28 julho, 2007

Confidência do Itabirano


Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

(Carlos Drummond de Andrade)

A culpa do anticiclone

Tenho cá para mim que o anticiclone dos Açores é o culpado de tudo que vai acontecendo neste cantinho do mundo. A saber:
As gémeas loura e morena querem dar trabalho à procuradora Maria José Morgado. Ai meninas, meninas, deixem a senhora procuradora ir de férias que diabo, ninguém é de ferro e o Jorge Nuno também precisa de descansar das vossas lindas carinhas. Ou será que depois da loura viverá com a morena, só para variar? Quem pode explicar um tal desentendimento entre duas gémeas em tudo idênticas à excepção da cor do cabelo, senão o anticiclone dos Açores?
O José foi para (ou ao?) Algarve. Ouvi dizer que ia de férias mas hoje ainda andava a apregoar investimentos no Algarve (ou será Allgarve) que incluem a duplicação das unidades hoteleiras de 5 estrelas. Agora é que os portugueses se piram todos para Torremolinos e Benidorme. Pois é. Querem transformar o Algarve numa espécie de Dubai. Não estou a ver como (falta-lhe o petróleo) mas por outro lado lá está a influencia do anticiclone dos Açores... agora é que ficas rico José Carlos (é um amigo meu, não é o José de todos nós).
O pessoal chega à praia à hora a que eu vou embora. Os raios UV estão altíssimos, mas tirando eu, parece que ninguém se rala... eu se calhar até nem me ralava também não fosse o facto de o meu coração não aguentar, mau grado a paixão que tem por sol e mar. Mais uma vez, de quem é a culpa? Claro: do anticiclone dos Açores que se deslocou do sítio onde tem estado sempre muito sossegadinho. Tão sossegadinho que durante os 6 anos que vivi no arquipélago não ouvi ninguém fazer-lhe qualquer referência. E claro que ele já era famoso aqui no "contenente"... foram 6 anos tão sossegados que tive que arranjar três filhos para me entreter senão morria de tédio. E porquê? Porque o anticiclone dos Açores não se manifestava!
Agora que já escrevi uma data de baboseiras deixo-vos em paz... com o anticiclone desassossegado dos Açores, claro!

27 julho, 2007

A gente vai continuar - Jorge Palma (clica a qui)

todos náo pagamos por tudo o que usamos o sistema é antigo
e não poupa ninguém
somos todos escravos do que precisamos
reduz as necessidades se queres passar bem
que a dependência é uma besta
que dá cabo do desejo
e a liberdade é uma maluca
que sabe quanto vale um beijo





Labirinto ou não foi nada



Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.


É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!


Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.


É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.


Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.


(David Mourão Ferreira)

Procuro a minha alma gémea.

Aqui há uns dias, no cabeleireiro, uma senhora que estava a ser penteada (e já não me lembro a que propósito veio a conversa) foi-me apontada como parecendo muito mais jovem do que na realidade é. E quando ela perguntou que idade lhe dava, eu, já de tendo em conta o facto de me dizerem que ela parecia muito mais jovem do que a realidade "dei-lhe" 55 anos.
Ela desatou a rir e disse que lhe desse pelo menos 60!
Palavra de honra que tenho vontade de ver o bilhete de identidade da dita senhora. É que, segundo ela, tem 75 anos... e nada, mas absolutamente nada, desde a ponta do cabelo à unha do pé indica que ela possa ter essa idade...
É claro que lhe pedi logo ali a receita. E ela sorrindo deu-ma. "Um casamento muito feliz, uma vida profissional que me realizou plenamente, filhos que não me deram problemas... mas sobretudo o meu casamento, feito de paixão até hoje.
Já tinha ouvido dizer que o amor faz bem à pele. Mas francamente, esta senhora (que até nem é especialmente bonita), é uma jovem de 75 anos que parece ter 50.
E parece que tem sido mesmo a paixão que a mantém assim... embora houvesse logo por ali umas línguas viperinas a falarem de plásticas feitas no Brasil e etc, etc. Francamente eu acredito na senhora. Porque tudo nela é tão sincero, desde o olhar ao sorriso que é impossível não acreditar...
E disse-me que realmente é uma excepção, que é muito difícil encontrar a alma gémea como ela encontrou, que o filho com menos de um ano de casamento lhe disse que o casamento dos pais tinha muito mais "pica" que o dele...
E segundo me contaram o marido parce tão jovem quanto ela. Sinal de que a juventude deste casal se deve mesmo à paixão que nutrem um pelo outro.
Pois é. Eu vou continuar a procurar... enquanto há vida há esperança. E eu até sou uma optimista.

