20 agosto, 2007

A palavra mágica

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.




(Carlos Drummond de Andrade)

Boa semana.

Começa a semana. Então começo por dizer que ele sempre há gente muito pouco oportunista. Ao contrário do que se diz por aí à boca escancarada... Então um tipo paga cerca de 1000,00 euros por umas fériazinhas normalíssimas na Jamaica e quando lhe sai o brinde quer vir embora, que já não tem espírito para férias? Balha-te deus Vítor não sei das quantas... olha meu, como se diz na minha terra, isso nem parece de um verdadeiro tuga! Cá para mim tens umas costelas fora do sítio! Então dão-te um furacão absolutamente de borla e tu em vez de aproveitares para fotografar e curtir uma coisa que muita gente não viverá jamais, queres é vir para junto da família e dos amigos? Balha-te deus home! Pelo menos a Sónia, essa é cá das minhas. Pagou, fica com direito a brinde e tudo... essa sim é uma verdadeira tuga, como a Maria da Fonte, que teve direito a estátua durante muitos anos num dos largos principais da cidade de S. Paulo da Assunção de Luanda!
Fazem anos que eu saiba a Rita, o António, uma locutora da RFM de que não recordo o nome e mais uma quantidade de gente que não conheço tais como os que acabo de mencionar. Faz anos a Manuela que eu conheço e a quem dei os parabéns logo de manhã. Para o ano exijo que faças festa rija... espero que saibas porquê... se não descortinares fala comigo num pé de orelha que eu logo te digo... Mais um beijinho para ti, sotôra...
E pronto... acabou uma semana em que o Eduardo chegou e disse, tirou o chapéu e... logo se verá. Mas lá que o que disse é tudo verdade lá isso é! Pelo menos para mim que penso igualzinho a ele. Beijo também para ti.
Boa semana para todos.

19 agosto, 2007

DESTE LINDO LUGAR MAL FREQUENTADO

Entristeço-mo neste final de domingo que passei fazendo ranço e por entre pensamentos dispares e ocorre-me que importantes são as pessoas e não as pessoas importantes.
Vivo num país que muito gosto mas onde se confunde notoriedade com popularidade rasca e artificial e onde os arautos e não só arautos da política se esqueceram à muito tempo que são eleitos porque se propuseram defender as pessoas e dignificá-las e depois de eleitos apenas protegem os seus interesses e os dos seus acólitos como se o povo não fosse feito de gente.
Vão-se revesando no poder e criando pequenos sistemas totalitaristas para se governarem a bel-prazer à conta do Zé Povinho hoje sem dúvida zé-otario.
Se Sócrates fosse vivo certamente morreria de vergonha com as idéias peregrinas do seu homónimo e só certamente a decepção justifica o facto de raramente o pai do nosso primeiro se deixar ver.
Deixem-se estar portugueses que qualquer dia quando quiserem reclamar a multa de transito têm que deixar o Sr. Guarda apalpar-vos a mulher e a filha e se o gajo for tarado até a mãe.
Bem Hajam

Todo o Tempo do Mundo - Rui Veloso -

Houve um tempo em que julguei
Que o valor do que fazia
Era tal que se eu parasse
o mundo à volta ruía
E tu vinhas e falavas

falavas e eu não ouvia
E depois já nem falavas
E eu já mal te conhecia

Morre lentamente

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Morre lentamente...


(Pablo Neruda)

Pois sou!

Acabo de ouvir Rui Veloso na canção que decidi publicar hoje. É assim que me sinto depois de mais um fim de semana neste Agosto tão sossegado que corre o risco de virar um tédio. Quando sinto que tenho realmente todo o tempo do mundo, não só para ti mas para toda a gente. Quando sobretudo tenho todo o tempo do mundo para mim. Quando tenho que inventar coisas para fazer, ou simplesmente aproveitar o sossego e gozá-lo.
Acabei hoje o Bom dia camaradas de que vos falei ontem aqui. Confesso que a morte do camarada António no dia em que se anuncia finalmente a paz em Angola me fez vir uma lágrima ao olho. E olhem que isto não é normal. Não sou de me derramar em lágrimas com livros ou filmes... ficção é ficção e está a andar. E eu sei que o livro de Ondjaki conta apenas a estória de um certo período da infância, o final, mesmo antes de entrar na adolescência, quando começamos a pensar que sabemos tudo da vida, quando passamos os piores e os melhores momentos das nossas vidas. Quando se fazem amizades que duram para toda a vida ou se desfazem por circunstâncias da vida em pouco tempo... mas guardamos a lembrança dessas amizades e de vez em quando sem sabermos porquê, vem-nos à ideia e resolvemos procurar saber das pessoas que em certa altura nos disseram alguma coisa... é claro que já me tem acontecido achar que não vale a pena entrar em contacto com alguém porque os percursos, as opções de vida foram tão diferentes que não valem o desgaste de uma tentativa de reaproximação. Eu sei que isto pode chocar muita gente, mas é assim que penso. Sou elitista sim senhor. Ah pois sou!

