07 agosto, 2007

Poema de um funcionário cansado



A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

(António Ramos Rosa)

Viver é preciso.

Recebi dois comentários mais ou menos sobre o mesmo tema: mulheres e amor. Um dos comentários não vai ser visto pela maior parte das pessoas uma vez que foi feito a uma crónica que escrevi em 27 de Maio de 2006 intitulado Mistérios. Se se derem ao trabalho de espreitar ficarei encantada... Se usarem a barra de cima "pesquisar blogue" e escreverem a palavra encontram a crónica com este nome.
Pois claro que sou vaidosa e que fico babada porque o Bartolomeu me chamou inteligente... mas não mais que a média meu amigo, não mais que a média... e já agora: tu não és "engraçadinho", és mesmo engraçado, quer dizer tens humor, tens piada... gosto de ti, pronto!
Talvez eu tenha a meu favor o facto de gostar de pensar que é um hábito que me parece que se vem perdendo ao longo dos anos. A vertigem em que vivemos nestes últimos séculos parece que não deixa tempo a respirar. As pessoas têm tendência a querer viver tudo de uma vez e acabam por não gozar realmente nada da vida... embora estejam convencidas que sim.
Convencemo-nos por exemplo, que as férias só existem de verdade quando nos atordoamos numa montanha de compromissos que incluem noitadas que nos deixam de rastos no dia seguinte e impossibilitados de gozar um nascer do sol a preceito (é claro que existe sempre a possibilidade de o fazer após uma noitada, mas garanto que são coisas perfeitamente diferentes: se se levantarem de propósito à hora do nascer do sol para assistirem ao espectáculo a coisa é bem mais impressionante!) E assim por diante. Durante o ano são os afazeres que nos deixam sem tempo e nas férias a ocupação ao máximo de todo o tempo... e ainda há aqueles que aproveitam para pôr o sono em dia como se isso fosse uma coisa possível...
Tempo para pensar? Não há. E é por isso que eu acho que sou uma felizarda. É que descobri há uns anitos ao olhar-me ao espelho que o tempo tinha passado por mim sem que eu desse por isso. E nesse dia decidi que ia deixar de correr. E deixei na medida do possível: não corro para apanhar transportes, não corro para nada a não ser que seja uma verdadeira urgência, questão de saúde ou outra verdadeiramente inadiável. Daquelas que nos acontecem felizmente de longe em longe...
E comecei a ter tempo para outras coisas como por exemplo pensar em não correr, pensar na beleza que têm as pequenas coisas da vida, parar para fotografar uma papoila ou uma pedra... Querem um bom conselho? Deixem de correr e vão ver que passam a ter muito mais tempo para pensar e para viver...

06 agosto, 2007

La valse a mille temps - Jacques Brel (clica aqui)

Une valse à trois temps
Qui s'offre encore le temps
Qui s'offre encore le temps
De s'offrir des détour
Du côté de l'amour
Comme c'est charmant
Une valse à quatre temps

Um dia branco



Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.


Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.


Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.


Um dia em que se possa não saber.


(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Já sei o que me faz falta...

Acabo de ler os comentários do Bartolomeu e reparem que ele está ansioso para que eu pergunte onde tem andado. Realmente não vou perguntar Bartolomeu. A minha curiosidade não é maior nem menor do que a maioria das pessoas, simplesmente não gosto de fazer perguntas, assim como não gosto que mas façam. A gente fala quando lhe apetece não é verdade? Se as pessoas perguntassem menos teriam menos respostas mentirosas...Posto isto passemos ao assunto do dia se é que há assunto do dia... a ver vamos.

Levanto-me cedo para regressar ao trabalho e sentada à mesa do pequeno almoço, ainda mais a dormir do que acordada penso que não faz sentido este ciclo de vida. Tenho que descobrir algo mais interessante do que trabalho casa, casa trabalho, de vez em quando uns "fait divers", as mesmas notícias todos os dias, depois umas férias e tal e coisa e volta ao mesmo e coisa e tal. Eu sei que vocês me entendem.
Estamos em Agosto, posso sair de casa um pouco mais tarde, a cidade está adormecida, mais adormecida que eu quando entro... na cidade.
Aproveito para retomar as minhas leituras. Ao contrário da generalidade das pessoas que lêem quando estão de férias eu leio o ano todo e muitas vezes intervalo nas férias. E assim hoje comecei a ler Viagens Almas e Vidas que me ofereceu a filha de Pepe para que eu lesse durante as férias... pois é amiga. Comecei hoje e depois de amanhã estará acabado porque é um gosto ler sobre viagens tão extraordinárias e tão bem fotografadas. E sobretudo sabes, finalmente "conheço" alguém que prefere viajar só a maior parte das vezes. Aliás o que eu penso acerca disto é que a maior parte das pessoas nunca virá a saber o gozo que dá viajar só porque nem sequer tentará... mas lá que é bem divertido e que a adrenalina em situações menos claras é muito maior, lá isso é... dizem-me que sou aventureira, que é um risco muito grande, quero lá saber. Gosto de sentir aquele friozinho no estômago de quem está só num país absolutamente estranho e onde não se conhece ninguém quando se chega e onde se fará certamente pelo menos um amigo...
Pronto já descobri o que me estava a fazer falta ao pequeno almoço: umas férias para viajar sozinha...

