20 outubro, 2007

I don't want to talk about it - Rod Stewart & Amy Belle (clica aqui)

Can you tell by my eyes
That I've probably been crying forever
And the stars in the sky
Don't mean nothing to me
They're a mirror

Acho tão natural que não se pense

Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa ...

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas. . .
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .

Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.

(Alberto Caeiro)

Saudades do meu tio da América


Eu tinha 7 anos quando o meu tio João da América me contou como tinha sido difícil começar a vida do outro lado oceano. Para que eu percebesse como tinha sido realmente difícil, para que eu entendesse que ele nem sempre tinha tido os bolsos cheios de dólares, o meu tio da América contou-me que quando chegou aos esteites a primeira casa que teve não tinha sequer um frigidére... eu fiquei tão aflita com aquela revelação que lhe perguntei logo se ele não podia sequer comer um ovinho estrelado. Então o meu tio da América soltou uma gargalhada bem sonora e apontando para o frigorífico da cozinha da minha avó, explicou-me que era aquilo o "frigidaire"...
Contava o meu pai que o tio João antes de ir para a América não era capaz de guardar dinheiro nenhum com ele. E ilustrava esta verdade com a seguinte estória: um dia o tio João chegou já tarde a casa e o meu pai já estava deitado no quarto que partilhavam e quase a dormir. Então o tio João deitou-se mas passado pouco tempo levantou-se e o meu pai perguntou-lhe se ele estava mal disposto. Ele respondeu que não mas que tinha recebido o salário semanal naquele dia e ainda não tinha gasto tudo, pelo que precisava de sair para a acabar de o gastar!
O meu tio da América não se tornou um homem forreta, muito pelo contrário gostava muito de dar presentes, mas não creio que tenha conseguido o que conseguiu tendo em NY o mesmo comportamento que tinha em Lisboa...
Tenho saudades tuas, tio.

19 outubro, 2007

Metade - Adriana Calcanhoto (clica aqui)

Eu perco o chão, eu não acho as palavras
Eu ando tão triste, eu ando pela sala
Eu perco a hora, eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim

Poema em linha recta



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenha agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe, todos eles príncipes na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ò príncipes, meus irmãos,
Arre estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
(Álvaro de Campos)

Apresento o meu tio da América.


O neto do último dos moícanos, vestido de forma sóbria e simples sobe a escada rolante na estação do Metro. Na carruagem comigo entra uma velha senhora americana, vestida desportivamente, sem grande aparato, a não ser os adornos em ouro americano, o cabelo pintado de louro e muito mal tratado, um boné branco na cabeça que não condiz com o resto bem como uns chinelos de "enfiar o dedo" de plástico e cheios de pedras brilhantes que eu diria terem sido comprados num "chinês"... e quase de certeza que foram, pois quem há hoje que possa dizer nunca comprei nada no chinês? Eu sei: contam-se pelos dedos de uma mão! Adiante...
Estas duas personagens (não me perguntem como é que eu sei que aquele homem vestido de cores neutras é o neto do último dos moícanos) é e ponto final, não faço parágrafo, fizeram-me recordar o meu tio da América.... pois é: o tio João, sempre carregado de presentes e dólares, oferecendo relógios em ouro (cá para mim comprava-os lá na Chinatown, só que nessa altura não havia chineses em Portugal senão os poucos que tinham os poucos restaurantes da especialidade... por falar nisso até já tenho saudades de ir à "Casinha Chinesa" se bem que a idade traz refinamentos e agora prefiro a comida japonesa e o serviço de excelência dos restaurantes japoneses... Mas voltando ao meu tio da América...
O João era mais velho uns anitos (poucos) que o meu pai e era tio dele... Aos 30 anos abandonou uma carreira de estofador em Portugal, fugindo a uma mulher que toda a vida o amou e a quem ele deixou grávida de uma filha que viria a ser imediatamente reconhecida quer por ele quer por toda a família mal nasceu...
Chegado a Nova York passou maus bocados como qualquer emigrante que se preza, mas resolveu apostar em si e fez um curso de decoração que fez dele um homem bem sucedido, não rico mas vivendo bem... Decorou várias casas de gente famosa e lembro-me perfeitamente do carinho com que ele falava de Bete Davis que segundo ele tratava toda a gente de igual para igual... quem diria com os papéis que fez ao longo da vida...
Quando o conheci ele tinha uma mulher porto riquenha chamada Inês e um filho da idade da minha irmã mais velha chamado John.
Estive com o meu tio da América várias vezes ao longo da vida e acho que vou voltar aqui para contar as suas estórias que são muitas e muito divertidas... Amanhã quem sabe?

