20 julho, 2007

The Scientist - Coldplay (clica aqui)

Tell me your secrets
And ask me your questions
Oh let's go back to the start
Running in circles
Coming up tails
Heads on a silence apart
Nobody said it was easy
Oh it's such a shame for us to part

A menina pó de arroz


A menina pó de arroz,
Nascida à beira do mar
Com o oceano nos olhos
E com sorrisos de lua
Nos seus lábios pequeninos
Que nunca ninguém beijou,
A menina pó de arroz,
Com seus cabelos de cobre
Onde o vento vem brincar,
Assoma à sua janela
P'ra ver a noite estrelada,
Para ouvir os sons da noite,
Para beber o luar.
Para ter em suas mãos
Macias, longas e brancas,
A noite tépida e branda,
A velha noite calada.
A menina pó de arroz,
Que por uma abreviatura
Do seu nome arrevesado
É chamada entre família
Por um nome miudinho
De marca de pó de arroz,
Com seu corpinho de fada
Que saiu de alguma fonte
Que há pouco perdeu o encanto,
Com a cabeça nas mãos,
Enquanto na casa dormem,
Veio pôr-se na janela
Para que a noite a beijasse.
A menina pó de atroz
Estará enamorada?

(António Rebordão Navarro)

Sem um ai.

Antes de partir para norte, e desta vez acompanhando um amigo, quero deixar aqui o meu apreço pelas medidas hoje anunciadas pelo José, no que diz respeito à protecção familiar. Não era sem tempo e mais vale tarde que nunca. Talvez estas medidas não sejam o suficiente para incentivar os casais ou as mulheres, simplesmente a terem filhos...
Porque francamente José quem é que se atreve a pôr meninos neste mundo sem a segurança de um emprego? Eu tive 3 filhos José e um emprego que pelo menos na altura era garantido. Mas hoje a maior parte dos jovens não tem emprego ou quando o tem é apenas um emprego precário e na maior parte dos casos muito mal pago.
E os licenciados parece que ainda estão pior. Porque ninguém quer gente qualificada para empregos desqualificados. As leis do trabalho cada vez dão menos segurança. Os patrões fazem o que querem (pelos vistos ainda não tanto como querem... ainda hoje ouvi dizer que querem mexer na Constituição para poderem despedir trabalhadores sem justa causa, como se não o fizessem já, e por causas ideológicas e políticas)... também te vi a ti José, reagir indignado a esta notícia mas também sei que a tua escola de teatro foi melhor que a minha. Portanto... fico aguardando se essa indignação é a valer ou se acabas por fazer a vontade aos grandes senhores do capital deste país, que estão cada vez mais ricos enquanto que a classe média vai desaparecendo, sem que ninguém dê um ai...

19 julho, 2007

Tom's Diner - Suzanne Vega (clica aqui)

Once upon a time
Before the rain began...
I finish up my coffee
It's time to catch the train

O Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo


O Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

óóóó---óóóóóó óóó---óóóóóóó óóóóóóóó


(Álvaro de Campos)

Gente de cor... duvidosa!

Sou capaz de tudo para não falar de Condoleeza Rice. Irrita-me o tratamento que este mulher de cor duvidosa, tem por parte dos políticos de todo o mundo. Irrita-me que Bush, outro homem de cor mais do que duvidosa, tendo sido eleito presidente dos USA pense que é o dono do mundo. Mas ainda me irrita mais pensar que se ele se arroga esse estatuto é porque os presidentes dos países europeus lho atribuem. Irrita-me muito ouvir, ver e falar de gente de cor duvidosa... Irrita-me tanto que prefiro voltar para a minha praia.
Que por enquanto ainda está sossegadinha.
Acontece que ontem duas raparigas acharam que não tinham espaço suficiente para estender as toalhas e resolveram estendê-las mesmo ao pé de mim... eu sei que sou gira e coisa e tal, mas que diabo!, com tanto espaço tenho que estar a ouvir as confidências das outras criaturas deste mundo?
Lembrei-me então da última viagem que fiz no pino do Verão para fora de Portugal (e jurei para nunca mais). Indo para Salou, desembarquei em Barcelona onde aluguei um Corsa para as minhas férias. Em boa hora fiz as contas ao preço do "transfer" e ao preço da carripana alugada. Porque se não fosse o carrito acho que tinha dado em doida.
Eu não gosto de multidões. Detesto. Mas decidi um dia verificar como era a praia em Salou. Cheguei bem cedo como é meu hábito e devo dizer que se estava mesmo bem. O areal limpo, a água convidativa a grandes provas de natação... só que por volta das 10 da manhã, a praia estava cheia. Tão cheia que as pessoas conforme iam chegando iam dobrando ao meio as toalhas dos que lá estavam (no mar) e poisavam as suas também dobradas.
Decidi então levantar acampamento, porque mau grado a minha timidez, não sei do que seria capaz se chegando do mar visse que as minhas coisas tinham sido mexidas por estranhos...
Pronto. Já sei que não sei o que é partilhar... mas é que para mim tudo tem limites. E aquilo ultrapassava todos os meus limites.
Tal como as pessoas de cor de quem falo no início deste texto.