18 agosto, 2007

Beijo Roubado - Ney Matogrosso (clica aqui)

Para mim está tudo errado
Beijo roubado tem mais sabor
Pra mim está tudo errado
Beijo roubado tem mais calor

Um céu e nada mais


Um céu e nada mais - que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul - como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
ímplodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais -que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.

(Ana Luísa Amaral)

Bom dia camaradas

É o título do romance de Ondjaki que estou a ler e que me transporta a uma infância bem diferente da minha, mas contendo os mesmos cheiros e cores. Digamos que eu sou a tia Eduarda da estória de Ondjaki. Aquela que viveu em Luanda no tempo dos tugas, quando os pretos eram maltratados, pelo menos segundo a informação oficial que o menino que escreve tem e que não consegue confirmar com o camarada António que trabalha como cozinheiro para a família e para quem vinte minuto é tempo para tudo e para mais alguma coisa. Aquela que vive em Portugal aonde não são necessários cartões de racionamento e onde o presidente da república pode passear a pé ao domingo sem guarda-costas, ao contrário do presidente angolano que se faz rodear do aparato de dezenas de batedores que obrigam os condutores a pararem e sair dos automóveis para que haja a certeza de que ninguém tem intenção de cometer um atentado contra o presidente dos Santos.
Ondjaki como sempre escreve com muita cor. E tenho lido muitas estórias sobre a Angola pós colonial mas, só neste romance entendo a dimensão exacta em que vive o povo angolano. Talvez Ondjaki tenha a sorte de ser um puto novo e de ter começado a escrever numa altura em que a censura é menos rígida. Mas há uma coisa que ele tem que não tem nada a ver com sorte. É o talento de um contador. Por isso um dia destes comprei de uma vez três livros dele que ainda não tinha e estou inquieta para acabar este e começar o próximo.
Querido Ondjaki, recebe um beijo desta tua tia Eduarda que te dá os parabéns por seres só e apenas o que és: escritor!
Boas estigas!

17 agosto, 2007

Love kills - Freddie Mercury

Love kills - thrills you through your heart
Love kills - scars you from the start
It's just a living pastime
Ruining your heartline
Stays for a lifetime won't let you go
Cause love (love) love (love) love won't leave you alone

Último tesão



Alombo contigo há uma porção de anos
e vou-te dizer és um chato
não tens ponta de paciência
para a vida nem para ti próprio

já te ouvi discursos a mandar vir
já te carreguei às costas
bêbedo como um Baco de aldeia
mijando as ceroulas
és um adolescente retardado
faltou-te sempre a quadra do bom senso

vez por outra um livrinho
de versos vez por outra nada
qualquer um do teu tempo
está bastante melhor do que tu
deputado administrador de empresa
ministro da maioria
puta (alguns chegaram a isso)

só tu meu inocente brincas com a neta
açulas o cão pedindo
à família que te ature
o tipo um dia destes morde-te
que é para aprenderes

mas aqui entre amigos
vou-te dizer também
uma coisa importante não cedas
à tentação de mudar
fica nesta pele que é tua

como é que tu escrevias
merdalhem-se uns aos outros

o país mete dó

guarda o último tesão
para mandares
meia dúzia de canalhas à tabua




(Fernando Assis Pacheco)

Em paz com a vida.

Considerei o conselho do Bartolomeu e a minha experiência e atravessei de novo a Ponte Vasco da Gama. Para mergulhar não no rio, mas na vida como aconselhou o meu filósofo de serviço.
Não sei porque é que as pontes me fazem bem, especialmente a Vasco da Gama. Esta se calhar é só por ser tão grande que dá tempo para pensar na vida enquanto a atravessamos, usando a faixa direita, quem tiver pressa que vá andando que o que eu quero mesmo é recuperar o meu equilíbrio. E consegui. Mas acho que nunca atravesso uma ponte sem me lembrar do Professor Agostinho da Silva, dizendo naquele tom monocórdico mas expressivo que um homem nunca atravessa duas vezes a mesma ponte. Ele é que sabia das coisas! Quando cheguei à margem esquerda era uma e quando regressei à margem direita era outra pessoa. Era de novo uma pessoa feliz.
Pois a boa disposição voltou, já não estou zangada, nem com a vida nem com ninguém. Mesmo assim EGV tens que me desculpar não ter aceite o teu convite de hoje mas repetir Porto em tão pouco tempo seria dose demasiado grande. Sobretudo quando o tempo não se anuncia grandes coisas lá para aquelas bandas, amigo. Mas custa-me sempre dizer-te não, porque sei que tu és o AMIGO de todas as horas, aquele com quem não preciso de estar constantemente em contacto porque me conhece quase tão bem quanto eu mesma.
A nossa conversa ao telefone também me ajudou e é preciso que saibas isso.
Não. Não te vou cobrar nada, já sabes. A porta está aberta quando quiseres, como sempre esteve e sempre estará. Quem tem um amigo como tu pode dispensar muita coisa desta vida. Portanto mais uma vez desculpa mas receei que não fosse boa companhia este fim de semana... fica para a próxima.
E para a próxima fica também outra zanga que esta já passou. Estou em paz, com a vida.