18 outubro, 2007

Cotidiano - Chico Buarque (clica aqui)



Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor

Minha menina se foi ao mar

Minha menina se foi ao mar
a contar ondas e pedrinhas,
porém se encontrou, de pronto,
com o rio de Sevilha.
Entre adelfas e sinos
cinco barcos se mexiam,
com os remos na água
e as velas na brisa.
Quem olha dentro a torre
adornada de Sevilha?
Cinco vozes contestavam
redondas como anéis.
O céu monta elegante ao rio,
de margem a margem.
No ar cor-de-rosa,
cinco anéis se mexiam.


(Federico Garcia Lorca)

Juntos outra vez.

Quando me ofereceste o CD com as palavras que nunca mais me dirás, soube que as ouviria para sempre... soube que nunca mais as dirias mas que eu as ouviria sempre, para sempre, embora para sempre seja sempre longe demais... o que tivemos foi muito mais do que a maior parte das pessoas pode contabilizar na sua vida. 17 anos de paixão não é coisa de que qualquer um se possa gabar. E como foi possível? Graças a ti que estavas sempre presente, que nunca te cansavas de conversar, de rir de me dizer várias vezes ao dia, amo-te, quero-te e eu acreditava quando o dizias, sempre que o dizias porque sabia que era verdade, que era a maior verdade à face da terra, aquela que nunca ninguém poderia desmentir, aquela em que acreditaria, acredito para sempre... porque tu eras de verdade. Se eu voltava do cabeleireiro com o cabelo curto era um drama, só o fiz uma vez, tu não disfarçavas, por mais que eu te dissesse, vai crescer daqui a 2 meses já tenho imenso cabelo outra vez, tu nada, mudo e quedo, foram os dias mais difíceis da minha vida... mas duraram tão pouco se comparados com todo o tempo que vivemos juntos, com tudo o que passeámos, com tudo o que rimos, de tudo e de nada e até de coisa nenhuma...
Quando dizias meu amor, eu sabia que era verdade. E eu nunca mais disse meu amor a alguém do mesmo modo que te dizia a ti... porque aquilo era mesmo um sentimento de verdade, algo que cultivávamos que queríamos que crescesse... e cresceu, amadureceu e mal me apercebi que estava a apodrecer decidi terminar... decidimos eu acho... não foi propriamente pacífico mas rapidamente percebemos que não podíamos deitar fora tudo o que vivemos juntos e transformámos o que tínhamos em amizade, companheirismo, atenção, cuidado com o outro... estás bem, as férias foram boas, como está tudo... temos saudades um do outro mas já não é aquela coisa que doía no corpo. É um sentimento fácil e bom que se desvanece quando nos encontramos... e um dia destes vamos almoçar juntos... outra vez.

17 outubro, 2007

Dor Elegante - Chico César (clica aqui)

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante
Hum! Hum!...

No exato automóvel


No exato automóvel, viajamos.
Em corpo e nervos, sal, angústia, grito.
Suor, temor da noite, aonde vamos?
Direita, esquerda? (Cruzamento) . Hesito.
Onde? Por onde? Somos dois, calados.
A chuva alaga o universo à volta.
À beira dágua, acenam-nos soldados.
Soam no escuro os passos de uma escolta.
Finco as mãos no volante. Derrapagem
— ou medo apenas do que vai comigo?
Já está próximo o termo da viagem.
Apertamos as mãos. "Saúde, amigo".

(Daniel Filipe)

Só quero viver assim...

Cansada dos teus conselhos, viajo. Cansada tão cansada das mesmas palavras, as mesmas teorias eu sei que daqui a uns dias esqueço que estou cansada, esqueço como me cansas, esqueço como me sinto só quando estou contigo e apareço do nada e não te surpreendo porque já sabes que é sempre assim, entre nós não existe nada que possa ser nomeado é uma coisa que nenhum de nós sabe o que é, mas agora digo para mim que não quero mais sentir-me assim, quero ficar sozinha para não me sentir só, não quero mais o peso da tua presença, essa coisa maléfica que me pesa como um fardo, tudo em ti me pesa, tudo em ti me dói, não sei se é dor, não sei se é amor, não sei o que é, não gosto de ti não sei o que é, não gosto da tua vaidade não gosto dessa maneira tão única como dizes eu é que sei, é como digo, o que os outros te dizem não é verdade, eu é que sei, eu é que vi, eu é que vou contar... contar o quê? As teorias com que tentas explicar o dia a dia, uma vida que eu quero simples e tu queres achar razões para tudo, para cada passo que eu dou, para as minhas crenças e para a minha descrença, queres esmiuçar tudo o que sinto e eu... eu só quero seguir este caminho que tenho para percorrer, da melhor maneira possível, sem procurar grandes teorias que me expliquem porque é que esta flor é desta maneira e aquela de outra... que me importa se a mim basta olhar e ver a beleza de cada coisa, de cada pequena coisa que nasce e cresce à minha volta, enquanto vou passando sem que me ouças porque se me ouvires lá vens com as tuas teorias estragar cada momento de silêncio ou nem por isso que eu amo.