18 julho, 2007

Mundo ao contrario - Xutos & Pontapés (clica aqui)


Se gosto de ti,
Se gostas de mim,
Se isto não chega
Tens o Mundo ao contrário.

Amargo estilo novo


Tudo é fácil quando se está brincando com a flor entre os dedos
quando se olham nos olhos as crianças,
quando se visita no leito o amor convalescente.
É bom ser flor, criança, ou ser doente.
Tudo são terras donde brotam esperanças,
pétalas, tranças,
a porta do hospital aberta à nossa frente.

Desde que nasci que todos me enganam,
em casa, na rua, na escola, no emprego, na igreja, no quartel
com fogos de artifício e fatias de pão besuntadas com mel
E o mais grave é que não me enganam com erros nem com falsidades
mas com profundas, autênticas verdades.

E é tudo tão simples quando se rola a flor entre entre os dedos
Os estadistas não sabem,
mas nós, os das flores, para quem os caminhos do sonho não guardam segredos,
sabemos isso e todas as coisas mais que nos livros não cabem

(António Gedeão)

Lá se vai o meu sossego...

Costumava ser só minha a praia. Durante anos fiz segredo da sua localização. Era o meu sítio de sol, mar e sossego. Por mais que fosse Verão, por mais que fosse domingo, ela lá estava à minha espera e de mais meia dúzia de pessoas que se deram ao trabalho de a descobrir.
É verdade que as suas condições eram mínimas, mas aí estava o seu encanto. Tinha apenas os plásticos para depósito de lixo, um bar bastante rasca (onde nunca entrei, de resto) e até o salva vidas era um galego que duvido muito soubesse nadar... mas dava para o gasto, chateando os mergulhadores e pedindo constantemente a intervenção da polícia marítima o que dava a agitação necessária ao sossego existente.
Eis senão quando um conhecido fadista da nossa praça, descobriu o recanto e começou a aparecer com a sua corte de amigos e amigas.
Não sei se foi coincidência, mas este ano a praia tem uma escada toda modernaça (lá se vão as caminhadas sobre rochas, tem-te não caias para não torcer um pé), um restaurante com esplanada e cúmulo dos cúmulos cadeiras-cama!
Por enquanto ainda se encontra bastante deserta mas estou a ver que por este caminho todos os tios e tias das proximidades tomarão conta do pedaço...
E lá se vai o meu sossego não tarda nada!

17 julho, 2007

The Promise - Tracy Chapman (clica aqui)

If you wait for me then
I'll come for you
Although I've traveled far
I always hold a place for you in my heart
If you think of me
If you miss me once in a while
Then I'll return to you

Frutos

Quando a amada oferece
o seu corpo, ela sabe
que dos frutos apenas
se colhe o sabor.
É entãoque os dedos
separam as películas,
que a lâmina desce e a água
e o fogo se misturam.
E é então que a vida
e a morte convivem
sob o mesmo tecto.

(Albano Martins)

É preciso variar.

Estou no século XXI neste momento, usando a Internet para me comunicar com o mundo. De manhã estive na pré-história que também se comunica connosco graças às novas técnicas arqueológicas ao dispor do homem. São os avanços da civilização. Às vezes parece que nem sempre sabemos muito bem o que andamos a fazer, mas de vez em quando lá acertamos uma e é uma festa.
Não é a primeira vez que sigo indicações na estrada, quando me encontro com todo o tempo do mundo para as seguir. Esta manhã acertei na primeira indicação e consegui ver um menir e um cromeleque, dos maiores da península ibérica, com um conjunto de 92 menires, supõe-se que de um total de mais de cem.
Depois tentei a indicação na estrada de recinto megalítico, com o desenho de uma anta. Fiz a estrada de uma lado para o outro e não consegui ver qualquer recinto a não ser o de uma unidade de vitinicultura... para muitos seria com toda a certeza mais importante. Acontece que não era exactamente o que eu procurava e por isso fiquei desiludida.
A seguir segui a placa para a gruta do Escoural... hoje é que seria bom, hoje tinha todo o tempo do mundo, hoje é que conheceria a famosa gruta...
Pois é. Encontra-se fechada (temporariamente dizia a indicação), mas pelos vistos sem tempo determinado para reabrir...
Isto é o tipo de coisa que não pode acontecer numa terra que procura o turismo como saída para a desertificação. Via alguns turistas em Évora, mas não acredito que fiquem muito bem impressionados com coisas deste tipo.
Ontem visitei o templo de Diana. Não meus amigos. É claro que conheço o templo de Diana há muitos anos. Mas nunca o tinha visitado de noite. Como todas as coisas, diferente conforme a luz ou a falta dela, ou à luz do sol ou à luz artificial.
Deixo-vos uma das fotos que tirei e digo-vos que quando puderem façam como eu: visitem o templo de Diana à noite. E como eu, tomem a bica de frente para o templo... em vez de frente para o mar como é meu costume.
É que às vezes é preciso variar.