26 julho, 2007

Uns Versos - Adriana Calcanhoto (clica aqui)

Sou sua noite, sou seu quarto
Se você quiser dormir
Eu me despeço
Eu em pedaços
Como um silêncio ao contrário
Enquanto espero
Escrevo uns versos
Depois rasgo

Dava a última camisa por um poema

Dava a última camisa por um poema.
Domingo ao fim da tarde só restam cinzas.
Todos. Tudo inteiramente consumido. Tudo,o quê?
Segunda, sobrava alguma palavra intacta na lareira?

Terça
tão comprida como um ano

quarta, outra vez a esperança
Não, sem poema não se pode viver!

Quinta a memória entra em pânico
A pouca claridade que restava anoiteceu

também na sexta as vagonetas com o meu minério
perdem-se no túnel.

Sábado:
trabalho em vão!
Domingo tudo recomeça e voltava a dar
a última camisa por um poema

(Jan Kostra)

O que quero hoje.

Casei muito nova, fui mãe muito nova e fui avó nova. Ouvi todo o dia cantar loas às avós. Ser avó é muito mais fácil que ser mãe. No percebo para que é tanto banzé. A gente escolhe quando quer ser mãe mas não escolhe quando quer ser avó.
Eu gosto de ouvir os meus netos chamando-me avó e nona. Gosto. Acho piada. Mas sei que não sou uma avó à moda antiga.
Fui avó antes dos 40. Muitos dos meus amigos ficaram estarrecidos. Alguns pensam ainda em ser pais. Eu acho que há um tempo para tudo e acho que, embora um pouco adiantada, fiz as coisas no tempo devido. Não seria, com certeza voluntariamente, mãe aos 40! Tudo tem um tempo. Acho que fui uma mãe razoável embora muito jovem. Um dia destes o meu filho do meio que fez agora 27 anos dizia-me, ainda me lembro de quando tinhas 27 anos e agora sou eu que os tenho. Pois, é a vida! Mas os 27 anos dele, acho que pesam mais do que pesaram os meus. A vida é diferente e embora eu me tenha divorciado quando o meu filho mais novo era bebé, fui mais feliz do que é o meu filho. Pelo menos este. Que carrega a vida como um fardo. Porque é muito crítico consigo mesmo, acaba sendo muito crítico com tudo o que o rodeia. Sinto-o um tanto amargo, como se tivesse 72 anos e não 27. E eu ainda me sinto na mesma. O facto de ser responsável nunca me pôs um peso em cima dos ombros. Ao contrário dele que vive dividido entre vários amores, por várias profissões, por vários países de que não gosta igualmente.
Não sei o que aconteceu com o meu filho. Mas gostava que ele aprendesse a ser feliz.
Tudo o que eu quero hoje, que dizem que é o dia das avós, é que os meus filhos e os meus netos sejam felizes.
E já agora, se não for pedir muito, que todas as crianças tenham o essencial para serem felizes: paz, pão saúde, educação... e pais e avós e tios que os amem.

25 julho, 2007

Torn - Natalie Imbruglia (clica aqui)

I'm all out of faith, this is how I feel
I'm cold and I am shamed lying naked on the floor
Illusion never changed into something real
I'm wide awake and I can see the perfect sky is torn
You're a little late, I'm already torn. Torn.

Um verso vem


Um verso vem. Calculo o peso da neblina
que envolve o seu teor, o preso ritmo
da esfera em movimento: cerro o olhar na alma tensa
que ao longo do percurso mais ensina. O verso
vem por si em si da imagem que vier
no imaginar do corpo em sua ascese leve, peso
de uma estrutura fina ao seu redor.

Um verso vem. O olhar na alma mais se inclina.

(Luís Adriano Carlos)

A ver se não me esqueço...