16 outubro, 2007

Trova do vento que passa - Adriano Correia de Oliveira (clica aqui)

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Desnecessária explicação


Que importa a melodia,
se acaso aos outros dou,
com pávida alegria,
o pouco que me sou?

Que importa ao que me sabe
estar só no meu caminho,
se dentro de mim cabe
a glória de ir sozinho?

Que importa a vã ternura
das horas magoadas,
se ao meu redor perdura
o eco das passadas?

Que importa a solidão
e o não saber onde ir,
se tudo, ao coração,
nos fala de partir?

(Daniel Filipe)

Todos os dias.

O homem bojudo caminha freneticamente, esperando assim perder o bojo, suponho... ficará tão cansado àquele ritmo que não voltará a ter coragem para fazer outra caminhada e viverá para sempre com o seu bojo, quiçá um pouco maior dentro de pouco tempo? Homem bojudo ouve o que te digo, desacelera e curte o passeio já viste quanta coisa bonita existe ao longo do percurso para apreciares? E se voltares amanhã verás que tudo o que te rodeia está diferente mas continua encantando os nossos olhos e os nossos sentidos...
Ali em baixo, num pedaço de areia deixado pela maré vazia, um homem alto e magro de slip azul come uvas que vai tirando de um saco... há bastante tempo que está a comer e parece-me que o saco tem um fundo falso... desisto e continuo, certamente o homem faz o milagre da multiplicação!
Uma mulher caminha de calções, parando com frequência para fazer exercícios que ninguém compreende o que os obriga a virar o pescoço para trás para tentarem perceber o que ela pretende com aqueles gestos que pretendem ser exercícios e serão certamente, que o facto de não nos serem familiares não quer dizer que não o sejam pois claro e mal acaba um desses exercícios retoma a caminhada cada vez com mais vigor o que me faz pensar que os exercícios que faz e provocam a admiração de todos, para além de existirem são realmente de muito boa qualidade quer para o corpo quer para o espírito...
Mais adiante uma mulher velha frente a um cavalete pinta o mar e as rochas numa pequena tela e fico surpreendida com a qualidade de cada pincelada e com a o quadro que vai nascendo de todo o movimento que a mulher observa olhando o mar...
São as pequenas coisas da vida pequena que levo e que tenho a ousadia de considerar tão bela e tão útil. Todos os dias.


15 outubro, 2007

Homens - Manu Chao (clica aqui)

todo homem que se preza tem que impor respeito,
saber ouvir, falar, escutar, ter dinheiro, celular,
ser bom de cama, e te respeitar...
se o homem não tiver nenhuma dessas virtudes,
saia de perto e tome uma atitude

Barbearia

Na barbearia às escuras
Júlio Chaúque foi barbeado
quando voltava da machamba de milho.

Os que viram
dizem que Júlio foi escanhoado
até às carótidas do colarinho
em requintes de gilete
dos facões de mato.

Os barbeiros do Chaúque
deixaram em toalhas de folhas secas
congruentes nódoas roxas.


(José Craveirinha)

Tenho mau feitio


Tenho mau feitio. Vou logo avisando para que não haja surpresas... e as pessoas acham que quando digo isto estou brincando... não estou. Tenho mau feitio. Mesmo! Há muitos anos que deixei de me apresentar com o meu lado feliz e prefiro apresentar-me com o meu lado escuro, ou como diria o Tê o meu lado lunar.
E porque tenho mau feitio há uma série de coisas que não suporto e que me fazem passar a não tolerar as pessoas quando fazem esse tipo de coisa. Não suporto por exemplo, que me tentem comprar, seja lá de que maneira for, dos presentes às tentativas de mimo e digo tentativas porque depois de me tentarem comprar nada passará de tentativa... arredo e não deixo que se aproximem mais de mim. "À primeira todos caem e à segunda cai quem quer (eu já tenho caído à segunda quando quero muito bem a alguém) mas à terceira só caem os parvos". Ouço este ditado desde pequena e sei bem que a maior parte das vezes, a maior parte das pessoas passa a vida a perdoar... mas eu tenho mesmo mau feitio. Não perdoo, não esqueço e tudo o que quero é distancia... de quem me tenta sacanear.
Não é que eu goste de ter mau feitio. Não é que eu goste de não conseguir perdoar. Juro que não é isso. É mesmo uma incapacidade... só que já aprendi a viver com ela e não seria capaz de começar a perdoar só porque me falam em tom musical...

14 outubro, 2007

Bom Conselho - Chico Buarque e Eugénia Melo e Castro - Clica aqui

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado,
quem espera nunca alcança

Uma voz na pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do
vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo
numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do
vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de
sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da
chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o
silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total
abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e
de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor
em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o
olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul
da presença.
Não sou a destruição cega nem a
esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma
palavra.

(António Botto)