05 agosto, 2007

Entre o silencio e a vertigem - Nuno Norte (clica aqui)

Sim esta é a minha rua
a minha sala, o meu quarto, o meu colchão
em vez de janelas há estrelas
e o tapete o passeio, as pedras do chão
o candeeiro a luz da lua
o cobertor caixas forradas de papel
em vez de vontade o cansaço
em vez de um beijo o vento a rasgar-me na pele

Poeminho do contra



Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

(Mario Quintana )

A pior de todas as doenças.

A vida é assim. As pessoas conhecem-se, amam-se (ou não), juntam-se, separam-se, telefonam-se primeiro com frequência, depois cada vez menos e esquecem. Esquecem é uma forma de dizer. De longe em longe a gente lembra. Há quem lembre o que foi bom e quem lembre o que foi mau. Sobretudo quando se tem a noção de que para não voltar a errar é preciso lembrar o que foi mau para não voltar a acontecer.
A vida é assim. Há gente que vale a pena e gente que não vale a pena. Quando as pessoas valem a pena as estórias ficam como uma terna lembrança que podemos acarinhar nos nossos piores momentos. Mas quando não valem a pena o melhor é mesmo lembrar o pior para não voltar a cair. Não correr o risco de novo... Porque, acho que acontece o mesmo com toda a gente, é difícil livrar-mo-nos das pessoas que não valem a pena. Pegam-se-nos como lapas, não desistem nunca, infernizam-nos o dia a dia e só nos deixam em paz (quando deixam) quando encontram a próxima vítima. Aí podemos respirar de alívio.
Tenho impressão que neste aspecto de ficarem a sarnar as relações acabadas, as mulheres são na generalidade, piores que os homens. Talvez porque haja pouca oferta no mercado, os homens rapidamente arranjam uma nova companheira. E muitas mulheres têm medo da solidão. Não se habituaram a ser independentes e então têm pavor de ficar sós. Sujeitam-se às maiores vilezas por parte dos parceiros só para não ficarem sozinhas. E muitas vezes só terminam uma relação completamente acabada quando lhes aparece outro homem por quem se apaixonam. Porque até aí vão dizendo que não aguentam mais que um dias destes é de vez mas qual quê... se não tiverem alguém que lhes dê o empurrãozinho necessário ficam para o resto da vida vivendo uma existência que não suportam... só que têm medo do que não conhecem. E o que não conhecem, chama-se ficar a sós consigo mesmas... e quando têm a coragem de o fazer, de dar o passo de gigante, aí dizem porque é que eu não fiz isto há mais tempo? Porque é que eu aguentei tantos anos? Porque me deixei chegar ao esgotamento. Por medo! E não há o que temer. A solidão só existe para as pessoas que não gostam de si mesmas. Na generalidade nós somos mesmo as melhores companhias que podemos ter. Acreditem.
Já o meu pai dizia que o caçaço é a maior de todas as doenças!

04 agosto, 2007

It Had Better Be Tonight - Michael Buble (clica aqui)

If you’re ever gonna kiss me
It had better be tonight
While the mandolins are playing
And stars are bright
If you’ve anything to tell me
It had better be tonight

O fantasma

Sou o sonho da tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!.

(Álvares de Azevedo)

A sala não existe.