Começo por agradecer a presença e incentivo constantes de Bartolomeu. Um bloguista que se dá ao trabalho de visitar as páginas dos colegas e deixar escrito o que pensa. Portanto, Bartolomeu, aqui o meu obrigada e o desejo de que não desapareças nunca da minha modesta página, pelo menos enquanto eu me encontrar por aqui.
Ao contrário de Bartolomeu, que sabe muitas coisas que nos tem ensinado nos seus comentários em diversas ocasiões, os políticos belgas são, pelos vistos, completamente ignorantes da História do seu país.
Pior: há quem confunda o hino belga com o hino francês. Uma vergonha! Aqui há uns tempos alguém tentou fazer passar a imagem de que em Portugal as pessoas não conhecem o hino nacional. É verdade que deve haver muito pouca gente que o conhece por inteiro (acho que o Bartolomeu o conhece, deve ser dos poucos), mas aposto que ninguém se poria a cantar o hino de "nuestros hermanos" se lhe pedissem para trautear o hino de Portugal. E as estrofes mais cantadas do nosso hino, são, penso eu, conhecidas da maior parte dos portugueses. Quando eu era miúda aprendia-se na escola. Não sei se ainda se aprende. Tenho que perguntar ao meu neto se foi na escola que aprendeu ou se foram os pais que lho ensinaram. A ver se não me esqueço...
Quanto à Bélgica, pois, começo a perceber porque é tratada como o Alentejo da Europa. Sem qualquer desprestígio para o Alentejo que eu amo e que não tem culpa de não ter sido alfabetizado a tempo e horas, ao contrário da Bélgica.
E como passam por aqui também belgas ou portugueses lá residentes, fica o meu apelo: não votem em quem não sabe o hino do país nem porque razão o 21 de Julho é o dia nacional do país. Não merecem o vosso voto.

24 julho, 2007

Sailing - Rod Stewart (clica aqui)

We are sailing, we are sailing,
home again 'cross the sea.
We are sailing stormy waters,
to be near you, to be free.

Os putos

Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando na mão
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que não
Se a porrada vier não deixo

Um berlinde abafado na escola
um pião na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.

(José Carlos Ary dos Santos)

Continuando por aqui...

Escrever às vezes é como pintar. A gente escreve uma coisa e o leitor interpreta de uma maneira completamente diferente. Isto é engraçado quando não causa incómodos. Nem sempre é o caso. Já tive alguns aborrecimentos graves com amigos por coisas deste género. A língua portuguesa é traiçoeira? Não sei escrever? Não me sabem ler? É iliteracia?
Ou também pode ser que eu esteja a ler mal as respostas que me são escritas. Pode ser. Às tantas não sei ler nem escrever e esse é o problema.
Prometo pensar seriamente neste assunto e questionar-me se devo ou não continuar a escrever por aqui, arriscando-me a ser mal lida ou a ler mal.
Mas enquanto penso e não penso (eu às vezes sou muito lenta a pensar, vou adiando os assuntos, ponho a ida à praia à frente de qualquer pensamento por muito importante que ele possa parecer), vou continuar por aqui, tentando fazer-me entender. E tentando entender.
Enquanto o professor Fernando Charrua aguarda que lhe paguem o que lhe devem eu vou continuar por aqui.
Enquanto a directora da DREN não for demitida vou continuar por aqui... pois é, vocês a pensarem que se livravam de mim assim com a maior ligeireza, não queriam mais nada! Enquanto ele estiver lá eu estou aqui. E se ela sair, o mais provável é eu continuar por aqui.

23 julho, 2007

Mil Perdões - Chico Buarque e Daniela Mercury (clica aqui)

Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair

A meu maior amigo


Quando eu morrer, eu sei, tu escreverás
Triste soneto à morte prematura;
Dirás que a vida cansa em amargura
E, pálido e frio, tu me cantarás.
Nas quadras, reflectido se lerá
De como, vã e breve, a vida expira
E como em terra funda, dura e fria,
A vida, má ou boa, acabará.
A seguir, nos tercetos, tu dirás
Que a morte é mistério, tudo fugaz,
Verdadeira, talvez, a vida além.

Por fim porás a data, assinarás.
E, relido o soneto, ficarás
Contente por tê-lo escrito bem.

