Outro dado curioso é o que se refere aos britânicos de classe alta que podem ainda pagar a vida no Allgarve. O carro é um Mercedes mas fazem compras no Lidl que segundo a reportagem é o supermercado que mais vende na região... sintomático, parece-me.
Com efeito da última vez que estive em Londres acabei por fazer umas comprinhas no Harrod's pela primeira vez, porque os produtos de marca que geralmente compro (são poucos, mas pronto, são aqueles de que a minha alma burguesa não abdica) eram mais baratos que em Portugal. A saber perfumes e cosmética. E deu-me um gozo saber que qualquer pelintra português já pode fazer compras no famoso Harrod's. Antigamente não ia mais longe que o Selfriedges mas agora já podemos ajudar a economia árabe em Londres e apreciar o mau gosto que representa a homenagem a Diana e Doddi naquele armazém... gostos! Muito duvidosos pelo menos para mim. E já agora como fiz uma foto dessa espécie de altar ali erguido em plena loja vou procurar para ilustrar esta página...
Seja como for. O abandono do Algarve pelos britânicos preocupa-me... é que eles fazem parte do meu ganha pão... e se forem todos embora como é que eu fico?

16 julho, 2008

Escândalo - Caetano Veloso (clica aqui)



Oh doce irmã o que é que você quer mais?
Eu já arranhei minha garganta toda atrás de
Alguma paz
Agora nada de machado e sândalo
Você que traz o escândalo, irmã luz
Eu marquei demais, tô sabendo
Aprontei demais, só vendo
Mas agora faz um frio aqui...

Acordar tarde


tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou

no dia seguinte
procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

(Al Berto)