Há dias assim. A saudade aperta e não há nada a fazer. Penso que vou ter que passar pela tua porta e vou continuar a não conseguir entrar. Não me perguntes porquê. Eu sei que gostarias que entrasse. Mas não sou capaz A sala tornou-se uma coisa. Uma coisa sem vida. Porque tu não estás lá. Penso no que farei quando a sala for ocupada por outra pessoa. Como conseguirei entrar quando tiver mesmo que ser. Quando não puder pedir a alguém que o faça por mim. Como farei?
A tua presença tem dias assim. Dias em que estás comigo mais tempo e mais intensamente. A olhar o mar, sentadas na areia, a brincar com coisas sérias e tu sempre a dizer-me o jesus castiga, não sejas mázinha e a rir, sempre a rir, sempre a rirmos.
E depois almoças comigo, melhor dizendo petiscamos que nem uma nem outra somos de almoçaradas. Pelo menos comigo é assim. Há quem diga que gostas de almoçaradas mas eu nunca dei por isso. Aprecio a tua companhia e isso é que faz do que comemos o almoço. O riso, a maldadezinha sem segundas intenções só para desabafar, só para dizer que estamos aqui, estamos bem, nenhuma de nós partirá nem hoje nem amanhã nem nunca.
Apenas me aflige a sala. Não sei como fugir da sala. Não sei como enfrentar a sala quando não for mais a tua sala. Desculpa. Não é já a tua sala... sei lá. Não se explicar. É mas não é uma vez que não estás lá para lhe dar vida. Uma vez que partiste e deixaste tudo intacto. E depois houve quem mexesse nas coisas. As tuas coisas. Eu não gosto que mexam nas tuas coisas. Preferia não saber. Faz-me impressão pensar que alguém mexe no que é teu. Será sempre teu. Não gosto de saber que se sentam na cadeira em que te sentaste tanto tempo. E nessa altura era apenas uma cadeira. Só depois se tornou na tua cadeira. Não sei como viver com isto. Não consigo arranjar maneira.
Agora só quero continuar como estamos. As duas aqui. A rir. A brincar. E neste momento a sala não existe. Não existe, pronto!

03 agosto, 2007

Canção do Engate - António Variações (clica aqui)

Tu continuas à espera
do melhor que já não vem
e a esperança fio encontrada
antes de ti por alguém
e eu sou melhor que nada





Se alguém bater um dia à tua porta



Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!

(Fernando Pessoa)

À espera da vida...

Como não sei sobre o que escrever decidi dedicar mais tempo a uma fonte de inspiração preciosa, a saber o comentador de serviço aqui do Meu Tempo, Bartolomeu. É claro que estou a entrar contigo querido Bartolomeu. Afinal se fosses comentador de serviço terias que ser pago para isso e não és. Que eu cá sou uma pelintra Bartolomeu. Uma verdadeira pelintra que vive sobretudo do riso, da gargalhada e da boa disposição, mesmo quando tudo vai ruindo à minha volta...
Por isso és tão importante para mim. E por isso hoje não me esqueci de levar a digital para a praia e fotografei o automóvel do senhor que passa o dia em cima da rocha (hoje reparei, que enquanto na posição de deitado, sempre de barriga para baixo, se calhar sofre da coluna, tadinho e precisa de apanhar sol nas costas). É curioso que estando muito mais tempo na praia do que eu, continua branquinho como no primeiro dia em que apareceu. E olhem que eu quase não apanho sol, é uma horita, horita e meia e está no ir que começo a ficar aflita com a cocegeira nos braços...
Pois mas isto hoje vem a propósito da hipótese levantada por Bartolomeu de eu me apaixonar pelo senhor da rocha e do automóvel tapadinho (deve ser para não se constipar)... só gostava que tivesses visto o que eu ri quando li o teu comentário Bartolomeu... só de imaginar o que faria uma mulher com o meu speed com um emplastro daqueles quase morri de rir... realmente Bartolomeu não me aflijo por aquele lado. Tenciono continuar desapaixonada e se tiver que ser que seja por alguém que tenha pelo menos metade da minha pedalada, senão não vale a pena. Já gastei (repara que não digo perdi) muito do tempo da minha vida à espera... da vida!

02 agosto, 2007

Satisfeito - Marisa Monte (clica aqui)

Você me deixou satisfeito
Nunca vi deixar alguém assim
Você me livrou do preconceito de partir
Agora me sinto feliz aqui
Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho
Vivo tranqüilo, a liberdade é quem me faz carinho
No meu caminho não tem pedras nem espinhos
Eu durmo feliz e acordo com o cantos dos passarinhos

Se cada dia cai


Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

(Pablo Neruda)

Tenho vergonha!