(Alexander Search)

Agora fica escrito!


Na Madeira as mulheres que queiram interromper uma gravidez têm que pedir licença ao senhor Alberto. O senhor Alberto não é dado a modernices. Ainda por cima deve ser a região do país que menos déficit de natalidade apresenta. Sei do que estou a falar. Faz parte do meu trabalho. Na Madeira as famílias são numerosas. E pobres. Muito pobres.
As aparências enganam. Na Madeira mais do que noutras regiões. Os turistas ou os visitantes não se dão conta da miséria, das dificuldades das famílias. Mas eu sei. Pelos pedidos de ajuda que recebo diariamente.
Mas o senhor Alberto diz não ter dinheiro para implementar a medida. Diz que está à espera que o Tribunal se pronuncie. Mas ele não pediu a nenhum Tribunal que se pronunciasse. É apenas mais uma Jardinice... a ver se pinga mais algum para mais um ou outro túnel. Não é que eu seja contra os túneis, não me interpretem mal. Eu sou é a favor da melhoria das condições de vida dos madeirenses e contra gastar todo o dinheiro que pinga em obras que são muito bonitas e fazem muito felizes os turistas mas que não melhoram as condições de vida das famílias.
Eu sou é contra o senhor Alberto. Quem me conhece sabe. Mas agora fica escrito!

22 julho, 2007

Thinking about you - Norah Jones (clica aqui)

Here I am lookin' for signs of leaving
You hold my hand, but do you really need me?
I guess it's time for me to let you go,
And I've been thinkin' about you
I've been thinkin' about you

Um lapso à escuta



1

Não há exaltação
este novelo de sombras
e nos ouvidos
a carne descansa o seu
abecedário.

Tornei-me este planeta por ofício.
Alguns colegas pedem: capelas,
luxos, alquimias.
E outros puxam, palavra
por palavra,
peixes de silêncio.

São atletas de Deus.
E eu confirmo.
também já conheci
os mais puros exercícios
do espírito.

E eu ainda: devagar,
em órbita fechada,
no tempo,
o melhor templo.

2

Inclino na folha
a imprecisão de Deus

Quieto na idade
eu já ouvira
o verbo feito luz

Tacteio o nome
incerto

Fixo o lamento
para a eternidade

3

Na sala ouvia os animais
que nunca vira
e a mão de Deus
batia nos pinhais

Estou só e cheio
do pavor do espaço
o céu abre-se ao meio
e cai-me no regaço

Tão feminino
seu gesto na brancura
dá-me o destino
a troco da loucura

(Armando Silva Carvalho)

O Zé que não existe

O Zé tem 25 anos. Não existe. É alentejano e trabalha no Porto. Entroncado, de cabelo e olhos claros, passaria bem por um tripeiro de origem inglesa. Ou por galego. Falador e respeitador. O Zé é um encanto de rapaz.
O Zé que conheci este fim de semana é zeloso dos seus deveres laborais. Como um jovem com ambição, pensa de mais em trabalho. Nem o fim de semana fez com que deixasse de falar em trabalho. Até cansar. Quando percebeu que estava a falar só de trabalho, pediu desculpa. Como pede desculpa por tudo e por nada.
O Zé, embora seja independente respeita pai e mãe. Um rapaz, como diria a minha mãe, à moda antiga. Na verdade não me lembro de conhecer nenhum rapaz como o Zé. Uma total ausência de rebeldia. Uma total compreensão dos motivos de toda a gente. Mesmo quando se queixa, o Zé vai explicando que não tem nada contra.
Mas até o Zé, às tantas conseguiu descontrair. O stress tomou conta dele. Está sozinho numa cidade estranha. Por companhia tem a Internet. E o trabalho.
O Zé não existe. Porque não tem os 25 anos que diz ter. Há-de fazê-los e ficou feliz por conseguir que o patrão lhe permitisse tirar dois dias para ir a casa festejar os anos. Com os pais e os amigos.
Qualquer dia o Zé há-de ter férias. Não quando quiser mas quando puder. Sem prejudicar o trabalho. Porque, como ele diz, respeita muito quem lhe paga o ordenado...
O Zé não existe. Definitivamente!