16 agosto, 2007

Jeito estúpido de te amar - Maria Bethania (clica aqui)

Eu tento achar um jeito de explicar
Você bem que podia me aceitar
Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser
Mas é assim que eu sei te amar

E de novo, Lisboa



E de novo, Lisboa, te remancho,
numa deriva de quem tudo olha
de viés: esvaído, o boi no gancho,
ou o outro vermelho que te molha.


Sangue na serradura ou na calçada,
que mais faz se é de homem ou de boi?
O sangue é sempre uma papoila errada,
cerceado do coração que foi.


Groselha, na esplanada, bebe a velha,
e um cartaz, da parede, nos convida
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:
dizem que o sangue é vida; mas que vida?


Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,
na terra onde nasceste e eu nasci?


(Alexandre O´Neill)

Que cansaço!

Devíamos nascer de geração espontânea. Poupava-se uma quantidade de trabalhos e chatices. A família, filhos incluídos, pode ser uma coisa muito bonita mas dá um trabalho que às tantas só apetece fugir. Para muito longe, sem contactos, para que ninguém nos encontre... mais ou menos como quando desapareci para Malta (só que levei telemóvel). Acabada de chegar ao hotel o meu filho mais velho liga-me dizendo que vinha passar o fim de semana a casa (ele fez o curso em Santarém) e ia caindo para o lado quando eu respondi que ele até podia ir passar o fim de semana a casa mas eu não estava lá... é claro que esta estória é uma das muitas que ele conta a meu respeito, quando quer ilustrar a mãe que tem.
Pois é isso que me apetece fazer... e se calhar vou mesmo fazer: desaparecer para que ninguém me ponha a vista em cima, esquecer o telemóvel em qualquer parte e mergulhar no mar até ficar sem fôlego, até me sentir de alma lavada. Fazer de conta que o meu mundo sofreu um terremoto e só sobrei eu.
Mas nesta altura não é fácil arranjar um cantinho onde ficar e está demasiado frio para dormir na praia. Pelo menos para mim que sou um animal de sangue frio que só se sente bem ao sol.
Eu sei. Amanhã já me terá passado a zanga, mas hoje realmente estou furiosa. Porque toda a gente está sempre à espera que eu esteja disponível quando lhes apetece, como se eu não tivesse vida própria.
Que cansaço!

15 agosto, 2007

Esse cara - Maria Bethânia (clica aqui)

Ele está na minha vida porque quer
Eu estou pra o que der e vier
Ele chega ao anoitecer
Quando vem a madrugada ele some
Ele é quem quer
Ele é o homem
Eu sou apenas uma mulher

Segredo


A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

(Carlos Drummond de Andrade)

Só para sobreviver


Atravesso Lisboa pela segunda circular. Chove. Chove e eu tenho a sensação de que a chuva é bem vinda. Tenho saudades de caminhar à chuva. Dirijo em direcção à ponte Vasco da Gama e a chuva vai caindo, cada vez mais forte. A meio da ponte começa a rarear, sinto o sol bater-me na cara, penso a chuva fica em Lisboa e eu aqui, olhando o rio que corre sossegado, este rio que não sabe porque é que chove na margem direita e não na margem esquerda...
Conduzo só por prazer, porque me apetece fugir de ti, de mim, de nós da nossa estória que é a única que conheço que não tem princípio, meio e fim... Porque parece que nunca começou, logo nunca aconteceu, nunca poderá terminar... olhamo-nos como estranhos que se querem. Temo-nos e depois fica um sabor de e agora o que é que fazemos? Somos tão diferentes, não há nada em comum, nada de amor, só desejo... mas é claro que tu dizes que não. Que não seria possível manter uma relação assim sem amor... mas é! Tu não sabes, tentas mentir a ti mesmo, porque as convenções dizem que uma relação destas só se mantém com amor. Mas é mentira meu querido. Sabes... neste mundo tudo é possível. Podemos inventar o que quisermos, com eu te invento todos os dias. É preciso sobreviver... já ninguém acredita que pode viver senão as crianças. Sabemos que para sobreviver temos que nos reinventar todos os dias, interpretar novos papéis... e é preciso fazê-lo bem feito. É preciso mostrar a todos que somos capazes... de sobreviver.

14 agosto, 2007

When You Kiss Me - Shania Twain (clica aqui)

And when you kiss me
I know you miss me
Oh, the world just goes away
When you kiss me

Souvenir




Como é doce e triste por vezes ouvir
Algum som antigo trazido à memória,
E ver, como em sonhos, algum rosto querido,
Trecho de paisagem, campo, rio ou vale,
Lembrança tão breve, triste e agradável,
Algo que recorde o tempo bom da infância.
Então em dor feliz as lágrimas brotam,
Esse choro subtil que na mente aguarda,
E tudo o já sentido - campo, rio e voz -
Toma outro alcance, na memória adornado,
E lento emerge em fantasiosa luz.
Mas, ai, eis que acordo p'los sonhos traído!
O que sinto e ouço apenas ilusão,
Porque o passado não pode regressar.
Estes campos não são os que eu conheci,
Os sons não são os que ouvi; tudo passou
E tudo o que é passado, ai, não volta mais.


(Alexander Search)