Em que se transformou esse povo que eu sempre admirei, o povo cigano? Sempre achei que os ciganos eram gente com verticalidade que usava de pequenos truques para enganar os brancos e ganhar dinheiro, como a venda de peças de pano que nas suas mãos pareciam indestrutiveis e depois quando se queriam costurar, como que se "desmanchavam" tal era a falta de qualidade.
Lembro-me de brincar com a minha avó por ter ficado com uma peça de pano a uma cigana que aos olhos dela mostrou a qualidade da peça e depois a minha avó não conseguiu fazer nada daquilo... e olhem que a minha avó era uma costureira de mão cheia! Depois correu a cidade em busca da cigana, mas qual cigana qual quê... a mulher tinha tomado um chá de sumiço e a minha avó teve que aceitar que fora bem enganada e levar o caso para a brincadeira com a ligeireza que lhe era habitual.
Mas agora que é feito dessa gente? Ontem assisti a uma reportagem e fiquei chocada. Uma família cigana vive do rendimento de inserção social, no caso € 740,00 e levam o dia de papo para o ar, as mulheres cuidando de tudo e as crianças num monte de lixo que eles não apanham porque a Câmara não lhes dá um caixote! E acham preferível ter o lixo espalhado do que todo num monte... compreendo: dá menos trabalho ir deixando o lixo pelo caminho do que ter um sítio onde o pôr... deve ser a única família em Portugal que desconhece a existência de sacos de plástico. Durante 1 mês um deles desloca-se à socapa para a apanha do tomate e diz com muita verdade que ninguém lhe daria um emprego com aquele vencimento, portanto mais vale estar por ali sossegadinho....
Eu até posso compreender que os ciganos portugueses prefiram não fazer nada e receber o equivalente a mais do que um salário por isso. Os ciganos nunca foram burros. Por isso é que mantêm as tradições que lhes convêm como obrigar as mulheres a casar cedissimo, a parir e a tratar deles e da respectiva família, não lhes permitindo estudar senão até ao quarto ano do ensino básico na melhor das hipóteses. O que não posso é perceber que medo é este que o Estado tem dos ciganos. Um medo tão grande que os deixam conduzir sem carta, amedrontar a vizinhança, viver como bichos no meio do lixo, não cuidando da higiene básica das crianças... e ainda lhes pagam por isso. Se calhar em tratando-se de família no desemprego levam anos a atribuir-lhes o dito rendimento mínimo que quando chega já é tarde demais porque as dívidas se acumularam de tal maneira que já não há volta a dar à vida... pelo menos nos anos mais próximos.
Que pena haver tão poucos ciganos dos tempos do antigamente: os que ainda usam carroças e mulas e burros e andam como verdadeiras nómadas por esse país fora. Os ciganos de alma. Porque esta malta que se apresenta agora como ciganos são apenas uns párias... desculpem-me se meto tudo no mesmo saco, mas isto é revoltante.
Tenho vergonha de um país que se submete desta maneira a um povo. Que se deixa espoliar por medo. Tenho vergonha da cobardia do Estado que me cobra os impostos.

01 agosto, 2007

Petit Pays - Cesária Évora (clica aqui)

La na cêu bô ê um estrela
Ki catá brilha
Li na mar bô ê um areia
Ki catá moiá
Espaiote nesse munde fora
Sô rotcha e mar
Terra pobre chei di amor
Tem morna tem coladera

Incenso fosse música

isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai nos
levar além

(Paulo Leminski)

Haja paciência!

Há quem goste de se sentir em casa. E provavelmente sendo meticuloso em casa será em qualquer lado...
Isto serve para iniciar uma croniqueta que ando há dias para pôr aqui. E como não me apetece falar de António Costa e da CML, nem de coisas tristes, decidi passar hoje aqui para o ecrã uma figura curiosa que "conheci" por um dia destes.
Então o homem que há-de andar por volta dos 60 anos, chega à praia, escolhe uma rocha bem alta (escolheu o primeiro dia e a partir daí instala-se todos os dias no mesmo sítio que ninguém está interessado em disputar a pedra gigante com ele, havendo tanta areia para estender as toalhas...), monta um chapéu de sol que deve ter seguramente 20 anos mas que está em bom estado de conservação, a verdade tem que se dizer, estende um colchão fininho, abre um rádio de pilhas que quem está nas proximidades tem que levar com a estação preferida dele, besunta-se dos pés à cabeça tendo o cuidado de levantar o calção de banho para chegar às virilhas e, finalmente, passados cerca de 45 minutos, estende-se a ler o jornal.
Fica todo o tempo na sua "casa" na rocha. Como eu quando era miúda e construía a minha "casa" nas árvores.
Não se i se fica todo o dia ou não porque me retiro cedo.
Mas hoje tive mais uma surpresa. Acontece que o senhor já tinha estacionado o carro quando eu cheguei. É um carro de gama média que ele trata como se fosse um bebé. Pois não é que ele cobre o carro com um daqueles panos próprios para isso e que as pessoas costumavam usar quando as suas viaturas tinham pouco uso?
Se eu não o visse chegar todos os dias, pensaria que o homem ia acampar por ali uns dias.
Extraordinário este senhor. Pôs-me a pensar que provavelmente toda a vida viveu só e arranjou estes pequenos pretextos para preencher o tempo e enxotar a solidão... ou posso estar enganada, não ser nada disto e ser apenas alguém muito mais cuidadoso e meticuloso do que eu... Mas mesmo assim devo dizer-vos que a frase que me vem à cabeça é: haja paciência!