15 julho, 2007

A culpa é da vontade - António Variações - Humanos (clica aqui)

A culpa não, não é do Sol
Se o meu corpo se queimar
A culpa não, não é do Sol
Se o meu corpo se queimar
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te abraçar

Limiar


Somos ainda o limiar - espessa
nuvem embrionária. Verdes,
imaturos crustáceos
emergimos
à superfície grávida
das ondas. Somos
o medo ou sua
improvável renúncia. O que
sabemos do
amor, da morte, é só
difusa,
opaca,
luminosa fábula.

(Albano Martins)

Quer eu queira quer não.

Chego a casa depois de um dia bem passado, festejando o aniversário do meu filho do meio que veio a Portugal de propósito para isso. Juntar toda a criançada possível e conversar. Ele que vive em Itália, a prima que chegou há pouco de Macau, o mais velho que veio de Santarém só para podermos estar todos um pouco mais juntos. Porque vivemos todos tão longe um dos outros que é difícil arranjar maneira de estarmos juntos. Sobretudo com as crianças. Que são primos e mal se vêem. É a vida que nos empurra de um lado para o outro. Mas amanhã parto com o meu filho para umas voltas por este país. Necessariamente um ou dois dias porque ele veio por uns dias, também muito poucos e ainda quer gozar um pouco de praia. E eu... que é uma das coisas que me dá mais gozo: sol e água para nadar, mergulhar, sentir-me sempre mais viva de cada vez que volto à superfície.
"Mas é preciso respirar, todo o dia".
Mas quero que ele conheça um pouco mais deste nosso país. Porque passamos a vida a estrangeirar e depois não conhecemos o que temos ao pé de nós.
E ao pé de mim tenho a cidade de Lisboa. Onde não voto. Onde não vivo há muitos anos. Mas onde trabalho. Mas de que gosto muito (ainda hoje andei pelo bairro das colónias, Graça, Alfama). E parece que, mais uma vez quem ganhou foi mesmo a abstenção... O costume para não variar.
Quanto ao resto, bem, o Costa como era de esperar foi o primeiro dos candidatos... mas a acreditar nas projecções que dão o segundo lugar a Carmona Rodrigues, mais uma vez fico com a certeza de que o José vais bisar também nas próximas.
Quer eu queira quer não. Como é o caso.

14 julho, 2007

The Obvious Child - Paul Simon & Olodum (clica aqui)

And in remembering a road sign
I am remembering a girl when I was young
And we said
These songs are true
These days are ours
These tears are free

Segredo

Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega

(David Mourão Ferreira)

Dois dedos de conversa


Primeiro dedo
Costumo almoçar quando trabalho ao sábado, num restaurante, sempre o mesmo, e é costume ser atendida sempre pelo mesmo empregado. Género atrapalhado mas como quero sempre a mesma coisa ele só pergunta se é o costume e, se digo que sim, ele repete o que eu quero do primeiro prato ao café, passando pela bebida. Certinho. Sem enganos. Rapidíssimo.
Hoje o restaurante era o mesmo mas o empregado vi-o ali pela primeira vez. Homem da minha idade mais ou menos, ficou atrapalhado quando pedi tudo de uma vez como de costume. Pediu-me que fosse pedindo uma coisa de cada vez e tratou-me por menina.
E voltei aos velhos bairros desta Lisboa que está há anos cheia de velhas meninas. O costume foi-se perdendo, por isso hoje achei tanta piada ao empregado que se dirigia a mim por "menina" de cada vez que se queria certificar de alguma coisa que eu pedira.
A minha tia avó tinha uma loja género retrosaria em Alfama, mas onde havia um pouco de tudo: de pronto-a-vestir a sapatos, ou como dizia o empregado, o senhor Correia, "aqui temos tudo desde a agulha ao alfinete", às meninas de 80 anos que entravam porta adentro, para fazer os seus "avios" e depois deixavam as contas penduradas no sebento livro de dívidas dos clientes.
Vai-se perdendo, mas afinal ainda existe a Lisboa das "meninas".

Segundo dedo
Ouço com espanto que alguém põe em causa os objectores de consciência. Parece que há quem pense que há médicos que objectam consciência para praticar a IVG nos hospitais públicos para depois a praticarem nos estabelecimentos privados, uma vez que esta situação não está prevista na lei. Melhor: não está explícita.
Ora isto faz-me uma imensa confusão. Então alguém que é objector de consciência é um vigarista que quer apenas ganhar mais algum por fora?
Não quero acreditar que haja quem objecte consciência com esta visão. Porque me parece que essa situação seria completamente indigna de profissionais como os médicos.
Prefiro pensar que se trata apenas de umas cabecinhas "sujas" que resolvem levantar este tipo de questão.
Tomara que não seja eu quem esteja enganada...

13 julho, 2007

Dancemos no Mundo - Sérgio Godinho (clica aqui)

Eu só queria dançar contigo
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó
dançar como amigo só


Sinais de fogo

Sinais de fogo, os homens se despedem.
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
não é de nós, mas é quem reacende
outros sinais ardendo na distância
um breve instante, gestos e palavras.
ansiosas brasas que se apagam logo.


(Jorge de Sena)